terça-feira, 31 de março de 2020

Quão prodigiosos fomos cientificamente?


Wook.pt - O Século dos Prodígios


Os prodígios portugueses foram revolucionários?

1.Nem em/com Portugal se tinha dado uma revolução científica antes daquela (propriamente dita), reconhecida oficialmente, em Galileu e Newton, no século XVII – como pretenderiam alguns historiadores nacionais -, nem, muito menos, Portugal pode ser esquecido ou ignorado, como o é pela generalidade da historiografia anglo-americana, no que aos importantíssimos impulsos à ciência - que a expansão marítima nacional alcançou, nos séculos XV e XVI -, diz respeito. É este entendimento – in medio virtus, recusando sub e sobrevalorização do empreendimento luso no que ao aduzir à ciência importa - que leva Onésimo Teotónio de Almeida a rever o estado da arte – que específico contributo português no que à ciência concerne, durante o seu período de Expansão, e respectiva valoração no quadro global do acquis de sucessos científicos e de mentalidades/forma mentis então prevalecentes? - em um conjunto de ensaios recolhidos em “O Século dos Prodígios. A Ciência no Portugal da Expansão” (Quetzal, 2018), multipremiado livro (Prémio Gulbenkian, História da Presença de Portugal no Mundo (atribuído pela Academia Portuguesa de História); Prémio Mariano Gago (atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores); Prémio D. Diniz, da Fundação Casa de Mateus, Prémio John dos Passos, atribuído pela Secretaria Regional da Cultura), do Professor na Universidade de Brown.

2.Durante a Alta Idade Média, o enfoque na natureza e no conhecimento empírico desta adquire certa preeminência nos (melhores) espíritos. Ora, um dos momentos/expoentes dessa viragem para a noção da experiência como “madre de todas as cousas” teve lugar em Portugal, durante o Período da Expansão. A experiência, em realidade, levada, já, em linha de conta por Aristóteles e Galeno é, agora, revalorizada. Todavia, não pode falar-se, ainda, em revolução científica.

3.Expressão crescentemente polémica no nosso espaço público, com ganhos de grande visibilidade em anos recentes – embora a sua controversão recue bem mais no tempo -, a palavra “Descobrimentos” é usada por Onésimo Teotónio Almeida, neste contexto. Sabendo, claro, que os “descobrimentos” são-no do ponto de vista europeu  - a Europa Ocidental descobriu que havia mais mundos para além do seu -, ainda que, evidentemente, os povos há muito existissem e se encontrassem em latitudes a que só então (sécs.XV/ XVI) os portugueses – os europeus - conseguiam aceder, e contactos com outras zonas culturais – prévios, por parte de tais povos - podiam estabelecer-se; uso, ademais, do vocábulo “descobrimentos”, porque, sem as “descobertas” científicas a Expansão portuguesa não poderia ter ocorrido - e, além do mais, “descobertas”, pois, porque “nunca fui dado a purismos linguísticos (puritanismos?) e não é com esta idade que vou começar a sê-lo”, p.29).

4.Frente a uma «pré-ruptura epistemológica» de que os Portugueses teriam sido parteiros, e que culminaria na revolução científica do século XVII – tese do historiador Barradas de Carvalho, o qual, bem como sua obra, não deixa de ser elogiada, na globalidade, por Onésimo Teotónio Almeida que, no entanto, lhe aponta a sobrevalorização e não correcta ponderação/interpretação dos êxitos portugueses no todo do então concebido/conhecido em termos internacionais -, opõe o Professor da Brown a noção de que esse tempo é descontínuo e recua muito mais no tempo e que, portanto, não se dão suficientes razões para se aceitar a ideia de estarmos perante uma “revolução em gestação”. Um exemplo muito claro: 300 anos antes de Duarte Pacheco Pereira, já Roger Bacon se tinha referido à experiência como critério de verdade, pelo que a importância de Duarte Pacheco Pereira fica confinada, neste específico item, ao caso português (p.41). Segundo Onésimo Teotónio Almeida, a história do conceito de “experiência” é vastíssima e começa, sem exagero, um milénio antes do que diz Barradas de Carvalho (p.45). Em Aristóteles, é certo, a “experiência” seria sinónimo de “acumulação de experiências”, enquanto em Duarte Pacheco Pereira (e no seu “Esmeraldo De Situ Orbis”, uma “obra notável, nunca mencionada em nenhum livro de história da ciência escrito por um autor não lusófono”, p.139) traduzir-se-á por “conhecimento que advém dos sentidos”. E, todavia, já Galeno chamava a atenção para a importância dos “experimentos”, sendo, pois, que Galeno e Aristóteles usam o mesmo método que (é utilizado por) Duarte Pacheco Pereira (p.49). É, ainda, para consumo interno, segundo Onésimo, a importância de Pacheco Pereira no uso (em maior quantidade) dos números árabes face aos romanos. Ineditismo, pois, só houve, no contexto português, dado que, efectivamente, a percentagem de algarismos árabes usada até ao século XVI, no nosso país, é pequena; a sua divulgação é devida a estrangeiros; os introdutores são homens ligados ao comércio e á navegação (p.53). Todavia, fora de Portugal, já há textos a utilizar apenas numeração árabe no século XII – e, aí por volta de 1400, estes encontram-se generalizados, em termos europeus, nomeadamente em tratados de ciência, astronomia.

5.Qual a participação dos portugueses no contexto universal das ciências, no século XVI?, eis, pois, a grande questão que se coloca e à qual, em definitivo, interessa responder. Onésimo Teotónio Almeida louva-se na síntese de Jaime Cortesão, elogiando também os trabalhos do historiador Joaquim Bensaúde (p.68). Os portugueses foram:
- criadores da ciência náutica;
- inventores do navio próprio para os Descobrimentos – a Caravela;
- adaptadores do astrolábio – instrumento que devemos aos árabes (p.156) - aos usos da navegação, nomeadamente para determinar a posição das Descobertas;
- forjadores de novas estradas nos oceanos;
- estabelecedores do roteiro de todos os mares e de todos os ramos da rosa dos ventos.

