quarta-feira, 27 de maio de 2020

A última dança de Jordan e dos Bulls, anos 90


Estreia da série The Last Dance


Do que mais gostei, em "The last dance" (realização de Jason Hehir)?

De nele ver retratada a intersecção da linha de vida de um filho de uma família monoparental num dos bairros mais pobres da sua cidade e que é posto, literalmente, fora de casa (pela mãe) por, aos 18 anos, não levar dinheiro para aquela, passando 2 anos sem tecto nesse bairro repleto de criminalidade - Dennis Rodman -, transformando-se num enfant terrible sensivelmente incontrolável e imerso em um conjunto de gestos excessivos, com a do filho de uma família bastante conservadora, com um pai pastor evangélico e uma mãe não menos zelosa, mas que se transforma num hippie (como é o caso do treinador Phil Jackson). Talvez um encontro improvável, talvez contra-intuitivo. 
E, mais, muito interessante, como a própria equipa, os seus jogadores - os Bulls - permitiram a Rodman algum quebrar de regras, compreendendo a especificidade da sua personalidade, ao mesmo tempo que optimizaram as suas potencialidades em campo. Em termos de relações de grupo e de tratar de modo igual o que é igual mas de modo diferente o que é diferente (equidade), um belo episódio deste "The last dance".



“The last dance” é o lema que Phil Jackson, o técnico dos Chicago Bulls, produz para a sua última temporada como treinador daquela equipa. O homem-forte da direção desportiva da equipa, Jerry Krause, que já antes pretendia ver outro homem a comandar, tecnicamente, os Bulls – sendo travado pelo Presidente daquela agremiação -, determinara que a época 1997-1998 seria a última de Phil Jackson em Chicago. “The last dance” é o título da série documental, descrita como de acompanhamento da última temporada de Michael Jordan nos Bulls, sendo certo, todavia, que é, muito mais do que isso, uma viagem, nas suas múltiplas biografias, ao álbum de uma equipa que começou a vencer campeonatos em 1991 – e durante 7 épocas quase não parou.

“Quando lutas com quem amas de verdade, isso incendeia-te por dentro”, assim, o testemunho de Michael Jordan sobre os socos trocados com o irmão Larry, instigados por um pai que colocava sempre pressão adicional para cada um ser constantemente (o) melhor. “Se queres ver o melhor de Jordan, diz-lhe que ele não consegue, ou que não consegue chegar ao nível de outro”, conta o seu progenitor, enquanto recorda a grande habilidade, para todas as tarefas, por parte de Larry – um “faz tudo” –, por comparação com Michael. Na sua vida, nos treinos, na sua motivação esteve muito presente, afirma o agora já lendário Jordan, esta busca de aprovação paterna, este desejo de confiança.

O pai de Jordan trabalhava na General Electric e a mãe era bancária, o ambiente económico-social em que medram os filhos é confortável; de qualquer forma, bem à maneira da mentalidade que tendemos a projectar no “americano médio” – no sentido de que o “american dream” teria o pressuposto de árduo trabalho como passaporte para uma mobilidade social ascendente efectiva; algo, a facilidade, desde que haja empenho e esforço, de subir socialmente que os factos não demonstram em absoluto nos EUA, mas isso é outra conversa - procuraram incutir nos filhos a ideia de que nada era dado de mão beijada. E mostrar-lhes o que era a vida também por via do desporto. Jordan nasce num contexto de enorme racismo nos EUA.

Scottie Pippen é um de 12 filhos de uma família com poucos recursos, de Hamburg, na Pensilvânia. Ainda assim, no quintal da avó, um cesto permitiu-lhe ir-se exercitando desde a mais tenra idade. Foi para a Universidade do Arkansas. E aí chegou a ser um dos melhores, selecionado, no draft, pelos Seattle SuperSonics que, no entanto, tinham, previamente, acordado com os Bulls a sua transferência, que de imediato se concretizou. Em 1991, Pippen, contrariando o conselho de seus assessores, assina contrato de longa duração – 7 temporadas – com os Bulls, com uma anualidade de 18 milhões de dólares. Só que este contrato dá-se, precisamente, no instante em que a Liga se populariza e expande (internacionalmente), e em que muito dinheiro fará movimentar. O diretor desportivo dos Bulls, por esta altura, Jerry Krause, é conhecido por jamais mexer nos contratos. Pippen estará longe de ser dos mais bem pagos nos Bulls, nos anos seguintes, e num lugar quase incógnito nos maiores vencimentos de jogadores da NBA. No derradeiro ano deste conjunto de 7 em que Pippen se comprometera com a equipa de Chicago, uma lesão no tornozelo é, pelo braço direito de Jordan em campo, debelada, deliberadamente, com a época a decorrer, sendo operado numa altura, pois, em que os jogos da regular season já decorriam. A forma, encontrada por Pippen, de reclamar do contrato que auferia. Pippen, hoje, afirma que o subscreveu porque tinha toda uma família para sustentar e não poderia saber se uma lesão viria colocar em causa os seus proveitos económicos (mais vale um pássaro na mão…).

Em tendo chegado aos 18 anos sem nada aportar à família em termos económicos, Dennis Rodman é, literalmente, colocado na rua, pela sua mãe, sendo sem tecto que viverá durante dois anos. Num bairro extremamente pobre, onde os comportamentos desviantes são o dia-a-dia. É um Rodman ingénuo, naif, desconhecedor do mundo, o que ingressa na universidade e na NBA. Será um Rodman enfant terrible, só compreendido pelo zen budista de Phil Jackson e a ambição de vitória de Jordan e Pippen, que sabiam necessitar da dureza defensiva, da capacidade de ganhar ressaltos, da agressividade de Rodman. Aceitaram-lhe e toleraram-lhe excessos, assumiram-no como um eterno rebelde com regras próprias, mas viram-no dizer presente e ser dedicado ao jogo também. Festas, mulheres a rodos, álcool, um look extravagante – mas também vários anéis de campeão, assim o retrato de Rodman. Face ao qual o documentário, curiosamente, estabelece uma comparação com o próprio Phil Jackson, o homem duro na defesa, nos seus 11 anos de Knicks onde ganhou campeonatos, o rapaz que crescera com uma pensão com várias cabanas, da parte da avó, onde sempre se brincava aos cowboys e índios - e que sempre preferiu ser índio. O homem cujo fascínio pelos americanos nativos vem desde aí, descrito como um hippie e compreensivo com quem se afastava das normas (como Dennis Rodman). Jackson, filho de pai pastor, e de uma mãe profundamente crente na segunda vinda de Cristo, formas de ser que marcaram profundamente a sua infância.
Após a carreira de jogador, principia, como treinador, em equipas periféricas, de pequenas localidades, mas onde as rivalidades são enormes; o presidente da câmara da equipa na qual treina chega a dar um tiro na perna de um árbitro, o que retira o político dos pavilhões por um ano. É Jerry Krause, mais tarde, que o irá buscar para fazer parte da equipa técnica dos Bulls. Faz uma espécie de estágio de dois anos, ao lado de Tex Winter, o mentor do triângulo ofensivo que entraria na história do jogo. Quando Jackson chega a Chicago, o treinador dos Bulls é Doug Collins. Para este, o foco é Michael Jordan, é ao novo astro da NBA que todas as bolas devem ir ter; com Phil Jackson o foco é a equipa, Jordan não pode ter sempre a bola nas mãos, porque assim é mais fácil de contrariar (pelos adversários). Que a maior estrela do jogo tenha aceitado esta decisão, eis um dos cometimentos maiores da carreira de Jackson. Ele que não levará de imediato os Bulls ao título, dado que os bad boys de Detroit ainda estão no máximo das suas forças. Um jogo essencialmente físico, agressivo, violento se necessário trava Chicago. Uma e outra vez. Até 1991. Depois de um Verão a levantar pesos e ganhar músculo, os Bulls apresentam-se para a batalha e irão limpar a série na final de conferência (Este). Os Pistons abandonam a pista, segundos antes de se concluir o último jogo, sem cumprimentarem os adversários – o que não sucedera, em sentido inverso, no ano anterior, ainda que os Pistons tenham encontrado precedente no que os Celtics de Bird e McHale lhes haviam feito anos antes. As feridas, mesmo pessoais, entre aqueles jogadores de finais de 1980, inícios de 1990, de Bulls e Pistons parecem permanecer até aos dias de hoje.

