Não é sobre se Deus existe ou não, mas sobre o que queremos dizer quando dizemos "Deus", sobre como a própria ideia de Deus surge na história da evolução humana. Remonta ao puzzle fundamental que os biólogos evolutivos têm estado a tentar resolver há séculos. A crença em Deus é universal, existe em todas as culturas, em todos os povos, em todos os tempos. Há muitas provas arqueológicas de que a crença numa figura divina precede até a existência do Homo Sapiens. Isto significaria que essas crenças são parte do nosso processo evolutivo e, se isso acontece, que deveria haver uma razão para isso - a regra da evolução determina que haja um propósito, alguma vantagem para que essa crença exista. O problema é que 200 anos de investigação sobre o que poderá ser essa vantagem resultaram em nada. Literalmente, nada: pelo contrário, o consenso esmagador é que, longe de ser uma vantagem, essa crença é uma desvantagem. Não nos ajuda a sobreviver, mas, pelo contrário, tira-nos recursos que deviam ser usados para a sobrevivência e são canalizados para a expressão dessas crenças. Fiquei fascinado: não há motivo [na teoria da evolução das espécies] para a nossa crença na existência do divino. Quis explorar essa ideia de uma perspectiva científica e racional, mas também sem necessariamente negar a possibilidade de fé e de Deus. (...) Há mais de cem anos que andamos a dizer que Deus está morto. Talvez devêssemos deixar de dizer isso. Se olharmos para o mundo de hoje, constatamos que a religião é uma força em crescendo em grande parte do planeta. As pessoas estão cada vez mais a definir-se através da sua religião, talvez porque outras formas de identidade, sobretudo o nacionalismo, estão a começar a perder força. Deus e religião estão muito vivos, para o bem e para o mal.
Quero virar ao contrário essa ideia de que Deus não nos criou e de que nós é que criámos Deus: digo que Deus não nos criou à sua imagem, nós é que criámos Deus à nossa imagem. Tal não significa que Deus existe ou não - não sei a resposta a essa pergunta, ninguém sabe! Quando digo que a fé é uma escolha, digo isso mesmo a sério. Penso que a fé é uma emoção, mais do que qualquer outra coisa, como o amor - não podemos provar a existência ou inexistência do amor e de outras emoções, é algo que se sente. A fé é a mesma coisa. É uma resposta ao mundo que se baseia nas nossas próprias experiências, nos nossos sentimentos, em como nos vemos a nós e como vemos o mundo. (...) Penso que muitas pessoas no mundo ocidental o desejo de uma ligação espiritual - a fé, em vez da religião, por outras palavras - ainda está presente. (...) Essa tendência tornou-se tão comum que os estudiosos lhe deram um nome próprio: chamasmos-lhes "os não afiliados". (...) Muitas dessas pessoas estão desesperadamente à procura de espiritualidade alternativa. Nos Estados Unidos, um país profundamente religioso, 24% dos americanos referem-se a si mesmos como não afiliados. É a identidade espiritual com maior crescimento na América.
Reza Aslan, entrevistado por Pedro Rios, Público, P2, 10-02-2019, pp.20-23.
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