6.Se Garcia da Orta fixou os fundamentos da medicina tropical e Pedro Nunes aperfeiçoou a tradição da navegação científica, da astronomia e da matemática, porém, considera Oliveira Marques, estes cientistas eram poucos e o seu experimentalismo nunca ultrapassou a fase empírica sistemática. Sendo que, no dizer de W.G.L. Randles o peso dos modelos bíblico aristotélico, da dinâmica dos graves de Lactâncio ou da geografia de Ptolomeu, ou seja, os “utensílios mentais” não permitem àqueles renascentistas uma completa renúncia ao modelo clássico e aceitação total do modelo empírico. De aí não se poder falar em «pré-ruptura epistemológica». Não há uma atitude completamente inovadora; há uma extensão, um alargamento de horizontes, um crescimento de dados que, mais tarde, sim, possibilitarão a rutura (p.70):
- o contributo português dá-se ao nível da observação, da constatação empírica;
- excepto na astronomia, cartografia e geografia, não se vai além da descrição causal. Não se produz uma elaboração sistemática ou pelo menos compendiada;
- realizam-se poucos experimentos. Buscam-se soluções apenas para as dificuldades (a necessidade do Know how chega a impulsionar o to know that na gesta portuguesa; o desejo de saber subjaz a uma preocupação utilitarista, p.242);
- raramente surgem generalizações nomológicas, porque os dados empíricos raramente são coligidos meticulosamente ou consequentemente classificados;
- tão-pouco surge uma elaboração teórica que tome os dados empíricos e as leis, ou quase-leis, com base neles formuladas.
Eis a súmula de Onésimo Teotónio Almeida, que refere, adicionalmente, que na Biologia, na Botânica e na Etnografia o avanço português foi muito precário. Numa palavra, a revolução científica do século XVII terá recebido em Portugal um “prévio e significativo impuslo”(p.84), mesmo que não constitua, ainda, uma exata ruptura epistemológica com o modelo clássico que herda e de que participa. Neste revisitar do legado que homens como Garcia da Orta, Pedro Nunes, Duarte Pacheco Pereira, João de Castro, Fernando Oliveira deixaram (compulsando-se as suas obras, como com afinco fizeram Luís de Albuquerque, Francisco Contente Domingues ou Henrique Leitão) terá, contudo, de reconhecer-se nestes (p.87):
- a rejeição dos antigos [nomeadamente, da Antiguidade Clássica] per se [por exemplo, Garcia da Orta foi ao ponto de escrever: “aprende-se mais com os portugueses num só dia, do que em cem anos com os Romanos”, p.106);
- aceitação da experiência como critério de verdade;
- desenvolvimento de uma perspectiva e metodologia científicas;
- interface de teoria e prática entre eruditos, artesãos e marinheiros;
- consciência generalizada da importância dos novos conhecimentos adquiridos pelos navegadores portugueses.
A necessidade de tradução das nossas melhores obras na área da História, quanto ao contributo português para o impulso da – de uma nova – ciência, é imperativo, considera o ensaísta, assim responsabilizando-nos, também, pela escassa divulgação internacional de tais feitos (são necessários “editores em língua inglesa” para divulgar a ciência portuguesa, p.191).
De entre os não muito numerosos historiadores internacionais, como se vem de dizer, que atentaram, devidamente, no papel dos Portugueses no avanço e impulso para (o que veio a ser) a revolução científica do século XVII, Onésimo Teotónio Almeida destaca Hooykaas, o holandês que entende que uma atitude científica como a de D.João de Castro é raro de observar antes deste em qualquer parte da Europa – que, não obstante, segue a mundividência aristotélica, com o seu modelo organicista face ao modelo mecanicista de Newton e Galileu (p.117); trata-se de uma “figura emblemática, representando um estado intermédio entre o antigo e o moderno, nas ciências naturais”(p.117) -, e observa como única a relação entre pensadores e homens de acção, no nosso país, sendo certo que o nosso contributo não foi o de avanços teóricos (p.114).
Tomando este acervo de sublinhados, dir-se-ia que se impõe, de novo, um balanço sobre o que se passou em Portugal enquanto espelho do que se passa com a ciência (de um modo geral) (p.118):
- a ciência avança por impulsos;
- há uma sobreposição de paradigmas em conflito;
- criações paralelas e redescobertas por desconhecimento de criações prévias;
- desenvolvimento desigual das ciências individualmente consideradas.

7.A mentalidade destes homens portugueses de quinhentos irá repercutir-se inclusivamente em literatos de primeira água. Teotónio de Almeida aprofunda a intuição de António José Saraiva quanto à modernidade, e a especificidade nesse âmbito, do canto V de “Os Lusíadas”, contraria J.S.Silva Dias - que repreendera o poeta por este não estar informado acerca da mudança representada pela consciência da importância de se conhecer o mundo empiricamente -, e conclui que apenas de Pedro Nunes não revela, Luís Vaz de Camões, conhecimento. Ele que se encontrará, mesmo, com Garcia da Orta na Índia (p.220). Um dos ensaios, este sobre a modernidade de Camões plasmada no Canto V d’Os Lusíadas que convidam, e de que maneira, à leitura dos prodígios de Onésimo.
Ao seu jeito, despede-nos com um texto (seu), inserto no Diário de Notícias, de 1989, onde compendiava uma série de prémios, atribuídos em Portugal (quantos adstritos à Literatura vs quantos vinculados às Ciências) que mostravam o nosso pendor para valorizar mais a literatura do que as ciências (embora hoje, porventura, dificilmente as estatísticas fossem semelhantes, o que também ilustra um caminho percorrido) e afiança-nos, sobre o nosso descuido com o “empírico”, que quase sempre - antes dele, a anteceder tal vocábulo - antepomos um advérbio de modo: meramente. Meramente empírico.


sexta-feira, 27 de março de 2020

O que nem o vírus juntou


"O MORALISMO ESTÁ A MATAR A EUROPA"*

Depois de explicar a determinante dimensão sistémica da crise do Euro, o Professor Viriato Soromenho Marques concluía, no seu "Portugal na queda da Europa" (Temas e Debates, 2014, p.120): "A transformação da responsabilidade sistémica em responsabilidade moral caiu bem na propaganda lançada por vários interesses instalados. Para um público europeu, que, na sua maioria, é iletrado em economia e desconhecedor das complicadas malhas do funcionamento da UE e da Zona Euro. Culpar o excesso de jardineiros gregos pela crise era mais fácil do que estudar, desmontar e reformar o terreno minado dos tratados europeus, onde a verdadeira raíz da crise se esconde".
*título, em meu entender muito feliz, de um artigo, na revista "Visão", de Viriato-Soromenho Marques, em Outubro de 2011. Tenho estado a recuperar o pensamento sobre a Europa nestes 10 anos, porque sem ele não se compreende, de facto, o presente, e muito concretamente, as declarações do Ministro das Finanças holandês de hoje e a contundente resposta do PM português.
Como sabemos, nas relações internacionais, habitualmente, utiliza-se uma linguagem muito subtil, carregada de leituras indirectas e entre linhas, eufemismos quanto baste. E, quando se quer fazer uma crítica mais dura (nomeadamente, a um outro país, ou a um seu representante), observamos, com frequência, o envio de alguém de um patamar político não demasiado elevado na hierarquia (política). Agora, repare-se o que disse o PM português, António Costa, esta noite: a atitude da Holanda, as declarações do seu Ministro das Finanças (sobre a situação de Espanha) foi "repugnante". Replicando, de imediato, a expressão (para se fazer ouvir devidamente nos Países Baixos). O nosso PM não apenas decide ser ele a falar - portanto, a primeira linha - como escolhe uma adjectivação que dificilmente poderia ser mais dura. Claro que, a propósito do caso espanhol, do que ele está a falar é dos eurobonds, pretendendo colocar uma pressão adicional em quem os rejeita. Ora, para fazer tal qualificação é porque, como se percebe sem dificuldade até pelas previsões económicas mais recentes (Banco de Portugal, Universidade Católica), sem esses eurobonds a situação de Portugal (e não só) é ainda mais difícil. Mais: o instrumento que Portugal pode usar, a nível europeu, hoje decidido, resulta, ao fim e ao cabo, em um empréstimo no valor de até 2% do PIB. ora, isso é uma gota no oceano de que precisamos. Confirma-se o pior cenário.
Mas mais: António Costa diz que não vai tolerar mais declarações como as que ministros das Finanças holandeses produziram nos últimos anos. Do género, se bem nos recordamos, "os países do Sul são os esbanjadores, gastam em bebidas e mulheres" (como um ex-ministro holandês chegou a afirmar). Esse moralismo é, de facto, inaceitável, mais a mais numa situação como a que passamos, induzida pela chegada de um vírus!. Ora, se se volta a esse discurso (moralista), se há um ruptura Norte-Sul, se acaba a UE, então, obviamente, é cada Estado por si. A UE fez-se, em primeiro lugar, como projecto de paz. Se deixa de haver UE, a guerra, seja em que moldes for feita - não sei em que moldes; cyber? -, passa a ser uma possibilidade. Esta questão já se colocou há 10 anos e, infelizmente, volta a pôr-se. Continuamos no fio da navalha.
Concluo, recordando o que sublinhava há uns posts: no melhor livro, a meu ver, que se escreveu, nos últimos anos, em Portugal, sobre a questão europeia, "Portugal na queda da Europa", do Professor Viriato Soromenho-Marques, o académico (de Filosofia Política) considerava que uma cisão da UE, levaria ao regresso dos Estados ao nível do "estado natureza" hobbesiano: "a guerra de todos contra todos"(como Hobbes considerava, no "Leviatã", relativamente aos indivíduos).
Muito perigoso terreno o que se pisa por estes dias.

