sábado, 31 de agosto de 2019

NOS 20 ANOS DA INDEPENDÊNCIA DE TIMOR


Importa destacar o papel da Igreja Católica timorense. Duvido que, sem esse empenho da Igreja Católica timorense, a independência tivesse sido possível. A sua estrutura no terreno era tremendamente eficaz. Assisti a missas com uma mensagem clara e mobilizadora, desarmando o medo através do sentimento religioso e patriótico. Conheci padres timorenses que foram heróis. Estiveram sempre ao lado das populações e alguns sacrificaram-se até às últimas consequências, como o padre Hilário, de Suai, morto na sua Igreja, ao lado dos refugiados que procurava proteger

Francisco Alegre Duarte, diplomata, A vitória da dignidade, Público, 30-08-2019, p.6

«A LÍNGUA PORTUGUESA»


Esta língua que eu amo
Com o seu bárbaro lanho
Seu mel
Seu helénico sal
E azeitona
Esta limpidez
Que se nimba
De surda
Quanta vez
Esta maravilha
Assassinadíssima
Por quase todos que a falam
Este requebro
Esta ânfora
Cantante
Esta máscula espada
Graciosíssima
Capaz de brandir os caminhos todos
De todos os ares
De todas as danças
Esta voz
Esta língua
Soberba
Capaz de todas as cores
Todos os riscos
De expressão
(E ganha sempre a partida)
Esta língua portuguesa
Capaz de tudo
Como uma mulher realmente
Apaixonada
Esta língua
É minha Índia constante
Minha núpcia ininterrupta
Meu amor para sempre
Minha libertinagem 
Minha eterna
Virgindade

Alberto Lacerda, A língua portuguesa

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Ópera, sociedade


Rafael R.Villalobos, o mais reconhecido encenador de teatro e ópera da nova geração, em Espanha, também dramaturgo, cenógrafo e figurinista, escreve um pequeno Diário, na Electra (Primavera 2019, nº5, pp.86-93): 

"Num mundo, o da ópera, onde as programações são fechadas com anos de antecedência (...)
Para mim, a ópera é uma ferramenta social que pode e deve apelar ao público, fazendo-o reflectir como indivíduo e sociedade, e a casualidade das eleições parece-me uma óptima oportunidade para este exercício (...) O diretor musical dá uma descompustura a um jovem cantor por não pronunciar bem o alemão e ridiculariza-o à frente de todos (...) Falo-lhes também de como Tony Blair pediu desculpa por invadir o Iraque sem provas suficientes, mas Aznar não. Uma jovem cantora espanhola pergunta-me quem é Tony Blair e quase tenho de conter as lágrimas (...) Saio do ensaio completamente farto de dedicar-me à ópera: tentas reflectir com os cantores, que estão demasiado interessados em soar bem para conseguirem reflectir, e propões discursos de esquerda num espaço onde as entradas custam entre 200 e 50 euros. Deveria fazer teatro, mas, claro, pagam-me cinco vezes menos do que quando faço ópera. SOU UM MERDAS (...) Depois levam-me ao canal de televisão da autonomia para uma entrevista cujas perguntas se supõe que desconheça, mas passam-mas num papel escrito quando chego. Leio as perguntas - Preferes ter trabalho ou ter amor? A SÉRIO QUE A TELEVISÃO PÚBLICA AUTONÓMICA NÃO TEM NADA MELHOR PARA ME PERGUNTAR DO QUE ESTA MERDA?"

A adolescência revisitada (III)


De facto, as primeiras definições de uma fase autónoma da vida, situada entre a infância e a idade adulta, vieram da área da criminologia. A expressão delinquente juvenil foi cunhada em meados do século XIX para descrever um novo fenómeno - um crime específico de uma certa faixa etária e de uma certa classe - quando rapazes e raparigas da classe trabalhadora tiveram a audácia de exprimir as oportunidades novas que a urbanização e a industrialização em massa lhes traziam: a falta de supervisão dos pais, o dinheiro no bolso graças às novas indústrias. À deriva das velhas normas, eram eles os precursores de um futuro novo e inquietante. (...)
O diário íntimo tornar-se-ia a expressão intrínseca e talvez a mais verdadeira da experiência adolescente. (...)
Na primeira década do século XX assistiu-se à criação do movimento de escuteiros (Boy Scouts) nos Estados Unidos da América e no Reino Unido, e à formação de grupos paramilitares de jovens na Alemanha (...) As posições [conflito de gerações] extremaram-se a ponto de se tornarem quase ideologias, a mais pujante foi, nos anos 20, o hedonismo - viver em estado de festa permanente. (...) Na Europa dos anos 20 assistia-se ao aparecimento de grupos de jovens orientados para o regresso à natureza. (...) [Nos EUA] número crescente de estudantes inscritos nas universidades - número que em 1924 sofreu um aumento de 400% em relação a 1890 (...) exprimia-se em filmes, revistas, na música e no álcool. (...)
Tanto na Alemanha nazi como no Norte da França a música e a cultura do swing foram um ponto de encontro da pequena percentagem de bravos adolescentes que decidiram resistir ao nacionalismo e ao totalitarismo que lhes queriam impor. (...) Havia a nítida sensação de que o swing, com as suas fortes raízes na cultura desfavorecida dos negros norte-americanos (assim se dizia na época), era uma música intrinsecamente democrática e progressista. Com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, o swing ficou estreitamente associado aos valores de um país que se posicionava como bastião da liberdade contra os nazis; e os jovens fãs levaram esta mensagem muito a sério. (...)
O século assistiu à primeira cultura adolescente de consumo em massa durante a década de 1920 (...)

Jon Savage, autor de TeenageA era da adolescência, in Electra, nº5, Primavera 2019, pp.108-109.

Sondagens


Apesar, ou também por causa das constantes polémicas em que, diria diariamente, se vê envolvido, mau grado as declarações grosseiras e lamentáveis, a ausência de um mínimo sentido institucional, da dificuldade quotidiana, em lidar com a crítica e, bem assim, em se situar numa democracia liberal (mau entendimento da separação de poderes ou ataque constante à imprensa), sem prejuízo de expressões pouco recomendáveis quanto ao seu carácter - como o caso com o Presidente da Ordem dos Advogados do Brasil demonstra sem a menor dúvida -, tendo uma significativa parte da intelligentsia contra, a verdade é que na sondagem conhecida esta semana, publicada pela Veja, com vista à projecção das eleições de 2022, Bolsonaro surge, claramente, à frente, nomeadamente quando são simulados os frente a frente com Haddad (PT) e João Dória (PSDB). Seja na primeira, seja na segunda volta o avanço de Bolsonaro é muito expressivo. Um caso claro de discrepância entre opinião pública e opinião publicada. É verdade que as sondagens indicam que uma parte significativa do eleitorado entende que as declarações de Bolsonaro acabam por atrapalhar o processo político; no entanto, se olharmos para a interpretação - que me parece pertinente olhando ao registo diário do Presidente brasileiro - de Francisco Seixas da Costa - a saber, as constantes, muitas vezes várias vezes ao dia, declarações de Bolsonaro, na linha de Trump, trazendo um ruído constante, dificilmente permitem que a oposição se concentre num tema, num ponto da agenda ou programático, numa medida da governação, até essa ideia de que as declarações permanentes atrapalham pode funcionar como véu para um modus operandi que se revela eleitoralmente eficaz. Bolsonaro vai a todas, obriga a que tudo gire em seu turno, concentra os ataques e evita uma oposição sistematizada e com uma linha clara. 

Fadiga informativa


Segundo um relatório relativo ao jornalismo digital do Instituto Reuters da Universidade de Oxford, os gregos (com 54%), seguidos dos americanos (com 41%) estão cansados e fartos de tantas notícias (nas redes sociais, nos jornais, TV's). Segundo o mesmo estudo, a percentagem de portugueses com fadiga informativa é de 30%.

Feliciano Barreiras Duarte, O poder da fadiga informativa, Sol, 24-08-2019, p.16.

P.S.: esta semana, no Público, Luís Aguiar Conraria dava nota dos estudos que demonstravam a correlação entre a leitura do Sun e o (não) voto no Brexit, em determinadas regiões do Reino Unido e a correlação entre determinados hábitos sexuais e as novelas da Globo, no Brasil. Isto, ainda comentando, e no seguimento, de estudos que sustentavam a relação entre o assistir aos canais de Berlusconi, do telelixo, e a emergência do populismo em Itália.

Saúde mental


Sábado: Temos mais amigos no Facebook.
Norman Sartorius: Sim, mas não podemos chorar no ombro de um computador. Queremos chorar num ombro de alguém, porque isso é humano. Uma mão amiga não pode ser substituída por um número de telefone
[...]
Em países como os Estados Unidos, Argentina e França (...)  a psicanálise se tornou muito popular. (...) Se tem uma avó que cometeu suicídio pode ter dificuldade em encontrar um parceiro. Isso leva a pessoa a estigmatizar-se a si próprio. Se somos rejeitados cinco vezes para um emprego, à sexta nem sequer vamos porque sabemos que vamos ser rejeitados. Mesmo quando surgem oportunidades, não as aproveitamos porque já não acreditamos em nós. (...) [Relativamente ao estigma que surge em pessoas com problemas do foro mental] O aspecto e funcionamento dos hospitais são muito importantes: há portas com cadeados? Homens encorpados à porta? Nas escolas devia-se aprender a aceitar pessoas com incapacidades em geral. (...) Não sabemos estar com alguém que gagueja (...) Sabemos hoje que em muitos países pessoas com doença mental não são autorizadas a herdar, a casar, a educar crianças. Há uma série de restrições legais que são estigmatizantes e podemos começar por eliminá-las. Num país como a Suécia, a ideia de que se tiver uma doença mental não pode ter filhos está ainda presente porque esterilizavam pessoas com deficiências

Norman Sartorius é um psiquiatra croata, que esteve 26 anos na Organização Mundial de Saúde, e foi entrevistado por Susana Lúcio, esta semana, para a Sábado (de 29 de Agosto a 4 de Setembro de 2019)