Da surpreendente retirada de Jordan, durante dois anos, da NBA, para se dedicar ao futebol americano, ainda convalescente do desaparecimento, por homicídio, de seu pai - com quem possuía uma relação de uma proximidade absoluta -, até ao regresso e ao modo como, naturalmente, era difícil ser Michael Jordan - uma imensa fama e controlo mediático da sua vida, uma imensidão de expectativas sobre os seus ombros, numa altura em que apenas o seu talento e trabalho o levaram a um estrelato mundial, não dependente, pois, então, de redes sociais ou de uma imagem extravagante -, incluindo uma mentalidade hiper-competitiva no lidar com os seus colegas se fez um documentário muito comentado em torno deste último ponto. Um Jordan ditador que não trataria com completo respeito os principais colegas de equipa. Porém, não apenas, confesso, foi um aspecto que não se me afigurou como surpreendente - dado o histórico de lideranças então vividas desse modo, no mundo desportivo, mas não só; lembrei-me, aliás, de grandes figuras de maestros, na música clássica, admirados pelo seu génio tanto quanto olhados de lado pela sua "tirania" na direcção dos demais -, como acho que esteve muito longe de ser o aspecto mais interessante dos 10 episódios de "The last dance".

Para lá da questão da verdade desportiva do, mais ou menos ligeiro, empurrão a Bryon Russel, na jogada decisiva para o sexto título consecutivo dos Bulls, em 1998, em Utah, ficou-me sempre a questão da Liga ter aí perdido a oportunidade de ver Jordan por mais algum tempo. Em caso de derrota, pensei, Jordan permaneceria, pois não quereria sair sem um derradeiro anel de campeão. E, contudo, no ocaso desta série documental, Jordan afirma que se a direcção desportiva dos Bulls renovasse com os vários campeões por mais um ano, ninguém hesitaria em permanecer para procurar o sétimo triunfo consecutivo. Seria o número perfeito. Phil Jackson, em sentido inverso, acha que era a atura de se fazer silêncio sobre a dança prometida no início da época e que se concluiu com um emotivo poema de Michael Jordan sobre o significado daquele ano em Chicago. Barack Obama afirma que Jordan mudou uma cultura. Os Bulls nunca mais estiveram perto de ser campeões desde a sua saída. Como não tinham estado antes da sua chegada. Em 1992 a NBA chegava a 80 países; no nosso tempo, chega a mais de 200. Se alguém contribuiu para que gente de todos os lugares da Terra dissesse "I love this game" foi aquele senhor que veio da Carolina do Norte transformar o Chicago Centre num forte inexpugnável.

[Comentada em toda a linha, a série "The last Dance", cujos últimos episódios foram disponibilizados na semana passada pela Netflix, mereceu inúmeras achegas de jogadores contemporâneos de Jordan nos Bulls, seus rivais noutras equipas - e isto nem sempre no registo mais amistoso -, sendo também questionadas ausências de monta na série, como a de quem defendesse o vilão Krause, a necessidade de escutar a mulher de MJ, o facto da montagem da série ter passado pelo ok dos assessores de Jordan, a ausência da dimensão cívico-política deste em favor de um triunfalismo de grandes marcas multinacionais a que se associou e dos milhões que daí lhe advieram - um exercício crítico sereno foi realizado pelo I, na semana passada, por exemplo. E ainda assim, foi bom rever as jogadas do "mais talentoso jogador que a liga alguma vez conheceu", nas palavras autorizadas e senatoriais de Magic Johnson e de Larry Bird, um rosto que nos aparecia no manual de inglês do segundo ou terceiro ciclo, e que, vê-mo-lo agora, seguia com a equipa num modestíssimo autocarro e que observávamos sem plasmas, mas, não raro, gravado em VHS]

sábado, 23 de maio de 2020

Um Conselho de Ministros sui generis




Estive a ver, na íntegra, o vídeo da sessão do Conselho de Ministros liderada por Jair Bolsonaro, agora libertado e, para lá da questão mais óbvia e naturalmente mais comentada, a das possíveis implicações penais para o actual Presidente brasileiro, advinda de um conjunto de afirmações por si ali produzidas - da possível interferência na Polícia Federal até à ideia de ter forças de segurança ou de inteligência próprias -, houve outros aspectos que, estou em crer, pelo menos entre nós não terão grande destaque, mas que se me oferecem com bastante interesse para quem se importa com a vida pública e política (internacional). Algumas notas:
i) nesta reunião do Conselho de Ministros brasileiro dá-se uma forte discussão ideológica entre o Ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, e o Ministro das Finanças, Paulo Guedes. O primeiro, em remoque ao segundo, dizendo que, neste momento histórico, "devemos estar de mente aberta", "sem verdades absolutas" e "sem dogmas" no que respeita a considerações sobre o investimento público e em infra-estruturas que, assinala, poderiam relevar em contexto de diminuição de desigualdades - incluindo as regionais. E que muitos países estão a trabalhar em cenários desta natureza, sendo que, acrescentou, as experiências de recuperação de um país como a Alemanha, nos pós-guerra, deveriam ser estudadas. Isto, quando se debatia o tipo de Plano de recuperação a estabelecer, neste momento, no Brasil. Ora, quase uma hora depois, e após vários ministros terem falado das questões que tutelam, Paulo Guedes respondeu com igual contundência, negando ter dogmas e afirmando, nada menos, que leu "8 livros sobre a recuperação da Alemanha no final da I Guerra Mundial e 8 livros sobre a recuperação da Alemanha no final da II Guerra Mundial". Se é certo que não deu exemplo algum de um autor ou uma obra em tal âmbito, prosseguiu em termos livrescos: "mesmo antes de ir estudar para Chicago, li Keynes três vezes no original!" [a resposta à demanda por infra-estrutura e obras públicas do seu colega; a sua rejeição do investimento público, ficava implícito, não seria dogmática mas ancorada em múltiplas leituras]. Se se esperava uma interpretação monolítica, do ponto de vista ideológico, no Governo Bolsonaro, e uma posição absolutamente incontestada, nestes termos, do ministro Paulo Guedes, não deixou de ser bastante interessante verificar que assim não é, sendo que, pelo menos um dos seus colegas, Rogério Marinho, expressou uma visão bastante diversa da sua (insinuando um dogmatismo por parte daquele, de matriz liberal na economia). E talvez, ainda, não se esperassem as referências livrescas em tal Conselho de Ministro (mesmo que, concretizadas, apenas Keynes tenha sido citado);
ii) se o debate substantivo, sobre a reacção governamental e o plano a adoptar pelo governo brasileiro, assentou na discussão protagonizada por Guedes-Marinho, por seu turno, a posição do Ministro do Ambiente, Ricardo Salles, é muito ilustrativa quanto a um certo "método" a utilizar na governação. Referindo-se à área que tutela, Salles, numa das declarações mais temerárias da sessão, afirmou que agora que no espaço público só se fala da covid-19, agora que ninguém presta atenção a mais nada, agora que os jornais e televisões não vão estar a olhar, era altura certa para, no Ambiente, acabar com muitas licenças, "desregular", avançar para zonas que têm sido mais críticas durante o actual mandato - como a questão da Amazónia;
iii) como muitos saberão, a ministra de Estado da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves é pastora evangélica, tendo ficado célebre uma predicação sua sobre uma aparição que teria contemplado aos 10 anos. Ora, Damares Alves sublinha, constantemente, esta sua vinculação o que a leva, entre muitas outras coisas, a ser contra o jogo. Que, creio, entenderá como uma forma de vício. Paulo Guedes defende a aprovação de vários casinos. E, no Conselho de Ministros, podendo fazer, sem mais, essa defesa (do seu ponto de vista), sabendo da posição da colega de Governo, dirige-se-lhe explicitamente: "Damares, deixa eles se f..., sobretudo se forem adultos e vacinados", acrescentando que serão multimilionários que a tais espaços acederão. Guedes, o ministro sem qualquer hesitação na abertura absoluta da economia brasileira e que quer ver casinos a avançar, explica à ministra Damares, evangélica contra o jogo e o vício, as vantagens das suas ideias. A mistura entre um liberalismo a outrance e as correntes evangélicas hard, no mesmo governo, tem momentos de puro non sense;
iv) no Conselho de Ministros brasileiro, cujo vídeo podemos agora assistir - com pequenos cortes, ordenados pelo juiz, que contém referências a relações com países terceiros, nomeadamente a China, mas excertos, esses, já agora, que todo o Brasil não desconhece...e, não tenhamos dúvidas, que os países terceiros não ignoram, igualmente -, está o Presidente do Banco do Brasil. Paulo Guedes insiste na pauta: "tem um liberal à frente [do Banco do Brasil] e mesmo assim não conseguimos fazer nada; é vender! [o Banco]". O Presidente do referido banco ainda começa por rebater, notando que em UM momento conturbado, como o actual, o Banco do Brasil é percepcionado pela população como um factor de segurança - de resto, uma discussão bastante próxima à que ocorreu, entre nós, a propósito da possível privatização da CGD. Mas o Ministro das Finanças insiste até ao ponto em que se lhe dirige (ao Presidente do Banco do Brasil), como se a resposta fosse óbvia e fosse a privatização, "diz aí qual é o teu sonho...". Porque haveria o Presidente do Banco do Brasil de ter o sonho de ver o banco que lidera privatizado? Jair Bolsonaro, por um momento, não acede à pretensão; sorri, conhecendo a visão do seu ministro, mas diz que a questão fica para 2023. Descarta, portanto, tal privatização durante este seu mandato;
v) a intervenção mais longa de Bolsonaro é repleta de vernáculo, como não se esperaria num Chefe de Estado em pleno Conselho de Ministros. Dificilmente, se encontra uma frase em que tal não ocorra. Os insultos aos governadores de alguns estados brasileiros são sem filtro. Por vezes, consegue juntar o vernáculo a erros de português na mesma frase. A expressão facial do seu vice-presidente, General Mourão, à sua esquerda na reunião, manifestamente embaraçado é, como diriam os espanhóis, um poema. Bolsonaro não zurze apenas nos governadores; o poder judicial, a polícia, estão causa; a imprensa é lixo e os ministros não deverão prestar quaisquer declarações aos jornais - exorta com firmeza. Pouco amistosa a alocução do Presidente brasileiro para com os ministros do seu governo, também: têm que vir para a rua e assumir a defesa do Governo, "não posso ser sempre eu a levar pancada". Quem falar ao Folha de S.Paulo será demitido. Até agora, saíram 5 ministros desde o início do mandato, "e eu espero que não saia mais nenhum!". Não compreende que haja media que elogiam um determinado sector, uma área do governo, e, simultaneamente, ataquem o Presidente. Insinua deslealdade de ministros quando assim sucede;
vi) afora a resposta no plano económico a dar à covid19, esta quase não passa pelo Conselho de Ministros, em pleno auge da pandemia no Brasil. A resposta sanitária não se descortina por ali, e o Ministro da Saúde - entretanto, saiu do Governo - surge muito timidamente, e com poucas falas, nesta reunião ministerial.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Um retrato do Chega