Descarrilar pela ravina


Em La Línea de la Concepción, Espanha:
“Um grupo de 28 idosos, que tinham sido despejados de um lar por estarem infetados com o coronavírus covid-19, foi recebido à pedrada por um grupo de pessoas que tentavam impedir a entrada na cidade das ambulâncias que os transportavam.
A receção violenta não se limitou à entrada na cidade: uma vez chegados à residência onde o governo autonómico da Andaluzia os realojou, os idosos foram cercados por cerca de meia centena de pessoas que ameaçaram tomar medidas se mais infetados chegassem à cidade (…). Durante a noite, foram arremessados vários engenhos explosivos a partir de casas nas imediações da residência. O primeiro deles explodiu na via pública no momento em que vários agentes identificavam dois indivíduos. O segundo foi lançado meia hora mais tarde para o mesmo local.”

na crónica do "Expresso", desta quinta-feira (26-02-2020), assinada por David Dinis.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Abismos


CINCO TEXTOS DE ELPAÍS PARA PENSAR A CRISE QUE VIVEMOS
*Byung-Chul Han procura estabelecer as diferenças na reacção tida por asiáticos (maxime, China) e europeus ao Coronavírus. Ao colectivismo e autoritarismo chinês, assente em um distópico big data que tudo controla - espantosa descrição da câmara que conhece a temperatura corporal de cada cidadão chinês à saída do comboio, que sabe quem foi em cada carruagem e cada assento, que conhece a expressão facial de cada um e o que ela indica e com drones a sobrevoar os cidadãos sob quarentena, enviando-lhes do ar a multa por incumprimento - até uma Europa descoordenada, assente em um individualismo que leva a uma incapacidade de obediência a diretrizes gerais para lidar com o problema, com um conceito de soberania, fechar as fronteiras, incapaz de travar a pandemia, uma ideia de liberdade que não permite levar a cara tapada - que, segundo este autor, tem sido decisiva, também, para conter o vírus. O capitalismo não vai acabar, a China não vai soçobrar e pode, até, vender com orgulho o sou modelo ditatorial de controlo pelo big data. E, no entanto, ceder a esse modelo seria a derrota definitiva europeia, mesmo que a soberania venha a ser sinónimo disso, do controlo de uma população pelos dados digitais. Um ensaio a ler com toda a atenção: https://elpais.com/…/la-emergencia-viral-y-el-mundo-de-mana…
*Mas, mesmo a China, vai passar, pela primeira vez, em 50 anos, por uma recessão. Os grandes bancos calculam-na numa variação entre os 4 e os 9%(esta última cifra, prevista pela Goldman Sachs, por exemplo). Por cá, teme-se, naturalmente, o pior. Para ler, aqui: https://elpais.com/…/el-alto-precio-de-vencer-al-virus.html…
*Estamos ainda, porventura, no início do combate a este vírus, e dois reputados autores, Jared Diamond e Nathan Wolfe previnem-nos de imediato para os vírus que se seguem, provavelmente mais letais. Enquanto a China prosseguir com a comercialização de animais selvagens, em especial com mamíferos, a situação não será detida. Não o foi com a gripe das aves, e não o será se o governo chinês não decretar aquela proibição. Atente-se no texto que se segue: https://elpais.com/…/…/03/20/opinion/1584697329_308520.html…
*Passam 10 anos sobre a chamada "Obamacare", a lei que permitiu a milhões de norte-americanos ter um seguro de saúde. E que os republicanos, com Trump à cabeça, procuraram, por todos os meios, demolir. Mesmo com o seguro de saúde, são 9 mil dólares que custa o internamento, sem outros problemas, para tratar o coronavírus. Se o problema for mais complicado, a conta duplica. Sem o seguro de saúde, ascende a 34 mil dólares. Ou, o que vale um sistema nacional de saúde. Constate-se, aqui: https://elpais.com/…/la-ley-sanitaria-de-obama-cumple-10-an…
*Depois da injecção massiva de dinheiro em certas corporações com George W.Bush, hoje é a vez de o homem dos brutais cortes fiscais que favoreceram os mais privilegiados e roubaram recursos ao Estado, com défice colossal, vir reclamar, como Nixon, ser Keynesiano. O texto não o diz, mas há ainda uma outra ligação entre W.Bush e Trump: um denunciou o Protocolo de Quioto, outro o Acordo de Paris. Dois "craques". Aqui: https://elpais.com/…/202…/trump-tambien-era-keynesiano.html…

domingo, 22 de março de 2020

sábado, 21 de março de 2020

Mais uma noite, nesta década, a ouvir economistas


A Comissão Europeia, através da sua Presidente, anuncia que este ano os limites do défice orçamental, para os vários Estados-membros, não são para cumprir (ou, mais rigorosamente, os Estados-membro estão autorizados a não o fazer). Em Portugal, evoca-se a experiência do pós-2008: a uma primeira investida, em sede de concertação europeia, no sentido de um vasto estímulo económico por parte de cada Estado, a política, decidida por quem vai ao leme, conhece uma guinada de 180 graus. Portugal, que muito gastara - sendo que diferentes Estados adoptaram diferentes políticas e medidas mesmo com ordem para gastar, o que não é despiciendo -, é apanhado na curva. E derrapa. Pedido de ajuda externa e medidas draconianas, com um impressionante sofrimento social.
Agora, Espanha despeja mais de 15% do PIB na economia, França também em valores dessa ordem; Itália, com uma dívida enorme, e apesar da situação caótica que vive, fica-se, para já, pelos 4% do PIB nos estímulos. E nós, que fazer agora, quando temos, em simultâneo, essa espada de Dâmocles de uma memória histórica tão próxima, e, ao mesmo tempo, os pedidos de ajuda que nesta hora chegam de todo o lado? É, aparentemente, uma verdadeira quadratura do círculo que parece apresentar-se.

Uma verdadeira pescadinha de rabo na boca, se bem compreendi: colocas agora muito dinheiro - bastante mais ainda do que aquele que se prevê neste dia - na economia, tens um grande défice, pagas muitos juros (pelos vistos, os juros a 10 anos, estão já ao quádruplo do que estavam há 10 dias); pagas muitos juros, tens que pedir ajuda externa, mandam-te cortar em despesas que estavas a realizar por entenderes como fundamentais para a sociedade. Não gastas tanto, para não teres défice tão grande, para os juros não serem enormes e não pedires ajuda, mas não acorres a socorros essenciais para a comunidade. Quem disse que as decisões políticas eram simples e/ou fáceis?
E já estamos, de novo, na conversa sobre a (quase) sempre desejada (entre nós, nomeadamente) mutualização europeia da dívida, que continua, pese uma ou outra declaração vinda de terras germânicas, a parecer tão difícil de ser sufragada na Alemanha.

quarta-feira, 18 de março de 2020

O "espírito do tempo"











"EPHEMERAZINHO"*
Por estrita necessidade, e ao fim de uns dias de absoluta reclusão caseira, passei pelo centro de Vila Real. A cidade fantasma é o natural cenário que se nos oferece, como se a urbe tivesse sido objecto de uma devastação e ninguém tivesse ficado. Se, na sequência de 2008, as imagens que se me afiguravam fixar, em diferentes cidades portuguesas, eram as das sucessivas casas de (recolha de) ouro, que nasciam como cogumelos (e a memória assinala uma Santa Catarina, no Porto, a abarrotar desses lugares), desta sorte, e em apenas uma rua, recolhi, para memória futura, uma dezena de fotos de comunicados de lojistas a explicar o seu encerramento (temporário). Eis o "espírito do tempo".
*com a devida vénia a José Pacheco Pereira

segunda-feira, 16 de março de 2020

Críticos "religiosos"



