Retomado um apontamento que já aqui deixara no Verão, escolhi para tema do reparo do dia desta semana, na ufm, o 1º de Dezembro, revisitado à luz do escritor e historiador transmontano António Borges Coelho. Assim, na íntegra:
1º de Dezembro
Poder-se-á dizer que, em
1580, se defrontam, em Portugal, um partido
patriótico - formado por
aqueles que pretendem que a coroa fique nas mãos de um português - frente a um partido castelhano - constituído pelos que não se
opõem, antes sufragam, que el-rei venha de Castela -, ou aquilo que sucede
é que estamos perante dois modos de entender o melhor para o reino, duas formas
diferentes, digamos, de patriotismo?
Desde logo, pois, esta nota: não há um
Portugal uno, frente a Castela, neste final do século XVI - Portugal podia
manter tudo em sua posse e ainda ver-se reforçado em termos de restauração de
uma monarquia católica europeia (como resposta à Reforma protestante). Do ponto de vista jurídico, defensáveis
eram, aliás, quer os pontos de vista que legitimavam Filipe, quer os que
respaldavam António, na sucessão da coroa. Do ponto de vista social, a diferença é marcada: os menores, o povo - acrescido de
alguns fidalgos e nobres, é certo - esteve sempre com D. António, Prior do Crato; as classes favorecidas acharam-se ao lado de Filipe I.
Por esta altura, é verdade, a identidade hispânica é
uma realidade, mas a identidade nacional revela-se bem mais forte. Já quando se
cuida de uma identidade europeia, em esta época, manda a prudência avisar que,
por exemplo, um Camões esteve em muitas outras
determinantes praças que não qualquer capital do Velho Continente.
A disputa entre
apoiantes de D.António - que foge, primeiro para França; mais tarde para
Inglaterra - e D.Filipe permanece bem para lá de 1580 (em 1585 ainda se
torturam apoiantes de D.António). Por exemplo, nos Açores as forças
afectas a D. António ainda prevalecem durante certo tempo (pitoresco o episódio
em que com cerca de 300 ou 400 bois e vacas os potuguesíssimos destronam os apoiantes de Filipe).Depois dos acordos
de Tomar ratificarem Filipe I, julgavam os ainda nostálgicos de um
Portugal com direito a rei próprio, que só D.Sebastião, saído da
tumba, poderia libertar o país. E, em não aparecendo o verdadeiro, vários
concidadãos deste se disfarçaram, procurando forçar a mudança política. Sempre
estava aparecendo o "real" D.Sebastião, em várias zonas do território
português, que logo se percebia ser logro, acabando o farsante justiçado a
açoutes, degredo e/ou morte.
Entretanto, nos
mares, outras potências que não a grande Ibéria, como Inglaterra, vão desafiar
o modelo de Tordesilhas. D. António chega a vir com os ingleses (1589), para
tomar Lisboa de assalto, mas ninguém se levanta com ele. Morre, em 1595, em
Paris. Filho de D.Luis, havia recebido educação esmerada, combateu
em África com o primo D.Sebastião e, a ter exercido o poder de monarca tê-lo-ia
realizado, sobretudo, segundo António Borges Coelho, a título de
"legitimidade revolucionária" (p.73). Se é certo que não foi um
vencedor, merecia mais do que tem recebido no tratamento dado pela
historiografia, denuncia o historiador.
Já com Filipe
II ao leme (Filipe I morre em 1598), são nomeados, em 1600, vários
ministros castelhanos, passando-se, assim, por cima, da autonomia portuguesa
(p.142). Violava-se, desta sorte, os Acordos de Tomar. Madrid liderava amplamente:
"a realidade política, económica e civilizacional que designamos como
monarquia filipina, monarquia católica ou mesmo Espanha agregava reinos e
territórios muito diferenciados, os da Península Ibérica, os reinos de Nápoles
e da Sicília, Sardenha, Milão, o Franco Condado, a Flandres e as duas Índias.
Castela liderava. Em Madrid se reuniam os Conselhos, as Juntas e se distribuíam
os benefícios, as mercês e de desenrolava em pleno a liturgia e o espectáculo
do poder. A monarquia filipina manifestava-se como a potência europeia mais
temível da época pela fama das conquistas, pela força e medo incutido pelos
seus tércios e as suas armadas, pela aliança estreita com o Império Habsburgo,
o Papado e a Itália, pela literatura, estreitamente vigiada pela Igreja, as
corporações, a Universidade e os tribunais do Santo Ofício" (p.185). A
longa mão de Madrid chegava, aliás, por esta altura, às decisões locais
(p.189).
A utopia de uma
monarquia católica universal cai, no entanto, aos pés de um rei fraco como
Filipe II - quando vem a Lisboa pela primeira vez, os castelhanos que o
acompanham tudo furtam das casas, ou conventos, onde se instalam, mandando
famílias para fora e obrigando-as a pagar para voltar a recuperar o seu -, num
tempo em que os cristãos-novos vêem legislação
mudar constantemente quanto ao seu poder de sair do país e movimentar os
bens, participar em cargos, títulos, honras e demais (são aprovadas leis
racistas). O tempo é de Inquisição, autos-de-fé, confissões forjadas, mortes
sem "culpa", espectáculos delirantes. Há o jogo da pela, touros
defrontam cães. Alugam-se janelas. As procissões são imensas, num cortejo
espectacular.
O direito canónico
proíbe os juros nos empréstimos, "mas todos veneravam o ouro e o
dinheiro" (p.246).
A situação do povo é
infame: "o povo pobre sofre. A guerra rouba-lhe os filhos mais válidos
apanhados na rua e mobilizados à força. Morrem à pura fome com a carga de
impostos. Em 21 de Junho de 1627 Filipe IV [III] indica cinco locais em Lisboa
para a recolha dos meninos perdidos. Quase só vemos o povo quando apedreja as
janelas do Paço Real, quando mata, em escaramuças, soldados castelhanos ou
quando no Porto ameaça matar, na revolta das Maçarocas, o conselheiro de Estado
Francisco Lucena" (p.255).
A fadiga
tributária pressente-se nas altercações de Évora,
prenúncio da revolta e restauração que aí vem. Seguem-se conspirações,
contactam-se homens para a mudança, muitos deles encolhem-se. Avança-se com a
data do 1º de Dezembro de 1640, ano no qual já houvera a luta pela Catalunha.
Ora, "o que
moveu os restauradores a reinventar a monarquia portuguesa ou se necessário, em
último recurso, a instaurar uma república? Não foi em defesa da ordem e da
crença católica nem os impediu a putativa identidade ibérica e muito menos
europeia. O que está por trás do seu gesto temerário é a defesa dos interesses
de classe e o sentimento de identidade que ligava as instituições e os grupos
sociais, nas suas diferenças legais, de ordem e classe, à nação portuguesa"
(p.275).
D. João, duque de
Bragança, D.João IV, será, depois do inevitável Miguel de
Vasconcelos ter sido atirado da janela abaixo (já com um tiro, mas
ainda vivo), finalmente, aclamado: "Real! Real! Real!.
Boa semana.