VENTURA Liderado por um pregador da moralização política e impulsionado por ressentidos contra o regime, o Chega junta lóbis evangélicos ultraconservadores, setores imobiliários, extremistas encartadoseleitores desiludidos e poderosas milícias digitais. Enquanto André Ventura prepara o reforço da sua liderança, a VISÃO desvenda os segredos da nova direita radical populista: como o Chega extremou a sociedade e pode beneficiar da crise pandémica? Quem são os seus membros, que causas defendem e o que escondem? (...) [Ventura] Reutiliza rancores típicos de conversa de café ou de táxi, e usa o método do salame para todos, servindo fatias de oratória adaptadas a reformados, professores, polícias, bombeiros e saudosistas do antigo regime. (...) Gonçalo Valente, líder do PSD/Beja distrital. O empresário ouviu militantes dizerem-lhe na cara que votariam no Chega. “O Ventura percebeu a abstenção, diz o que as pessoas querem ouvir. Os cafés têm a CMTV ligada, e a agenda dele é reflexo dos noticiários do canal. (...) O presidente da mesa da Convenção, Luís Filipe Graça, é o “elefante na sala”. Funcionário com um ordenado declarado pouco superior a 700 euros, o ex-dirigente do PNR e do Movimento de Oposição Nacional (MON), embrião dos neonazis da Nova Ordem Social, aos quais nega ter pertencido. Segundo a Sábado, vídeos e documentos indiciam o contrário. Alvo a abater? “Talvez alguém no partido e ou também fora do partido o queira, se estão ou não articulados não sei”, reage. Onde está Ventura, ele vai atrás. Até ver, o líder defende-o: “Nos casos em que se comprovaram as ligações a movimentos extremistas, os dirigentes saíram. Aos outros exigi que fizessem queixa das denúncias. Aguardo as conclusões desses inquéritos. (...) Luís Filipe Graça nega ligações a extremismos. Mas o filho Luís Graça ajudou a organizar eventos nacionalistas com os neofascistas Gianluca Iannone (Itália) e Olena Semenyaka (Ucrânia), em Lisboa. Em abril de 2019, esteve em Atenas, no festival Pro Patria, com neonazis praticantes de artes marciais mistas, bandas de hardcore e apoiantes do Aurora Dourada, partido grego de extrema-direita. Parte da distrital de Setúbal do Chega também já sintonizou estes ideários. O vice-presidente Carlos Carrasco foi do MON e candidato pelo PNR. Nas legislativas integrou a lista de Nuno Afonso, “vice” de Ventura. Há uns anos, Carrasco anunciou contactos com Marine Le Pen, da Frente Nacional (França) (...), e com Alessandra Mussolini, neta do ditador italiano, para a criação de um partido agregador das direitas radicais que não saiu do papel. Carrasco e Rui Figueiredo, dirigente do Chega em Setúbal e ex-candidato do PNR, foram expulsos do CDS de Paulo Portas, com outros militantes, em 2011. Acusados de criar uma tendência nacionalista e de promover a homofobia, disseram-se perseguidos. (...) Do Chega aproximaram-se alguns saudosos do Movimento de Ação Nacional (MAN) e das ações de supremacia branca das claques do Sporting. Ex-dirigentes do PNR, Pedro Marques e Pedro Frade (candidato por Lisboa na lista de Ventura) foram recrutas ativos na última campanha. O consultor financeiro Rui Roque, ex-dirigente e candidato do PNR, e diretor de campanha. do Aliança, de Santana Lopes, é outro apoiante recente. Ligado à claque SS Ultras, do Farense, Roque é simpatizante fascista. “O Fascismo está no amor permanente ao sentimento de pertença”, escreveu, no FacebookHouve ações concertadas para inscrever elementos mais radicais em vários concelhos”, admite Luís Paulo Fernandes, de 43 anos, cabeça de lista por Leiria nas legislativas. (...) Só à segunda tentativa, o Tribunal Constitucional legalizou o partido. E, mesmo assim, com reservas. Havia mais de 2 600 nomes irregulares e erros grosseiros, entre eles assinaturas de uma criança e de um cidadão com 114 anos. Ex-dirigentes falaram de falsificações em massa. O Ministério Público abriu um inquérito, e Ventura prometeu levar o caso até às últimas consequências. “Muitas assinaturas foram recolhidas por estudantes”, explica um conselheiro nacional. “Traziam 200 ou 300 de uma só vez e pagávamos um euro por cada uma, em dinheiro. Fez-se isso em todo o País.” (...)  O Chega seduz jovens evangélicos da Grande Lisboa, ex-militantes de esquerda do Alentejo e “meninos bem” do círculo Cascais-Lapa-Foz

AS EXTIRPES
Ventura considera o italiano Salvini o seu modelo. Mas vê “qualidades” em Trump e em Bolsonaro.  

 O discurso de André Ventura no Parlamento, a 25 de abril, terá estado no topo dos vídeos mais vistos do dia, superando mesmo a corrente de Grândolas cantadas à varanda. Mal o deputado terminou, o vídeo difundiu-se em larga escala, ultrapassando as 120 mil visualizações. “É uma ação típica de força militar. Os exércitos digitais do Chega são extremamente organizados e eficazes a replicar conteúdos”, garantiu à VISÃO o diretor de uma agência de consultoria estratégica digital e monitorização de redes, cuja carteira de clientes inclui grandes empresas e organismos governamentais. “Nessas contas, entram, obviamente, os perfis falsos que, pelas minhas contas, já serão perto de 20 mil”, refere aquele especialista.

Miguel Carvalho, grande repórter, Visão, 21-05-2020.

domingo, 17 de maio de 2020

MEMÓRIA PRODIGIOSA


O ÚNICO PROCURADOR DOS JULGAMENTOS DE NUREMBERGA QUE AINDA ESTÁ VIVO, NUMA ENTREVISTA PUBLICADA PELO EXPRESSO (excertos)
"Talvez haja outra explicação para a sua vitalidade: ter um objetivo tão claro na sua vida?
Sim, eu tenho uma vocação. E a origem é a Segunda Guerra Mundial. Eu tinha combatido no Terceiro Exército do general Patton e fui nomeado investigador de crimes de guerra depois da guerra. Isso implicou ter de visitar diferentes campos de concentração. O meu primeiro campo foi Buchenwald. Havia corpos por todo o lado. Mal se podia ver se as pessoas ainda estavam vivas. Os que ainda estavam vivos à justa só conseguiam pedir ajuda com os olhos. Foi como um vislumbre do inferno, e teve sem dúvida um efeito traumático em mim. Todo o meu pensamento foi determinado por isso. Porque passei o resto da minha vida a tentar evitar que algo semelhante voltasse a acontecer. Isso é mais importante, acho eu, do que acusar uma mão- -cheia de assassinos em massa”. (...)

