A discussão
com os doentes é rara, os médicos têm muito medo dela, têm medo das suas
incapacidades, têm medo de reconhecer a sua impossibilidade de ultrapassar essa
situação, ficam sempre um pouco sem palavras para discutir como é que o doente
morre, «como é que vai ser»? (…)
Esta noção de
que a vida é ou não um bem disponível é uma questão que nós temos que ter nesta
discussão. Achamos nós que a vida nos pertence ou não? Temos ou não o direito
de dispor da nossa vida? A discussão da eutanásia, do suicídio medicamente
assistido passa por uma discussão prévia que é «a vida é ou não um bem
disponível?” (…) A seguir a esta discussão pomos uma outra (…) muito mais
complexa: «tenho eu ou não o direito de pedir alguém que me mate?»
Há uma
separação dentro da Bélgica em relação à eutanásia, e a separação faz-se pela
língua, ou seja, a grande maioria dos pedidos de eutanásia são feitos na
Flandres, não são feitos na Valónia, e a diferença é qualquer coisa como dez
para um. E isso faz-nos pensar que há aqui uma questão que será essencialmente
cultural, não tem como base uma questão religiosa, mas tem a ver com uma
questão de autodeterminação.
Da grande
maioria dos doentes que solicita a eutanásia, 80%, são doentes oncológicos.
Vi o que é que a prática da eutanásia faz a
um médico, ou seja, não é gratuitamente que se toma este tipo de decisões ou se
administra este tipo de fármacos em que se encurta a vida de um doente.
Nuno Miranda,
médico hemato-oncologista, Aveiro, a 18 de
julho de 2017, promovido pelo CNECV, depoimento registado em Decidir
sobre o final da vida, CNECV, 2018, pp.72-73.
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