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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Job


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Afonso X tornou-se rei de Castela em 1252, mas Susan Neiman vê nele o possível primeiro herói do Iluminismo, na medida em que, depois de iniciado por judeus eruditos, na astronomia afirmou: «Se eu tivesse sido conselheiro de Deus no momento da Criação, muitas coisas estariam mais bem ordenadas» (p.30). Concluirá Neiman: "os observadores medievais não estavam inteiramente enganados ao interpretar o desejo de aconselhar Deus como o primeiro passo de um processo que levaria a algo que não poderiam imaginar: não só desejo oitocentista de afastar Deus, mas o anúncio de Nietzsche de que esse acto fora realizado, e já nem sequer era chocante"(p.33).
Afonso sofre a desventura de um dos seus filhos, Sancho, ter conspirado para o depor, sofrimento para muitos merecido como justa punição de quem duvidava da bondade da criação: "assim, o seu destino dificilmente poderá comparar-se com o de Job, cuja história de sofrimento interminável também foi paradigmática para os escritores preocupados com o problema do mal. É importante notar que, tal como os infortúnios de Afonso, os de Job não foram vistos como injustos até muito tarde. Durante o iluminismo, os comentadores deixaram de procurar maneiras de justificar os tormentos de Job. De acordo com Kant, que escreveu um ensaio fabuloso sobre o assunto, os pensadores tinham agido anteriormente na esperança de que Deus estivesse a escutá-los. Tendo perdido essa esperança, tinham menos motivos para experimentar as variações de possíveis teodiceias,  comprovativas de que afinal Job era secretamente culpado de alguma coisa, de modo que a perda de tudo o que tinha era um castigo justificado, ou estava a ser posto à prova para ser recompensado mais tarde. Autores mais antigos, identificados com os amigos de Job, foram os criadores da teodiceia que descobriu uma justificação. Os que vieram mais tarde, identificados com Job, não encontraram nenhuma. Descrever este desenvolvimento pode ser uma forma interessante de passar uma vida inteira, que nunca seria suficientemente longa para analisar a vasta literatura que o livro de Job inspirou" (p.32) [O mal no pensamento moderno, Gradiva, 2005]