Os assassínios cometidos pelas SS foram particularmente cruéis. Sim, alguns bateram a cabeça de um bebé contra uma árvore. Para salvar munições. O general Ohlendorf das Einsatzgruppen disse: “Se virem uma mãe com um bebé, foquem-se no bebé. Elas apertam sempre o bebé contra o peito, portanto assim matam dois judeus de uma vez. E poupam as vossas munições.” Também os lançavam para uma fossa e atiravam terra para cima deles. O seu trabalho era exterminar todos os judeus que viam, como baratas. No total, havia 3 mil membros desses Einsatzgruppen, dos quais selecionei 22, com base no seu posto e educação. Mais do que 22 não era possível, pela razão ridícula de que só tínhamos 22 lugares no tribunal. (...)
A sua política [de Donald Trump] é desumana e uma vergonha para os Estados Unidos. Eu vim para a América com os meus pais nos anos 20, como emigrantes refugiados da Áustria-Hungria. Trump quer fechar as fronteiras, construir um muro! Eu vi a Linha Maginot, o Muro de Berlim. Não faz sentido construir um muro, é estúpido. Vejam como Trump trata os mexicanos que tentam vir para aqui. Separa as mães dos bebés. Isso é um crime contra a humanidade. (...)
Em “Prosecuting Evil”, o seu filho diz-lhe que costumava repetir a mesma pergunta todas as noites à mesa de jantar: “O que fizeste hoje pela humanidade?”
É correto! Eles inventavam sempre algo de novo. Diziam, ‘ajudei o professor esta manhã’!
E qual era o castigo se não conseguissem pensar em nada? Não comiam sobremesa!


Ben Ferencz, em entrevista traduzida por Luis M.Faria para o Expresso, originalmente concedida a Colin Van Heezik (originalmente publicado no “De Volkskrant”). "É o único procurador do célebre tribunal de Nuremberga, que julgou os criminosos nazis, ainda vivo. Passou a vida inteira a tentar evitar que a História se repetisse. Aos cem anos ainda não perdeu a esperança".

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Por estes dias


DIÁRIO DA PESTE (III)
"O humano é um animal que sabe esperar. Por vezes fica louco, mas no geral espera melhor do que os outros. Eliot Weinberger e a pergunta: o que são as estrelas? “São prenúncios de guerra, morte, fome, pragas, de colheitas fartas ou magras, do nascimento de reis; são elas que regulam o preço do sal e do peixe... são os caçadores de focas que perderam o seu rumo.” Astro e desastrado têm a mesma origem. Desastrado, aquele que não está atento aos astros. Aquele que está dessincronizado com o que vem de cima. Entra cedo demais ou tarde demais. Diferentes países, diferentes estratégias. Fechar, abrir, fechar, abrir."
Gonçalo M.Tavares, "Diário da Peste", Expresso, 09-05-2020.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Inciso político


1.Existindo um contrato no qual se estabelece a transferência de uma verba anual, até 2021, por parte do Estado, sob a forma de empréstimo, para o Novo Banco; tendo o valor da transferência, a realizar em 2020, sido inscrita em Orçamento de Estado; sabendo-se, no caso concreto, de como o incumprimento contratual em causa e, portanto, a respectiva ausência de transferência daquele valor, poderia - escutando-se os peritos - colocar em causa o sistema bancário (português); não se ignorando, portanto, que, independentemente do resultado a que a auditoria ao Novo Banco chegasse, do ponto de vista prático se tornaria manifestamente improvável, se não inviável, a ausência daquela transferência - sendo que, ademais e ao que tudo indica, o tema não deixou de ser tratado em Conselho de Ministros -, como transformar o Ministro das Finanças, Mário Centeno, no (principal) responsável do nosso mais recente imbróglio político?

2.O que pensarão os militantes do Partido Socialista do anúncio, aparentemente sem consulta ou debate alargado prévio nos órgãos do Partido, do apoio com que, no fundo, este ficou vinculado, a uma recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a PR, com as declarações de António Costa na Auto-Europa? Não é, em realidade, creio, um problema, exclusivo, dos militantes do PS: a nossa cultura política, mas não apenas, de (como que) assimilar uma instituição a um homem - por mais méritos e qualidades que este possua - não releva da devida consideração de um corpo bem mais extenso, e vivo, deliberativo que não se subsume, nem aceita subsumir, a uma única pessoa (que, conjunturalmente, lidera uma dada instituição). 
É certo que o ascendente natural de uma liderança que tem provado, e que os estudos de opinião indicam que excede, mesmo, o eleitorado mais nuclear desse partido, convoque uma maioria da sua militância a assentir numa dada orientação (estratégica) por ela oferecida. Mas nessa altura, já a decisão seria tomada por essa mesma militância (nunca pense por mim, pense sempre por você. Se depois vier a concordar comigo, nessa altura já o pensamento lhe pertence, cito de cor Agostinho da Silva, a um jovem amante da sabedoria). O que faz toda a diferença. De aí que o respeito pelos formalismos e procedimentos, uma vez mais é caso para o recordar, seja tão importante no que - deveria ser, mas mais uma vez não o é - concerne à democraticidade, participação, deliberação no interior das instituições.
E o modo do anúncio? Em plena Auto-Europa, sem solenidade nem "gravitas", como uma espécie de desvio de atenções face ao caso do dia - no fundo, uma espécie de confissão de assunção de responsabilidade, no mesmo tema -, seria, igualmente, o que se esperaria relativamente ao que é o magistério de uma Presidência da República?
António Costa, com uma resiliência de registo na condução da crise pandémica e com resultados no domínio das finanças públicas, bem como, por exemplo, na diminuição da pobreza (até esta situação de excepcionalidade que estamos a viver), teve, ontem, dos tais dias horribilis (de que ninguém está a salvo, mas que com o escrutínio que um governo e a sua liderança devem merecer, não pode deixar de se assinalar).
Também é verdade que tendo os partidos da oposição ou participado do processo de resolução do BES, uns, ou conhecendo os contratos em vigor e a aprovação em Assembleia da República e as consequências para o país daquele incumprimento, outros, aquilo que se ouviu durante toda a tarde no Parlamento - a saber, e em especial, que se poderia deixar de pagar o contratualizado com o Novo Banco, manifestando-se uma grande surpresa com o respectivo pagamento -, mais não foi que um exercício de pura coreografia bastante generalizado.
O que não inibe de se considerar acertado o apontar à descoordenação e à crise política inusitada neste período tão delicado, aberta não do exterior, mas do interior do próprio governo, sendo, aí, certeira a oposição no que observa como uma oportunidade de fragilização e desgaste a partir de um peso-pesado - aparentemente de saída - como Mário Centeno. Nesse sentido, Rui Rio, que não fala todos os dias e sobre tudo, e que apoiou o governo nesta pandemia, beneficiando do surgimento desastrado de personagens como Nuno Melo ou Telmo Correio, para não se falar de André Ventura, permitindo um real recentramento, tem feito uma oposição inteligente e esperta. 

3.Foi preciso Ventura (sobre quem aqui escrevera a 30 de Janeiro, no que considero manter completa actualidade: https://jas-mim.blogspot.com/2020/01/o-chega-basta.html), como se estivéssemos na Alemanha dos anos 30/40, propor um gueto para ciganos, secundando-se, imediatamente, com uma ignóbil tentativa de aproveitamento político da morte de uma criança - a que juntou, já após uma célebre fotografia, para publicação no jornal "Sol", de joelhos numa Igreja, uma nova tentativa de aproveitamento religioso, desta vez com o 13 de Maio, como as pessoas fossem completamente destituídas de inteligência -, para que certos maduros que lhe haviam dado apoio e o viam como indispensável em acordos à direita, fossem tirando a mão do colo. Daí a nada nunca o conheceram. É bem conhecida a espécie de aforismo que nos diz que em Portugal, no dia a seguir à Implantação da República, não havia um monárquico. Ou, em todo o caso, como mais vale um pecador que se arrepende, do que cem justos que não precisam de arrependimento.  
Neste âmbito, ainda três notas: i) uma para dizer que não vale a pena confundir as pessoas com aquilo que será uma reacção humana compreensível, em estado de choque, emocionalmente perturbada, e que procura ripostar, com ou sem proporcionalidade, em quem tratou mal um seu familiar ou ente querido; outra, a que deve ser a reacção estadual, da norma constitucional e na conformação penal, bem como a decisão lúcida de um juiz de direito. Bem agradeço aos constituintes, e entre eles a grandes sábios não apenas do Direito mas do respeito por "leis eternas" como a da dignidade da pessoa, colocar o nosso ordenamento ao abrigo de conjunturais e muito compreensíveis momentos de turbulência emocional pelo choque humano com o seu lado mais negro. É aí que a recusa do estado em colocar-se ao nível (moral) do criminoso, ou de uma reacção de pura vendetta, ou retribuição, encontra respaldo; ii) bem andou David Justino em qualificar a intervenção de Nuno Melo sobre o caso da telescola e o vídeo de Rui Tavares, como algo de "desonesto, manipulador e próprio de uma direita trauliteira sem escrúpulos". O facto de estas declarações, vindas de um vice-presidente do PSD, serem pouco imagináveis há poucos anos, remete, ainda, para a necessidade de recentramento que a actual direcção do Partido observou; iii) ao contrário do que uma leitura apressada, do ponto de vista mediático, quis fazer crer Nuno Melo ou Telmo Correia não representam o "novo CDS". Estes dois militantes do CDS opuseram-se, ferozmente, no último Congresso, à eleição de Francisco Rodrigo dos Santos. Melo, vale a pena lembrar, foi fortemente vaiado em tal congresso. Tiradas como as que teve sobre a telescola não têm nada que ver com uma pretensa nova linha no CDS que Francisco Rodrigues dos Santos quereria impor, vinham bem de antes na conhecida trajectória do eurodeputado. O que novo líder do CDS faz mal é, muito provavelmente para não criar fracturas internas tendo recebido o partido debilitado, não se demarcar, e acabar, com a iniciativa do seu partido no parlamento sobre a telescola, por deixar-se contagiar por aquele estilo (que nas europeias, e sob outra liderança, havia sido exatamente o mesmo). De resto, não me recordo de Francisco Rodrigues dos Santos ter tido, até ao momento, como líder do CDS, quaisquer tipo de afirmações ou propostas que traduzam o radicalismo de que era acusado. Na sua mais recente entrevista ao "Expresso", e sobre o Chega disse: "Não somos uma direita trauliteira, não temos um discurso de ódio que procura colocar uma parte da sociedade contra a outra".

