Os jogos com bola vêm do fundo dos tempos e a sua génese confunde-se com a da humanidade. Se percorrermos a história das civilizações humanas, encontramos quase sempre uma bola e um jogo. Um homem e uma bola é uma relação tão ancestral, tão natural e tão fatal que podemos considerá-la intrínseca à cultura humana, de que é um elemento permanente. Jogar com uma bola corresponde a um dos nossos instintos mais básicos. (...) Quase todos os povos do planeta jogaram à bola, em quase todas as épocas, embora com diferentes motivações. (...)
O futebol, assim designado pela primeira vez em 1486, em Inglaterra, por se jogar a pé e não a cavalo, como outros desportos da época (era, então, o "jogo a pé" e ainda não o "jogo com o pé") tem a sua história concreta, a qual se iniciou há cerca de cinco mil anos, nas primeiras sociedades agrícolas da Europa (...) Na altura da viagem de Colombo [cerca de 1500], jogava-se nas ilhas britânicas com uma bola pesada de couro recheada dos mais diversos materiais, ou então com bexigas de animais insufladas, que eram pouco resistentes aos pontapés (...) A borracha só começaria a ser manufacturada na Europa no início do século XIX (...) Os povos americanos, com a sua bola de borracha, saltitante, beneficiaram de muitas centenas de anos prévios ao aperfeiçoamento, o que iria gerar uma espécie de memória filogenética que estaria na origem da frequente excepcional qualidade técnica dos jogadores oriundos desse continente. Quando a equipa nacional do Uruguai, em 1920, se apresentou em Inglaterra e ganhou por 5-3, o orgulhoso país que acabara de inventar o futebol passou a interrogar-se sobre a origem de tais qualidades técnicas. Sim, eles tinham inventado o futebol, mas os outros tinham inventado a bola saltitante muitos séculos antes (...) O poeta Rainer Maria Rilke descreveu esta bola, hesitando eternamente entre a queda e o voo, à procura do seu ponto culminante antes de se inclinar na direcção do jogador. Era uma bola que servia para ser jogada, mas que também jogava com os jogadores, indicando-lhes sempre um novo movimento, uma nova atitude ou posição (...) Apesar de ser um objecto produzido industrialmente, fruto da tecnologia mais avançada da época, essa bola era um elemento orgânico, natural, sem artifício, com o seu simbolismo vegetal do caoutchouc, que reenviava à seiva, ao sangue e ao esperma (...) Em 1863 nascia oficialmente o futebol moderno, um jogo com bola que ainda hoje é o único a prescindir do uso das mãos. Por volta de 1876, 13 anos depois depois do nascimento oficial do futebol moderno, a manifestação das "habilidades" individuais daria lugar a uma série de passes e combinações no que era, finalmente, um jogo colectivo: o passing game. A partir daí, o futebol sofreria poucas mudanças estruturais.(...) E é verdade que os pés desenvolvem quase todo o jogo, com os seus golpes rápidos e inesperados, mesmo porque só eles, como diz Jean Giraudoux, podem dar à bola o máximo de possibilidades e efeitos. Porém, o jogo é um ofício de todo o corpo, já que não incita apenas ao uso dos pés mas, também, de todas as superfícies das pernas, do peito, da cabeça, do tronco, das coxas, dos joelhos (...) Ou seja, o que de início tinha a aparência de uma limitação, a privação das mãos, mesmo de uma violação da nossa natureza, acabaria por se revelar como a saudável libertação de um constrangimento, pois o corpo foi democratizado, liberto, e recuperou um saber instintivo ancestral. (...) A privação das mãos produz um claríssimo apelo ao apuramento dos sentidos (não se elogia "o cheiro" do golo de certos avançados, ou a "visão" de jogo do organizador?) e, sobretudo, ao gesto instintivo. O jogador, cujos pés são inteligentes, cujos joelhos são inteligentes, como dizia Henry de Montherlant, readquire com a prática do futebol, um instinto primitivo que estava sepultado muito fundo, dentro de si, e que a realidade não solicitava. Criou-se, assim, um vínculo ao natural e a uma certa forma de animalidade de que o futebol é depositário e que torna maravilhosamente presente uma certa liberdade infra-humana. E isso, como disse Jacques Ferran, "é regressar à natureza e mergulhar de novo na grande noite da espécie". (...)
Um sentido do destino plana sobre os jogos, lembrando por vezes com brutalidade que o mérito não é suficiente e torna-se necessário conjugá-lo com a sorte. (...)
É pois nessa complexidade e não na sua suposta simplicidade que repousa, em parte, o encanto do futebol, o qual continua a ser imprevisível e irregulável, apesar de todos os esforços que ao longo da sua história moderna têm sido feitos para extirpar essa saudável margem de impertinência. A dificuldade gera a incerteza e a irresolução, ou seja, a emergência da "música" do acaso, que continua a fazer de cada jogo um encadeamento aleatório e fulgurante de acontecimentos mal previstos: a ordem natural das coisas.
Por sua vez, a incerteza, consequência da dificuldade [em jogar com os pés], gerou a expectativa e a ansiedade, bem como a superstição e a simpatia mágico-religiosa que domina secretamente o jogo, e é o seu "tenebroso coração". (...) Apesar da sua aura científica, gestos como o aquecimento, as concentrações antes dos jogos, e mesmo certos aspectos do treino, têm a sua boa porção de rituais mágicos para atrair a boa energia e os favores dos deuses. Os jogadores não são "aqueles que vão morrer", como os antigos gladiadores, mas são "aqueles que se vão expor à sorte". (...)