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O homem que mordeu o cão


Em artigo de fundo publicado, este fim de semana, pelo Expresso, na sua Revista, a propósito da atual relação que, entre nós, se vem estabelecendo com os animais, e os cães em particular, escreve-se que os cães "sofrem de stress e auto-mutilam-se por serem tratados como pessoas" (em vez de serem tratados como bichos que são). Mais: há donos que lhes dão dietas vegan, sendo que os cães são carnívoros, sofrendo assim "carências alimentares". 
Não é raro, tornou-se mesmo um costume desagradável, passear pela cidade com um conjunto de cidadãos, quase a nosso lado, com dois ou três cães (cada) pela trela. Tornou-se uma moda - e como perdermos o comboio vanguardista? -, como também assinalava o DN este fim de semana, que no seu suplemento económico dava conta que só em comida para cães e gatos os portugueses gastam 500 milhões de euros/ano. Fora as consultas no veterinário, os banhos, os cortes de pêlo e quejandos. A indústria desta alimentação para tais animais cresce 6% ao ano no nosso país (apesar da riqueza do país progredir muito mais lentamente).
Desde o início do século, Portugal perdeu mais de 9 mil escolas, em boa medida - ainda que não exclusiva - pela baixa natalidade. Em contrapartida, nunca mais parámos de ter criar mini-jardins zoológicos domésticos. Como escrevia o narrador, do Houellebecq de A possibilidade de uma ilha, preferimos encher apartamentos com cães em vez de bebés. Diz-se por aqui que é um avanço civilizacional.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Imprensa


Portugal é o país de Europa ocidental onde se publicam menos jornais de informação geral de caráter nacional. Mas é também aquele em que as difusões são mais baixas, com uma taxa de penetração nove vezes inferior ao que é na Escandinávia, por exemplo. E a estes infortúnios vem acrescentar-se uma prática jornalística insatisfatória, vítima de redações demasiado pequenas e pouco especializadas, tanto na imprensa como no audiovisual.

J.-M. Nobre Correia, A informação que temos ou não..., Público, 28-08-2019, p.9.

Novos imigrantes brasileiros em Braga


O DN semanal traz, na sua mais recente edição (24-08-2019, pp.20-21), uma reportagem, da autoria de David Mandim, sobre a emigração brasileira para Braga. Os novos imigrantes brasileiros, em Portugal, na cidade dos arcebispos, são cerca de 10 a 15 mil, só no concelho bracarense (num município de 180 mil habitantes), e cerca de 30 mil no Distrito de Braga. Pessoas, em muitos casos, possuidoras de recursos educativos, culturais e económicos consideráveis. Médicos, professores, engenheiros, advogados. Muitos deles, empreendedores. E, com eles, alguns dados culturais, e conjunturais, marcantes: "Você não vai acreditar. Aqui em Braga as mulheres andam de carro com o vidro aberto'. No Rio isso é impossível", conta um dos novos habitantes de Braga, sobre a sua conversação com a mulher, esta no outro lado do Atlântico. O jornal não o refere, mas vale a pena sublinhar o contexto: nos últimos anos, o número de estupros sobre mulheres, no Brasil, teve um crescimento assustador, estando acima dos 60 mil por ano.
A qualidade do ensino, a proximidade das escolas, os preços habitacionais bem mais acessíveis do que os de Lisboa e Porto, a reputação da Universidade do Minho, a dimensão da cidade - sem as 4 horas de trânsito do Rio - a alimentação que ali se pode fazer, o acolhimento das pessoas, a segurança - eis motivos para a escolha de Braga, anotados pelo jornal
Por outro lado, bastante curiosos os vasos comunicantes, a política Trump em relação à imigração virou muitos brasileiros para Portugal, e trouxe-os, mesmo, dos EUA:"o brasileiro vive, ou vivia, muito virado para os EUA, esquecendo Portugal. Com Trump, as coisas mudaram, a porta fechou-se", refere um dos novos bracarenses escutados na reportagem do DN.
O boom, desde 2016, de novos imigrantes brasileiros pelo Minho, deveu-se, ainda, à promoção, via redes sociais, junto de seus compatriotas, que os que se foram instalando em Braga foram fazendo do novo local onde passaram a viver. Entre os novos costumes, uma certa alteração na fisionomia religiosa de Braga: "[a Igreja Baptista Lagoinha de Braga] era uma Igreja com 15 membros. Hoje tem 450 elementos". E há já um jornal editado pelos imigrantes brasileiros de Braga, o Olhar Brasileiro [sendo que uma das pessoas ouvidas pelo DN tinha sido jornalista, durante 15 anos, no jornal Globo, tendo ficado sem emprego].
Na edição de Domingo do Público (25-08-2019), registava-se que só até Agosto já abandonaram o Brasil quase tantos brasileiros - em termos "definitivos" - como no ano de 2018, com vários depoimentos a sublinharem, contudo, uma dimensão política como motivação para a saída - incluindo uma polarização que não poupa as relações familiares, assim degradadas - que não surge na peça do DN. 

Revisão


Presentemente, quando se fala em infra-estruturas, logo vem alguém dizer que se investiu de mais em "betão" e que Portugal tem uma das melhores redes de estradas da Europa. 
Na verdade, nas estradas, Portugal chegou tarde, atingiu um nível médio relevante e será pouco o que restará fazer neste capítulo. Se houve excessos, eles foram marginais.
Segundo dados publicados pela Comissão Europeia, Portugal situa-se numa posição inferior noutros indicadores, como a eficiência do transporte aéreo, dos serviços portuários, dos caminhos de ferro e, claro, da rede ferroviária de alta velocidade. Neste último campo, já foi inclusivamente ultrapassada por Marrocos, onde recentemente foi inaugurado o primeiro troço de 180 km, entre Tânger e Casablanca, a completar em 2020. Sem dúvida que é preciso colocar na agenda política a discussão sobre futuros investimentos em infra-estruturas e sacudir de uma vez a ideia de "excesso de betão".

Pedro Laíns, Lições da greve dos camionistas, DN, 24-08-2019, p.12.

Religar (II). E as Humanidades nos EUA


O estado das Humanidades, nos Estados Unidos, pode ser medido pelas realizações do presente: alguém poderá defender seriamente que as belas-artes ou mesmo a cultura popular estão a atravessar um período de grande originalidade e criatividade? O génio americano reside actualmente na tecnologia e no design. A geração mais jovem, com a sua mestria em relação aos videojogos e a sua facilidade com dispositivos cada vez mais evoluídos, como os telemóveis que fazem videochamadas e  os iPods, tem-se deslocado maciçamente para a net para obter informação e entretenimento.
Defendo que a via para o renascimento das belas-artes americanas está na religião. Convém deixar claras as minhas premissas: sou uma ateia professa e uma democrata libertária pró-escolha. Todavia (...) tenho apelado, já há quase duas décadas, para que se reforme o ensino no sentido de recolocar o estudo comparativo das religiões no centro do currículo universitário. Embora partilhe a exasperação da minha geração com o moralismo e o puritanismo da religião organizada, vejo cada uma das religiões universais, incluindo a judaico-cristã e o islamismo, como um sistema simbólico complexo, uma lente metafísica através da qual podemos ver a vastidão e a sublimidade do universo. O conhecimento da Bíblia, um dos textos fundadores do Ocidente, está a diminuir perigosamente entre jovens aspirantes a artistas e escritores. Quando uma sociedade fica totalmente consumida pelas minúcias da política partidária (como tem acontecido nos últimos vinte anos nos EUA), perde-se toda a perspectiva. A grande arte pode surgir a partir do amor pela religião, mas também como rebelião contra ela. Mas uma sociedade completamente secularizada, com desprezo pela religião, afunda-se no materialismo, absorvida em si mesma, e enfraquece sem deixar legado artístico.

Camile Paglia, A religião e as artes na América [2007], in Provocações, Relógio d'Água, 2019, pp.422-423.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Religar


Se começámos o Verão com a negação de Michel Onfray (em Decadência - o declínio do Ocidente), quando este se vai aproximando do seu final, com uma outra intelectual, também ateia, Camile Paglia (em Provocações), damos nota da sua crença no carácter histórico de Jesus de Nazaré:


"Pessoalmente, acredito que existiu um Jesus histórico. As provas são fragmentárias, mas para mim são convincentes acerca da vida de um pregador carismático, itinerante, com este nome, que se viu envolvido na política cruel da ocupação romana de uma Judeia refractária e rebelde. Além disso, como crítica literária, ouço uma voz que fala de uma forma muito própria e distinta através das afirmações atribuídas a Jesus. Trata-se de um poeta brilhante, que foi capaz de encontrar metáforas simples, universais (uma moeda, uma árvore, um grão de mostarda) para transmitir verdades espirituais às populações. Foi também um artista com um grande talento de improvisação" (pp.359-360).

P.S.: Paglia acrescenta, acerca da religião: "se, como Karl Marx afirmou, a religião é «o ópio do povo», mantendo-o num estado dócil e numa aceitação passiva do seu sofrimento, também é a droga visionária dos artistas, incitando-os a realizações brilhantes que perduram em pinturas, palavras e música. Qualquer pessoa ligada ao ensino (...) tem de reconhecer a inter-relação entre arte e religião desde que os seres humanos desenharam pela primeira vez formas animais nas paredes de cavernas. (...) Como ateia professa, contudo, nunca perdi o respeito pela religião, que continua a ser mais amparadora do que o humanismo secular para muito mais pessoas. (...) [Sobre a questão do preservativo e as grandes fúrias dos anos 90 dirigidas à Igreja] Não foi certamente a Igreja, que aconselha a castidade pré-marital e a monogamia heterossexual, que espalhou a SIDA pelo mundo" (pp.361-364).
Adiante, Paglia conclui: "o que deve ser feito? O ensino superior precisa de ser digno do seu nome. A minha proposta é a mesma que fiz quando fui cocriadora do seminário «Oriente e Ocidente», em colaboração com a activista comunitária Lily Yeh, na University of the Arts, em 1990. O núcleo do currículo para o ensino global deveria ser a religião comparada. O estudo das grandes religiões (incluindo o Islão) é a chave em termos políticos e artísticos. Na qualidade de ateia que adora apenas a natureza, vejo as religiões como vastos sistemas simbólicos, muito mais desafiantes e complexos do que o pós-estruturalismo, com o seu foco míope nas estruturas sociais. O pós-estruturalismo não tem metafísica e por isso é incapaz de abordar a espiritualidade ou o sublime. (...) Ensinar religião como forma de cultura, e não como moralidade, concede aos estudantes a liberdade intelectual para encontrar os princípios éticos no coração de cada uma das religiões"(p.420).


