Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro Magalhães. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro Magalhães. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"Marcar" golos


No início do futebol não havia estratégias defensivas e abundavam os golos. Por isso, quem os fazia gravava uma marca numa das traves da baliza do adversário (daí que ainda hoje se diga que os jogadores "marcam" golos).

Álvaro Magalhães, Até que, por fim, quase em cima da hora, lá chegou um tal Marchesín, OJogo, 08-09-2019, p.56.

domingo, 16 de junho de 2019

Contra o moralismo pueril


Sendo Bruno Lage um daqueles casos, muito comuns, aliás, entre treinadores e jogadores, de "olha para o que eu faço, não ouças o que digo", custa a crer que o país futebolístico se tenha derretido em elogios ("discurso refrescante", "lufada de ar fresco") por ele ter dito que há coisas mais importantes do que o futebol, como a Educação, a Economia, Saúde; e também que devemos tratar bem os adversários e manter as boas maneiras, pois "isto é só futebol", ou seja, uma coisa sem importância. 
Portanto, as pessoas (muitas, tantas...) consideram refrescante a desvalorização gratuita daquela que é (por alguma razão) a actividade mais envolvente do planeta; e sentiram lufadas de ar fresco num apelo à paz e às boas maneiras que não passou de uma ingenuidade tão inútil quanto ignorante da motivação interna do jogo, que é um rito agonístico, embora fique sempre bem querer civilizar o que é, por natureza, incivilizado. Aliás, quem costuma negar assim o futebol para afirmar o civismo e a construção edificante são os seus inimigos (os discípulos de Pacheco Pereira). Não admira que tenham engrossado o coro dos elogios ao treinador, pois devem ter visto nele uma espécie de agente infiltrado.
O futebol é a outra vida (instintiva, anímica, irracional) que nesta vida há; e o prazer e a adicção que ele provoca provém justamente do modo como anima a nossa naturalidade, que a vida civilizada recalca e despreza. Por outro lado, trata do amor - e opera do mesmo modo: desorganizada e perigosamente. Para inúmeras pessoas a paixão por um clube é a sua mais poderosa forma de vida afectiva; e é por esse amor que se salva o tempo, a (insuportável) vida. Mas ele é também um análogo da religião, que nos religa à reminiscente sacralidade do mundo. Ou seja, concede-nos, de uma assentada, vida amorosa, instintiva, imaginária e religiosa, assumindo-se como um antídoto para a penúria e a aridez da realidade construtiva (a política)
Logo, misturar ou comparar a razão social com o mundo inefável do futebol (ou elogiar quem o faz) apenas revela desconhecimento da sua natureza e essência. E se Bruno Lage não aprendeu isso nos anos todos em que frequentou o coração do jogo, também não é no Canal Panda que vai aprender


Álvaro Magalhães, O futebol segundo Bruno Lage: um Canal Panda para adultos, OJogo, 16-06-2019, p.56. 

domingo, 5 de maio de 2019

A carne é fraca


O VAR tem sido uma desilusão para todos os que - como eu - tanto o desejaram. Hoje sabemos que foi uma ingenuidade pensar que ele corrigiria erros tão suspeitos como os do jogo de Braga. Afinal, é mesmo possível decidir contra a evidência das imagens. Ou seja, a tecnologia é boa, a carne (humana) é que é muito fraca.

Álvaro Magalhães, OJogo, 05-05-2019, p.64.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Melhor era impossível