Os últimos
Quando Harold Bloom (1930-2019) e George Steiner (1929-2020) morreram, com escassos meses de intervalo, escreveu-se que seriam os “últimos críticos”, os últimos, ao menos, que as pessoas que não lêem crítica literária conheciam, ou conheciam de nome. Mas e se fossem antes os últimos críticos “religiosos”? Profundamente marcados, um e outro, por uma tradição, a judaica, que confere à palavra um estatuto quase-divino, Bloom e Steiner eram, cada um a seu modo, figuras bíblicas, sábios como Salomão e apocalípticos como Jeremias. Em Bloom, essa faceta bíblica estava ligada ao culto da “grandeza”. Incansável defensor dos “grandes escritores”, referia-se à literatura como uma actividade olímpica, profética, esmagadora. Em Yale, universidade onde imperava o textualismo, o jovem Bloom começou a resgatar os “excessivos” escritores românticos, pouco estimados pelos seus colegas de cátedra. “The visionary company” (1961) e os livros sobre Shelley e Blake já apontavam para uma religião da literatura, a mesma que o levaria a definir Shakespeare como o “inventor do humano”. Bloom, que sabia de cor o “Paraíso Perdido”, de Milton, tinha o culto dos “génios”, e nas últimas décadas, quando se tornou popular fora da academia, entregou-se a uma prolongada autoparódia de adorador de génios. É certo que a sua convicção dependia de uma boa tese freudiana sobre a origem da criação literária: a literatura seria um combate edipiano entre os escritores mais novos e os escritores “fortes” mais velhos, ou mortos; um combate em que o mais novo treslia angustiada e deliberadamente o seu influente antecessor, sendo essa tresleitura uma forma de ultrapassar a angústia e uma forma inultrapassável de angústia.
Devoto hiperbólico da literatura, Bloom era dado a sentenças sumárias e alegações extravagantes. Como bom espírito religioso, interessou-se por tábuas da lei, aquelas a que chamamos cânone. “O Cânone Ocidental”(1994) é assim uma genealogia de génios, bem como uma apologia da estética desinteressada contra as hordas da “escola do ressentimento”, categoria que designava marxistas, historicistas, neoconservadores, multiculturalistas, feministas, desconstrucionistas e outros, todos aqueles que submetem o texto a uma “agenda” não-estética. A teoria do cânone (e o polémico anexo bibliográfico) destinava-se a dar aos leitores modernos uma capacidade de juízo, de distinção, mas a faceta grandiloquente, às vezes descontextualizada e quase sempre dogmática da “canonização” incomodava críticos laicos de diferentes latitudes. O mesmo se pode dizer, mutatis mutandis, de George Steiner, autor de páginas memoráveis sobre a tragédia, a tradução, a barbárie e os limites da cultura, mas que concebia um leitor ideal, o “leitor incomum”, muito parecido consigo: multilíngue, de origem europeia, com uma boa biblioteca, conhecedor de Grego e Latim, versado em música e ciências, erudito e hipermnésico, alinhado com noções patrísticas de hierarquia e autoridade.
James Wood, que é hoje o único crítico literário conhecido mesmo por quem nunca o leu, reconhecia as potencialidades e os bloqueios da tendência “religiosa” dos seus magnos antecessores. Depois de algumas picardias ântumas, Wood manifestou postumamente na “New Yorker” a sua “admiração frustrada” por Bloom: apreciava no vasto corpus bloomiano algumas descobertas convincentes e uma espécie de consistência na estranheza, mas desgostava-o a terminologia abstrusa, os exageros váticos, o populismo elitista das últimas décadas. E acrescentava que Bloom era um desconstrucionista em negação, porque tinha a mesma propensão (religiosa) para extrair dos textos um “segredo” que eles certamente escondem.
Com Steiner, Wood foi mais severo: num artigo depois incluído no volume “A Herança Perdida”(1999) censurou-lhe a “seriedade exaltada”, o “glamour do indizível”, o “melodrama da transcendência”. E o elitismo agónico, que se confunde com nojo democrático. Arrasou com particular empenho “Presenças Reais”(1989), o livro de Steiner de que mais gosto, ainda que reconheça a improbabilidade do seu argumento.
Nesse ensaio quase-teológico, Steiner contesta as teorias que duvidam da possibilidade de haver um “sentido”. E propõe um “como se”: é “como se” numa obra de arte encarnasse a presença efectiva de significado. Wood repudia essa comparação com a transubstanciação eucarística: para um católico, a presença de Cristo na hóstia consagrada é um facto, não um “como se”. Daí que Wood diga que Steiner usa um critério metafórico para o contrabandear como critério teológico. Aquilo que o crítico inglês aponta a Steiner também é válido contra Bloom: ambos têm uma teoria que não é do sentido, como julgam, mas do valor; ambos fazem do gosto, do bom gosto, uma questão de fé. E isto tem tanto mais graça quanto sabemos que Wood reconhece que tem, também ele, uma cabeça essencialmente religiosa.

Pedro Mexia, “Os últimos”, in “Fraco consolo”, “Expresso”, “E – A revista do Expresso”, 14-03-2020, p.62.


LIVROS CONTRA O VÍRUS



LIBROTERAPIA

Os livros são salva-vidas para todos os tempos, mas os tempos difíceis como que o explicitam melhor. A leitura é uma forma de resistir a este vírus que está a transformar tudo (a organização do quotidiano, a estabilidade económica, as prioridades políticas, a nossa psique...) e que pede o respeito escrupuloso das medidas sanitárias, mas também uma reforçada resiliência interior. Para falar do caso italiano que, neste momento, é porventura um dos laboratórios mais clamorosos para a gestão de uma crise que, dia a dia, se está a tornar mundial: as escolas, universidades, museus, centros culturais, teatros, arquivos e bibliotecas encerraram temporariamente as atividades pedagógicas ou de acesso. Mas, assumindo as restrições que se impõem, essas instituições não deixam de estar ao lado das suas comunidades, agilizando formas de presença e de serviço. Os exemplos multiplicam-se. Giorgio Barbiero, diretor artístico do Teatro de Roma, anunciou a transmissão em streaming da leitura de textos fundamentais, a começar pelo “Decameron”, com o propósito de desmontar a infeção do medo. Diversos escritores têm apelado a que nas (muito) menos frequentes saídas de casa não se abandone a passagem por uma livraria e fazem-se fotografar com livros encostados ao rosto, a imitar as máscaras respiratórias. Há livreiros com propostas inovadoras: aceitam as encomendas dos clientes que não se podem deslocar às livrarias e vão eles, de bicicleta, levar os livros ao domicílio. Muitas comunidades religiosas têm apelado a que a actual limitação do culto desperte uma maior convivência pessoal ou em família com os textos sagrados. As bibliotecas também estão activas. Um exemplo na cidade de Florença é o do requintado Gabinete Vieusseux de leitura, que está precisamente este ano a celebrar o segundo centenário da sua fundação. Estão suspensos os serviços de estudo e leitura na sede, mas continua em funcionamento o empréstimo de livros aos leitores, inclusive àqueles que se inscrevem pela primeira vez. Para assinalar os 200 anos, o Gabinete Vieusseux apresenta uma curiosa exposição sobre alguns dos seus ilustres frequentadores, mostrando as obras que então requisitaram. A exposição recorda a Itália como o país do Grande Tour, esse girovagar obrigatório que oferecia como que uma iniciação às raízes e ao imaginário estético do ocidente.
Muitos desses viajantes de outrora, momentaneamente distantes das bibliotecas próprias, precipitavam-se para as bibliotecas públicas mais importantes do Bel Paese. Dostoievsky, Henry James, Aby Warburg, Artur Schopenhauer, Hector Berlioz, Gertrud Stein, Andre Gide, Heinrich Heine, Hans Christian Andersen contam-se entre os inscritos da Vieusseux. Em 1868, por exemplo, Dostoievsky fez uma residência longa na capital do Arno onde terminaria o seu romance “O Idiota”. E nesse ano requisitou do Gabinete Vieusseux, entre outros, ao vários volumes de “Questões sobre a Enciclopédia”, de Voltaire, e o romance de Flaubert, “Madame Bovary”. Falando de livros, o romancista dizia que a sua função é dotar a vida de uma consciência susceptível de explicar não só o que vivemos, mas também de nos iluminar acerca das razões pelas quais vivemos. Assim, em tantos momentos da história – alguns deles bem extremos – os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada. Romano Guardini, um dos teólogos do século XX mais amados por escritores, de Evelyn Waugh a Flannery O’Connor ou a Agustina Bessa-Luís, dizia que o livro é uma pátria espiritual, pois nele se exprime o próprio ser do homem.