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Jornais e crime


Na década de 1920, a imprensa norte-americana teve uma explosão sem precedentes, com as vendas dos jornais a alcançarem 36 milhões de exemplares por dia, uma média de 1,4 jornais por família. Entre eles, destacavam-se os tablóides inspirados na tradição britânica, com notícias de desporto, mexericos de celebridades e histórias macabras de crimes hediondos: o Daily News era o jornal mais vendido do país, com uma tiragem diária de um milhão de cópias, o dobro do New York Times.
Muitas outras publicações procuraram imitar-lhe o sucesso, às vezes para lá de todos os limites do razoável: em 1926, após a morte de Rudolfo Valentino, o Graphic saiu à rua com uma série de peças jornalísticas escritas no túmulo pelo actor falecido. (...)
Um estudo de uma companhia de seguros concluiu que, naquele ano de 1927, cerca de dois terços dos crimes perpetrados na América tinham ficado por resolver. Em Chicago, com 400 a 500 homicídios por ano, a média das condenações não chegava a um quarto. Dos 372 homicídios registados em Nova Iorque em 1927, em 115 dos casos não foi efectuada qualquer prisão. Outros estudos garantiam que noventa por cento dos crimes graves cometidos na América ficavam impunes. Os jornais e a rádio, a opinião pública, os políticos e os juízes, as polícias, os detectives, todos precisavam de criminosos capturados e condenados.

António Araújo, O quarto poder, DN, 24-08-2019, p.54.

INDEPENDÊNCIA DE TIMOR - NEGOCIAÇÕES (III)


Por causa de Timor, a nossa relação com a Austrália era péssima. Era quase pior do que com a Indonésia! Até porque os australianos eram de uma arrogância insuportável e havia uma questão que nos estava a preocupar: embora a Austrália fosse o único país que reconhecia a integração de Timor na Indonésia, recusava-se, por pressão da Indonésia, a dar asilo político aos timorenses que fugiam de Timor, alegando que, como eles eram portugueses, não careciam de asilo político num terceiro país. Isto era uma perversidade levada ao extremo. Reconheciam a anexação, considerando que os timorenses eram indonésios, mas quando estes se iam refugiar na Austrália, respondiam que eram cidadãos portugueses e, portanto, não precisavam de asilo. (...)
Naturalmente, não se falou de nada que fosse útil em relação ao petróleo - os indonésios compraram o reconhecimento da Austrália através de concessões nas fronteiras e na utilização das reservas de petróleo no mar de Timor. (...)
Houve uma conjugação de factores fundamentais. Se olharmos exclusivamente para as negociações - e não para o processo como um todo - houve um factor decisivo: termos feito um diagnóstico claro das forças negociais em presença (fazíamos uma preparação exaustiva para cada reunião) e termos sabido esperar e aproveitar uma conjuntura internacional favorável, quase única. (...)
Jaime Gama tinha uma coisa fundamental para qualquer ministro dos Negócios Estrangeiros: um enorme conhecimento da História e uma percepção clara de como é que as coisas podem evoluir. Uma capacidade notável para ler a comunidade internacional e uma firmeza na condução do processo, não fazendo cedências inúteis nem deixando de fazer cedências úteis, para chegar a uma solução na qual todos se conseguem rever. É assim que se deve negociar. (...)
Em 2000 tínhamos 461 diplomatas, em 2007 tínhamos 416 e agora são menos de 400. Não investimos na nossa projecção externa. Foi criada a certa altura no ministério uma Direcção-Geral das Relações Culturais Externas. A verba que essa direcção-geral tinha para a promoção cultural externa era para aí 10% do que o que o conselheiro cultural espanhol em Washington tinha para gastar onde quisesse, independentemente do dinheiro que podia vir de Espanha. Não semeamos, não colhemos. Quando se olha para o nosso capital histórico na Ásia e para o pouco que tiramos disso, é assustador. Com os meios que temos, a diplomacia portuguesa é excelente. (...) A queda de Suharto e a caminhada da Indonésia para a democracia vieram alterar completamente o quadro do jogo. Para um país que quer ser democrata, a "pedra no sapato" é muito mais incómoda do que para uma ditadura que não tem de dar explicações a ninguém. Isso é óbvio. Mas a questão é a seguinte: Habibe também cede a uma pressão brutal da comunidade internacional porque, quando faz a declaração em Janeiro de 1999, nós estamos a dois dias de ter o apoio de toda a gente, até dos australianos, para que a autonomia vá para a frente. (...) A visão de Habibie, como Alatas mostrou daquela vez em que disse que Habibe não sabia nada de História, é a visão de um businessman. Para ele, Timor não passava de umas pedras perdidas no oceano que estavam a prejudicar a Indonésia.


Fernando d'Oliveira Neves, entrevistado por Bárbara Reis, no livro O Negociador - Revelações Diplomáticas sobre Timor-Leste (1997-1999), publicado pela D.Quixote, e em pré-Publicação pelo Público, 25-08-2019, pp.16-19.

INDEPENDÊNCIA DE TIMOR - NEGOCIAÇÕES (II)


Mas eu fiz essa proposta [que as propostas fossem feitas em nome da Indonésia, mesmo quando era Portugal ou a ONU a pôr a ideia em cima da mesa] quando o processo já tinha assumido uma determinada força, em que salvar a face da Indonésia era fundamental. Vivemos num mundo com a obsessão da transparência. A transparência é uma coisa muito bonita, mas pode fazer muito mal, porque nas negociações internacionais, os representantes de cada Governo podem dizer e assumir certo tipo de acordos com a condição de isso não ser visível, de não se saber no seu país. Para não ser visto como uma cedência, para não ser visto como fraqueza, para não ser visto como falta de patriotismo...
Logo no início das negociações, comecei a perceber que tudo o que eu propusesse abertamente nas reuniões tripartidas ia ser rejeitado pela Indonésia. E tudo o que os indonésios propusessem ia ser rejeitado por nós. A reacção natural é de desconfiança.
Até que, a partir de um certo momento, comecei a dizer às Nações Unidas, nas reuniões bilaterais, que quando fizéssemos propostas com as quais eles concordassem, deviam apresentá-las à Indonésia como se fossem deles. A maior parte das propostas que fiz acabaram por ser "compradas". Eram as Nações Unidas que, de forma mais ou menos clara, faziam essas propostas à Indonésia nas reuniões bilaterais que tinham com eles, fazendo assim com que não parecessem uma cedência indonésia, mas a aceitação de ideias da ONU.
Mas há um momento em que começa a ser muito difícil que a Indonésia não achasse que estava a perder. E então sugeria a Marker que propusesse à Indonésia que as propostas da ONU - ou as que nós lhe transmitíamos - fossem apresentadas pela Indonésia como se fossem suas. É o que acontece quando [Ali] Alatas quer saber se o regime de autonomia era para ser definitivo ou transitório. A proposta de autonomia transitória que estávamos a negociar - e que era o oposto do que a Indonésia pretendia - era de Portugal, mas apareceria como sendo da Indonésia, o que lhes salvava a face. Foi o que acabou por acontecer quando aparece Habibe...Sendo eles a fazer a proposta, a "vitória" era da Indonésia. A própria imprensa portuguesa achava, quando a Indonésia fazia uma proposta que ia ao encontro do que nós queríamos há 25 anos, que Portugal ia atrás de Alatas! Isso pode ter sido importante para permitir que as coisas avançassem, mas não deixa de ser um pormenor técnico.

(...)

Zacarias da Costa, que a seguir à independência foi ministro dos Negócios Estrangeiros de Timor-Leste, diz que "o referendo não foi o resultado de um longo processo negocial e não foi o resultado das mudanças no regime indonésio: foi o resultado de ambos". É uma boa síntese? 
Sim, é uma boa descrição.


Fernando d'Oliveira Neves, entrevistado por Bárbara Reis, no livro O Negociador - Revelações Diplomáticas sobre Timor-Leste (1997-1999), publicado pela D.Quixote, e em pré-Publicação pelo Público, 25-08-2019, pp.16-19.

INDEPENDÊNCIA DE TIMOR - NEGOCIAÇÕES


Quem conduziu as negociações foi Jaime Gama. Portanto, no processo negocial, a personalidade fundamental foi Jaime Gama. Um bom exemplo é quando Gama explica como é que ia ser a votação no referendo. É um momento-chave, em que Gama encosta Alatas à parede e não há mais nada a dizer. É Gama que ganha as negociações. A minha actuação foi sempre em conformidade com as orientações que ele me dava. É evidente que Jaime Gama teve o papel determinante. Mas sem o empenho de Jorge Sampaio e de António Guterres as coisas não teriam corrido desta maneira. Havia uma convergência total de posições entre os três. (...) Tenho uma enorme admiração e respeito por estas três figuras. Eles tiveram de tomar a mais difícil decisão, em termos de custo humano, que qualquer governante português teve de tomar desde 1974. Cada um à sua maneira, os três tinham um grande sentido de Estado, um grande sentido da História de Portugal, um grande patriotismo - no sentido positivo da palavra -, um grande sentido dos laços únicos que os timorenses tinham connosco e consciência do modo como Timor foi tratado depois do 25 de Abril.
Foi uma excelente coincidência estarem os três em funções ao mesmo tempo porque, além de tudo o resto, tinham os três um sentimento forte sobre a necessidade de acabar com aquela situação de sofrimento e de dar ao povo timorense a perspectiva de um futuro diferente. São três homens de grandes qualidades éticas, de uma integridade única e de um conceito notável de serviço de Estado. Sem messianismos, sem sacrifícios. Como deve ser. 
Dito isto, diria que com muitos dos nossos outros ministros dos Negócios Estrangeiros o resultado não teria sido este

Fernando d'Oliveira Neves, entrevistado por Bárbara Reis, no livro O Negociador - Revelações Diplomáticas sobre Timor-Leste (1997-1999), publicado pela D.Quixote, e em pré-Publicação pelo Público, 25-08-2019, pp.16-19.

domingo, 25 de agosto de 2019

Crónicas


Nunca vimos [o mundo] assim desordenado, errático, caótico, perdido nos jogos de guerra em que não é possível haver ganhadores (como acontece com os Estados Unidos e a China), ou mergulhado numa espiral cada vez maior de crises sem solução.