Toda a verdade (e também toda a mentira) sobre o processo e-Toupeira

Quando um advogado moribundo pede a Bíblia, dia a anedota que não é por se ter convertido, é para procurar brechas nas leis sagradas, em busca da salvação. E se um advogado arguto, digo eu, é capaz de encontrar umas tantas brechas numa acusação do Ministério Público, três advogados ainda mais argutos encontram muitas mais, ao ponto de serem capazes de sacudir nada menos do que 30 acusações. 
Já estão a ver onde o cronista quer chegar? Sim, quer chegar à estranha ilibação da Sad do Benfica no processo e-Toupeira, mais um daqueles casos em que ganharam os mais dotados tecnicamente, não os que estavam do lado da verdade. 
Também aqueles três craques do Direito (e até do menos direito, depende de quem lhes paga) que o Benfica contratou procuraram - e encontraram - a solução para este caso na leitura da Bíblia, mas exactamente naquela parte em que Arão, o sumo sacerdote, coloca as mãos sobre a cabeça do bode expiatório e confessa os pecados do povo, transferindo simbolicamente esses pecados para o animal, que, depois, é solto no deserto, levando para longe todas as iniquidades dos homens (Levítico 16: 21-22). 
Paulo Gonçalves, que até já tinha sido abandonado no deserto, estava mesmo a pedir o papel do bode que absorve e expurga os pecados dos outros. E a crente juíza validou a encenação ao concluir que "os crimes que lhe estão imputados nada têm a ver como o prosseguimento dos interesses do Benfica". Ficámos a saber que vasculhar o segredo de processos em que o clube é o principal acusado ou saber antecipadamente de uma busca da Judiciária, por exemplo, era apenas do seu interesse. O pessoal da SAD, na sua infinita inocência, desconhecia tudo. Ora, aí está uma verdade judicial tão credível como a de que Vale e Azevedo vivia de 400 euros mensais e do cultivo da sua horta. Acreditar nela é como acreditar na história da laranjinha. Dizia ao juíz o réu, acusado de homicídio violento, à navalhada: "Eu estava, muito sossegado, a descascar a minha laranjinha, com uma navalha, quando ele apareceu e...". 
O futebol é um mundo à parte, de gente enlouquecida pelas paixões, que não pode ser equiparada ao resto da vida; e o resto da vida, sobretudo a justiça, não sabe como lidar com ele.
Corrupção, coação, tráfico de influências são crimes severamente punidos no contexto social; no futebol, que não deixa de ser um jogo, perdem espessura e gravidade. E que mal faz ao mundo, à vida real, que seja o Benfica, e não o Porto ou o Sporting, a ganhar, mesmo indevidamente, um ou outro campeonato? Daí que não tenha sido difícil impor como verdade uma mentira daquele tamanho. É tão óbvio que Paulo Gonçalves agia com o conhecimento e a cumplicidade da SAD do clube, tal como, de resto, foi trinta vezes dito pelo Ministério Público que a única conclusão a retirar desta incompreensível decisão judicial é a de que o Benfica, ao contrário do que aconteceu com a equipa de futebol, acertou em cheio nos reforços para a equipa jurídica. 
Como disse, um dia, o poeta americano Robert Frost, um juíz é aquela pessoa que decide quem tem o melhor advogado.

Álvaro Magalhães, OJOGO,  30-12-2018, p.56.

sábado, 9 de dezembro de 2017

DA "HISTÓRIA NATURAL DO FUTEBOL"

