domingo, 8 de setembro de 2019

De passagem pela Figueira


O Festival de Cinema principia no dia seguinte, o site criado para o efeito não disponibiliza a programação horas antes da estreia, há um conjunto de siglas que pouco ou nada explicam acerca do que poderemos ver nos dias que aí vêem (ficção, documentário, curta-metragem são as melhores indicações a que temos direito). Finalmente, dou com os títulos cinematográficos na página do facebook do Festival, mas nem um destaque, uma sinopse, um sublinhado. Dirijo-me, então, ao CAE (Centro de Artes e Espectáculos), onde não está quase vivalma pelas 22h, na tentativa de encontrar um vetusto folheto. Nada. Alguém da equipa do Teatro vai ainda colocando cartazes, numa pequena sala, são quase 23h e os primeiros filmes a rodar passam na manhã imediata, a publicitar os filmes dos dias que se sucederão, com sinopses ao lado, a ler com uma lupa. Mesmo assim, arrisco - que remédio. Tenho, de imediato, todavia, que dar umas gargalhadas pela incongruência do português presente nas sínteses e desisto por decoro. Percebo, de qualquer modo, que o documentário L'Enfance d'Ahron passa, na sexta, pelas 18h30. Pela net, coloco-me a par do objecto do filme e do facto de ter passado pela Mostra do Cinema Judaico, em Barcelona, em 2018. Leio duas ou três críticas
Day after. 10 minutos antes da hora marcada, encontro-me no CAE para assistir ao documentário. Adquirido o bilhete, pergunto qual a sala a que me devo dirigir. Sabendo da existência de sessões diversas em simultâneo, confirmo que aquela é mesmo a sala do documentário que pretendo ver. Que sim, mas o doc começara às 18h15, garante-me o funcionário. Surpreendo-me, porque, há menos de 24 horas, a indicação era 18h30, mas adiante. Sento-me na dita sala. Não demoro um minuto a perceber que nada do filme que ali está a ser exibido - numa sala onde estão menos de 10 pessoas - tem que ver com o que me fez pousar o sol, o livro, a esplanada maresia. Por sorte, por entre o escuro da sala, deparo-me com um membro da organização, que questiono sobre o dito documentário. Não, não é naquela sala; nem sequer, de resto, em tal edifício. Fica no Museu do Arquivo. Certo. Saio rapidamente e pergunto a um outro elemento por tal edifício. 
O Museu do Arquivo é contíguo ao CAE, ainda que tenha que ser contornado para a ele se aceder. Entro, e pergunto ao segurança pela sala e pelo filme. Ar de espanto, o do segurança. Vem assistir ao lançamento do livro? Não, não, venho ver o documentário. O lançamento do livro é ali, mas está a acabar. Não, eu venho é ver cinema. Aqui?! Sim, sim, está a decorrer um festival de cinema e no CAE mandaram-me para aqui. Tem a certeza? Já lá foi? Vim mesmo de lá agora. Vou chamar a diretora da Biblioteca [que funciona no mesmo edifício; uma Biblioteca bastante pobre, diga-se]. A Diretora: vem para o lançamento do livro? Depois de repetir a mesma coisa várias vezes, eis que se fez luz. O que era completamente estranho e ignorado, afinal...nós só cedemos o espaço...não temos nada a ver com o Festival...isso é com o Pedro Pinto [quem?!, pergunto-me eu; deve ter-me imaginado um cidadão local, nenhum veraneante iria para aquelas sessões, concluiu por certo e tornou Pedro Pinto como personalidade que ninguém ali ignoraria]. Já passa das 18h30. A programação, em código, numa espécie de estendal mas que, simultaneamente, é quase ilegível, está colada numa das paredes do Auditório (mas foi preciso o segurança, que agora diz que durante a tarde duas ou três pessoas afinal tinham ali estado a assistir a algo, abrir uma porta para darmos com ele). Confirmamos: é para ali que está marcada a projecção do filme. 18h35: com outros dois interessados em assistir à sessão a chegarem entretanto, alguém telefona à pessoa que deve projectar a película (para o vir fazer). Do outro lado da linha, este terá dito que o filme é às 18h45. É verdade que o papel diz 18h30, mas aquilo era uma versão provisória. 18h41: chega o homem que vai projectar o filme. Somos três os (espectadores) que nos encontramos na sala e ninguém mais aparecerá. Quando o filme principia, e sem que previamente disso houvesse qualquer informação, constatamos que a legendagem é em inglês (estando nós na Figueira, em Portugal, é como se nos deparássemos com aqueles exercícios para adolescentes melhorarem a sua proficiência na língua franca do nosso tempo; já agora: o cidadão médio da Figueira compreenderia as legendas, ou já se sabe que o cidadão médio não vai ao Festival de Cinema, nem se pretende que lá se dirija?).
O Festival talvez tenha ido parar às páginas da Sábado ou da Visão, nas últimas semanas. Por certo, no entanto, merecia, antes, as páginas de um periódico humorista. Quem me acompanha, nestas modas, tinha avisado: vais ver o filme sozinho. É só política. É só para dizer que fazem coisas. É assim pelo país.

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