Vicente Jorge Silva, Um mundo de pernas para o ar, Público, 25-08-2019, p.32. 

Construções


«As coisas que não levam a nada têm grande importância» [Manoel de Barros].
Um caminho sem saída e uma tarefa inútil: em Agosto, eis o essencial. (...)
Manoel de Barros conta que mostrou à mãe um primeiro verso. Ele tinha medo: «Vão dizer que eu tenho vocação para ninguém». Teria treze anos. 
«A mãe falou:
Agora vai ter que assumir as suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens». (...)
«Para cantar é preciso perder o interesse de informar», escreve Manoel de Barros. Fartos de informações, pedimos canções e alguém que saiba dançar. 
E não só em Agosto.

Gonçalo M.Tavares, Brinquedos, construções e invasões: aprender com a natureza, ABola, 25-08-2019, p.36.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Plano Nacional das Artes - motivações


[A arte deve fazer parte da vida das crianças desde cedo?] Sim, absolutamente. Se pensarmos bem, é a altura da nossa existência em que mais desenhámos, mais cantámos, mais nos expressámos pela dança sem medos ou vergonha. Mas a determinada altura parece que a sociedade nos diz que aquela linguagem não é possível, que temos de usar apenas uma - a lógico-verbal
Aquilo que todos os pedagogos dizem (...) é que não temos apenas uma linguagem. Somos constituídos por muitas linguagens e devemos dar a conhecer, experimentar, promover a relação com essas múltiplas linguagens. Para uns é fácil e enquadram-se bem na linguagem lógico-verbal, para outros é um sacrifício imenso porque não pensam dessa maneira. A sua relação com o mundo não é essa. Poderiam ser pessoas mais realizadas e felizes se lhes dessem outras linguagens como oportunidades. (...)
Um pedagogo italiano (...) Loris Malaguzzi (...) defende que há cem linguagens e a escola diz à criança que só há uma. (...)
A ideia é que com este Plano [Plano Nacional das Artes] as crianças tenham sensibilidade estética, pensamento crítico e criativo muito mais apurados. Serem capazes de pensar fora da caixa, serem mais criativos, imaginativamente desenvolvidos. A escola prepara para o futuro. Isso significa preparar para o que não existe, que ainda nem sabemos o que vai ser. (...) Se não prepararmos pessoas criativas, capazes de se adaptar, de responder a essa incerteza e à mudança, não estamos a fazer um bom trabalho. A escola não pode ser apenas o lugar do já conhecido, do sabido, tem de ser também essa possibilidade com o incerto, o inseguro e sem medo. Estamos convencidos de que uma relação mais franca e contínua com as artes nas suas múltiplas linguagens permite desenvolver a criatividade, a capacidade de sentir, mas também de pensar de maneira diferente e mais ousada. (...) Uma das propostas que fazemos é a criação de um plano estratégico municipal. Quantas autarquias têm um plano estratégico para a cultura? Quantas pensam essa ligação entre cultura e educação de forma estratégica e organizada? (...) Mas também estamos em crer que, sem o apoio das empresas, sem o seu patrocínio, nada disto se concretiza. Se querem ter trabalhadores bem formados, capazes de reagir da melhor maneira à incerteza, com ideias criativas e inesperadas, propostas imaginativas para melhorar aquela empresa, então a cultura, as artes poderão ajudar nisso. (...) Hoje em dia há empresas a pensar em bolsas de voluntariado. Gostaríamos muito que essas bolsas não fossem apenas para actividades sociais, mas também culturais. (...) Às vezes, 500 euros para o transporte dos alunos, é uma ajuda maravilhosa para irem fazer visitas ou para comprarem um novo projector. (...) [Artistas residentes nas escolas?] Pode ser um artista plástico que necessita de um ateliê para pintar, desenhar ou esculpir. Mas também já recebemos propostas de uma companhia de teatro que gostava de estar sediada dentro de uma escola e de uma associação cultural ligada a uma escritora que quer trabalhar durante um ano lectivo com aquela escola. (...) Não podemos olhar para as artes como uma forma de enfeitar a realidade. Elas servem precisamente para a transformar. Servem para tornar as escolas verdadeiramente inclusivas, de forma que aqueles que hoje parecem a ser deixados para trás não fiquem de facto para trás. (...) Como é que queremos preparar cidadãos completos para o futuro se não pensamos, por exemplo, o que são os sentimentos, as emoções? (...) O que está a acontecer é que estamos a preparar os alunos em "gavetas". (...) Aquilo que fazemos tantas vezes é simplesmente focar a nossa atenção no estudo intelectual, racionalizador.

Paulo Pires do Vale, diretor do Plano Nacional das Artes, Professor Universitário, curador, ensaísta, com Mestrado em Filosofia, em entrevista a Filipa Lino, para o Weekend, do Jornal de Negócios, 23-08-2019, pp.4-9.


Alerta (II)

Alerta


Resultado de imagem para the great hack

Gostei bastante de ver o documentário The Great Hack (Karim Hamer e Jehane Noujaim, Netflix, 2019). Uma coisa é saber, como qualquer pessoa informada sabe, que a Cambridge Analytica comprou dados de milhões de utilizadores do/ao Facebook para depois orientar campanhas eleitorais (sendo especialmente mediática a relação de operações deste género com as eleições nos EUA), em especial adequar a propaganda, nos social media, a segmentos eleitorais, personalizando-a mesmo, se fosse caso disso; outra, é entrar nos pormenores (do modus faciendi). O vídeo, com câmara oculta, do channel 4, apanhando o ex-CEO da Cambridge Analytica, Alexander Nix, a contar as suas manipulações e subornos, para ajudar clientes a vencerem eleições, é qualquer coisa. As eleições em Trinidad e Tobago, tratadas pela Cambridge Analytica, com técnicas para afastar sectores da população - no caso, jovens - das urnas, com campanhas a estes dirigidas, compreendendo muito bem, culturalmente, o país e gerações - a mesma geração, com proveniências diversas, reagirá às campanhas que visam a apatia, de modo diverso, e é esse o efeito pretendido - muito revelador da sofisticação maquiavélica a que se recorreu. À captação dos dados, seguia-se a análise de Professores de Cambridge especializados nessa leitura (de dados). O comportamento de ex-funcionários da Cambridge Analytica, nalguns casos de topo, como Britanny Kaiser, entretanto arrependida, juntando, neste contexto, uma narrativa pessoal - a família de Kaiser perdera quase tudo por via da crise, e esta sentiu a necessidade de ganhar muito dinheiro e, portanto, de se vender a personagens políticas pouco recomendáveis, ela que começara na defesa dos direitos humanos, anos antes -, ou a noção de que a reclamação, jurídica, de acesso aos dados que a empresa tinha de um determinado utilizador do Facebook, não pôde ser atendida com o desmantelar da Cambridge Analytica - nunca se saberá os exactos e completos dados que a Cambridge sabia de cada utilizador - conferem particular interesse a um documentário que nos traz, também, as problemáticas declarações e testemunho de Mark Zuckerberg sobre a matéria (uma espécie de Facebook mais ou menos angelical).
Que a manipulação existiu, que os dados são "petróleo", que as redes sociais não informaram os utilizadores que iam coleccionar dados, e dados tão pormenorizados quando não íntimos de cada um, que muita gente obtém a sua informação (política) através das redes sociais e de que estas foram manipuladas em diversas campanhas políticas (como por exemplo no Brexit) é certo. Que a pedagogia quanto aos dados pessoais que se colocam nas redes e a possibilidade de notícias inventadas para nos levarem a acreditar que o candidato X é o preferível, ou, pelo menos a detestar o candidato Y deve ser feita, com certeza. Já a completa noção de causa-efeito, calculada ao milímetro ("conseguimos afastar do voto 6% da população") parece-me mais difícil de sondar.

Pensamento rápido


Um estudo nos Estados Unidos da América descobriu que o impacto da frequência universitária na melhoria do pensamento crítico é muito fraco. E isso acontece porque se valoriza a velocidade em detrimento do pensamento profundo e deliberativo (...) Numa sala de aula, o professor faz uma pergunta e escolhe a primeira pessoa que levanta a mão. Mas estudos mostraram que se esperarmos apenas uns segundos, antes de pedirmos às crianças para responderem, podemos ter sérios benefícios: as respostas são, regra geral, mais pormenorizadas e têm em conta mais pontos de vista. Recompensar as crianças pode encorajar o pensamento rápido, baseado na intuição, que poderá levar ao erro

David Robson, autor do livro "The Intelligence Trap", jornalista de Ciência londrino, em entrevista à Visão, 22-08-2019, p.44.

Observatório


Nos países nórdicos, por exemplo, ou em países como a Nova Zelândia ou a Austrália, em geral, a percepção é a de que o Governo é imparcial e pouco corrupto. Quando isso sucede, as pessoas votam menos com a carteira. Estão mais dispostas a tolerar sacrifícios, ou quebras no seu rendimento, sem que, necessariamente, penalizem os governos. Na Europa do Sul, porém, como o grau de confiança na classe política é mais baixo, as pessoas reagem mais perante o curto prazo: "o que é que fizeste por mim, ultimamente?".