Resultado de imagem para bola de futebol


Os jogos com bola vêm do fundo dos tempos e a sua génese confunde-se com a da humanidade. Se percorrermos a história das civilizações humanas, encontramos quase sempre uma bola e um jogo. Um homem e uma bola é uma relação tão ancestral, tão natural e tão fatal que podemos considerá-la intrínseca à cultura humana, de que é um elemento permanente. Jogar com uma bola corresponde a um dos nossos instintos mais básicos. (...) Quase todos os povos do planeta jogaram à bola, em quase todas as épocas, embora com diferentes motivações. (...)
O futebol, assim designado pela primeira vez em 1486, em Inglaterra, por se jogar a pé e não a cavalo, como outros desportos da época (era, então, o "jogo a pé" e ainda não o "jogo com o pé") tem a sua história concreta, a qual se iniciou há cerca de cinco mil anos, nas primeiras sociedades agrícolas da Europa (...) Na altura da viagem de Colombo [cerca de 1500], jogava-se nas ilhas britânicas com uma bola pesada de couro recheada dos mais diversos materiais, ou então com bexigas de animais insufladas, que eram pouco resistentes aos pontapés (...) A borracha só começaria a ser manufacturada na Europa no início do século XIX (...) Os povos americanos, com a sua bola de borracha, saltitante, beneficiaram de muitas centenas de anos prévios ao aperfeiçoamento, o que iria gerar uma espécie de memória filogenética que estaria na origem da frequente excepcional qualidade técnica dos jogadores oriundos desse continente. Quando a equipa nacional do Uruguai, em 1920, se apresentou em Inglaterra e ganhou por 5-3, o orgulhoso país que acabara de inventar o futebol passou a interrogar-se sobre a origem de tais qualidades técnicas. Sim, eles tinham inventado o futebol, mas os outros tinham inventado a bola saltitante muitos séculos antes (...) O poeta Rainer Maria Rilke descreveu esta bola, hesitando eternamente entre a queda e o voo, à procura do seu ponto culminante antes de se inclinar na direcção do jogador. Era uma bola que servia para ser jogada, mas que também jogava com os jogadores, indicando-lhes sempre um novo movimento, uma nova atitude ou posição (...) Apesar de ser um objecto produzido industrialmente, fruto da tecnologia mais avançada da época, essa bola era um elemento orgânico, natural, sem artifício, com o seu simbolismo vegetal do caoutchouc, que reenviava à seiva, ao sangue e ao esperma (...) Em 1863 nascia oficialmente o futebol moderno, um jogo com bola que ainda hoje é o único a prescindir do uso das mãos. Por volta de 1876, 13 anos depois depois do nascimento oficial do futebol moderno, a manifestação das "habilidades" individuais daria lugar a uma série de passes e combinações no que era, finalmente, um jogo colectivo: o passing game. A partir daí, o futebol sofreria poucas mudanças estruturais.(...) E é verdade que os pés desenvolvem quase todo o jogo, com os seus golpes rápidos e inesperados, mesmo porque só eles, como diz Jean Giraudoux, podem dar à bola o máximo de possibilidades e efeitos. Porém, o jogo é um ofício de todo o corpo, já que não incita apenas ao uso dos pés mas, também, de todas as superfícies das pernas, do peito, da cabeça, do tronco, das coxas, dos joelhos (...) Ou seja, o que de início tinha a aparência de uma limitação, a privação das mãos, mesmo de uma violação da nossa natureza, acabaria por se revelar como a saudável libertação de um constrangimento, pois o corpo foi democratizado, liberto, e recuperou um saber instintivo ancestral. (...) A privação das mãos produz um claríssimo apelo ao apuramento dos sentidos (não se elogia "o cheiro" do golo de certos avançados, ou a "visão" de jogo do organizador?) e, sobretudo, ao gesto instintivo. O jogador, cujos pés são inteligentes, cujos joelhos são inteligentes, como dizia Henry de Montherlant, readquire com a prática do futebol, um instinto primitivo que estava sepultado muito fundo, dentro de si, e que a realidade não solicitava. Criou-se, assim, um vínculo ao natural e a uma certa forma de animalidade de que o futebol é depositário e que torna maravilhosamente presente uma certa liberdade infra-humana. E isso, como disse Jacques Ferran, "é regressar à natureza e mergulhar de novo na grande noite da espécie". (...)
Um sentido do destino plana sobre os jogos, lembrando por vezes com brutalidade que o mérito não é suficiente e torna-se necessário conjugá-lo com a sorte. (...)
É pois nessa complexidade e não na sua suposta simplicidade que repousa, em parte, o encanto do futebol, o qual continua a ser imprevisível e irregulável, apesar de todos os esforços que ao longo da sua história moderna têm sido feitos para extirpar essa saudável margem de impertinência. A dificuldade gera a incerteza e a irresolução, ou seja, a emergência da "música" do acaso, que continua a fazer de cada jogo um encadeamento aleatório e fulgurante de acontecimentos mal previstos: a ordem natural das coisas.
Por sua vez, a incerteza, consequência da dificuldade [em jogar com os pés], gerou a expectativa e a ansiedade, bem como a superstição e a simpatia mágico-religiosa que domina secretamente o jogo, e é o seu "tenebroso coração". (...) Apesar da sua aura científica, gestos como o aquecimento, as concentrações antes dos jogos, e mesmo certos aspectos do treino, têm a sua boa porção de rituais mágicos para atrair a boa energia e os favores dos deuses. Os jogadores não são "aqueles que vão morrer", como os antigos gladiadores, mas são "aqueles que se vão expor à sorte". (...)
