Mostrar mensagens com a etiqueta Amy Adams. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Amy Adams. Mostrar todas as mensagens

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Sobre "Vice"


"Vice" é um filme biográfico fora do comum e difícil de fixar num só género.  Retrata com fidelidade a factos e acidez crescente o trajecto de Dick Cheney (...) para muitos, foi ele o maior responsável por uma estratégia geopolítica pós-11 de Setembro que acabou por se revelar fraudulenta e de consequências desastrosas após as invasões ao Iraque (...) O filme cruza várias etapas, documentadas até à exaustão (há neste filme um trabalho jornalístico de fundo), da vida da personalidade política, e fá-lo (naturalmente à revelia desta) com uma liberdade de movimentos notável, cruzando vários narradores (voz off, por exemplo), documentos históricos, arquivos de tv, que se vão entrelaçando na interpretação de Christian Bale, num dos seus mais exigentes trabalhos. (...) Esta é a história de um zé-ninguém, não particularmente dotado para coisa nenhuma, e que dez da paciência e de uma continuada subserviência ao poder ao longo de décadas as armas do seu êxito. (...) Outro aspecto não menos importante é o papel determinante de Lynne Cheney (interpretada por Amy Adams), a esposa que o 'endireita' a tempo e o encoraja, sempre na sombra, a trepar na hierarquia do poder em Washington. (...) [Adam] McKay [o realizador], mesmo depois de ter feito o filme, ainda não sabe que é, de facto, Dick Cheney. "Se chamarem a "Vice" um filme biográfico, a única coisa que posso salientar é que a biografia não foi autorizada. Quer dizer, fomos rigorosos nos factos, escavámos mesmo em tudo o que podíamos escavar, tivemos até jornalistas a trabalhar para nós em entrevistas off the record a quem rodeou Cheney no poder (...)". Christian Bale (...): "será que os demónios ainda descem sobre Cheney durante a noite? Pode alguém dormir realmente em paz depois de ter dado origem a uma guerra grosseira e sem ética?". (...) McKay: "contámos esta história da forma mais honesta e verdadeira que soubermos (...) 'Vice' é uma comédia de factos, um filme de informação que consegue ser comovente e genuinamente triste.

Francisco Ferreira, O poder na sombra, Expresso, edição nº2416, A Revista do Expresso, 16 de Fevereiro de 2019, pp.62-63.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Dúvida



Se conseguíssemos esquecer a América da caça às bruxas, caldo cultural que marca o filme, este - sem nunca ter o condão de arrepiar, ou envolver demasiado o espectador; um filme de actores, claro, com Meryl Streep ou Seymour Hoffman, mas não um grande filme, creio - poderia, ainda, ilustrar, uma vez mais, a absoluta recusa da dúvida, isto é, e afinal, a rejeição da nossa condição de fragilidade, de (simples) mortais, ilustrados na todo-poderosa, mas humana, madre que termina em lágrimas porque, ao fim e ao cabo, não tem certezas (neste caso, sobre a culpabilidade do padre Flynn). Como parábola desta nossa condição, que o "belo sermão" com que se inicia A dúvida (John Patrick Shanley, 2008) ajuda a ler (prosseguir nela é o nosso acesso hoje à estrela que indica o caminho ao marinheiro; sobre a dúvida escreve importantes páginas, Ratzinger, em Introdução ao Cristianismo), fica novo testemunho.