segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

TRADIÇÃO


Antes de mais, gostava de definir o que é a tradição. A tradição não é uma conta estanque no banco. É a doutrina que avança, que está a caminho
E foram vocês, os franceses, que disseram, no século V, uma frase de grande beleza. Essa frase é de Vincent de Lérins, um monge e teólogo francês que disse que «a tradição está em movimento». Como? Di-lo em latim: «Ut annis scilicet consolidetur, dilateteur tempore, sublimetur aetate»: a tradição avança, mas de acordo com que modalidades? De forma a consolidar-se com os anos, para que cresça com o tempo e seja sublimada com a idade. Os critérios da tradição não se alteram, o essencial não se altera, mas cresce, evolui.
Um exemplo a propósito da pena de morte. Os nossos bispos decretaram a pena de morte na Idade Média. Hoje, a Igreja diz, grosso modo - e há neste momento um esforço para mudar o catecismo neste aspecto -, que a pena de morte é imoral. Então a tradição mudou? Não, mas a consciência evolui, a consciência moral evolui. Pode dizer-se o mesmo em relação à escravatura. A sua existência é um facto, apesar de ser imoral. Em contrapartida, na Colômbia, quando São Pedro Claver trabalhou com os escravos, foi repreendido, porque alguns duvidavam que os escravos tivessem alma. Na tradição dinâmica, o essencial permanece: não se altera, antes cresce. Cresce na explicitação e na compreensão. Estas três fases de Vincent de Lérins são importantes. Como cresce a tradição? Cresce do mesmo modo que uma pessoa: através do diálogo, que é como o aleitamento para um bebé. O diálogo com o mundo que nos rodeia. O diálogo faz crescer. Se não dialogarmos, não podemos crescer, ficamos fechados, pequenos, uns anões. Não podemos restringir a visão, é preciso olharmos e dialogarmos. O diálogo faz crescer, e faz crescer a tradição. É dialogando e ouvindo outras opiniões que podemos mudar o nosso ponto de vista, como no caso da pena de morte, da tortura e da escravatura. Sem alterar a doutrina. A doutrina cresceu com a compreensão. É essa a base da tradição. (...) O papa Bento foi muito claro: as mudanças na Igreja devem ser feitas com a hermenêutica da continuidade. É uma bela frase. A hermenêutica cresce: algumas coisas mudam, mas sempre na continuidade. Não trai as suas raízes: explicita-as, o que promove a sua compreensão.

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.236-238.

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