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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Um Natal vilarealense


A crónica de Natal (de rádio) que fiz este ano juntou um conjunto de elementos, no essencial já referidos neste blog, mas, se quisermos, compactados do seguinte modo: 

[ter em atenção as imagens do presépio de Torgueda de 2014: aqui

1.Um dos mais interpelantes presépios de Natal com que me deparei, ao longo dos anos, na mostra que a cidade de Vila Real vem acolhendo, pertenceu à freguesia de Torgueda e data de Dezembro de 2014. Na imagem, duas cadeiras vazias – onde, supor-se-ia, estariam os pais do menino esperado -, sendo que ausente parece também encontrar-se o próprio Jesus apontado pela estrela. Creio que se tratou de um dos mais inspirados presépios com que, até hoje, me confrontei, seja enquanto diagnóstico cultural – o desaparecimento das figuras que compõe o presépio, o questionamento do lugar da fé e do religioso no nosso horizonte colectivo/comunitário –, seja como reflexão teológica.

2.João Manuel Duque, em “Dizer Deus na pós-modernidade”, creio que citando a recepção heideggeriana de Nietzsche, afirma que quem fala, ou constata a “morte de Deus” é quem O procura. E que, na verdade, o que morre é um dado conceito, idolátrico [um deus feito à medida humana], de Deus. Já Deus, ele mesmo, é, por natureza, eterno; não morre. Tomas Halík, por seu turno, faz notar – palavras que de imediato me assomaram enquanto me defrontava com o presépio de Torgueda, em 2014 – que há poucos lugares nos quais se note tanto a presença de Deus como na sua ausência. Por isso, os grandes santos e místicos amaram tanto a noite e a escuridão (estas entendidas como o desapossamento de um “objecto” – Deus é o que de maior nada pode ser pensado, no dizer de Anselmo, e se compreendes [se tens uma definição exacta no bolso] não é Deus, na fórmula de Agostinho; Deus não é um ente entre os entes, não existe como existem as demais coisas, de aí a fórmula do pastor protestante Dietrich Bonhoeffer: “o Deus que é não existe” [não existe como as outras coisas] – e o encontro com, digamos, uma forma nua). Sim, escreve Halík, “há pessoas que no momento do silêncio de Deus se afastam da fé porque chegam à conclusão de que Deus «não existe». Seria mais honesto afirmar que a sua actual noção de Deus «não funciona». (…) [Ora] O objectivo de superar os ídolos é libertar espaço para um encontro com um Deus vivoÉ esse o momento do «eclipse» que no caminho espiritual se pode tornar um encontro decisivo com um Deus vivo”.

3.Em 2015, A.M. Pires Cabral publicou o livro A noite em que a noite ardeu, no qual se encontra o seguinte poema homónimo:

Na noite em que a noite ardeu
dentro do meu seio propenso a rescaldos,
não houve qualquer outra claridade
senão a que as chamas produziam.

E essa parecia uma dança macabra
de fantasmas ébrios celebrando a morte.

Depois, desgastada a parte
consumível da noite,
restaram os resíduos do costume:
cinzas, brasas apagadas
de que todo o calor já se apartou -

- e às vezes
uma radiosa escuridão
que aos poucos se reordena e de novo
torna possível navegar o rio

como velha barcaça cujas tábuas
já mal ajustadas entre si
não vedam águas e medos.

Atentando no poema: o sujeito poético é dado a reflectir acerca da experiência por que passa ("seio propenso a rescaldos"). Trata-se, de resto, de (se) elucidar acerca dessa experiência maior que é a (passagem da/pela) noite. A primeira clarificação, fundamental, feita é a de que não foi a luz que sucedeu à escuridão ("não houve qualquer outra claridade"). A luz que vem da noite parece ao sujeito poético "uma dança macabra/fantasmas ébrios celebrando a morte". E, se há uma parte da noite que é "consumível", o que resta, na verdade, no fim da noite, são "cinzas". A experiência/expressão do desencantamento do mundo é inequívoca, com toda a frieza que esse apartar (do encantamento) significa: "brasas apagadas/de que todo o calor já se apartou". Numa pequena mas nada insignificante inflexão/nuance, não se nega, contudo, que a escuridão, "às vezes", é "radiosa" (a noite pode ser caminho), vislumbre, porventura, do sentido, dado que é esse lado radioso que "torna possível navegar o rio" (de existir). Mas nesse sentido, sempre entra "água" e na noite se jogam diversos "medos".