Mais: [além de não poderes jogar com as mãos] abdicarás também de dons humanos como a linguagem e o pensamento conceptual, que, juntamente com a aquisição das mãos, fundaram a tradição e a cultura e nos elevaram a um nível superior ao dos outros animais. De facto, o futebol alheia-se da tradição e da cultura, isto é, dos domínios do consciente, operando uma regressão para os dons físicos naturais. Ele não se dirige ao que há de humano em nós, isto é, ao que resulta da nossa evolução civilizada. Pelo contrário, nele tudo remete para a nossa irracionalidade (seja a do praticante, ou a do espectador). Por isso é uma tão vibrante celebração da animalidade, a nossa, naturalmente: "esse simples prazer do corpo que se lança na aventura interdita da liberdade", como disse Eduardo Galeano. (...) Acontece que a essa recuperação instintiva corresponde uma diminuição da consciência, já que, na verdade, o futebol devolve o homem que o joga a um estado menor, elementar, fulgurante, ou seja, a uma primeira natureza que se opõe à segunda natureza do pensamento e da consciência. Assim, privado das mãos e da linguagem, o jogador regride a níveis muito baixos de consciência. E para que precisa ele dessa consciência se a sua função consiste justamente em encontrar acessos e vias para os quais ela não contribui? Mais: essa perda acentuada de consciência encontra a sua compensação num acréscimo de instinto; e o que é o instinto senão uma inteligência natural e nata, que é suposto o homem também ter possuído em idades mais recuadas? (...) A sua acção em campo, sarabanda de músculos e nervos a cada momento mobilizados por choques de alta tensão resulta de um comportamento que está enraizado na apreensão perceptual de cada situação. Por isso, ele integra qualidades da vida animal e surge muitas vezes aos nossos olhos como se estivesse possuído pela sua energia e pelos seus poderes físicos. (...) Ele encarna o que há de sensitivamente humano no animal e ao mesmo tempo de silenciosamente animal no homem, o que lhe permite aceder diretamente à totalidade originária, participar dela. É ainda o homem, evidentemente, mas sem a defesa da racionalidade, exercendo o direito ao seu instinto primitivo e, por isso, exprimindo o que há de puramente animal no homem. É o animal humano. (...) De um modo mais genérico, e enquanto os guarda-redes são felinos, os defesas são mulas, os médios potros ou cavalos e os avançados vivos e expeditos são ratos ou ratas. Há países da América Latina que chamam pescadinhas aos extremos fugidios, perdizes aos extremos rápidos e pasto ao terreno de jogo. Aos jogadores que se comportam com bravura extrema também se dá a elogiosa designação de "feras". (...) Os próprios clubes adoptam uma espécie animal como encarnação do espírito ancestral e exibem de bom grado a sua identificação com esse animal totémico. (...)
Concluindo: o futebol é uma vibrante celebração da animalidade, incluindo, naturalmente, a nossa. Não admira, por isso, que seja uma fonte de consolo para o homem moderno, esse animal evoluído mas desnaturado. Inesgotável fonte de vida irracional e inconsciente, ele continua a cumprir a sua última finalidade: (re) ligar o homem à Natureza. E o que é a Natureza senão o homem sem a defesa do conceito e da racionalidade?
Embora o desporto, na sua semântica actual, se constitua e regulamente como um fenómeno derivado da revolução industrial, as suas diferentes modalidades repartem-se entre as que são de inspiração industrial e base urbana, como é o caso do basquetebol, por exemplo, e as que tiveram uma origem mais longínqua e rural (futebol, râguebi, hóquei em campo, golfe, críquete) e cujas regras se foram obtendo a partir de uma vasta e anónima genealogia. A do futebol desenvolveu-se ao longo de cerca de cinco milhares de anos, dos quais apenas cento e poucos correspondem à sua fase moderna, iniciada em 1863, e pós-moderna, que ainda decorre. Os restantes pertencem às suas fases cultual, tradicional e pré-moderna, todas perfeitamente interpenetradas e articuladas, e ao longo das quais foi recebendo a sua substância e estrutura.
Culto ligado ao trabalho, reflectiu os sistemas de produção de cada época (tal como aconteceria, de resto, ao longo das três idades da sua vida moderna e tal como ainda hoje acontece). Foi-se articulando com a atitude do homem perante a natureza, o mito, a história, o sagrado, ou seja, com as diferentes mentalidades e concepções de vida, e também, naturalmente, com as diferentes noções de tempo e espaço, funcionando como uma micro-representação de cada uma dessas épocas. (...)
Manifestação coerente e regulada da vida colectiva, o futebol ainda hoje nos dá indicações sobre uma mentalidade desaparecida e de que ele é ainda uma expressão estilizada. Por um lado, é um elemento permanente da cultura dos homens, da qual se encarrega de projectar um reflexo, e, por outro, transporta em si uma realidade que subjaz ao tempo e corresponde a um esforço rude, residual, para manter a antiga visão das coisas. Como se a sua missão fosse preservar algo que é essencial ao homem, um tesouro mitológico, precioso, acumulado à custa de esforços infinitos.
Álvaro Magalhães, O futebol. Uma história natural, suplemento História, Jornal de Notícias, nº10, Outubro de 2017, pp.10-25.