José Tolentino de Mendonça, “Libroterapia”, in “Que coisa são as nuvens”, “Expresso”, “E - A revista do Expresso”, 14-03-2020, p.98

domingo, 15 de março de 2020

Fonte, origem


SOBRE O "PAI-NOSSO"

"O espaço cultural de Israel no qual Jesus cresceu era totalmente diferente do espaço cultural da Europa Ocidental. Percebi isto claramente quando estudei aramaico, a língua de Jesus. É uma língua cheia de imagens, uma língua poética, e cada palavra, cada oração, pode ter vários significados. Neil Douglas-Klotz, teólogo norte-americano, estudou a língua aramaica durante muitas décadas e debruçou-se principalmente sobre o Pai-Nosso, a oração mais famosa de Jesus. Ele apoiou as suas pesquisas numa versão aramaica do Novo Testamento do século II. É muito provável que o Pai-Nosso ali registado corresponda ao texto que Jesus rezou e ensinou aos seus discípulos. Aqui, quero falar apenas das primeiras linhas. Na versão conhecida, o texto diz:«Pai nosso que estais nos céus». (...) Na versão aramaica, o Pai-Nosso é iniciado pela palavra Abwun, que não possui género específico, mas que significa pai e mãe - e muito mais. Uma tradução literal seria: «Ó paridor (parideira)! Pai-Mãe do Cosmo.» Deus é visto como uma grande unidade de pai e mãe, que é paridor e parideira. Dela emerge o Cosmo, dela nasce a criação. Dela fluem força e benção para a criação e para o Cosmo. Essa força une a criação à unidade de paridor e parideira. O próprio Jesus parte, então, de uma unidade de Cosmo, na qual tudo o que vive está ligado com a sua origem, com Deus.
Hoje em dia, muitas pessoas imaginam dois lugares "geográficos" diferentes quando falam do céu e da terra, mas o pensamento de Jesus é marcado pela unidade, ou seja, pelo facto de que, em cada momento, tudo está ligado com a sua origem divina. No seu entendimento, céu não significa um céu "no alto", como o ser humano percebe, Céu é uma palavra para Deus e para a sua presença. Céu é a grande unidade divina, da qual surgiu o ser humano no começo e que foi enviado para a sua vida terrena".

Zacharias Heyes, "Como encontrar Deus...e porque nem é preciso procurá-l'O", Paulinas, 2020, pp.30-32. O autor é padre, monge na abadia de Munsterschwarzach. Foi missionário para o desenvolvimento da África Oriental.

sábado, 14 de março de 2020

Testemunho precioso


Cartaz do Filme

O filme ("A hidden life", "Uma vida escondida", Terrence Malick, 2019) começa em locus amenus: o ambiente abismal, sideral, acolhedor e protector, os prados verdejantes, junto às fontes de água mais puras (salmo 23, que mesmo nos momentos mais duros, momentos-limite e definitivos, será recitado pelo personagem principal), a ordem e harmonia tanto do ambiente físico como social, uma vida familiar alegre e simples. Trabalho e contentamento, natureza, agricultura, comunidade, solidariedade. Estamos entre montanhas austríacas, primeiras décadas do século XX e acompanhamos a vida de Franz Jagerstatter (August Diehl) ao som de música lírica.

“Matamos inocentes, arrasamos cidades pela noite e rezamos aos Domingos. O que se passa com o nosso país?”. A interrogação, já quase retórica, surge da boca de Franz no regresso da frente, durante a II Guerra Mundial.
Contudo, face a uma putativa obviedade de resposta à questão/indignação que demanda (e desta, nunca regressará, nunca mais voltará atrás), em realidade, o agricultor/camponês/fazendeiro, pai de duas meninas, encontrará indiferença e hostilidade da sua aldeia – quando esta se apercebe que Franz não alinhará, como todos os demais, com o führer (quando o tempo chegar, achas que quererão saber da verdade? Serão indiferentes, advertira, sobre a comunidade, o homem que dá lustro à Igreja local) -, e, inclusive, deparar-se-à com a ausência de conforto (psicológico, espiritual, de confirmação de um caminho que pretende assumir) por parte de uma hierarquia eclesiástica católica, que ele procura, mas que se crê de pés e mãos atadas, procurando posições de compromisso, desconfiando de cada interlocutor, lá onde este leigo (católico) só reconhecerá possibilidades de dissensão. Nem sangue, nem família, nem aldeia, nem pátria - a sua fidelidade está para lá de todas as montanhas, de todas as humanas pertenças ou vinculações.

Obrigado a ir para uma espécie de centro/prisão de reeducação por não aceitar submeter-se/apoiar o regime, Franz, este Franz que existiu na verdade dos anos 30-40 do III Reich (o filme é, pois, baseado em factos reais), ainda que espancado, ainda que tentado pelos circunstanciais companheiros de reclusão à maneira dos circundaram Job – vais morrer para quê, para nada; são vinte séculos de fracassos, Ele não vai descer e não te agradece -, manter-se-à firme e resoluto na espantosa/impressionante clareza moral da decisão de uma vida. Na decisão que, conscientemente, o levará à morte. Quando o advogado que lhe é atribuído garante que basta assinar a folha/documento que propõe - na qual o signatário afirma aceitar o juramento/obedecer ao führer - para ser um homem livre, Franz responde-lhe que isso, um homem livre, ele já é. De imediato, evocamos os "Diários" de Etty, não nós não estamos nas garras deles, o íntimo do íntimo nunca pode ser capturado.

A par de Franz, a sua mulher, Franziska Jagerstatter (Valerie Pachtner), um filme que não pode deixar de ser lido também pelo prisma destes dois em um só – o sinal de aprovação de qualquer decisão de Franz, quando todos à volta o reprovam é decisivo para que aquele não abandone a forca -, é o símbolo de uma aposta confiante e definitiva. Talvez a cena mais moderna e marcante do filme, com a câmara como que aposta ao fácies do oficial nazi (membro do tribunal militar que está a julgar Franz) e, bem assim, do do “traidor” é aquela em que o militar pergunta a Franz: “julgas-me? [pela minha posição, de obediência e seguimento do regime nazi]”. Diga-se que o rosto do oficial não é tanto perentório, convicto, seguro quanto dubitativo, desconfortável, introspectivo - como é possível que o homem que tem na sua frente não queira “salvar-se” (em termos terrenos; evitar a morte, ficar junto da família que tanto ama, evitar o opróbrio da aldeia). “Não, não julgo. Apenas tenho um feeling, cá dentro, de que não devo fazer o que é errado e é isso que vou fazer”. As palavras espaçadas, deixando reticências, procurando-se a elas mesmas, em busca de completa articulação, querendo compreender-se, além de, mesmo na hora mais negra, demonstrarem a ausência de julgamento, moralismo, superioridade sobre o outro [e que mais fidelidade cristã do que esta?] – e que outro! – têm, ademais, o travo de uma aposta.

Assistimos, sob voz off, a uma intensa troca epistolar entre Franz – na prisão – e sua mulher – lançada ao ostracismo e ignomínia entre a sua comunidade, sem ajuda nos afazeres duros da jorna agrícola, na Áustria natal.
E, se nela, Franziska se interroga, e interroga Deus – “então, não vais fazer nada?”, “onde estás?”, “para que nos criaste?” -, na “aposta” que Franz realiza como que (se) dá um passo adiante na imagem “intervencionista” da divindade (não, eu não julgo, tenho é este sentimento) e (se) aceita o jogo da incerteza sem deixar de tomar uma decisão derradeira.
Como Pilatos, no interrogatório, ou os soldados após a crucificação, há um olhar de admiração no oficial nazi perante a firmeza, irremovível, de Franz. A mesma expressão que veremos nos rostos dos aledeões quando os sinos dobram pelo justo (confirmado nos seus gestos de reconhecimento final).