A sociedade em revisão (ou talvez não)


UMA MUDANÇA DE 180 GRAUS (MAS COM VONTADE DE CHEGAR AOS 360...)
"No fim do ano passado, estávamos a discutir o direito à felicidade e questões relacionadas com o consumo, o conforto, as tecnologias, o aumento da longevidade e do bem-estar. Estávamos a sobrevalorizar a autonomia e a liberdade individual. Agora estamos a discutir o direito à sobrevivência. Em três meses mudámos completamente o sentido da sociedade. (...) Não estávamos a perceber que o destino é contingente e influenciável por fatores externos que pensávamos poder dominar. De repente veio um vírus e tudo se apagou, inclusive a valorização superlativa da autonomia. (...) A minha impressão é que, passada a pandemia, a sociedade rapidamente vai voltar aos objetivos anteriores."
Jorge Soares, Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), em declarações ao "Expresso", 09-05-2020.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Publicando no I


No jornal I:


*https://ionline.sapo.pt/artigo/694738/jason-brennan-um-regime-que-possa-rivalizar-com-a-democracia?seccao=Mais (título do texto, da responsabilidade do I)

*https://ionline.sapo.pt/artigo/694841/daniel-innerarity-a-era-da-incerteza?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/695294/stig-dagerman-do-milagre-da-libertacao-e-do-que-suspende-o-tempo-?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/694931/das-democracias-liberais-as-democracias-iliberais?seccao=Mundo

*https://ionline.sapo.pt/artigo/695205/yascha-mounck-a-cisao-da-democracia-com-o-liberalismo?seccao=Opiniao_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/695442/o-que-e-o-populismo-?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/695703/pankaj-mishra-tempos-de-pessimismo?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/695825/klaus-mann-a-den-ncia-tempestiva-e-inconformada-da-barbarie-nazi?seccao=Mais_i


*https://ionline.sapo.pt/artigo/696698/michel-serres-as-varias-crises-da-crise?seccao=Mais_i&fbclid=IwAR0zSMa0KhoJ-ZXEgNzBDSWRY24TyrmCJOZPZ9s2NRbscC0sFlQSpWzMO08

*https://ionline.sapo.pt/697030?source=social&fbclid=IwAR3dKMFGrSmG40QF0Semnjli2NTdNy4PMguWEl17tIWCmUscxaIfINoTZcg

*https://ionline.sapo.pt/artigo/697208/as-memorias-e-a-memoria-de-diogo-freitas-do-amaral?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/697597?source=social&fbclid=IwAR2VtblZ1ha9FkaZaV9GmrmRZWekKAzRrZP_u9dhnLgOa4Jgh9TROq09Ekg

*https://ionline.sapo.pt/artigo/697830/branko-milanovi-vencedores-e-perdedores-da-globalizacao?seccao=Mais_i&fbclid=IwAR3vE7cS0Fgr8r3B0-PTLUGalu-YVPxKZXHh_51KMakz7VpWetc36tQpEL4  


*https://ionline.sapo.pt/artigo/698247/antonio-feijo-e-miguel-tamen-a-universidade-repensada?seccao=Mais_i&fbclid=IwAR148EMsjw__6S6XF36FQxFc38UZiEIX_feCMRI-7ghdqeo9S5Cs6JH5RZ4

*https://ionline.sapo.pt/artigo/698644/martha-c-nussbaum-em-defesa-das-humanidades?seccao=Mais_i&fbclid=IwAR3lCdXxbbnZv4Tta2dEWizWgxsZKqCW5Jsw3_xzs93JDHRBt1kX7DbwFAg

*https://ionline.sapo.pt/artigo/698770/daniel-sampaio-a-condicao-adolescente?seccao=Mais_i&fbclid=IwAR1Ibp60GNyR6r-a31gdqH284GDHOJaXkvbNH9oAp92oGZZYD6-IeYEppyM

*https://ionline.sapo.pt/699449?source=social&fbclid=IwAR2qkNQnYqymuxvJhmGa6G7VLwrR3pcABCkg-xU4QCVO6ilr-pnoc00wJis

*https://ionline.sapo.pt/artigo/699774/alvaro-domingues-como-se-explica-um-lugar-visto-de-tras-os-montes-?seccao=Mais_i

 *https://ionline.sapo.pt/artigo/700079/as-20-licoes-do-seculo-xx-segundo-timothy-snyder?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/700463/da-condicao-de-recluso?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/700710?source=social&fbclid=IwAR1mF3vqB5Je2-cy0AHpy_gsD_9DtgqyjIo7B99Nu33wMejvq-ICB_j5LQs

*https://ionline.sapo.pt/artigo/700805/sa-de-mental-depressao-e-suicidio?seccao=Mais_i&fbclid=IwAR02iKXwo3iA6Zfgctbcs8sqrpS3xJwonmpXwdVjJ7RCks3ZDlskEr-9kOs

*https://ionline.sapo.pt/artigo/701065/a-ars-moriendi-segundo-walter-osswald?seccao=Mais_i

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*https://ionline.sapo.pt/artigo/701162/jose-tolentino-mendonca-da-import-ncia-vital-das-grandes-perguntas?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/701281/daniel-innerarity-um-outro-pensamento-sobre-e-para-a-crise-do-coronavirus?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/701514/adela-cortina-aporofobia?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/artigo/702219/byung-chul-han-da-sociedade-do-cansaco?seccao=Mais_i

*https://ionline.sapo.pt/702362?source=social&fbclid=IwAR0aQXuY-qpaqZHxd0nxj8sSBAZb75JY55QbL-3Oi_GcebEGOYEC7hl9Xrc

*https://ionline.sapo.pt/artigo/702497/pedro-strecht-nunca-caminharas-so?seccao=Mais_i 




FIO DA NAVALHA


Por mais que estivesse anunciada nos astros ou nas cartas, a chegada desta sentença é grave, muito grave. Desde logo, pelos seus efeitos práticos. Se, na sequência do prazo de três meses, ela levar a uma exclusão do Banco Central alemão do programa em causa, a repercussão sobre o euro e a zona euro será devastadora. Mas ainda que nada suceda, ela cria uma enorme incerteza nos mercados e limita imenso a margem das autoridades alemãs para anuírem a uma solução solidária na crise da covid-19, tanto mais que o prestígio do Tribunal de Karlsruhe na sociedade alemã é da ordem do sagrado. Eis, no plano prático, um exemplo perfeito da máxima jurídica: fiat iustitia et pereat mundus! No plano jurídico, político e constitucional, as consequências são ainda mais preocupantes. A aceitação de que um tribunal nacional, por mais alto que se alcandore, pode por si só, delimitar as competências da União, em assumida violação de uma sentença do Tribunal de Justiça, é a negação dos fundamentos rudimentares da comunidade europeia de direito. Tolerar este precedente é demolir, país a país, essa comunidade e a ordem que a sustenta

Paulo Rangel, Público, 12-05-2020, p.18.

CEDER NO ESSENCIAL, CAMINHO PARA O ABISMO


Todos os que desvalorizaram os Trumps, os Bolsonaros ou que acharam que André Ventura, o confinador de ciganos, é que dizia “grandes verdades”, estão a assistir agora da primeira fila aos resultados catastróficos de ceder nos princípios mais básicos em nome de estratégias políticas.  

