quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Questões suscitadas a propósito da problemática da eutanásia (III)



A discussão com os doentes é rara, os médicos têm muito medo dela, têm medo das suas incapacidades, têm medo de reconhecer a sua impossibilidade de ultrapassar essa situação, ficam sempre um pouco sem palavras para discutir como é que o doente morre, «como é que vai ser»? (…)
Esta noção de que a vida é ou não um bem disponível é uma questão que nós temos que ter nesta discussão. Achamos nós que a vida nos pertence ou não? Temos ou não o direito de dispor da nossa vida? A discussão da eutanásia, do suicídio medicamente assistido passa por uma discussão prévia que é «a vida é ou não um bem disponível?” (…) A seguir a esta discussão pomos uma outra (…) muito mais complexa: «tenho eu ou não o direito de pedir alguém que me mate?»

Há uma separação dentro da Bélgica em relação à eutanásia, e a separação faz-se pela língua, ou seja, a grande maioria dos pedidos de eutanásia são feitos na Flandres, não são feitos na Valónia, e a diferença é qualquer coisa como dez para um. E isso faz-nos pensar que há aqui uma questão que será essencialmente cultural, não tem como base uma questão religiosa, mas tem a ver com uma questão de autodeterminação.

Da grande maioria dos doentes que solicita a eutanásia, 80%, são doentes oncológicos.

Vi o que é que a prática da eutanásia faz a um médico, ou seja, não é gratuitamente que se toma este tipo de decisões ou se administra este tipo de fármacos em que se encurta a vida de um doente.


Nuno Miranda, médico hemato-oncologista, Aveiro, a 18 de julho de 2017, promovido pelo CNECV, depoimento registado em Decidir sobre o final da vida, CNECV, 2018, pp.72-73.


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