Pereambulando pela cidade, entre a memória do musgo e do lodo verdinho, das formas claras e perfeitas dos presépios em São Pedro, até ao aprofundamento e à viagem, nunca abandonados, convocando a noite das formas e o lusco-fusco do dizer cultural do mais importante, passámos décadas juntos.
A todos os ouvintes da universidadefm, votos de um Santo Natal.


P.S.: como então também escrevi, sobre o título do livro, deste poema e do seu verso inicial: "Gosto particularmente deste título do mais recente livro (de poesia) de A.M. Pires CabralA noite em que a noite ardeu. Ele reconduz-nos, abre-nos, de imediato para uma possível pluralidade de caminhos de um roteiro espiritual: a) o momento em que da escuridão, da peregrinação da ausência, da aridez - na qual pode haver, até, como sabemos dos grandes místicos, comprazimento, e a ausência como forma maior de presença, em paradoxo maior - se passa a uma visio beatifica;  b) a noite, como o que fica quando a noite desaparece - não, não o contorno da luz clara e límpida, de um dia resplandecente ou rosa, mas ainda a noite que não cessa; c) a noite consumida, "ardida", o tempo de lidar, de lutar com essa dureza de recusa do ídolo enfim esvaído, e o soçobrar/cair no nada."

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Noites na cidade




Ainda muito embalado pelas variações em torno da noite, de A.M. Pires Cabral, em A noite em que a noite ardeu, fui escutar, neste serão, na Biblioteca Municipal de Vila Real, a República de San Cirilo, descrita pelo mesmo autor como a "loucura" de uma "hagiocracia", uma comunidade comandada por um Santo. Uma sátira política, no rescaldo do Estado Novo, título saído em 1983, vencedor, então, do Prémio Círculo de Leitores, livro "completamente atípico" na economia das cinquenta obras do autor (segundo o próprio), que afirmou não mais pretender enveredar por esse caminho (na escrita), dado que outras são, agora, suas inquietações, romance fora de circulação e, por isso, hoje recuperado por Rui Santos, que cumpre saudar, novel editor, em A ronda da noite, capaz de ousar um critério e uma selecção que não se guie pela última novidade. Um abraço ao Rui.

domingo, 1 de novembro de 2015

Noite (II)


A NOITE EM QUE A NOITE ARDEU

Na noite em que a noite ardeu
dentro do meu seio propenso a rescaldos,
não houve qualquer outra claridade
senão a que as chamas produziam.

E essa parecia uma dança macabra
de fantasmas ébrios celebrando a morte.

Depois, desgastada a parte
consumível da noite,
restaram os resíduos do costume:
cinzas, brasas apagadas
de que todo o calor já se apartou -

- e às vezes
uma radiosa escuridão
que aos poucos se reordena e de novo
torna possível navegar o rio

como velha barcaça cujas tábuas
já mal ajustadas entre si
não vedam águas e medos.

A.M.Pires Cabral, A noite em que a noite ardeu, Cotovia, Lisboa, 2015, 13.

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O sujeito poético é dado a reflectir acerca da experiência por que passa ("seio propenso a rescaldos").
Trata-se, de resto, de (se) elucidar acerca dessa experiência maior que é a (passagem da/pela) noite.
A primeira clarificação, fundamental, feita é a de que não foi a luz que sucedeu à escuridão ("não houve qualquer outra claridade"). A luz que vem da noite parece ao sujeito poético "uma dança macabra/fantasmas ébrios celebrando a morte". E, se há uma parte da noite que é "consumível", o que resta, na verdade, no fim da noite, são "cinzas". A experiência/expressão do desencantamento do mundo é inequívoca, com toda a frieza que esse apartar (do encantamento) significa: "brasas apagadas/de que todo o calor já se apartou". Numa pequena inflexão/nuance, não se nega que a escuridão, "às vezes", é "radiosa" (a noite pode ser caminho), vislumbre, porventura, do sentido, dado que é esse lado radioso que "torna possível navegar o rio" (de existir). Mas nesse sentido, sempre entra "água" e na noite se jogam diversos "medos".