João Miguel Tavares, Público, 12-05-2020, p.40.

O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL E A UE


"Numa altura em que a UE está asfixiada num pântano pandémico e a mergulhar num abismo económico e social sem fim à vista, não sei se o TCA (Tribunal Constitucional Alemão) mediu as consequências da desmesura de sair a público brandindo um violento acórdão que mais parece uma declaração de guerra ao direito europeu e ao BCE. Agora que este mostrou a sua resolução de ajudar a combater o covid-19 com um programa de 750 mil milhões de euros, e em que a Comissão Europeia estará a preparar um pacote financeiro para o mesmo fim, o TCA põe em causa a compra de dívida pública levada a cabo pelo BCE desde 2015 (PSPP), decisão que foi responsável por manter a zona euro a flutuar. Nem a contenção jurídica é capaz de esconder a intensa hostilidade do Tribunal de Karlsruhe: desautoriza o Tribunal de Justiça da UE, que havia decidido favoravelmente sobre a legalidade do PSPP em 2018; põe em causa a primazia do direito europeu sobre o direito nacional em matérias em que existe choque de interpretações; intromete-se no trabalho técnico do BCE, exorbitando da verificação estrita do seu mandato que é o de “manter a estabilidade dos preços” (uma antiga exigência alemã consagrada no art.º 127 do TEFU!); faz chantagem sobre o BCE (a quem exige uma mudança de rumo), ameaçando com a saída do Bundesbank dos programas do BCE…O TCA atua como se fosse o Tribunal Constitucional, não da Alemanha mas de uma federação europeia, cuja existência Berlim tem denodadamente combatido, para continuar a ser a maior beneficiária de uma união monetária cujo balanço das transferências favorece os ricos em detrimento dos pobres. Foi pena que o TCA não tivesse derramado o seu súbito conhecimento macroeconómico sobre os modos de financiamento do Pacto Ecológico, da transição energética, da justiça entre gerações e da solidariedade europeia perante a pandemia. Até a ameaça de Pequim acorrer aos saldos numa Europa exangue foi esquecida. As absurdas regras do euro são para manter? A dívida de hoje será paga com taxas de juro nacionais diferenciadas amanhã? Nos próximos 90 dias confirmaremos se este ataque faz parte de uma concertada estratégia germânica. Escutaremos o que dirá Paris sobre o “despacho de Karlsruhe”. Veremos se ainda existe prudência política suficiente na UE para salvar os europeus, incluindo os alemães, dos demónios suicidas que têm feito da UE um todo menor do que a soma das partes"

Viriato Soromenho-Marques, DN, 09-05-2020, p.22

segunda-feira, 11 de maio de 2020

O DESASTROSO (QUE SERIA) O REGRESSO ÀS "POLÍTICAS DE AUSTERIDADE"


Pedro Laíns, no DN, 09-05-2020, p.21:

"Desde o fim da era de Passos Coelho, a política económica por cá seguida tem sido moderada, e relativamente justa do ponto de vista dos equilíbrios sociais. Foi só preciso seguir ideias com décadas de sucesso. (...) A moderação é um elemento fundamental na condução da política económica, pois só com ela os governos têm tempo para perceber o que é preciso fazer, ouvindo os interlocutores organizados, perto do terreno. O contraste com o radicalismo económico do governo anterior não pode ser esquecido tão cedo. Os governos não devem ser elogiados e por isso fico-me por aqui. (...) Entretanto, o PSD melhorou, trazendo vantagens a todo o país, incluindo no ataque à grave crise de saúde que atravessamos. Tornou-se um partido mais responsável. Mas o barulho de fundo não cessou e foi agora aumentado, transformando-se em avisos de que só se poderá sair da crise económica, que já começou, com nova “austeridade”. Para cortar o mal pela raiz, saibamos que ninguém está preocupado com “austeridade”, mas sim com “políticas de austeridade”, sendo a diferença subtil na forma, mas fundamental no conteúdo. O anúncio de que será preciso “austeridade”, e, portanto, que Passos deverá ser ilibado, tem de ser lido como o anúncio de que serão precisas “políticas de austeridade”. Ora, isso é, simplesmente, falso. Aliás, como aconteceu no passado recente, essas políticas só agravariam a crise económica, que é, aliás, para isso que elas são desenhadas. Vamos pôr as coisas tão claras quanto possível, para não haver mais confusões e estarmos bem atentos. E insisto neste ponto, pois estas políticas só morrem quando os cidadãos estão alertados para o que elas na verdade são. Em 2011, muitos cidadãos portugueses foram enganados, quando compraram a ideia de que as “políticas de austeridade” seriam necessárias, alguns até acreditando que quanto mais duras fossem, melhor seria. Por alguma ironia do destino – e isso está estudado – Portugal foi dos países da Europa Ocidental onde essa ideia mais terreno ganhou. Ora, “políticas de austeridade” não são políticas de contenção moderada e sustentada do défice público, não são políticas de boa gestão da dívida. São outra coisa. São cortes nas despesas do Estado, de grande dimensão e em curto espaço de tempo, acompanhadas ou não por aumentos substanciais de impostos. E têm em vista dois propósitos claros. O primeiro é o de diminuir a atividade económica dentro do país, para que importe menos e (um dos sonhos) exporte  mais, assim diminuído a dependência de financiamento externo. Não é por acaso que o FMI (e, no caso português, o atual Banco de Portugal) seja o principal promotor de tais políticas – mas isso é outro assunto. O segundo propósito é o de diminuir o peso do Estado na economia, de modo a dar lugar (o outro sonho) ao ressurgimento da iniciativa privada, que ocuparia o lugar deixado vago pelo Estado. É simplesmente isto e deve ser bem entendido. Quase todas as pessoas que defenderam essas políticas no tempo de Passos Coelho estão agora fora de cena, por várias razões, desde a credibilidade perdida, ao facto de termos assistido a uma mudança geracional. Mas o que me preocupa muito é que o lugar poderá vir a ser ocupado por uma nova geração que pretenderá ter uma voz à custa de conseguir vender as “políticas de austeridade” a uma população menos esclarecida. Seria bom que essas ideias não encontrassem chão fértil, pois esse seria o primeiro passo para o regresso ao passado."    

A UE PODE MESMO ACABAR?


DN: A União Europeia pode mesmo acabar? 

Paulo Rangel: Está em causa , está! É absolutamente claro que nesta crise, se acontecer uma ascensão, que não é improvável, mas é possível e plausível, do populismo em Itália ou na França, do Salvini e da Le Pen, corremos o risco de novas saídas. Nesse caso, se a UE se dissolve e desintegra, os países contribuintes líquidos, que julgam estar a fazer um exercício prudente, ficarão numa situação extremamente difícil porque a crise chegará à porta deles em condições que eles não estão à espera e fará ricochete. Nem os líderes entendem, na Holanda, na Dinamarca, na Suécia, na Finlândia, na Áustria e na Alemanha, nem as opiniões públicas entendem porque nunca foi feita essa pedagogia, de que se eles não tiverem o mercado italiano, o francês, o espanhol, essas economias não vão ter as possibilidades que agora têm. Se eles não estiverem no euro vão emitir moedas muito mais apreciadas cambialmente e não vão conseguir exportar. Chegou à altura de darem algum retorno àqueles que não tiveram na zona euro as mesmas vantagens competitivas que têm essas economias. Se não forem capazes de fazer isto, acho que a UE está em crise, e uma crise que pode ser letal. Está num momento, usando uma expressão popular, de “ou vai ou racha”.  

entrevista de Paulo Rangel, eurodeputado, a Paula Sá, para o DN de 09-05-2020, p.19.

PUBLICAÇÕES


A DEMOCRACIA E A SEIVA CRISTÃ QUE A EMPODERA, NO PENSAMENTO DE JACQUES MARITAIN, OU A RELEITURA DO TRANSE POLÍTICO NOS IDOS DA SEGUNDA (E A TERCEIRA, A CAMINHO) DÉCADA DO SÉCULO XXI
Reflexão em conjunto com Paulo Mourão em artigo, com arbitragem científica, publicado na "International Review of Economics", em Dezembro último com acomodação online (aqui: https://link.springer.com/article/10.1007/s12232-019-00338-5) e, agora mesmo, passados seis meses, e como é de regra, em versão definitiva, na edição em papel desta revista - que conta no seu corpo de editores com Nobel da Economia, figuras como Amartya Sen, Robert Solow ou Jeffrey Sachs. O artigo intitula-se "Cristianity, democracy, anda Maritain: a reading of a path of meetings and retreats".