Um outro advogado vem, em nova sessão na prisão após a audição em tribunal militar, em Berlim, a demover Franz, e o próprio pároco da sua aldeia, acompanhando a visita de Franziska à prisão de Franz, transmite a este último que não importa o que diga por palavras; Deus interessar-se-à é pelo que lhe vai no coração. Mas o face a face com a consciência e o “fiat” que lhe vem de Franziska contém o sinal dos Céus – a câmara, remete, em permanência, para o Céu, um sinal do Sol, o atrás das nuvens que tanto poderá ser visto como exercício um tanto naive [se Ceú, lido em registo "fisicista", como "sky" em vez de "heaven", a juntar a qualquer expectativa "intervencionista" que os personagens possam ter] – de que há permanecer fiel à negação do anti-Cristo (nem a saudação ao regime Franz concebe, não há qualquer concessão que veja como aceitável, mesmo que pagando com a própria vida).

Muitas vezes se diz do cinema, ou de alguns filmes de Terrence Malick, "panteísta" – e o exercício espantoso e único de “A árvore da vida” sufragaria tal entendimento. De facto, quando, já após a execução de Franz, Franziska diz que vai poder encontrá-lo nas montanhas (cobertas) de neve de Radegund, como que o ponto estaria feito. No entanto, se visto de modo outro, como expressões de uma ordem e beleza – apesar do “mal físico” que por vezes irrompe – que remetem para o Absolutamente Outro, essa expressão não teria que assumir, necessariamente, um recorte "panteísta", podendo, em especial, ser hino das criaturas (à maneira de Francisco de Assis).



Sobre o filme “A hidden life”, de Terrence Malick, e em síntese, parecem-me de grande oportunidade as palavras de Alberto Saéz Villarino: “um magnífico ensaio introspectivo e bilateral de uns personagens que, sem serem tremendamente complexos, permitem-nos conhecer a profundidade emocional de um ser humano confrontado com um entorno natural que o acolhe e protege, oferecendo-lhe uma vida oculta interior, contra toda a intranscendência artificial dos nossos dias”.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Beethoven e Portugal


"Contou-me [Jorge Chaminé, maestro português] também que, sempre que Beethoven conhecia alguém de um país diferente, pedia-lhe para que enviasse músicas típicas do seu país para se inspirar de toda essa diversidade europeia. Parece que, a certa altura, compôs uma música portuguesa".

Carlos Moedas, "Vento Suão. Portugal e a Europa", Guerra e Paz, 2020, pp.148

quarta-feira, 4 de março de 2020

A crise existencial europeia


As três ilusões europeias de Carlos Moedas, ou luzes e sombras do projecto europeu:

1) Durante décadas pareceu de tal modo impensável a saída de um membro da União Europeia que apenas em 2007, com o Tratado de Lisboa, passou a existir enquadramento legal para esse fim. Carlos Moedas acreditava na irreversibilidade da UE. Por um lado, o Brexit fez abalar essa convicção; por outro, a ausência de um efeito dominó nessa saída, deixou um traço de possível robustez europeia;

2) Maior integração económica dará lugar a maior integração política, em termos europeus. Apesar do crescimento económico muito impulsionado pelos fundos estruturais e o mercado único Europeu, Polónia e Hungria revelam um grande distanciamento do Estado de Direito preconizado pela UE. Holanda e Áustria conhecem forte crescimento económico, mas o populismo, ali, não cessou de crescer. E, no entanto, a extrema-direita perdeu na Áustria e saiu do governo na Itália - em ambos os casos, com enormes indícios de corrupção no seu seio. Nas Europeias, a Plataforma Verde foi a grande surpresa. Conclusão: o crescimento económico, por si só, não resolve um impasse político;

3) O papel exclusivamente positivo da tecnologia, para o futuro da Europa. O nível de fuga fiscal pelas tecnológicas foi reconhecido ("as empresas clássicas pagam em média 24% de imposto na Europa e as empresas digitais pagam menos de 10% de taxa de imposto", p.62); os conteúdos, com bastante ódio neles presente, nestas plataformas, exigiu, igualmente, um grande combate junto destas; na protecção de conteúdos confidenciais existia uma falta de cuidados mínimos; na regulação da protecção de dados ("o «petróleo» do século XXI (...) sem dados de qualidade, não podemos encontrar a cura para muitas doenças ou antecipar catástrofes naturais (...) mas os dados também podem ser usados contra nós: para nos manipular, para invadir a nossa privacidade e para aumentar a desigualdade", p.35), houve uma enorme resistência dessas mesmas tecnológicas; a promoção de uma inteligência artificial compatível com valores básicos da humanidade difícil de impor. Porém, a Europa terá tido uma certa valentia em determinar-se a agira, muitas vezes sozinha, em cada um destes domínios: "o regulamento da protecção de dados que define os dados como parte da dignidade humana foi um grande exemplo dessa liderança europeia e hoje tornou-se referência nas empresas a nível mundial. A nossa estratégia de inteligência artificial foi a primeira no mundo a centrar-se no humanismo e nos valores" (p.25)

[a partir de Carlos Moedas, "Vento Suão", Guerra e Paz, 2020; o ex-comissário europeu sustenta a "obrigatoriedade de ensinar o que é a Europa desde o ensino primário", p.30; nota que ao nível da inteligência artificial "a Europa provavelmente fará escolhas diferentes de outras regiões"(de resto, "os grandes avanços da ciência não se devem à capacidade de computação, mas sim à capacidade humana de fazer ligações nunca antes feitas", pp.32-33; Portugal recebeu da UE cerca de 10 milhões de euros/dia, desde 1986, 100 mil milhões no total, p.38; actualmente, quinto país que mais que mais fundos estruturais recebe, p.39; para Moedas, o proteccionismo não funciona, porque aumenta o custo de vida e porque cria desemprego, dado que as empresas ficam sem incentivos para inovarem, p.41; o Japão e o Canadá, na atual conjuntura, aproximam-se "de nós [europeus] como nunca antes tinham feito"(p.45)

"Porque precisamos do Galileo, sistema europeu de navegação por satélite? Não bastava o GPS? Não podemos estar dependentes de sistemas não-europeus que não controlamos. Se, de um dia para o outro, o sistema GPS fosse restringido pelos norte-americanos, poderíamos sempre garantir a nossa independência"(p.69). O Galileo é o único sistema civil do mundo. Todos os outros são militares. A navegação por sectores não militares como os transportes, a navegação, a topografia, a agricultura ou as telecomunicações exige uma solução civil como a que só a Europa desenvolveu.