sábado, 31 de outubro de 2015

Noite



Gosto particularmente deste título do mais recente livro (de poesia) de A.M. Pires Cabral: A noite em que a noite ardeu. Ele reconduz-nos, abre-nos, de imediato para uma possível pluralidade de caminhos de um roteiro espiritual: a) o momento em que da escuridão, da peregrinação da ausência, da aridez - na qual pode haver, até, como sabemos dos grandes místicos, comprazimento, e a ausência como forma maior de presença, em paradoxo maior - se passa a uma visio beatifica;  b) a noite, como o que fica quando a noite desaparece - não, não o contorno da luz clara e límpida, de um dia resplandecente ou rosa, mas ainda a noite que não cessa; c) a noite consumida, "ardida", o tempo de lidar, de lutar com essa dureza de recusa do ídolo enfim esvaído, e o soçobrar/cair no nada.

sábado, 2 de agosto de 2014

Da Sé de Vila Real (VII)





A compreensão da origem genética da actual Sé de Vila Real é fundamental, ademais, para se perscrutarem as causas da ausência/carência de elementos de um outro porte, habitualmente presentes em uma Catedral e que, em este contexto, não se inscrevem no edificado da capital transmontana: “nomeadamente, faltam ali a habitual praça em frente da porta principal e as Igrejas secundárias donde se organizam os cortejos litúrgicos”[1], sendo que a intenção de criar uma sala, para este último efeito, não colhendo junto das autoridades (políticas) decisórias, permaneceu lacuna por colmatar (não correspondendo, pois, aos requisitos enunciados no nº 53, do Cerimonial dos Bispos). Na lição-síntese de M.Chicó, “em Portugal, devido ao forte impulso que sofre no período gótico a arquitectura monacal e, em especial, a das ordens mendicantes, são as catedrais que procuram adaptar-se à planta e à estrutura das Igrejas das abadias[2].
Para o antigo Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, do que se trata aqui não é de “mero esteticismo”, mas de fundas razões teológicas adstritas ao significado de uma Sé, sede, lugar onde se senta aquele que preside à Igreja diocesana, catedral onde se encontra a cátedra do Bispo da Diocese, sinal do magistério e do poder do Pastor da Igreja particular, bem como da unidade dos crentes; mãe de todas as igrejas da Diocese[3] (note-se que a basílica cristã nasce, no século IV, “com a basílica lateranense construída durante o pontificado de Silvestre I (…) como catedral, por ser sede da cathedra do bispo”[4]).
O edifício da Igreja Catedral é, pois,

imagem da comunidade dos baptizados, como conjunto de pedras vivas da Igreja do Senhor, harmonicamente unidas na verdade, na Caridade e na variedade de ministérios, e ainda imagem figurativa da Igreja universal e visível de Cristo que em toda a terra reza, canta e adora[5]

De igual modo, sublinharia o Concílio Vaticano II a importância da vida litúrgica da diocese, gravitando em redor do Bispo, sobretudo na Igreja catedral[6]. E (São) João Paulo II é, ainda, evocado, neste contexto:

O Bispo tem como ponto focal desse ministério a Igreja catedral que constitui de certo modo a igreja mãe e o centro de convergência da igreja particular. A igreja catedral é o lugar (…) a partir do qual educa e faz crescer o seu povo através da pregação, e preside às principais celebrações do ano litúrgico e dos sacramentos”[7]

Motivos bastantes para perceber a ética ínsita em uma estética:

“Por todas estas razões, tanto no seu aspecto exterior (a majestade da construção, as torres elevadas, a praça fronteiriça, as salas de paramentação e de recepção das autoridades que se deslocam à Sé para tomar parte nas celebrações maiores, o museu ou tesouro da catedral e as igrejas secundárias anexas) como nos espaços interiores (a cátedra, o altar e o ambão, os cadeirais dos cónegos ou de outros presbíteros, o baptistério, o confessionário), a catedral deve ser o centro da vida litúrgica de toda a diocese e servir de modelo para todas as outras igrejas”[8]