"Diário da Peste"


UM DIÁRIO PARA GUARDAR
António Guerreiro, ontem, no Ípsilon, sobre o "Diário da Peste", de Gonçalo M.Tavares: "Seja escrito em estado de emergência ou em estado de calamidade, o "Diário da Peste" que Gonçalo M. Tavares tem publicado no Expresso dá expressão e forma ao que estamos a viver como nenhuma imagem, nenhum directo, nenhuma notícia, nenhuma reportagem consegue dar. No meio desta tautologia enorme, erguem-se diariamente as palavras de um escritor que são capazes de apreender a verdadeira actualidade e “salvar” o quotidiano. Este diário não é uma mera escrita de circunstância, é um grande momento da escrita de Gonçalo M. Tavares (que por ser já tão vasta, nem tudo nela se equivale) e da literatura portuguesa. Há dias, dizia ele que andava a ler Alexander Kluge (seria a tradução portuguesa de Crónica dos Sentimentos?). Sem querer restringir as suas afinidades, imagino-o a recitar: “Alexander Kluge, meu próximo, meu irmão”.

COMUNHÃO FRATERNA, E OS AVÓS


NOITE DO PASSADO SÁBADO, NOITE COMUNHÃO FRATERNA, PARTILHA COMUNITÁRIA, AMIZADE, EMOÇÃO EM ORAÇÃO E MEMÓRIA DOS AVÓS, DOS MAIS VELHOS, ENQUANTO TRADIÇÃO - ENTREGA -, TAMBÉM, DESSE VALOR AMEAÇADO, ÀQUELES QUE, TEMOS ESPERANÇA, VIRÃO CRISMAR (SALGAR) O MUNDO.
Quando os sinos dobrarem o vírus, lembrar-me-ei desta noite, porque nos lembramos sempre da vibração das cordas mais fundas que despertamos, na sinfonia que levamos latente.
Nesta foto, com o avó paterno, Alberto Miranda, sempre muito afectuoso, que partiu cedo nos meus 10 anos, mas de quem permanecem várias memórias, e com uma frase que me repetia sempre, ao ver-me chegar a sua casa - porventura, momentos antes de mais uma lição sobre as origens da nacionalidade que eu começava a estudar na escola, e cujos pormenores ele dominava amplamente -, enquanto transmissão de um carinho, dado o seu gosto, origem nordestina bem vincada, pelos bons dos enchidos: "és um rapaz como um chouriço!".
À noite, hora e meia a pé para atravessarmos, e regressarmos, da Rua Direita - quando esta existia. Não há-de ser nada.
Um sorriso, claro, um sorriso.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

OUTROS OLHARES PARA (O PÓS) PANDEMIA



A imagem pode conter: ar livre

Richard Sennet (sociólogo): precisamos de nos preparar para as próximas pandemias, as alterações climáticas, o mundo que aí está. Nas opções dos planeadores e urbanistas, a necessidade de integrar a urgência que temos de comunicar, ver os vizinhos e participar na vida da rua. A sugestão é a de pensarmos e recriarmos, de algum modo, os pátios Shikumen. Os planeadores e urbanistas de Paris e Bogotá estão a procurar desenhar "cidades de 15 minutos", nas quais, nesse tempo, seja possível aceder aos nós densos de cada cidade. O grande desafio será conciliar cidade próspera e cidade ecológica, na medida em que a cidade se expandiu para zonas limítrofes, onde muitas vezes se encontra a parte mais industrializada da cidade.

terça-feira, 5 de maio de 2020

QUE DOMICILIAÇÃO?



“Do ponto de vista teológico, a nossa existência neste mundo, do lado de cá da vida, é exílio quando comparada com a outra vida, eterna, no além, do outro lado. Desde que nascemos até morrermos, estamos na situação de exílio sem nunca podermos chegar a casa, quando casa é o Céu. A domiciliação da vida na eternidade, não na Terra, resulta num projecto existencial baseado numa hipótese interpretada que, vista de fora, parece loucura, irracional. Do lado de dentro, porém, é a única possibilidade para levar uma vida autêntica, mesmo que encontrar essa vida seja como encontrar uma agulha no palheiro, mesmo que, uma vez encontrada, vivê-la seja tão difícil como passar um camelo por um buraco na agulha. Com os olhos postos na eternidade, cada instante muda. A nossa domiciliação não é da Terra nem deste mundo, nem deste lado da vida. Não importa onde se nasce nem onde se morre, porque se vive no caminho, a descobrir a verdade que nos libertará para a possibilidade da eternidade, sem confinamentos, nem limites, para poder ser para sempre.”

António Castro Caeiro, Doutorado em Filosofia, Professor Universitário, ensaísta, tradutor e investigador. Mestre em Filosofia Contemporânea e Doutor em Filosofia Antiga, entrevistado por Miguel Cardoso Pereira, ABola, 05-05-2020, p.17.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A QUEM ENTREGAR O VENTILADOR QUE PODE SALVAR?


A QUEM ENTREGAR UM VENTILADOR, NOS CUIDADOS INTENSIVOS, EM NÃO EXISTINDO SUFICIENTES EQUIPAMENTOS DESTES FACE ÀS NECESSIDADES?
*Um Estudo, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em parceria com o Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), junto de 350 pessoas da área da saúde, realizado entre os dias 6 e 11 de Abril, em que 50% dos respondentes eram médicos, pronunciou-se sobre possíveis critérios a adoptar, em caso de excesso de demanda, nas presentes circunstâncias da pandemia do coronavírus, dos cuidados intensivos e da terrível selecção de a quem tentar acorrer (em não se podendo socorrer todos).
De acordo com o Professor Rui Nunes, como pressupostos de critérios a adoptar, desde logo deve buscar-se:
i) definir diretrizes - sobre critérios a que recorrer - por antecipação (e não decidir em cima dos acontecimentos); ii) os critérios deverão ser de aplicação universal (portanto, não variando em função de regiões, hospitais, decisões casuísticas de administrações ou responsáveis hospitalares), transparentes, consensualizados, compreensíveis (por todas as pessoas/cidadãos); iii) a solução deve ser solidária, sem descriminar pessoas ou grupos de pessoas (em função da idade, etnia, etc.); iv) a decisão deve ser partilhada entre serviço de saúde, paciente, família.

Com este(s) ponto(s) de partida, a esmagadora maioria das posições auscultadas convergiu em atentar, devidamente, em dois critérios essenciais:
vi) consideração da hipótese de sobrevivência até à alta hospitalar (o ventilador adstrito a quem se supusesse com maiores hipóteses de sobrevivência até à alta hospitalar); vi) o número de anos que se projecta que possam ser salvos ou projectados no futuro (ventilador entregue a quem se espera, no momento da decisão acerca de a quem o atribuir, que possa ter mais anos projectados no futuro).
O Conselho Federal de Medicina, no Brasil, tem um documento, que data de 2016, e que, no que respeita a esta ponderosa questão, propõe como critério decisivo: x) alta probabilidade de recuperação e sem nenhum problema de suporte terapêutico (entre duas pessoas, a que tiver maior probabilidade de recuperação, sem que possua problema com o suporte terapêutico, ficará com o ventilador).
Todavia, a indicação deste critério pode não ser suficiente para se chegar a uma decisão (em casos em que haja igualdade de circunstâncias).
A Associação de Medicina Intensiva Brasileira estabeleceu, igualmente, critérios em documento de finais de Março de 2020, completado por um outro já de meados de Abril.
Já os Professores, e investigadores em Bioética em Oxford, Marco Azevedo, Darlei Dall’Agnol, Alcino Bonella e Marcelo de Araujo propuseram, em texto assinado no jornal "Estado de São Paulo", os seguintes critérios:
- 1) prioridade a doentes com maior probabilidade de recuperação (porque passarão menos tempo nos cuidados intensivos, o que permitirá salvar mais vidas); 2) quando estão em causa pessoas na mesma situação sanitária, prioridade é dada a profissionais de saúde que estejam infectados (porque são fundamentais para que se recuperem novos doentes); 3) idade, ciclo de vida, como factor de desempate. Dar a hipótese a pessoas que, por exemplo, ainda não chegaram a senoridade de a atingir, o que não significa que haja vidas mais valiosas do que outras; 4) em último lugar, recurso ao sorteio.