"Infelizmente, o nosso sistema de ensino prepara os jovens para profissões específicas em vez de os preparar para a resolução de problemas. O sistema de ensino prepara para o passado e não para o futuro (...) como é que vamos preparar esses jovens para esse mundo desconhecido, que não será forçosamente centrado em disciplinas? Para isso, precisamos de ensinar os jovens a navegar entre disciplinas e as matérias, entre o mundo físico e o mundo digital"(p.80)

terça-feira, 3 de março de 2020

FERROVIA


Wook.pt - A Ferrovia em Portugal


COMO OS COMBOIOS
- A SITUAÇÃO DA FERROVIA (EM PORTUGAL)
Grande ícone da revolução industrial, símbolo de modernidade e progresso, o comboio colocou-se sobre carris, na sua primeira linha a operar comercialmente, em 1825, em Inglaterra: a locomotiva a vapor ligaria Darlington a Stockton-on-Tees, transportando carvão e passageiros. Por sua vez, a primeira linha de caminho de ferro em Portugal, entre Lisboa e o Carregado, começou a ser construída em 1853 e foi inaugurada em 1856. Em 1870, com efeito, havia no Reino Unido mais quilómetros de linha férrea em operação do que aqueles que existem hoje em dia. Com o pensamento liberal a adquirir preponderância, no séc.XIX, a construção, pelos privados, de novas linhas, bem como os seus percursos, foi arbitrária. Sobretudo, em países como os EUA, ou a Grã-Bretanha, mas ainda em Portugal. Não tanto assim em França ou Bélgica.
Dos anos 50 aos anos 90, não se constroem novas linhas no nosso país. Em 1953 entre em operação o comboio Foguete, ligando Lisboa ao Porto em 4 horas e 20 minutos. A partir dos anos 80, muitas linhas encerram à exploração e são abandonadas. De uma rede com mais de 3600 km no seu auge, hoje estão em operação cerca de 2500 km, uma redução de quase 30%. Também em Espanha, França e Itália a rede actual é menor do que em meados do século XX. A diminuição foi ainda mais drástica nos EUA ou no Reino Unido, onde cerca de metade das linhas foram abandonadas.
Em meados do século XX, o sector ferroviário começa, pois, a entrar em declínio. No pós-II Guerra Mundial, o automóvel adquiriria o significado de uma muito desejada emancipação e bem-estar enquanto o avião se afirmava como sinal de um estatuto social considerável de quem o frequentava.
Em 1981 é iniciado o primeiro serviço de alta velocidade em França, o TGV, na rota Paris-Lyon. O número de linhas de alta velocidade multiplica-se não só em França, mas também em Itália ou Espanha. A China só começou em 2007, mas construiu a maior rede do mundo (mais de 30000 km, 2/3 do total mundial), e países como a Coreia do Sul, Turquia, Marrocos ou Arábia Saudita também investiram neste novo sistema. Na Índia está em construção a primeira linha – com base em tecnologia japonesa. Foi o Japão, em 1964, a inaugurar a era da alta velocidade. Na Europa, os países com maior peso do comboio no transporte de passageiros são a Suíça, Holanda e a Áustria, nações onde a alta velocidade não tem primazia, mas a rede é muito densa, com serviços frequentes e distâncias não muito longas.
Em Portugal, como nos elucida Francisco Furtado, em "A ferrovia em Portugal – passado, presente e futuro", publicado pela FFMS, entre a primeira e a segunda décadas do século XXI, o caminho de ferro aumentou em 60% a sua quota no transporte terrestre de mercadorias, o maior crescimento em toda a União Europeia (UE), passando de 9% em 2006 para quase 15% em 2016. A ferrovia tem um peso maior no transporte de mercadorias em Portugal do que na maioria dos países da Europa Ocidental. Desde 2013, também o transporte de passageiros, por via ferroviária, aumentou, registando 2018 os números mais elevados do século XXI (147 milhões face a 126 milhões 5 anos antes). Há, todavia, uma enorme concentração de passageiros nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, com 90% do total de passageiros de comboios no país. O transporte ferroviário de mercadorias pode ter custos em média três a seis vezes inferiores aos da rodovia, gerando um efeito multiplicador na economia. O acesso a uma rede ferroviária eficiente é determinante para portos, grandes indústrias e outros polos logísticos. Para o mesmo volume de atividade – medido em tonelada-quilómetro, a ferrovia consome em média sete vezes menos energia e emite perto de nove vezes menos dióxido de carbono que o transporte por estrada. O transporte ferroviário pode ser feito com zero emissões quando utiliza energia elétrica de fontes renováveis, uma tecnologia consolidada com décadas de utilização.
Os comboios realizam emissões poluentes, em média, 10 vezes menores que o automóvel, e necessidade de espaço, por parte destes, é muito menor: 3,5 vezes menos espaço que a rodovia para transportar o mesmo volume de passageiros. 93% de todo o uso dos solos pela infraestrutura de transportes na UE 15 cabe às estradas; o caminho de ferro ocupa apenas 4%. A ferrovia é um motor de inovação tecnológica, sendo pioneira no domínio dos veículos autónomos. Já existem vários sistemas de metro com linhas onde operam comboios sem condutor. Na Austrália, foi testado um comboio pesado de mercadorias que fez viagens de centenas de quilómetros carregando milhares de toneladas de minério sem condutor. Dos anos 1980 até 2011 gastou-se 4 vezes mais em rodovia que na ferrovia, entre nós. Portugal é o único país da UE com mais quilómetros de autoestrada que de caminho de ferro (exceptuando-se as ilhas de Malta ou Chipre). Só em PPP rodoviárias, o Estado português gastou em média mais de 1000 milhões de euros ano, na década de 2010. Cerca de 64% da rede portuguesa está electrificada, um dos valores mais elevados da Europa. Em 1990, existiam 185 veículos ligeiros de passageiros por 1000 habitantes; no ano 2000, o valor quase duplicara para 334; atualmente, mais do que duplicou com 469 veículos. Todavia, a situação cultural, os significados atribuídos ao automóvel, os modos de mobilidade parecem hoje seriamente questionados, desde logo pelas gerações mais novas.
A idade média em que os jovens tiram a carta de condução é cada vez maior no Ocidente, inclusive nos Estados Unidos. Em Estocolmo (Suécia), apenas 10% dos jovens com 18 anos têm carta de condução; nos EUA, da década de 1980 até hoje, o número de jovens encartados com 16 anos reduziu-se 47%. Se estes dados parecem ser favoráveis a uma potencial maior utilização da ferrovia, em sentido inverso os tempos de viagem por comboio tendem a ser mais longos, porque o traçado é mais exigente e menos direto que a estrada, um constrangimento que pode pesar nas escolhas que cada cidadão realiza. Na Europa, são necessários em média mais 7 comboios do que nos EUA para se movimentar o mesmo número de toneladas. Ou seja, cerca de sete vezes mais mão de obra. A Espanha já foi o país do mundo com mais quilómetros de linhas de alta velocidade, e ainda hoje possui a maior rede deste tipo na Europa, com cerca de 3000 km de extensão.
No futuro, segundo Francisco Furtado, um engenheiro civil especialista nas questões da ferrovia, Portugal deveria renovar e melhorar o material circundante; o eixo Sines-Leixões reclama, igualmente, grandes melhorias, nomeadamente nos terminais de grandes indústrias ou polos logísticos; a resolução dos limites impostos por rampas com inclinações elevadas ao longo dos principais corredores ferroviários uma outra prioridade, a que se adicionaria uma melhoria dos acessos à rede espanhola.

(no reparo do dia, que hoje assinei, na universidadefm)

domingo, 1 de março de 2020

Cartas totais


Cara Professora I.Pires:
1.E a certa altura, pergunta-me: “De que tem mais medo, em relação aos jovens?”
Respondo-lhe: “Da perda do sentido; do sem-sentido”.

2.Recordei-me desse pequeno diálogo, de novo, ao ler a interessantíssima entrevista da escritora Lídia Jorge, uma mulher de esquerda, ao “Público” de Domingo passado, em especial, este passo:
“Ora, os jovens de hoje têm medo da Terra, fala-se permanentemente do futuro, mas não há outro planeta para onde irmos, e as democracias estão em crise. E, por outro lado, as ciências biológicas estão a fazer o seu trabalho junto dos jovens, que é dizer que nós também somos um animal especial, ou talvez não sejamos um animal. Gosto muito daquela expressão do Steiner, que dizia que quando se lê poesia suspende-se a morte de Deus de Nietzsche. É verdade. Nós somos outra coisa. É preciso dizê-lo aos jovens, e é isto que a Literatura, as artes, o cinema, podem mostrar. (...)
É dizer que cada um tem a sua noção de transcendência, os que irão até à crença absoluta num Deus tradicional, outros que ficarão no agnosticismo. Mas ao menos deixem ficar a dúvida. Não digam taxativamente: "Eu sou um bicho". Digam: "eu sou um bicho que pensa que, havendo uma metafísica, essa metafísica pode dialogar comigo". Isto é fundamental para que os jovens não se suicidem, ou não se cortem nas pernas e nos braços, como está a acontecer”.

