quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Por um olhar crítico sobre a internet


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O que nestes dez anos se impõe é o desenvolvimento incrível da internet com uma ausência total de reflexão crítica. O que existe, isso sim, é uma espécie de adulação, um sentimento absoluto de liberdade. É a primeira vez que há assim tão pouca reflexão sobre a revolução técnica, económica, humana. Por exemplo, com a questão nuclear, houve crítica sobre a favor da ecologia, mas agora não existe qualquer crítica sobre a internet. Tudo está bem, tudo é encarado como progresso, tudo é entendido como suprema felicidade. E, quando alguém aparece a criticar, é logo apelidado de velho, diz-se que tem fobia da tecnologia. (...) A técnica jamais substituirá o Homem. Pode ajudá-lo, mas nunca poderá substitui-lo. (...) A emancipação da internet se transformou numa potência financeira gigante com o GAFAM [acrónimo de Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsof]. É interessante que, em vez de estarmos a regulamentar o GAFAM pelo lado da democracia, o estejamos a controlar pelo lado fiscal. Mas, além dos impostos, também é a vida privada, as fake news, a democracia.(...) Acreditamos que a técnica vai assegurar a comunicação - e não vai. (...) Uma pessoa pode ser um excelente internauta e, simultaneamente, ser um autista. Há anos que o digo: a internet é perfeita do ponto de vista da comunicação técnica, mas os homens não vivem sem sentimentos, sem visões, sem sonhos, sem representações. É preciso repensar tudo isto e sair do fascínio pela técnica. (...) É preciso estar consciente de que a técnica nunca tornou ninguém feliz. (...) As escolas devem ensinar a fazer uma reflexão crítica sobre as forças e as fraquezas da internet. Olhar para os livros, para os papéis, ouvir a rádio, ver a televisão. Parar de dizer que a rádio e a televisão são velhas e que, pelo contrário, a internet é que é o progresso. (...) Nós não amamos a técnica, amamos os homens e as mulheres. Por isso é mais fácil ser um bom internauta do que ter relações afectivas ou amorosas. (...) É o amor que nos mantém vivos. (...) Do meu ponto de vista, o mais importante no tema dos "coletes amarelos" é a solidariedade humana, a felicidade que as pessoas têm em se encontrarem, em estarem juntas, faça chuva ou faça sol. (...) Não estão lá [nos coletes amarelos] os mais pobres, os negros não estão lá, não se trata de um movimento multicultural. São homens, sobretudo brancos, integram poucas mulheres, que pertencem à classe média baixa; são um pouco racistas e não muito democratas, muito franceses (...) Os "coletes amarelos" são um problema clássico da política: não percebemos porquê, mas a dada altura tudo explode. As redes sociais tiveram um papel, mas, a meu ver, a importância dos "coletes amarelos" não são as redes sociais, é a redescoberta da solidariedade. (...) Nos últimos 50 anos convencemo-nos de que mais técnica significaria mais mensagem, mais verdade, mais informação, mais democracia. O que, pelo contrário, temos é mais fake news. Descobrimos que a abundância da informação não nos trouxe melhores democracias. (...) A China é a primeira potência económica mundial e, simultaneamente, a maior potência policial da internet, o maior totalitarismo político do mundo. (...) Não precisamos de mais técnica, precisamos de mais inteligência crítica. (...) A IA é a demissão do Homem, a inteligência, por natureza, é humana. (...) O génio do ser humano é não se saber, um centésimo de segundo antes, que associação de ideias vai fazer - ou de emoções, ou de cores. A imprevisibilidade do funcionamento humano é extraordinária. (...) Eu já lhe disse [ao Papa Francisco] 'os católicos de direita não gostam de si'. E ele respondeu: 'Eu sei'. 'Os católicos de esquerda também não gostam'. E ele: 'Eu sei'. Quem o ama são os ateus e os agnósticos

Dominique Wolton, um dos mais reputados cientistas sociais da actualidade, entrevistado por Sara Belo Luís, para a Visão nº1354, 14-02 a 20-02-2019, pp.62-67.

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