Mais: [além de não poderes jogar com as mãos] abdicarás também de dons humanos como a linguagem e o pensamento conceptual, que, juntamente com a aquisição das mãos, fundaram a tradição e a cultura e nos elevaram a um nível superior ao dos outros animais. De facto, o futebol alheia-se da tradição e da cultura, isto é, dos domínios do consciente, operando uma regressão para os dons físicos naturais. Ele não se dirige ao que há de humano em nós, isto é, ao que resulta da nossa evolução civilizada. Pelo contrário, nele tudo remete para a nossa irracionalidade (seja a do praticante, ou a do espectador). Por isso é uma tão vibrante celebração da animalidade, a nossa, naturalmente: "esse simples prazer do corpo que se lança na aventura interdita da liberdade", como disse Eduardo Galeano. (...) Acontece que a essa recuperação instintiva corresponde uma diminuição da consciência, já que, na verdade, o futebol devolve o homem que o joga a um estado menor, elementar, fulgurante, ou seja, a uma primeira natureza que se opõe à segunda natureza do pensamento e da consciência. Assim, privado das mãos e da linguagem, o jogador regride a níveis muito baixos de consciência. E para que precisa ele dessa consciência se a sua função consiste justamente em encontrar acessos e vias para os quais ela não contribui? Mais: essa perda acentuada de consciência encontra a sua compensação num acréscimo de instinto; e o que é o instinto senão uma inteligência natural e nata, que é suposto o homem também ter possuído em idades mais recuadas? (...) A sua acção em campo, sarabanda de músculos e nervos a cada momento mobilizados por choques de alta tensão resulta de um comportamento que está enraizado na apreensão perceptual de cada situação. Por isso, ele integra qualidades da vida animal e surge muitas vezes aos nossos olhos como se estivesse possuído pela sua energia e pelos seus poderes físicos. (...) Ele encarna o que há de sensitivamente humano no animal e ao mesmo tempo de silenciosamente animal no homem, o que lhe permite aceder diretamente à totalidade originária, participar dela. É ainda o homem, evidentemente, mas sem a defesa da racionalidade, exercendo o direito ao seu instinto primitivo e, por isso, exprimindo o que há de puramente animal no homem. É o animal humano. (...) De um modo mais genérico, e enquanto os guarda-redes são felinos, os defesas são mulas, os médios potros ou cavalos e os avançados vivos e expeditos são ratos ou ratas. Há países da América Latina que chamam pescadinhas aos extremos fugidios, perdizes aos extremos rápidos e pasto ao terreno de jogo. Aos jogadores que se comportam com bravura extrema também se dá a elogiosa designação de "feras". (...) Os próprios clubes adoptam uma espécie animal como encarnação do espírito ancestral e exibem de bom grado a sua identificação com esse animal totémico. (...)
Concluindo: o futebol é uma vibrante celebração da animalidade, incluindo, naturalmente, a nossa. Não admira, por isso, que seja uma fonte de consolo para o homem moderno, esse animal evoluído mas desnaturado. Inesgotável fonte de vida irracional e inconsciente, ele continua a cumprir a sua última finalidade: (re) ligar o homem à Natureza. E o que é a Natureza senão o homem sem a defesa do conceito e da racionalidade?
Embora o desporto, na sua semântica actual, se constitua e regulamente como um fenómeno derivado da revolução industrial, as suas diferentes modalidades repartem-se entre as que são de inspiração industrial e base urbana, como é o caso do basquetebol, por exemplo, e as que tiveram uma origem mais longínqua e rural (futebol, râguebi, hóquei em campo, golfe, críquete) e cujas regras se foram obtendo a partir de uma vasta e anónima genealogia. A do futebol desenvolveu-se ao longo de cerca de cinco milhares de anos, dos quais apenas cento e poucos correspondem à sua fase moderna, iniciada em 1863, e pós-moderna, que ainda decorre. Os restantes pertencem às suas fases cultual, tradicional e pré-moderna, todas perfeitamente interpenetradas e articuladas, e ao longo das quais foi recebendo a sua substância e estrutura.
Culto ligado ao trabalho, reflectiu os sistemas de produção de cada época (tal como aconteceria, de resto, ao longo das três idades da sua vida moderna e tal como ainda hoje acontece). Foi-se articulando com a atitude do homem perante a natureza, o mito, a história, o sagrado, ou seja, com as diferentes mentalidades e concepções de vida, e também, naturalmente, com as diferentes noções de tempo e espaço, funcionando como uma micro-representação de cada uma dessas épocas. (...)
Manifestação coerente e regulada da vida colectiva, o futebol ainda hoje nos dá indicações sobre uma mentalidade desaparecida e de que ele é ainda uma expressão estilizada. Por um lado, é um elemento permanente da cultura dos homens, da qual se encarrega de projectar um reflexo, e, por outro, transporta em si uma realidade que subjaz ao tempo e corresponde a um esforço rude, residual, para manter a antiga visão das coisas. Como se a sua missão fosse preservar algo que é essencial ao homem, um tesouro mitológico, precioso, acumulado à custa de esforços infinitos.

