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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Que filmes para hoje?



Resultado de imagem para que horas ela volta

Nesta altura em que vamos olhando com especial atenção para o Brasil, em função do seu momento político e social, a RTP2, que vem, de novo, oferecendo uma boa programação cinematográfica aos seus telespectadores, passou, muito recentemente, Que horas ela volta, um filme de Anna Muylaert
A narrativa desenrola-se em torno do espaço de uma casa (rica), mansão no Morumbi na qual uma empregada doméstica (interna) trabalha há 20 anos. Esta, com o seu quartinho nos fundos da vivenda, não vê a filha há dez anos (em Pernambuco, terra natal). Envia, contudo, o dinheiro necessário para cobrir todas as necessidades essenciais desta. Os patrões parecem modernos, não falam curto e grosso, dão a ideia de ter Val (interpretação de monta de Regina Casé) como um membro mais da família. Mas o estilo delicodoce (destes) não se mostrará mais do que uma fina película, dissimulando uma hipocrisia larvar, sugerida amiudadamente - Bárbara (Karine Teles), a senhora da casa, em especial, nas cenas em que faz ginástica e praticamente não tira os phones dos ouvidos enquanto a empregada lhe quer transmitir algo; na recepção em casa, de amigos, para os quais recusa que se sirvam cafés no conjunto que Val lhe oferecera pelos anos (e que prometera usar em ocasiões especiais); na reacção à nota do vestibular alcançada por Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, ou a instalação desta no quarto dos hóspedes em vez da divisão do mini-quarto com a mãe, nas caretas que faz a Val pelas costas...
O Brasil, a aceitação, a resignação ao status quo mas também o combate pela e, inversamente, contra as possibilidades de mobilidade social (o confronto, desde logo, entre mãe e filha, entre personagens-geração, Val e Jéssica, como lhes chamou Victor Vigneron, a juntar e não menos importante que o confronto de classes sociais que habita o filme; a decisão final de Val abandonar a casa parece ter resolvido que ideias vencem nesta "luta ideológica"; nesse sentido, o filme parece concorrer pelo espírito do tempo ser favorável ao pelo nas ventas de Jéssica); as ideias de desigualdade de dignidade e de dignidades (naturais e a manter), ou personagens que a recusam e ao seu comportamento conferem essa ideia mesma de indistinção social. A rebeldia desse não aceitar ser menos digno que outrem (ou de conferir a outrem uma dignidade maior). 
Um filme no qual se mostra como uma empregada doméstica pode adquirir um vínculo maior com o filho dos empregadores do que a mãe biológica destes; mas também um filme no qual essa mesma empregada acaba a cuidar muito mais, e diariamente, do filho de outrem do que da sua filha (e como isso deve doer, como bem sublinha Carlos Boyero); um filme que apesar de revelar ainda uma tensão no feminino, não deixa de assumir, ainda e muito, uma carga pesada de investida, de tipo sexual, do sujeito masculino (Carlos, interpretado por Lourenço Mutarelli), em que mau grado toda a abertura, partilha sobre as artes, mas não parece reivindicar senão um direito de pernada (aspecto lacunar, creio, em Jorge Mourinha, sobre o filme).
Se Sérgio Alpendre via no filme, saído em 2015, um manifesto ao Governo, por Jéssica, empertigada e fazendo-se valer, quando vai estudar para o exame de acesso à Universidade na casa onde a mãe trabalha (e recusa o servilismo e o papel de "filha de empregada doméstica") representar o novo Brasil - que teria deixado a cabeça baixa e o aceitar as regras ditadas de cima abaixo simbolizada por Val -, então que tipo de personagem, como seria desenhada aquela do último mandato do PT, do impeachment, do Governo Temer e de uma eleição polarizada em torno de uma figura como Jair Bolsonaro?

[Um aspecto da Jéssica de 2015 que se repete nas Jéssicas de 2018 é o muito significativo número de mães adolescentes no Brasil].