Apesar de a «profissão» argumentar contra as formas tradicionais de autoridade religiosa, defendeu claramente a fé tradicional na Providência. O motivo de Rousseau para a afirmação dessa fé foi claro: deve haver recompensa e castigo noutro mundo, ou as desgraças neste haviam de ser demasiadas para poderem ser suportáveis.(...) É justo dizer que Rousseau foi o primeiro a tratar o mal como um problema filosófico - e a propor a primeira coisa que se aproximou de uma solução.
Antes de Rousseau, os pensadores eram obrigados a tomar uma de duas posições. Declarar que este mundo é o melhor é considerar todos os males como fundamentalmente aparentes: qualquer coisa que consideremos um mal é de facto uma parte necessária de uma obra maior. Leibniz pensou que um dia acabaríamos por percebê-lo, mas Pope achou que não. Concordaram, no entanto, em que há uma ordem na qual tudo o que se parece com o mal leva ao bem de forma mais generalizada. Daqui resulta que nenhum mal particular é genuíno. (...) Esta era a chamada «doutrina do optimismo», e muitos pensavam que deu uma má reputação aos optimistas. (...) Foi o que expressou Rousseau (...): Negar a existência do mal é a maneira mais conveniente de desculpar o autor desse mal; os estóicos, antigamente, expuseram-se ao ridículo por menos. (...) Rousseau também observou que estas doutrinas levavam ao quietismo. (...) Na realidade, qualquer acção podia ser considerada ímpia. (...) Aqueles que admitiram que os males são genuínos descobriram que eles desafiam literalmente qualquer explicação. Não só todos os recursos do raciocínio falham ao explicá-los, mas além disso a persistência do mal faz-nos duvidar das capacidades do próprio raciocínio. (...) Antes de Rousseau, em suma, havia apenas duas opções: ou o mal não é um problema, ou não há qualquer resposta a dar-lhe.
Susan Neiman, O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005, pp.57-58.
*Para Rousseau, são os humanos que causam o mal, mas um mal societário, um mal que pode ser resolvido. Se atentarmos historicamente, veremos como o mal foi surgindo e como é possível procurar resolvê-lo (colectivamente). Sim, há uma consequência (um mal natural no reino político e social) de um mal moral (humano).
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