Álvaro Magalhães, O futebol. Uma história natural, suplemento História, Jornal de Notícias, nº10, Outubro de 2017, pp.10-25.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

De pequenino se torce o pepino


Na nova colecção da Porto Editora para crianças/adolescentes, Álvaro Magalhães cria Os Indomáveis FC. Logo na abertura da narrativa, dois irmãos vão às captações (de talentos futebolísticos, de um clube remoto) e aprendem, de forma eloquente, retrato perfeito, o que é, e como é o futebol português:

O meu irmão levava uma camisola branca, mas eu ia com uma camisola do Brahimi, o 7 do F.C.Porto, o meu clube. Não sei se fiz bem. (...) Quando chegou a minha vez, o treinador disse-me ao ouvido:
- Com essa camisola não vais a lado nenhum. Tapa-a, veste já o colete que te demos.
- Já vi aqui camisolas do Benfica e do Sporting...- disse eu, a olhar em volta.
- E então? Onde pensas que estás?
- Em Portugal, não? - respondi.

sábado, 11 de outubro de 2014

A 'metamorfose', para crianças (e adultos)




Quando Frederico inventa uma história com o homem-concha, abandonado, pela diferença que ostenta face aos demais, insuportável para os outros, deixado pelos próprios pais, junto à praia - e só resgatado, ao panelão de um prometido refogado, pela mulher-ameijoa -, Kafka é a referência que parece pairar sobre a pequena parábola. E, não por acaso, cremos, é A metamorfose o livro que Frederico, ele mesmo investido, na narrativa, de uma espécie de Gregor Samsa, requisita na biblioteca escolar. Ser educado, não ter o sonho de ser jogador de futebol, gostar de estar sozinho, em reclusão na sua concha, inventando histórias, poemas, objectos, coisas malucas, ter um amigo só, pode fazer de alguém o insecto indesejado que cumpre afastar. Na recusa da normalização, da banalidade, há muito humor e mordacidade - excelente a comparação entre o amor devotado a um carro e a um filho, a tabela de bolo de chocolate, cujo preço diminui à medida que se utilizam palavras como "se faz favor", ou "obrigado", o policês...tudo acompanhado da perfeita complementaridade da ilustração de Carlos J.Campos -, em uma história que não se poupa a uma filosofia, a uma moral: a irredutível necessidade de valorizar a diferença - e, em particular, a diferença para melhor. Que a há, por muito que tal contrarie algum politicamente correcto dos nossos dias, afogado na mesmice.
O Estranhão, de Álvaro Magalhães, passa por lugares clássicos da cultura portuguesa - o Pessoa de todas as cartas de amor são estúpidas -, não deixa de dar as bicadas contemporâneas mais prosaicas - a vontade de alguém ser escritor famoso cumprir-se-à com mais facilidade se alguém, além de escritor, for apresentador de telejornal -, até a uma pincelada por um país em crise (a mudança de casa de Frederico, porque os pais não podiam pagar a anterior). O jogador de futebol que é muito mau intelectualmente, mas é um génio com o corpo e a executar todos os movimentos certos num campo de futebol, expressando aí a sua inteligência; o sonho de tantos pais de terem o futuro CR8 e de tais sonhos não só serem curtos, como (quase) nunca se realizarem; os namoros pela internet que dão lugar a descobertas desconcertantes (a namorada, conhecida no facebook, para a qual se escrevera afincadamente, era, afinal, um cão), o movimento permanente entre sonho e realidade, com momentos de fôlego, como em uma das lições para aquele que ficando sempre fechado em casa julgava tudo ter descoberto (tv, frigorífico, fogão...), o que obriga a estar atento aos outros, ao que escrevem, ao que dizem, ao que inventam, frases lapidares, com apuro literário, assertivas, curtas, por vezes, provérbios, eis motivos de sobeja pelos quais soube tão bem regressar a um mundo imaginativo, lúdico, de certa maneira clássico, os das crianças que desde bebés podem ser filósofas e o dos adultos que querem contar e conhecer com elas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"Pensar de pernas para o ar"


Na passada segunda-feira, Manuel António Pina faria 70 anos. Evocá-mo-lo, em sala de aula, e este foi o poema que escolhi para explorarmos e dialogarmos em conjunto:



Pensar de pernas para o ar

Pensar de pernas para o ar
é uma grande maneira de pensar
com toda a gente a pensar como toda a gente
ninguém pensava nada diferente

Que bom é pensar em outras coisas
e olhar para as coisas noutra posição

as coisas sérias que cómicas que são
com o céu para baixo e para cima o chão


Manuel António Pina



p.s. Também Carlos Vaz Marques, recordou, em O livro do dia, na TSF, o poeta, cronista, criador de histórias infantis, através da pena de um amigo próximo de "O senhor Pina", Álvaro Magalhães