terça-feira, 10 de setembro de 2019

Bons auspícios



1.Foi no final dos anos 90 que chegou até nós o rap, sob uma vaga de hip hop que notámos nos liceus. Principiara nos anos 70, no Bronx, descendendo dos «dozens» ou «snaps», isto é, de um jogo afro-americano que envolvia uma escalada verbal (de insultos) até um dos jogadores desistir, com a assistência a acicatar os contendores para que continuassem – um jogo, aliás, que ainda podemos encontrar nas nossas cidades e em transmissões nas redes sociais. Ao estranhamento inicial, às dúvidas sobre a transposição cultural em ambientes muito diversos do original – e recordo como falhou, à época, a nível local, um parque radical, consideravelmente oneroso, em Codessais, e que continha uma espécie de cenarização que subjazia a uma certa ecologia (na qual aquela música cabia também), com os seus skates e grafiti, os bonés virados do avesso, que transpareciam nos videoclips -, sucedeu a constatação de uma forma cuja apropriação encontra, no tempo horizontal e despojado em que nos movemos, um eco vibrante, em especial, mas não apenas, junto das gerações mais jovens.

2.Camile Paglia, a conhecida e heterodoxa Professora de Humanidades na University of Arts, de Filadélfia, nota, em Provocações (Relógio d’Água, 2019), como a “cadência rápida e as rimas internas saltitantes possuem uma enorme vitalidade de propulsão. Enquanto estilo artístico, o rap é energético e confrontativo, mais do que contemplativo ou autoanalítico”. Mais ousado ainda, aquela que meio antes da decisão de atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan escrevera, em Salon.com, que uma canção de Dylan, “Desolation Row”, “é muito maior do que qualquer coisa produzida desde então pelos poetas oficiais, canonizados pela instituição da crítica americana e britânica”, é igualmente contundente na apreciação do género rap quando este se confronta com a poesia anglo-americana contemporânea: “a canalização improvisada da fala coloquial no rap é tão robusta e dinâmica que faz a poesia americana e britânica contemporânea parecer afectada, bolorenta e fechada em si mesma”.