Em Itália, onde, como se sabe, infelizmente, esta escolha sobre a quem dar o ventilador, chegou a ocorrer, deu-se prioridade àquelas pessoas com maior probabilidade de recuperação ou esperança de vida. O mesmo se tendo verificado em Espanha.
Podendo a Filosofia e a Ética (Bioética), aqueles que a elas se dedicam, fornecer-nos um precioso auxílio, como fornecem, no sentido de explicar, de modo mais abrangente, os dilemas morais que aqui se encontram em jogo; podendo os profissionais de saúde, em função da experiência importantíssima que possuem em lidar com problemas que tantas vezes contendem com a ténue fronteira entre a vida e a morte, referenciar-nos, como referenciam, indicações que, seguramente, teremos em conta, não podemos, do mesmo modo, ignorar a nossa própria responsabilidade, enquanto comunidade, na ponderação, no debate, na ajuda, inclusive, à própria deliberação. São os (bio)eticistas e profissionais de saúde a resgistá-lo: não se trata, aqui, de uma questão técnica. Há uma decisão (comunitária) sobre (quais os) valores a primar em um momento cuja delicadeza não se consegue exagerar.
Neste Sábado, no jornal "Público", um conjunto de professores, de diversos níveis de ensino, assinaram uma espécie de manifesto no qual, entre outros considerandos, afirmaram o seguinte: neste momento da História da humanidade, "Cidadania e Desenvolvimento" deveria ser o motor da escola. Ideia reforçada pela imediata pergunta retórica: se agora assim não for, então quando será?
Creio que é um ponto de vista não despiciendo e, por entre as diferentes disciplinas nas quais a componente de cidadania é incorporada (para além, evidentemente, de "Cidadania e Desenvolvimento", ela mesma, como disciplina autónoma), o impressionante dilema moral de a quem atribuir o ventilador que não chega para todos, pode ser um (dos tais) a envolver o conjunto da comunidade educativa, isto é, um debate que pode fazer a ponte entre todos os seus membros.

sábado, 2 de maio de 2020

A grave crise institucional instalada no Brasil


Ontem, em jeito de ameaça, Jair Bolsonaro disse, para Presidente do Supremo Tribunal Federal ouvir, que o Brasil esteve "à beirinha de um conflito institucional", de imediato acrescentando que ponderou e por muito pouco não prosseguiu com o nome, Alexandre Ramagem, por si nomeado para Diretor-Geral da Polícia Federal, apesar do veto do STF. Dirigindo-se, sem mediações, ao Presidente ao STF, tratando-o pelo nome próprio, Bolsonaro afirmaria que se A.Ramagem - que, após a facada de que o então candidato à Presidência foi alvo, passou a ser o líder e a sombra, em todo o lado e momento, de Bolsonaro, tornando-se amigo da família e marcando presença no casamento de um dos filhos  do atual Presidente do Brasil - não poderia ser Diretor-Geral da Polícia Federal, em virtude da proximidade pessoal com o Presidente, então deveria, igualmente, sair da posição que ocupa no sistema de inteligência brasileiro. E que se essa decisão não ocorresse, por banda do STF, veria isso como uma afronta à Presidência. Isto, no mesmo conjunto de declarações matinais - que, para quem segue a política brasileira sabe, são diárias -, nas quais apontando ao jornalista do (jornal) "Globo" , presente, como muitos outros profissionais de comunicação social, junto do Palácio da Alvorada, lhe disse, aos berros, não apenas para se calar, não apenas que o jornal que aquele representava era menos do que lixo - "porque o lixo ainda se pode reciclar, mas isso aí não" - que "se não estiver tudo certo" não renovará a licença do jornal, em 2022. Ao que acrescentou "como todos os outros" (jornais). Sendo evidente que não pretendia chamar a atenção para o cumprimento das devidas formalidades para a renovação das licenças dos jornais brasileiros, mas, uma vez mais, produzir uma ameaça direta a um jornal concreto - desta feita, o "Globo", depois de meses a atirar à "Folha de São Paulo" (o motivo próximo seria uma manchete desta semana do "Globo", com a resposta "E daí?", pronunciada por Jair Bolsonaro, quando solicitado, por um jornalista, a comentar o facto de o Brasil ter ultrapassado a China em número de mortos, sendo que a frase que acrescentou à pergunta retórica - "lamento. Sou Messias [Jair Messias Bolsonaro], mas não faço milagres" - se encontrava, igualmente, na capa, e em letra bem legível ainda que não constando da manchete, no "Globo". Talvez a capa mais dura, ainda que sem fugir à verdade, tenha vindo do "Estado de Minas Gerais").
Em menos de 17 minutos, tempo que durou aquele encontro matinal (e que se repete ao fim do dia, noite dentro), no qual sempre é aguardado por uma pequena claque que, entre gritos, "mito! mito! mito!", dirigidos a Bolsonaro, invocações permanentes de Deus e invectivas aos jornalistas, o Presidente brasileiro voltava a acentuar a indisfarçável e preocupante crise institucional que o país atravessa (e que passa ainda pela permanente incompatibilidade, e disputa pública, entre Presidente Brasileiro e alguns governadores de Estados daquele país), porque a permanente procura de combate a vários órgãos de comunicação social e a tentativa de condicionar o poder judicial são tudo menos elementos de qualquer normalidade de uma democracia liberal (que se pretenda madura). 
Já esta noite, na CNN Brasil, o Prefeito de Manaus não conseguia conter as lágrimas perante a rotura do sistema sanitário e funerário da sua localidade (em virtude da pandemia que assola o mundo), e pedia ao Presidente brasileiro para parar de arranjar um inimigo por dia, e respeitar os mortos, enquanto, no mesmo canal, o Prefeito de São Paulo, Bruno Covas considerava "irresponsável" a postura de Bolsonaro perante o coronavírus - andando pelas ruas "como um super-homem" -,  acusando-o, ademais, de não ajudar devidamente os governos municipais e estaduais. 
Um dos temas da semana política brasileira passou pela avaliação/especulação do que seria a reacção do ministro das Finanças Paulo Guedes ao torvelinho político das últimas duas semanas no Brasil - sendo que, em termos de políticas públicas, o Brasil estava a adoptar uma liberalização da economia e viu-se forçado, neste instante, a recorrer a medidas assistenciais (como, de resto, sucede em inúmeros países).
Quando, no auge da pandemia, Bolsonaro perde o seu ministro da Saúde - que sustentava um claro confinamento relativamente ao coronavírus face a um Presidente que entendia que as pessoas deviam continuar a trabalhar e que a solução não era, pois, aquela - e, de seguida, o responsável pela pasta da Justiça e ministro mais popular do seu governo (com todo o simbolismo do combate à corrupção), a dependência, já de si elevada, dada a importância (tradicional) de um ministro das Finanças num qualquer executivo, do ministro Paulo Guedes passou a absoluta. Depois de décadas de votos em políticas estatistas, na sua condição de parlamentar, Bolsonaro, já como candidato à Presidência, assumiu que não sendo um especialista em economia deixaria as principais directrizes nas mãos de Paulo Guedes - como se as opções políticas fossem uma questão técnica -, mas com algum "grão de sal", ou seja, dadas as reticências que eram colocadas no espaço público sobre o radical programa de privatizações de todas as estatais brasileiras se possível, de Paulo Guedes, Bolsonaro referia que iriam conversar os dois, Guedes era o especialista, mas iam chegar a um consenso quanto a políticas, em cada caso, a empreender e que o resultado seria moderado. Agora, o mesmo Presidente que gosta de reivindicar a sua autoridade - lembrando, constantemente, que tem uma caneta...para demitir os ministros sempre que quiser -, que ainda no caso do Diretor-Geral da Polícia Federal fazia questão de contrariar o Ministro da Justiça (e será Bolsonaro especialista em questões de justiça?, perguntar-se-ia, se se seguisse a lógica do próprio aplicada à Economia e Finanças), fortemente acossado, decide dizer várias vezes ao dia que a política económica é 100% de Paulo Guedes, "é ele que nos indica o caminho". De facto, a queda de Paulo Guedes, a ocorrer, o que por ora não parece o mais provável, seria, por certo, o desmoronar definitivo - senão formal, pelo menos material - do Governo Bolsonaro. 
Paulo Guedes que, em qualquer caso, note-se, é uma personalidade que divide, como não podia deixar de ser, fortemente as águas no Brasil - e fora dele, para quem se interessa pelas questões políticas -, sendo sempre destacado no seu percurso o doutoramento em Chicago, na época em que tal escola era tutelada, intelectualmente, por Milton Friedman, tendo, posteriormente, sido convidado pelo diretor geral do Orçamento de Pinochet para dar aulas naquele país, o que se concretizou - sendo, é certo, que futuros prémio Nobel, mesmo das últimas duas décadas, também ali foram docentes, naquele mesmo período. Para uns, Guedes é o símbolo de uma política de liberalização que iria trazer grande prosperidade ao Brasil; para outros, símbolo de políticas que teriam provado mal, na história recente do mundo, e que surgiam, pois, na vigésima quinta hora, aplicadas, de modo drástico, no Brasil. Ao contrário do que ouço, por cá, a comentadores que pretendem passar por consensual o que é controvertido, a figura de Paulo Guedes não encontra, como aliás é natural e como que faz parte da natureza controvertida da política (uma disputa pelo justo, pelo que é e como concretizar o bem comum), uma adesão ou admiração transversais social e politicamente.