segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Perda do sentido do pecado


Dominique Wolton: O que pensa da afirmação de Pio XII: «O drama da nossa época é ter perdido o sentido de pecado»? Diria o mesmo? 

Papa Francisco: Sim, é verdade. Penso que é verdade que a época perdeu o sentido do pecado. Quando vemos um kamikaze fazer-se explodir e matar cinquenta pessoas. Quando vemos os traficantes responsáveis pelo afogamento de tanta gente no canal da Sicília...Se uma pessoa honesta se questionar por que o fazem, a resposta é que, no mínimo, esses homens não têm bússola moral. E a bússola moral é aceite por todos. Daí a falar de pecado: há um encadeamento, porque falar de pecado é também falar da relação com Deus, já que o pecado pressupõe a existência da fé. Ser destituído de bússola moral é uma ideia que toca toda a gente, mesmo os ateus. E mesmo um ateu convicto e honesto dirá que sim, que falta ao mundo uma bússola moral. Se um economista ultraliberal ler certas passagens da Laudato Si, acabará por concluir que falta à economia uma bússola moral. A moral é uma exigência do nosso comportamento social. Mas não é o rigorismo nem a rigidez dos mandamentos. A moral é pagar honestamente aos seus trabalhadores, pagar honestamente à empregada doméstica...E, por vezes, há contradições terríveis.
Uma senhora ligada à beneficência, muito católica, que pertencia a um grupo de caridade muito activo e tinha três filhos, três rapazes adolescentes de 16, 17 e 20 anos, disse-me: «Eu escolho escrupulosamente a minha empregada», porque, veja bem, «não quero que os meus filhos vão procurar noutro lado, quero que tenham o serviço completo em casa». É a imoralidade.

[in Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.163-164]

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