Pedro Magalhães, em entrevista a Filipe Luís, para a Visão, nº1381, de 22-08 a 28-08-2019, pp.10-13. O investigador do ICS observa que na actual legislatura, em Portugal, a importância que os eleitores atribuem ao tema da corrupção, segundo os inquéritos de opinião, é bem maior do que na legislatura passada, em que a predominância da economia era clara. Este fenómeno, a seu ver, resulta do facto de a economia, em particular o emprego, ter melhorado, bem como o défice controlado, ter tornado o tópico económico menos atraente. Por outro lado, são mais os eleitores do PSD, do que o PS, a expressarem preocupação com a corrupção. Pedro Magalhães considera que um dos factores pelos quais forças populistas, em Portugal, têm mais dificuldade em vingar prende-se com o facto de a imigração não ser massiva, a maioria dos imigrantes falar português e haver mais segurança no trabalho do que em países de tradição mais liberal, nos quais os imigrantes são mais sentidos como ameaça. Mas, por outro lado, os inquéritos mostram que a essência do discurso populista, elites perversas e povo puro, está muito presente entre o povo português. Sobre o falhanço das sondagens: as pessoas estão cada vez menos dispostas a responder a sondagens, pelo que as amostras são cada vez menos representativas. De qualquer forma, qualquer outro resultado que não a vitória do PS nas legislativas de 6 de Outubro representariam "uma mudança [de vontade dos eleitores registada em sondagens a poucos meses das eleições] como nunca aconteceu no passado".

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

NEUROCIÊNCIA, BIOLOGIA, DIREITO


*Dados de neuroimagem, nomeadamente eletroencefalogramas são válidos nos tribunais indianos, relativamente ao apuramento da resposta à questão: "este cérebro está a mentir?". Escreve Robert  M.Sapolsky: "não conheço nenhum especialista que ache que a técnica é suficientemente precisa" (p.702);

*Uma questão levantada pelo investigador é: qual deveria ser o Q.I. de corte para que alguém seja considerado suficientemente esperto para, nos termos da lei norte-americana, ser executado? O padrão é um Q.I. de setenta ou mais, e a discussão é se deveria ser uma média de setenta em vários testes de Q.I., ou se atingir esse número uma vez é o bastante para a pessoa ser executada. Uma questão relevante para cerca de 20% daqueles que se encontram no corredor da morte;

*Com a neurociência a fazer cada vez maiores revelações acerca dos pensamentos, estaremos a aproximar-nos de uma detecção pré-crime, tentando provar quem irá cometer um crime? "Teremos de tomar uma decisão acerca do crânio como domínio privado" (p.703);

*Juízes julgam de forma mais dura quando a barriga "está a dar horas" (p.703);

*Qual o quantum de destruição do córtex frontal para que alguém não seja considerado responsável (culpado), dado que uma grande parcela dos detidos no corredor da morte têm um histórico de lesões no córtex frontal?;

*De acordo com James Cantor, da Universidade de Toronto, a pedofilia é mais comum em algumas famílias, o que de algum modo sugere que os genes desempenham um papel. Os pedófilos possuem índices atipicamente altos de lesões cerebrais na infância. Há evidências de anormalidades endócrinas durante a vida fetal. Todavia, «se não se pode escolher não ser um pedófilo», diz o académico, é possível escolher não ser um molestador de crianças. Sapolsky, contudo, recusa este dualismo, tal como recusa o dualismo«és muito inteligente» vs «esforçaste-te muito», porque quer a inteligência quer a capacidade para o esforço" estão inscritos na natureza (propriedade do universo físico e da biologia);

*Em termos genéricos, observa Sapolsky, "o que tem de ser abolido [no Direito] é a ideia de que a punição pode ser merecida e que punir é algo virtuoso" (p.732). Para quem nega o livre-arbítrio, como o autor, a punição até pode ser útil, em se provando dissuasora. Mas "merecida", num mundo determinista, não. Coisa diferente, é afastar da sociedade pessoas que estão "determinadas" a serem perigosas, nalguns casos sem possibilidade, até, de se reabilitarem - sim, essas pessoas devem ser afastadas para uma ilha remota. Mas não porque o "mereçam". 


P.S.: Em Comportamento, Robert M.Sapolsky, tem um capítulo, relativamente breve, no sentido de mudar por completo o sistema penal. Conclui o mesmo dizendo que realmente é melhor deixarmos a negação do livre-arbítrio para o momento em que se está a julgar alguém - digamos, para se ser mais compreensivo com o outro. Porque, na verdade, um mundo sem livre-arbítrio é, também, um mundo sem "mérito", o que significa que não haveria por onde - ou porquê - elogiar (alguém). Palavras como "responsabilidade", "dignidade", "pecado", etc. dificilmente aqui teriam grande lugar. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Educação Musical no tempo da internet


Criei um seminário opcional de dois semestres intitulado «Lírica», que começava com a poesia da Antiguidade grega e terminava com as modernas letras de canções, desde os musicais da Broadway até ao folk-rock. (...) Descrevi-o como «o estudo de como as letras de canções contemporâneas se desenvolveram a partir da tradição da poesia lírica e das baladas da música popular». O meu objectivo era demonstrar como a poesia tinha começado enquanto perfomance ritual, acompanhada pela lira, e como, meio milénio depois, na era Gutenberg, a poesia tinha regressado às suas raízes performativas e à sua ligação espiritual com a música.
O meu público-alvo imediato eram os estudantes de música, tanto na vertente clássica como na de jazz. (...) Os requisitos para o seminário, em termos de escrita, eram ser «crítico ou criativo», com a opção de compor letras originais para canções. (...)
O seminário «Lírica» evoluiu para a versão actual de um semestre, sob o nome «A arte das letras de canções», um seminário com vista à valorização da cultura geral para estudantes de todos os cursos. (...) O meu método de trabalho em sala de aula mantém-se o mesmo: distribuo folhas com letras de canções seleccionadas e procedemos à sua análise detalhada, como fazia para os poemas, prestando especial atenção à voz, ao tom, às imagens convocadas e à narrativa (caso fosse relevante), com as premissas auxiliares de personagem, tempo e lugar. É muito importante criar as minhas próprias folhas com as letras, porque as versões publicadas, mesmo as dos êxitos clássicos, muitas vezes têm imprecisões alarmantes, com palavras mal interpretadas, versos misturados ou divisões erradas entre estrofes, que obscurecem a beleza da estrutura de uma canção. Passo a música duas vezes, antes e depois da nossa discussão. O ideal é que os estudantes, ouvindo a canção pela segunda vez, experimentem uma sensação de surpresa e revelação agradáveis, como se a canção tivesse mudado e se tivesse expandido estranhamente por ela própria. (...)
Mas o meu objectivo primordial é dar forma e contexto ao enorme corpo da música popular, que os jovens ouvem actualmente em isolamento digital aleatório, sem o enquadramento comentado de quem punha música nos velhos tempos da rádio. A produção de canções de alto nível tornou-se despersonalizada, com batidas inventadas por ases do digital, coladas a letras atiradas ao acaso - um artefacto construído numa linha de montagem, que depois cai nos braços de um vocalista, estrela do sistema. A ligação artística e integral de música e letra está a enfraquecer. Há uma solução, talvez a única: a imersão na poesia perdida da música.

Camile Paglia, Professora de Humanidades e Estudos dos Media na University of Arts, em Filadélfia, A arte das letras de canções, in Provocações, Relógio d'Água, 2019, pp.26-34.

P.S.: Penso que, adaptado à idade, era preferível uma coisa destas do que a Educação Musical escolar que tivemos. Hoje, ainda mais, no tempo da internet.

Rap


Para o David:

No final dos anos 70, tinham criado o rap (influenciado pelo «toasting» jamaicano) no Bronx. Existiam há muito elementos do rap na cultura afro-americana, em que a fala rítmica, enquanto performance, era gravada já nos anos 20 e provavelmente tinha antecedentes nas recitações dos griots africanos (bardos tribais).
O rap espalhou-se globalmente nos finais do século XX, sob a rubrica geral de hip-hop, dominando agora as vendas na indústria musical. Ajudou a inspirar o movimento da poesia slam, que começou em Chicago, em meados dos anos 80, e se expandiu para todo o território dos EUA nos anos 90. O rap, como forma encantatória, improvisada, descende dos «dozens» ou «snaps», um jogo afro-americano que envolvia uma escalada verbal (de insultos) até um dos jogadores desistir, com a assistência a acicatar os contendores para que continuassem. A cadência rápida e as rimas internas saltitantes possuem uma enorme vitalidade de propulsão. Enquanto estilo artístico, o rap é energético e confrontativo, mais do que contemplativo ou autoanalítico. A voz é de tal forma feita arma que a admissão de medos, dúvidas ou ambiguidades pode ser difícil. Os temas são por vezes dispersivos e pouco desenvolvidos. No entanto, a canalização improvisada da fala coloquial no rap é tão robusta e dinâmica que faz a poesia americana e britânica contemporânea parecer afectada, bolorenta e fechada em si mesma.

Camile Paglia, A arte das letras de canções, in Provocações, Relógio d'Água, 2019, p.34.

«Desolation Row»



Para Camile Paglia, esta canção, Desolation Row (do álbum Highway 61 Revisited), é a obra-prima de Bob Dylan, sendo que a letra "é o poema mais importante de língua inglesa depois de Howl (Uivo) de Allen Ginsberg (que influenciou o poema de Dylan) e que é muito maior do que qualquer coisa produzida desde então pelos poetas oficiais, canonizados pela instituição da crítica americana e britânica" (p.31). E porquê? Trata-se, nos seus mais de onze minutos, um poema que ocupa quatro páginas impressas, de "uma ambição épica", com "cenários ousados" e um "pormenor emocionalmente convincente", uma "proeza espantosa, com toda a paixão e visão que falta aos escritores da actualidade em quase todos os géneros". O que se detecta em «Desolation Row» é "o surrealismo alucinatório de Rimbaud, fundindo a visão da civilização ocidental do Waste Land de T.S. Elliot com as mitologias cómicas e arquetípicas do Ulisses de James Joyce. A Bíblia, a história romana, contos de fadas, Shakespeare e filmes de Hollywood passam por este poema"(p.32). Depois, "cada terceto (...) expõe as mentiras, limitações, crueldades ou danos colaterais em diferentes sectores da sociedade: política, manutenção da ordem e injustiça racial; heterossexualidade (...); religião; ciência; psiquiatria; o teatro legítimo; carreirismo empresarial; universidades e departamentos de Inglês. Desolation Row é um estado de espírito, um posicionar-se à margem, onde o artista se identifica, tal como os românticos, com os desapossados, os marginalizados e os falhados"(p.32). 
Um dos dados mais interessantes destas apreciações é que elas surgem em Salon.com, a 31 de Março de 2016, meio ano antes de sabermos que Dylan era Nobel da Literatura. O breve ensaio em que tais observações se podem encontrar, "A arte das letras de canções",  faz parte do volume Provocações (que a Relógio d'Água deu agora à estampa, com tradução de Helena Topa).