3.Escuto repetidas vezes as canções, leio atentamente as letras do álbum que o vila-realense David Ramos lançou, em concerto vívido e vivido, a 8 de Setembro no Teatro de Vila Real. Creio que, transversalmente, o sujeito poético – se quisermos, o Smith invisível de que fala, com graça, David Ramos numa das suas canções, num jogo de trocadilhos que reclama do leitor aquele mínimo de cultura geral para perceber a mão que embala a canção -, para me ater, aqui, à dimensão ética das canções de “Ónus da Prova”, ou seja, ao seu conteúdo, sublinha a ideia de uma espécie de redenção existencial – por exemplo, “o passado apaguei-o/a tristeza já vai longe”, na canção “Deixa-me viver”; “quando a vida duvidou/nunca nos dividimos”, em “Tásse Bem”; “minha maior vitória/são as falhas do que fui”, em “Processo”, “Lágrimas que não choraste/Por todas as derrotas/histórias que não rasgaste”, em “Essa vida” -, sendo que a ênfase na importância dos tropeços ou das quedas surge como que em pano de fundo de uma sabedoria já experimentada – “é nos erros que eu acerto”, em “Deixa-me viver”, por exemplo – vem acompanhada quer da recusa da autocomplacência – “Ia subir a escala/sem precisar de dó”, em “Não vale a pena”; “é com berros que eu desperto”, em “Deixa-me viver” ou “instinto suicida é fraqueza/não coragem”, em “Essa vida”, quer da reclamação de valores meritocráticos e de autenticidade.
Se, contrariando aqui, neste álbum, se bem interpreto, a asserção de ausência contemplativa e auto-analítica no rap (a que aludia Paglia), no que podemos observar enquanto dimensão auto-biográfica – o mundo do Direito, “a doutrina”, casada com as rimas e a batida que rouba horas de sono, em “perfeita comunhão”, em mais uma tirada que não podemos ler sem nela detectar alguma ironia, pelos inevitáveis cansaços da conjugação de todos os mundos a que o autor se dedica intensamente -, se a ideia de que “nada cai do Céu” como afirma noutra canção e se a palavra “suor”, utilizada na primeira pessoa, sai repetidamente da sua verve, bem como a dedicação e o amor ao rap, em elegia permanente, “como é que isto não é vida/se eu dou a vida por isto?”, em “Deixa-me viver” – eu escolheria, em todo o caso, os seguintes versos, como contendo uma concentração muito conseguida, e com uma imagem forte, daquilo que partindo da memória da avó desaparecida, e iniciando com recurso ao vocativo, pode funcionar como uma gramática geracional, como breve mas marcante hino de todos os que passámos, não sem ansiedades e angústias, por esta etapa: “’Vó,‘vó: Não estou pronto para ter tanto/peso nos meus ombros/como os escombros desse muro/que divide a liberdade/numa ânsia de futuro”.
Há um muro a entrepor-se entre a liberdade e o (ou a ânsia do) futuro – o autor pede desculpa se falhou aos que o esperavam, mas teve que agarrar-se aos estudos e aos estúdios. Não deu para todos os cantos nocturnos. O futuro inevitavelmente gritado como brilhante a quem está na curva dos vintes – uma «idade entre» - é um peso tal que é como que contenha os escombros de um muro. Não um (muro) qualquer, mas o que dilacera, se quisermos, entre a satisfação do desejo e o diferimento do prazer – com a necessidade de ambos. E, não por acaso, o vocábulo “rotina” é reiterado, e visto com e como “algema” pelo sujeito poético, uma espécie de Sísifo agrilhoado a cada frequência, a cada exame, a cada oral, da qual sai, pois, claro, com sede de sentido (“gritar liberdade/se a rotina me algema”, promete o autor em “Não vale a pena”). Escreve David Ramos, de novo em “Não vale a pena”: “Tenho tantas questões e tão poucas respostas/se lhes dei a mão/porque me viraram as costas?”. E, em “Deixa-me viver”: “No fundo, só venci/quando estiver convencido/que isto tudo faz sentido”. E “isto” passa, claramente, pela música, pelo rap: “Que isto tudo faz sentir/que isto tudo faz sonhar”.
Apesar do claro elogio da amizade, presente em algumas das suas canções, do uso, nesse contexto grupal, de uma expressão coloquial jovem hoje bastante comum – “os meus putos” -, o sujeito poético tem os seus momentos existenciais mais dados à melancolia: “São tantos conhecidos/e no fundo estás sozinho”, diz em “Essa vida”. E aconselha, numa crítica a uma sociedade mercantilizada, que “se te sentires vazio compra o último modelo”; “Devemos ter o que não temos/para ser o que não somos”, eis o imperativo social, cuja hipocrisia, ele que não é de “clichês” nem quer “palavras caras”, denuncia.

4.O elegante e cavalheiro David Ramos – o violinista que prolonga o sujeito poético até ao Quénia, esse rapper que chega e triunfa, ele que é capaz da empatia com quem se abalança a vir de longe aportar à Europa - é também alguém que agarra a realidade pelos colarinhos, sem enfeites ou embrulhos: “Vaga é humanista realista Maquiavel”, seria quase uma síntese deste combate consigo e com a cidade, que pretende marcar. Com chispa, com a centelha e o gosto de tocar a matéria, avisa: “eu não vou parar mais”.
O álbum de estreia de David Ramos chama-se “Ónus da Prova” e se ele se entendeu, como no-lo diz num dos seus temas, como Réu, ouvindo as canções deste seu álbum de estreia é caso para dizer que só é culpado (guilty) de fazer a cidade esperar por mais.


Adenda: pareceu-me bem a ideia de partilha e colaboração com outros "artistas", Convidados no concerto; a atenção ao talento (alheio) nessa decisão (convites); a ligação com o lado mais clássico da música (e eventual inovação, no género adoptado pelo autor); as canções, contendo, também, uma dimensão de jogo, de rima, ritmo, batida - como que fins em si mesmos -, por outro lado apresentam como que uma "mensagem" "com sentido", algo a dizer à comunidade, o que, desde logo, a pressupõe/reclama, quase se diria a instaura. Nesse sentido, afasta-se de exercícios solipsistas (que são a, ou anti, políticos; quando visa o modo de funcionamento social, o autor faz um exercício que é também político).

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