Lídia Jorge, entrevistada por São José Almeida e Luís Miguel Queirós, para a série “Portugal...e agora?”, “Público”, “P2”, 23-02-2020, pp.22-23.
3.Em edição de final de ano (2019) do “Jornal de Letras”, Viriato Soromenho-Marques invertia a frase que foi fetiche ideológico durante certo tempo – “a religião é o ópio do povo” – para sinalizar o momento/contexto (cultural) presente: “o ópio é a religião do povo”. O ópio seriam todas as formas de "divertimento" (divertissement) que inventámos – maxime, os jovens japoneses que ficam seis meses consecutivos sem saírem do quarto entre as séries infinitas, os jogos de PC, as diferentes redes de onde não saem - para criar um ecrã face ao "tédio" (l'ennui) e o "nada" (le néant) que nos espreitam bem de dentro da alma e, bem assim, fugir ao confronto com a nossa mortalidade (e as decisões a partir desse confronto): a saber, “na encruzilhada entre a totalidade divina e o vazio niilista com que preenchemos a grande incógnita da transcendência”. Não há uma terceira via, neste caso.
4.A filósofa Susan Wolf identifica o sentido da vida com Deus - esclarecendo que com o sentido da vida, as mais das vezes, se pretende encontrar um propósito ou objectivo para a existência humana, uma indagação sobre o porquê de estarmos aqui e, encontrada uma resposta, o que devemos fazer com as nossas vidas; e, neste modo de olhar o sentido da vida, reconhece a autora, tudo depende da existência (ou inexistência) de Deus.
Claro que, em não se identificando um “sentido da vida”, poderá descortinar-se “sentido(s) na vida” e esta é uma autora que entende existir uma resposta “objectiva” a essa mesma questão (como se encontra o sentido na vida, como se pode apreciar, objectivamente, se uma vida tem sentido): a) “entrega activa”; a b) “projectos de valor” – eis a resposta (que dá). Não basta ser mãe, polícia, enfermeira, professora, política, médica, bombeira, juíza (“projectos de valor”, extravasando o “eu”, a satisfação própria como exclusivo motivo, e dedicando-se a causas de valor que não seria, por exemplo, jogar raspadinha, PC o dia todo, ainda que a remuneração compensasse; essas seriam actividades sem sentido, segundo o padrão de Wolf); tem que haver uma “entrega activa” – não o “estar por estar”, o “estar não estando”, em tais actividades de valor (pelo outro também).

5.É certo que Lídia Jorge não indica estatísticas, dados científicos sobre um aumento de jovens a infligirem lesões a si mesmos. Deixa-nos como que com uma constatação empírica – que, de resto, e mesmo relativamente a tentativas-limite de deixar a vida, em pessoas de muito tenra idade, em tempos mais próximos, não deixamos de verificar.
E, por outro lado, talvez se pudesse dizer que a autora necessitava de provar uma relação de causa-efeito como a que traduz nesta sua mais recente entrevista, entre abertura à (possibilidade da) transcendência (e diálogo com esta) e um maior respiro vital (que não redundaria em “cortes nas pernas e nos braços”, sofrimento ou desespero vitais).
Que, no entanto, não estaria desacompanhada, a escritora, na identificação do sentido da vida com Deus, acabámos de o observar. E que a literatura acerca do suicídio nos remete para muitos que não o – ao sentido – perscrutam, também.

6.Sobre este experimentar do sem-sentido (“da” vida, e não “na” vida), perguntei, um dia, ao dr. Oliveira Fernandes: será, afinal, uma questão psicológica, ou espiritual? Poderemos, ou não, aqui, operar esta cisão? É de um psicólogo, ou de um mestre espiritual de que necessita a pessoa (em tais ocasiões)? (será sempre, necessariamente, um psicólogo um mestre espiritual, e/ou um mestre espiritual um psicólogo?).
7.Senti-mo-nos “ao colo”, mesmo nos momentos de absurdo (perda, dor, sofrimento), percepcionamos ir “do amor ao amor”, ou acreditamos em Unamuno que falava numa “trágica procissão de fantasmas que vai do nada ao nada?”. Paul Beauchamp: “o homem, desde o início do esplendor do primeiro dia da criação, suspeitou, sem motivo, mas convenceu-se de que o motivo existia e, desde então, começou a vê-lo”. E José Frazão, o atual Provincial dos Jesuítas em Portugal: “Quando libertos da suspeita e salvos do orgulho, nas muitas experiências efetivas do amor, pode chegar-se a reconhecer que tudo é graça” (p.16, “Entre-tanto”, José Frazão Correia). Um “crente” é-o não por uma causa – nomeadamente, a ideia de Deus como causa do mundo [“Deus não é a causa física do mundo, mas o mistério do seu significado”, T.Halik] -, mas, porque - justamente o inverso -, num certo dia e lugar, experimentou uma misericórdia sem causa (sem merecimento). Experimentou ou intuiu uma bênção (Stella Morra, “Deus não se cansa”, 2016, p.124).
Em que apostar, afinal? Em que ancorar uma existência – entre o nada e o tudo? Dois versos de Tolentino de Mendonça: “arriscando em vez dos tropeços habituais/a queda infinita” (“Teoria da Fronteira”, Assírio e Alvim, 2017, p.75).
Andrés Torres Queiruga, o grande teólogo (galelo), dizia simplesmente, e com mais optimismo, que, apesar de tudo, o facto de as pessoas, na sua esmagadora maioria, podendo fazê-lo, não retirarem a vida a si mesmos, era o referendo pragmático de que a vida vale a pena.

8.Oxalá, possamos tomar/experimentar a vida muito mais como “coisa boa” do que como um fardo, como “dor de viver”, ainda que esta possa aqui e ali advir: "Se existe um fundamento primordial de uma atitude religiosa frente à vida, não são as noções acerca de Deus ou dos deuses, mas uma consciência profundamente experimentada de que a vida é um dom (...) Não basta reconhecer teoricamente que a vida é um dom, há que experimentá-lo profundamente. Como é óbvio, essa «experiência profunda» não precisa de tomar a forma de um encontro místico excepcional; é mais uma questão de «misticismo quotidiano»: com cada ato e experiência da própria vida descobrimos essa realidade e senti-mo-nos gratos por ela. Se alguém tem essa experiência e sente relutância em conversar acerca de Deus em relação a ela - preferindo falar acerca da gratidão para com a própria vida ou para com a natureza -, de um modo geral isso significa, pura e simplesmente, que o seu conceito pessoal de Deus é demasiado estrito para abranger essa experiência, e essa pessoa está a utilizar conceitos, tais como a vida e a natureza, como «pseudónimos de Deus». Contudo, porque havemos de deixar a vida e a natureza de forma mitológica, quando há uma palavra que caracteriza, precisamente, aquilo que inclui a natureza e a vida, mas que também as transcende de modo infinito? Porque havemos de deificar algo que não é Deus? Porque havemos de apresentar o condicional como incondicional? Porque havemos de absolutizar os fenómenos da vida quando temos uma palavra que indica o próprio Absoluto, o Absoluto que permite que tudo o que não é absoluto seja prática e realisticamente relativizado? Costumo usar pouco a palavra «Deus»; com ela refiro-me apenas a esse mistério supremo, ao Desconhecido que brilha através da vida tal como nós a conhecemos" (Tomás Halik, “Quero que tu sejas!”, 2016, pp.253-254).
9.E como não podia deixar de ser, atendendo à atividade de valor e à dedicação ativa da Professora, um poema de Walt Withman:
“Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas…/ E que o sapo é uma obra-prima para o mais exigente…/E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis”.

E parabéns pelos, e aos, meninos.