Contra a reescrita da história



Um Luís Freitas Lobo vintage, para recordar esta semana. Coragem, clareza, lucidez e verdade.

A ADOLESCÊNCIA REVISITADA


Procuro as últimas sobre a (biologia/neurociência da) adolescência, em Robert M.SapolskyComportamento (Temas e Debates, 2018) e começo por me deparar com uma conclusão que ratifica o que havíamos lido no mais recente livro de Daniel Sampaio sobre o assunto: "a maioria de nós passa por ela sem grandes problemas"(p.198).
A adolescência não é, garante o Professor de Biologia e Neurologia na Universidade de Stanford, uma invenção do Ocidente (moderno): por um lado, a neurobiologia sugere, mesmo, a existência de um período específico do humano (a que chamamos adolescência); por outro, a maioria das culturas tradicionais reconhece a adolescência como algo - um período da existência - distinto.
Significa isto que não há nenhuma especificidade ocidental(moderna) no encontro com a adolescência? Em realidade, o que distingue a abordagem ocidental da adolescência são dois traços essenciais: i) o mais longo período da adolescência encontra-se aqui (no Ocidente); ii) e sociedades individualistas, como as ocidentais, erigiram a adolescência em chave de choque de gerações (o que se não verifica em sociedades colectivistas).
O córtex central não se encontra completamente conectado antes dos vinte e poucos anos. E é por isso que, segundo o investigador, que é na adolescência e no início da vida adulta - quando se dá a máxima atracção ao risco, busca de novidades e afiliação com outros iguais - que se tem a maior probabilidade de: matar, ser morto, sair de casa para sempre, inventar uma nova forma de arte, ajudar a derrubar um ditador, fazer limpeza étnica num vilarejo, devotar-se aos necessitados, tornar-se um viciado, casar-se com alguém fora do grupo, transformar a física, ter um gosto terrível para a moda, partir o pescoço num desporto, dedicar a sua vida a Deus, roubar uma velhinha. "Tudo isso por causa de um córtex frontal imaturo", isto é, os adolescentes, ao nível cerebral, activam o córtex pré-frontal em menor grau que os adultos; menor actividade, pior avaliação de riscos (pp.197 e 203). Quando olhamos para cada uma das acções vindas de descrever, no período de vida em análise, temos, portanto, como que uma indicação de que se não trata, apenas, em cada caso, de uma sabedoria ou uma canalhice; à boa maneira do tempo em que vivemos, há uma ancoragem biológica - e, certamente, uma extensa amostra estatística - para nos permitir observar o humano à luz do seu cérebro (e de acções/decisões, portanto, condicionadas, mesmo que aqui não se negue a humana liberdade)
Segundo Sapolsky, os adolescentes não possuem a mesma habilidade dos adultos para detectar ironias - caso para perguntar, por estes dias tão pouco subtis, se, de facto, muitos adultos não estão a transformar-se em adolescentes. Durante a adolescência, há um aperfeiçoamento constante da memória de trabalho, do uso flexível de regras, da organização executiva e da regulação inibitória frontal (por exemplo, alternância de tarefas), bem como nas tarefas de mentalização (compreender a perspectiva de outra pessoa - a aparência de um objecto a do ponto de vista de outra pessoa; ainda que os adolescentes, ao contrário dos adultos, continuem a ser melhores a assumir a perspectiva da primeira pessoa do que a da terceira). Com excepção do facto de o pico de massa cinzenta cortical frontal surgir primeiro nas raparigas, não há diferenças significativas entre os sexos no percurso do desenvolvimento do cérebro adolescente.
O livro de Sapolsky, confirma, cientificamente, o que todos os que passámos pelo período adolescente sabíamos: "adolescentes mais velhos experimentam as emoções de forma mais intensa que as crianças e os adultos" (p.202). Isto tem consequências muito práticas: "tire-se uma nota baixa numa prova e logo ocorre uma inclinação emocional em direcção a «sou burro» (a reavaliação pode levá-lo a concluir que esteve com gripe, ou não estudou o suficiente, "em vez de um consequência da sua incorrigível natureza", p.202).
De modo oposto a este, e como demonstrado experimentalmente, questionados voluntários adultos e adolescentes sobre a probabilidade que estimam existir de vencerem a lotaria ou de se morrer), temos que os adolescentes e os adultos convergem na internalização da informação positiva, mas ignoram as informações negativas: "acabámos de explicar por que razão as taxas de jogadores patológicos entre adolescentes são de duas a quatro vezes mais altas que entre adultos. Portanto, os adolescentes tomam atitudes mais temerárias e são péssimos na avaliação dos riscos" (p.204). Não é que os adolescentes não queiram evitar atitudes de risco; é que os adultos contêm-se melhor por causa da maturidade cortical frontal. Na adolescência, há uma procura por novidades - predilecções e fixação de gostos na música, comida, moda, abertura a novas experiências - que no futuro - noutras etapas da vida - irá declinar (em boa parte dos indivíduos). Esta busca de novidades na adolescência dá-se também entre os roedores, sendo intensa nos primatas. 
O que se demonstra, igualmente, de modo experimental, é a vulnerabilidade dos adolescentes à pressão dos amigos (p.207). Porquê esta pressão? Os adolescentes são mais sociais e têm relações mais complexas do que crianças ou adultos. Há uma necessidade desesperada de pertencer ao grupo. Aumenta a probabilidade de violência, uso de drogas, crime, sexo sem protecção, maus hábitos de saúde (p.208). A rejeição dói mais nos adolescentes. Os julgamentos morais dos adolescentes não atingiram ainda os níveis dos adultos. Em vez das decisões igualitárias das crianças, passam a tomar decisões meritocráticas. Se distinguirmos entre simpatia e empatia, entre sofrer por alguém que está sofrendo e sentir como essa pessoa, então diremos que "os adolescentes são especialistas nessa última, na qual a intensidade de se sentir como o outro pode levar quase a ser o outro (p.212). A recompensa dos que crêem no livre-arbítrio não deixa aqui de ser chamada, quando pensamos que existindo, ontem como hoje, aqueles que com a dor do outro se identificam - na adolescência, que é disso que aqui se cura -, muitos são também os que assim não fazem/agem/sentem (o determinismo cerebral tem os seus limites). 
Os genes ou a cultura, afinal e em definitivo? "Por ser o último a amadurecer, o córtex frontal, por definição, é a região cerebral menos limitada pelos genes e mais esculpida pela experiência. Tinha de ser assim, para que fôssemos essa espécie social tão absurdamente complexa que somos. De maneira irónica, tudo indica que o programa genético do desenvolvimento cerebral humano evoluiu para, tanto quanto possível, libertar dos genes o córtex frontal" (p.217).
Os indivíduos que sentem mais intensamente o(s) problema(s) do outro têm menos probabilidade de tomar uma atitude pró-social (p.213). O período entre o final da adolescência e o início da idade adulta representa o pico da violência. 

Um lugar seguro e sereno na segunda metade de Agosto



Ao fim da tarde, ouvimos, sobretudo, Bach, nos XXIX Encontros Internacionais de Música da Casa de Mateus, em boa hora recuperados, no ano transacto. Alunos e professores juntos, com cravo, violino, oboé, flauta de bisel e belas vozes em um concerto de cerca de 1h20, na Igreja de Mateus.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

O ponto


Recordo o ponto: o pressuposto dos programas eleitorais de PSD e PS é como utilizar (gastar) o excedente orçamental (?). Como se percebe, e entre outros, com a Alemanha à beira da recessão, vem aí mais complicações económicas também para nós. Ou seja, chega-se ao dia das eleições legislativas e, muito provavelmente, os programas já estarão desactualizados.

Cartaz de um ano letivo


Leio algures que em Escolas de Verão, universitárias, nos EUA, a ideia, concretizada, passa por levar à sala de aula - discutindo com os alunos - aqueles que são mais qualificados, os melhores, de diferentes áreas (de atividade/interesse), para falarem acerca de um (dado) tema. Ao longo do ano, e este não podia ter concluído melhor, procuro, um pouco, essa antecipação ao tempo académico seguinte (na vida dos discentes). 
Estudam em Filosofia, no 10º ano, o tema do Relativismo Ético e Cultural. Pelo crivo do Direito, em sociedades plurais e complexas, a ponderação de valores, em casos concretos, como o que tinha posto um país a discutir o caso da menina de etnia cigana autorizada a sair da escola bem antes de completar a escolaridade obrigatória, tem que realizar-se. 
Foi muito boa a apresentação da matéria, e o lançamento de tópicos para o debate subsequente, pela Rafaela. E foi óptima a exposição e a presença do Luís, Procurador do MP, e seguramente um dos nossos melhores. 