Razões suficientes, ademais, para que se compreenda o lamento do antigo Bispo de Vila Real a partir do seu entendimento de que a Sé se encontra quase de costas para a cidade – sem, portanto, a preeminência desejável, na economia da polis vilarealense – e, bem assim, que se antolhe profícua a sua exortação a que todos os passos possíveis sejam erguidos, com vista a dotar a catedral transmontana da gravitas que lhe está acometida.
A primeira das advertências, contudo, não recolherá unanimidade. Por exemplo, em uma obra destinada a identificar os principais marcos da cidade, os incontornáveis locais a visitar ou redescobrir, o escritor A.M. Pires Cabral situa a Sé não de costas (para), mas a meio da Avenida Carvalho Araújo – a catedral situa-se “a meio da Avenida Carvalho Araújo, à sombra de plátanos descomunais”[9] -, terreiro público, “avenida onde pulsa o coração histórico, cultural e cívico da cidade” – deste centro claro, delimitado, vivo, Vila Real passou a ser, nos anos mais recentes, uma cidade polinucleada, após a herança monocleada de 1925, como reconhecerá, em obra posterior, o poeta[10] -, de passagem obrigatória rumo ao conhecimento das grandes forças sociais que moldaram a capital de Trás-os-Montes: “Igrejas e casas apalaçadas, testemunhos dessas duas grandes forças que moldaram a história de Vila Real nos primeiros séculos da sua existência: a Igreja e a nobreza[11] - a importância da tradição senhorial, em Trás-os-Montes, justificou, de resto, no apontamento de Bernardo Vasconcelos e Sousa[12], que fosse das poucas regiões do país, talvez só encontrando paralelo em Entre Douro e o Minho, onde escassos foram os apoios ao mestre de Avis e se tomou o partido de D. Beatriz, pelo menos em um momento inicial, na questão da sucessão de D Fernando.
No segundo dos casos, a prossecução do móbil identificado – reitere-se: a plena passagem, para além de jure também de facto, da (original) Igreja de São Domingos a (completa) Sé – levou, de modo feliz, no início do século em que nos encontramos, a conceber-se um programa de obras de renovação e melhoramento da Sé de Vila Real – as obras principiariam em 2001. Foi no interior desse programa, do qual constavam, também, a conservação do prédio, pela colocação de telhado novo, secagem das paredes e drenagem do solo e a colocação de mais um degrau no presbitério, apresentado pelo IPPAR ao Bispo de Vila Real, que emergiu um projecto de vitral para o óculo sobre a porta principal, com análoga intenção para o presbitério e naves laterais. Um “momento de alegria e algum receio”[13], confidencia D. Joaquim, um momento de feliz discernimento, sinal de arrojo e abertura, a partir de uma mundividência capaz de uma hermenêutica que supera uma concepção da crítica religiosa que

à estética contrapõe uma antítese radical: a arte é um princípio demasiado frouxo e ambíguo para a fé. A arte é, no fundo, um jogo de esconde-esconde, sem compromisso, sem gravidade existencial; e pior, instaura uma moral estranha à moral autêntica. À estética opõe-se aquilo que realmente conta: a ética e a vida eterna[14]



(cont.)

[1] Idem, p.8.
[2] M.T.CHICÓ, o.c., p.142.
[3] DOM J.GONÇALVES, o.c., p.6.
[4] L.SCHIAVI, O espaço sagrado do cristianismo, in U.ECO (org.), Idade Média. Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos, D.Quixote, Alfragide, 2011, p.586.
[5] DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real, in M. LACERDA, M. SOROMENHO e A.BARBOSA (coord.), João Vieira. Vitrais da Igreja de São Domingos. Sé de Vila Real, Instituto Português do Património Arquitectónico, Lisboa, 2003, p.9.
[6] CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium, nº41, in http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html, consultado a 12/07/14.
[7] PAPA JOÃO PAULO II, Exortação pós-sinodal sobre os Bispos, 2003, maxime nº34, in http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_20031016_pastores-gregis_po.html, consultada a 12/07/14.
[8] DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real, in M. LACERDA, M. SOROMENHO e A.BARBOSA (coord.), João Vieira. Vitrais da Igreja de São Domingos. Sé de Vila Real, Instituto Português do Património Arquitectónico, Lisboa, 2003, p.10.
[9] A.M. PIRES CABRAL e A.C.LOBO, Vila Real. Um olhar muito de dentro, Câmara Municipal de Vila Real, 2001, p.20.
[10] Cf. A.M.PIRES CABRAL, Vila Real. Seis dias para um distrito, Governo Civil de Vila Real, 2004,  p.29.
[11] Ibidem.
[12] Cf.B.V.SOUSA, o.c., p.39.
[13]DOM J.GONÇALVES, Os vitrais da Sé de Vila Real, in M. LACERDA, M. SOROMENHO e A.BARBOSA (coord.), João Vieira. Vitrais da Igreja de São Domingos. Sé de Vila Real, Instituto Português do Património Arquitectónico, Lisboa, 2003, p.11.
[14] J. TOLENTINO MENDONÇA e P.MEXIA, Prefácio a Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa, Assírio e Alvim, Porto, 2014, pp.9-10.