Mecenas


O riquíssimo romano Caio Clínio Mecenas, que, sendo amigo chegado do imperador Augusto, se veio a tornar grande e generoso patrono das letras latinas: Virgílio, grato, dedicar-lhe-ia as Geórgicas e Horácio consagrar-lhe-ia os três primeiros livros das Odes. Mecenas não se limitou a proteger ou patrocinar as belas letras, também as praticou. Mas, como notam ironicamente os seus biógrafos, foi melhor a protegê-las do que a praticá-las. Homem generoso (os biógrafos mencionam a sua candura, simplicidade, calor e afeto), Mecenas não se avinagrou por não ser tão bom como Virgílio nem tão fino como Horácio. Se não era capaz de fazer boa literatura - Augusto e o implacável Séneca far-lho-iam sentir -, pelo menos era capaz de amá-la e de acarinhá-la com os recursos da sua imensa fortuna. (...) Foi digno, em suma, de que o seu nome próprio ascendesse à suprema dignidade de se transformar num substantivo comum: um mecenas passou a ser qualquer devotado patrocinador das artes ou das ciências ou simplesmente do bem comum seja de que forma for

Eugénio Lisboa, Da difícil arte de ser rico, in Uma conversa silenciosa, Imprensa Nacional, 2019, p.36.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O AMOR PELOS LIVROS


Há 4000 ou 5000 anos que os livros existem, de um formato ou de outro e feitos de um material ou de outro. Há quem diga que o mais antigo papiro apareceu 3000 anos antes de Cristo, no Egipto, feito a partir da planta com esse nome, que se criava, livremente, à beira do Nilo. Diz-se também, com aquela margem de reserva que, nestas coisas, deve ser de regra, que os primeiros editores de livros foram os gatos-pingados egípcios, que faziam e colocavam o Livro dos Mortos junto aos túmulos dos que se finavam, para que lhes servissem de Manual de Conduta no Além. Como já então se morria muito - havia menos gente mas, em comparação, morria-se mais cedo - é de presumir que o Livro dos Mortos tenha beneficiado de confortáveis tiragens: sabido como é que o mal de uns é, tantas vezes, a fortuna de outros
O livro foi-se tornando. cada vez mais, ao longo dos séculos, mais do que um instrumento de preservação e transmissão do saber - útil, portanto, e até indispensável -, um verdadeiro amigo do homem que se habituou a viver e a dialogar com ele, dedicando-lhe o amor e a confiança que por vezes julgava ter que retirar aos seus semelhantes. Há toda uma literatura altamente expressiva do amor exaltado que o homem vem tendo pelo livro. (...)
O primeiro tem que ver com o famoso - e sempre delicioso - autor dos Ensaios, Michel de Montaigne, a quem um dia perguntaram: «Se tivesse que escolher, queimaria os seus filhos ou queimaria os seus livros?». Montaigne, que escreveu os seus notórios Ensaios com o firme propósito de nunca faltar à verdade, por mais chocante que esta aparentasse ser, respondeu, sem hesitar que queimaria os filhos (Asimov, 1981, p.277). O outro exemplo tem que ver com o conhecido poeta, dramaturgo e actor inglês, Ben Jonson, o qual, um dia, em duelo, matou outro actor. Foi julgado e defendeu-se, com êxito - foi absolvido - reivindicando o chamado «direito do clero», isto é: sabia ler e escrever, o que era, pelos vistos, suficiente para ser absolvido (Asimov, 1981, p.283). Suponho que um significativo número de alunos do nosso actual sistema educativo não estaria em situação de beneficiar deste consolador recurso. (...)
Seja como for, este amor pelos livros - lê-los mas também tê-los, colecioná-los - pode exaltar-se até ao extremo de, quando não há dinheiro, roubá-los. Há várias formas de roubo: o roubo propriamente dito e a não devolução. Anatole France tinha, na sua famosa Villa Said, em Paris, uma fenomenal e apetecida biblioteca, que amou pelo menos tanto como amou as mulheres que, nos seus romances, imortalizou. Mas aos visitantes que se extasiavam diante daquele monumental acervo, o autor de Le Lys rouge, ia avisando: que nunca emprestassem livros a ninguém, porque as pessoas tinham o mau hábito de não os devolver: ele sabia do que estava a falar porque a sua imensa biblioteca era feita, em grande parte, de livros que lhe tinham sido emprestados e que ele não devolvera....
O desejo - quase erótico - de possuir livros, de possuir certos livros, tem levado as criaturas mais improváveis a cometer os actos mais inconcebíveis. Don Vicente, um frade e erudito espanhol, no século XIX, matou 5 ou 6 coleccionadores de alfarrábios, para conseguir chegar à posse de um determinado livro raro (Hendrickson, 1982, p.235). Um outro notório ladrão de livros foi um senhor que depois veio a ser o Papa Inocêncio X. Antes de ter ascendido ao supremo sacerdócio, foi apanhado em flagrante delito de fazer mão baixa no livro Histoire du Concile de Trente, que se encontrava no estúdio de um pintor, em Paris, durante uma visita a este feita por um grupo de religiosos. (...) (Hendrickson, 1982, p.236).
Ainda um caso extraordinário de como o excessivo amor aos livros pode levar à astuta escolha de uma profissão que facilite o furto propiciador: Giugliemo Bruto Icilio Timoleone, Conde Libri-Carucci della Sommaia, nascido em Florença, de uma nobre família toscana, catedrático de Matemática e perito em leis, teve uma vida agitada que o levou, eventualmente, ou antes, deliberadamente, a ser nomeado Inspector-Geral das Bibliotecas, em França, no reinado de Luís Filipe. Como tinha um amor inveterado a livros raros, o cargo de Inspector-Geral de Biblioteca facilitou-lhe enormemente a satisfação do vício: nas bibliotecas que inspeccionou, fez verdadeiras razias, que lhe permitiram encher as prateleiras de casa, até ao tecto, de espécies avaliadas em centenas de milhares de euros, na moeda actual (Hendrickson, 1982, p.236). (...)
Um modo bizarro que se achou de valorizar um livro, no século XIX, foi este: a amante do ficcionista popular, Eugéne Sue, autor celebrado de Os Mistérios de Paris, O Judeu Errante e de Os Sete Pecados Capitais, deixou instruções, no seu testamento, para que um conjunto de livros do seu amado fossem encadernados com a pele dela. Isto foi cumprido e ainda em data relativamente recente - 1951 - Os Mistérios de Paris, encadernados com a pele dos ombros da amante de E.Sue, foram vendidos em Londres, na gigantesca Livraria Foyle's pela quantia de...29 dólares! (Hendrickson, 1982, p.238). Foi o caso de ter saído o tiro pela culatra. Enfim, a intenção era boa...Outro caso - que pertence já ao domínio do humor negro - aconteceu, também em França, quando um editor produziu uma edição do Contrato Social, de Rousseau, encadernada com as peles dos aristocratas guilhotinados durante o Terror. Ao que se chega, na busca do raro! (Hendrickson, 1982, p.238).


Eugénio Lisboa, Não matem o editor: ele está a fazer o melhor que sabe, in Conversa Silenciosa, Imprensa Nacional, 2019, pp.47-51.

História dos livros


Na antiga Grécia, os livros eram copiados à mão por indivíduos ou pelos seus escravos e, segundo boas fontes, cerca do século V antes de Cristo, «um pequeno público leitor começava a desenvolver-se e era troçado por Aristófanes que os qualificava de 'intelectuais'. O poeta grego, Luciano, não poupava às suas chufas, nem os editores nem os seus clientes, a quem considerava - uns e outros - 'ignorantes'» (Unwin, 1981, p.223). 
Em Roma, a edição de livros (feitos, de início, de casca de árvore, de aí o nome de liber) só começa a aparecer no século III antes de Cristo e, por volta do século II a.C. Titus Pomponius Atticus, que foi editor de Cícero, era um profissional do ramo bem estabelecido, empregando um grande número de escravos bem treinados na produção de livros. As tiragens de cada edição andavam entre os 500 e os 1000 exemplares, não sendo raro que sobrassem, ainda assim, bastantes unidades não vendidas, que se usavam como papel de embrulho (visto que os livros tinham o formato de rolos de papiro).
De acordo com o filósofo e dramaturgo Séneca, já no século I d.C., uma biblioteca era considerada, numa casa, tão essencial como uma casa de banho. Já nessa altura, eram conhecidos alguns dos inimigos dos livros que ainda hoje afligem os humanos: censura, plágio e pirataria (Unwin, 1981, p.223).

Eugénio Lisboa, Não matem o editor: ele está a fazer o melhor que sabe, in Conversas Silenciosas, Imprensa Nacional, 2019, p.53.

Editores


Para se entender até que extremos pode ir a bonomia e o fair-play, não resisto a transcrever aqui uma «nota do editor» de que o mesmo Bennett Cerf fez preceder um livro de Gertrude Stein - que publicou! O livro intitulava-se The Geographical History of America or the Relations of Human Nature to the Human Mind e a nota prefacial dizia isto:

«Este espaço é habitualmente reservado para uma breve descrição do conteúdo do livro. Neste caso, contudo, tenho que admitir, com toda a franqueza, que não sei de que é que Miss Stein está a falar. Nem sequer compreendo o título.
Admiro Miss Stein tremendamente e gosto de lhe publicar os livros, embora, a maior parte do tempo, não faça a mínima ideia daquilo que ela está a dizer. Miss Stein diz-me que a razão disso é eu ser obtuso. Observo ainda que um dos meus sócios e eu próprio somos personagens nesta última obra de Miss Stein. Ambos gostaríamos de saber o que ela diz de nós. Ambos esperamos que os seus fiéis admiradores encontrem no seu livro mais sentido do que aquele que nós somos capazes de lhe encontrar» (Hendrickson, 1990a, p.210).

Pois, repito, o livro foi publicado, apesar de levar esta nota prefacial. Se há editores que merecem ou mereceram a canonização, Bennet Cerf foi um deles.


Eugénio Lisboa, Não matem o editor: ele está a fazer o melhor que sabe, in Conversa silenciosa, Imprensa Nacional, 2019, pp.56-57.

domingo, 18 de agosto de 2019

Críticos (definitivos)


Diz-se que poucos críticos foram tão imoderados como o dadaísta Jacques Vaché, que subiu ao palco de um teatro parisiense, puxou de um revólver e ameaçou disparar contra alguém que se atrevesse a aplaudir a peça. (...) E, já mais próximo de nós, um crítico acerbo e ressentido (...) odiou de tal forma a obra-prima de Thomas Hardy, Jude The Obscure, que queimou um exemplar do romance e enviou as cinzas ao autor...

Eugénio Lisboa, Criticar os críticos, in Conversa Infinita, Imprensa Nacional, 2019, pp.41-45.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Aproveitar


Um caso extremo de «aproveitamento» [do tempo] é o do chanceler D'Aguesseau, o qual, a certa altura da vida, notou que a sua mulher chegava invariavelmente atrasada ao jantar. E verificou mais: que esse atraso era, rigorosamente e regularmente, de dez minutos. Aproveitando esses dez minutos diários, D'Aguesseau escreveu, em pouco mais de um ano, um livro, em três volumes, que veio a tornar-se, em 1668, um best-seller.

Eugénio Lisboa, Conversa silenciosa, Imprensa Nacional, 2019, pp. 259-260.

Mármore


BENE VIXIT QUI BENE LATUIT (VIVEU BEM QUEM BEM SE ESCONDEU)

Palavras de Ovídio gravadas no túmulo de Descartes

Crepúsculo (VII)


Resultado de imagem para o grito de edvard munch

A geração alemã instruída, entre os 20 e os 30 anos, passa toda pela leitura do professor de Filologia e a este deve a sua cosmovisãoem 1893, a obra de Nietzsche espalha-se entre a vanguarda artística tanto de Berlim (por exemplo, o círculo boémio «Leitão preto», de Strindberg, mas também de Edward Munch; o primeiro apresenta a obra de Nietzsche ao segundo que fica tão impressionado que pintou O grito que captou, como nenhuma outra obra, o Zeitgeist: Munch produzia o símbolo definitivo do terror existencial ao contemplar as consequências da "morte de Deus"), como de Paris, "com amplos efeitos na pintura, na dramaturgia, na poesia e na música" (p.418). Strindberg escreve a peça Menina Júlia, que passa a ser a peça mais proibida na Europa e nos EUA (nisso substituindo Gengagere - Espectros - de Ibsen). Lou Salomé também contribuiu para a notoriedade de Nietzsche

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Crepúsculo (VI)


Nietzsche "descreveu o homem como «o animal doente» porque tem tudo e, no entanto, está infectado com uma necessidade insaciável do metafísico que nunca pode ser saciada" (Sue Prideaux, Eu sou dinamite!, 2019, p.445)  

LIVROS


Livros. Tenho muitos, mas não tenho que cheguem. Nunca se tem o suficiente. (...)
O drama do devorador de livros não é ter mais olhos do que barriga - é ter mais livros do que espaço para eles. (...) Continuo a comprar, com alguma angústia e não pequena alegria, inventando pretextos para adquirir livros que já não vou ter vida para ler, ou edições diferentes de outros que já li várias vezes. (...) 
Os livros não me deram tudo na vida, mas deram-me uma parte importante desse tudo. Nem toda a gente pensa do mesmo modo, no capítulo dos livros. O grande poeta inglês, Philip Larkin, recentemente falecido, tinha, talvez por ser bibliotecário e estar saturado de papel impresso, um grande desprezo pelos livros. Costumava dizer:«Os livros são um monte de merda». No polo oposto, o conhecido e furioso melómano, Bernard Levin, afirmava, para quem o queria ouvir, que a palavra «livro» é «o som mais nobre que o homem até hoje emitiu». Eu acho que a verdade deve estar entre estes dois extremos, mas muito mais chegada a Levin do que a Larkin. 
Confesso que, às vezes, tenho a suspeita de que compro um ou outro livro como uma espécie de substituto moral para a leitura que não vou ter tempo de fazer. Já que o não leio, tenho-o
Mas leio o meu bom bocado e ainda hoje há poucos prazeres tão deliciosos como a leitura. Um bom filme, uma boa peça de teatro, um concerto, o amor? Não sei...
Em todo o caso, há uma felicidade que fui perdendo aos poucos: ler na cama. «Dai-me uma cama e um livro e serei um homem feliz», afirmou o escritor Logan Pearsall Smith, ecoando o pensamento de tantos. (...)
Mas já à saída [um visitante da casa do autor], observou, em ar de advertência: «Note-se que, no ler, já existe um começo de perigo...". Consolei-me, pensando que a polícia italiana, em certa altura da primeira metade do século XIX, pusera o cônsul francês, em Civitavecchia, na lista dos suspeitos, por ser visto, com demasiada frequência, a comprar livros. Parceiros de infortúnio...Ah, quase me esquecia de dizer que o dito cônsul se chamava Henry Beyle e que escrevia romances sob o pseudónimo de Stendhal. Ser suspeito, na companhia do criador da Senhora de Rênal, é privilégio de que não abdico. 

Eugénio Lisboa, Livros: tê-los, lê-los, amá-los, in Conversa Silenciosa, Imprensa Nacional, 2019, pp.21-25.

SINDICATOS, GREVES, EQUILÍBRIOS


No passado, é bom recordá-lo, as greves foram muitas vezes necessárias, um pouco por todo o lado, para se alcançarem direitos e regalias que hoje consideramos adquiridos e absolutamente normais, como o de ter dois dias de descanso semanal, a obrigatoriedade de usufruir de um número mínimo de dias de férias remuneradas, além de uma melhoria geral das condições de emprego, de acesso a serviços de saúde e tudo aquilo que, em termos laborais, faz da Europa o lugar mais civilizado do mundo para trabalhar
Muita da nossa qualidade de vida actual é devedora daquilo que, no passado, alguns ousaram exigir como sendo justo, sem receio de iniciar processos reivindicativos por vezes longos e dolorosos. Embora, ao longo dos tempos, tenhamos assistido também à eclosão de muitos processos com base em reivindicações absurdas, algumas até mesmo retrógradas e puramente corporativas, não há grandes dúvidas em como tudo seria pior se não existisse esta "liberdade de confronto" entre trabalhadores e patrões
Steve Greenhouse, um antigo e respeitado jornalista do New York Times, que durante duas décadas cobriu o mundo do trabalho nos EUA, acaba de lançar um livro - Beaten Down, Worked Up - em que conta a história do sindicalismo americano e elogia a necessidade de existir um equilíbrio dinâmico nas relações laborais. Para ele, baseado num vasto conjunto de dados e em muitas entrevistas, é fundamental que as administrações das empresas sintam a vigilância e a exigência dos sindicatos e das associações de trabalhadores, para melhorarem as condições de trabalho, investirem mais em formação e, por via disso, aumentarem a competitividade das suas organizações. "Os sindicatos, e a sua capacidade de ter uma voz poderosa e colectiva para os trabalhadores, desempenharam um papel muito importante na criação da maior e da mais rica classe média do mundo", escreve Greenhouse.
Uma grande parte da força da indústria alemã reside na forma como soube, há muito, acolher os representantes sindicais dos trabalhadores nos centros de decisão, construindo um clima de paz social que promove a produtividade, a integração e a valorização profissional - embora também com os seus inevitáveis movimentos grevistas, sempre que a corda estica demais

Rui Tavares Guedes, Falta de equilíbrio, Visão nº1380, de 15-08 a 21-08-2019, p.10.

HUMANIDADES


Para quê a literatura? De que serve? Para quê a História, a Arte, a Filosofia? (...)
É tudo submetido a um critério economicista que rejeita vigorosamente o «desperdício» e a aparente inutilidade do lazer, da «arte» e da «cultura». Há que «planear», «orientar», «organizar», «medir», «avaliar». O lazer, o divagar, o viver cinco, dez anos teimosos a ruminar uma ideia ou uma hipótese que pode eventualmente não «resultar» - é anátema
Einstein «desperdiçou» os seus últimos trinta anos a ruminar obstinadamente uma ideia que não «deu», mas, num único ano - 1905 - produziu quatro papers que revolucionaram a ciência moderna. Não ganhou com isso o direito de «gastar» o resto da vida perseguindo, sem ser chateado pelos contabilistas do talento, as ideias que melhor lhe parecessem, mesmo que se revelassem infrutíferas? Princeton, na América, deu-lhe esse direito ao «desperdício», que os «organizadores», hoje à solta por todo o lado, parece não prezarem por aí além...
Foi o fundamentalismo da investigação exclusivamente «orientada» - para objectivo previamente definidos pelas empresas - que ia dando cabo da investigação científica nos Estados Unidos. E foi a clarividência de empresas como a Bell - não se importando de valorizar o tempo desperdiçado em «divagações» pelos seus cientistas - que finalmente a salvou. As grandes descobertas da ciência não se fizeram quase nunca por cientistas correctamente arregimentados e bem vigiados por burocratas e «organizadores» que sabem «melhor» como se deve proceder. Para esse organization men, Einstein e Newton não passariam de bloody wasters com algum génio, sim, mas sem o sentido da produtividade e do bom aproveitamento que a disciplina da empresa exige e promove. 
Compreende-se cada vez menos que as grandes ideias exigem disponibilidade de tempo, teimosia e o direito ao fracasso, isto é, à eventualidade de maus resultados que podem ser apenas o prefácio de grandes triunfos. O mesmo Newton que não descobriu a pedra filosofal e perdeu tempo com ocultismos e alquimias de carregar pela boca, foi, como físico e astrónomo, o maior inovador que o mundo já viu. Uma coisa deve fazer esquecer a outra e não precisamos, para coisa nenhuma, dos contabilistas do tempo desperdiçado. (...)
Durante anos, o responsável pela empresa (uma empresa importante, de dimensão internacional) bateu com a cabeça nas paredes, tentando perceber o que se passava: que faltaria aos «seus» engenheiros que lhes não permitia chegar ao topo [da sua empresa]? Que não tinham eles - que deviam ter - para se tornarem managing directors?  Até que, ao fim de alguns anos a magicar no problema, fez-se-lhe luz: o que lhes faltava era, muito simplesmente, um bom bocado de «cultura geral». Custara-lhe chegar a uma conclusão que agora o ofuscava, pela sua evidência, mas não tinha agora dúvidas: «aquilo» que a cultura geral dá - uma maior abertura de espírito, uma visão alargada dos comportamentos humanos, da complexidade do ser humano, da beleza, do conhecimento e do seu valor, dos incentivos que o homem valoriza, da complexidade dos relacionamentos, do apreço pelo prazer que a música e a literatura e a arte dão, para além do que ensinam, a descoberta de que «os escritores transformam os factos que o mundo produz - pessoas, lugares, objectos - em experiências que sugerem significados» [Michel Meyer] - tudo isso dá a quem o «possui» um maior à vontade, uma maior fluência no comércio de todos os dias com os outros, seja no âmbito privado, seja no âmbito profissional. (...) Num momento em que o número de alunos encolhe, a melhor maneira de «aproveitar» o corpo docente das humanidades é saber reconhecer que ele pode ser utilizado - e de modo radicalmente importante - a ensinar algo de fundamental aos alunos de física, de química, de engenharia, de...economia. (...)
A proposta que aqui faço nada tem de utópico. É, bem pelo contrário, escandaloso que nada disto seja hoje parte rotineira da estrutura do ensino universitário. 

Eugénio Lisboa, O fim das humanidades?, in Uma conversa silenciosa, Imprensa Nacional, 2019, pp.27-33.