António Lobo Antunes: Posso só fazer uma pergunta? Que coisa são as nuvens, Zé? [Que coisas são as nuvens é o nome do espaço semanal de Tolentino de Mendonça no Expresso; a pergunta é, evidentemente, um jogo de palavras que remete para a literalidade da expressão e da sua conjugação com o dito título semanal]
José Tolentino de Mendonça: Essa pergunta, que é uma pergunta sem resposta, é de um pequeno filme com o mesmo nome de Pasolini que me fascina, e que conta que, num teatro de marionetas, quando as marionetas estão estragadas, são lançadas na lixeira. Esses dois personagens, meio bonecos, meio pessoas, pela primeira vez, saem do teatro, pensam que vão morrer, que vai tudo acabar. São lançados numa lixeira e, quando estão ali deitados, no meio da imundice, abrem os olhos, arregalados, e começam a dizer: "Que belo, que espantoso. O que é aquilo? São as nuvens". E o mais inocente pergunta: "Que coisa são as nuvens?". O actor, que é o Totó, responde à beleza indizível do criar. No fundo, as nuvens são isso, aquilo que está connosco e não temos palavras para dizer, pela sua desmesura, simplicidade, pelo seu silêncio. A arte é essa experiência, essa experiência de amor. Concordo com o António - de facto, a razão que nos faz escrever é o amor. Essa experiência radical, também de solidão, de procura, de questionamento, instigante que a escrita exige, solidões e desertos, coisas que se veem como quem vê outra coisa. Isso é um acto de amor. É uma forma de contrariar a morte. O nada e a criação são a possibilidade de riscar um fósforo no escuro. Isso, de facto, é um acto de amor e coloca-nos próximos de nós. O que é que encontramos num romance, num ensaio, num poema? Encontramos a nossa possibilidade, encontramos uma janela, um espelho, uma palavra que nos orienta, que depois não se solta mais da cabeça, encontramos a tal mão que nos vai ajudar a caminhar no corredor vazio. Isso é o que a literatura nos oferece, juntando toda a alegria, emoção, todo o conhecimento da realidade, do bem e do mal. Comecei por dizer que a literatura nos leva à última margem. Acho que a religião é o salto no escuro.
António Lobo Antunes: Tenho imensa inveja dos que têm fé, como o José Tolentino. Não sou invejoso, mas isso invejo. Porque sinto que as pessoas como ele podem ter uma intimidade com Deus que eu não consigo. Às vezes sou muito cerimonioso, quase trato Deus por senhor doutor ou senhor engenheiro. Sinto-me como o drogado, que vai pedir uma esmola, muitas vezes a nossa relação com Deus é pedinchona. Estou farto de pedir cigarros a Deus e a maior parte das vezes Ele nem olha, tem mais que fazer do que estar a dar-me tabaco.
José Tolentino de Mendonça: É preciso não idealizar a relação do crente com Deus. A nossa relação com Deus é muito a partir do desejo de relação, da sede de relação. Se Deus é transcendente, tenho de salvaguardar isso para não o domesticar. Não ser um Deus portátil, que já conheço, com quem já falo com toda a familiaridade, no fundo, daqueles que dominam a situação. A relação com Deus é sempre uma relação mais de escuta, de desejo, de ter essa relação do que propriamente uma relação segura, acabada. O Evangelho segundo João diz uma coisa que parece a mais terrível para estar escrita num evangelho: "A Deus, nunca ninguém o viu". Os não-crentes nunca viram Deus, mas os crentes também não, e partimos do mesmo silêncio, da mesma dificuldade, do mesmo problema, da mesma questão. Quando o António diz que tem inveja das pessoas que acreditam em Deus, sinceramente, eu poderia responder: "Eu também". Porque os crentes têm de sentir sempre que há um não-crente dentro de si, isto é, que a própria relação de crença não é uma relação acabada. Deus sabe, são sempre passos de algodão, passos de uma grande fragilidade, passos vulneráveis, é sempre um tatear, são sempre palavras que não são bem palavras. A minha oração sinto-a sempre muito pobre, muito escassa...
António Lobo Antunes: Isto que o Zé está a dizer é tão importante, meu Deus. O M.S.Lourenço, pai de Frederico Lourenço, escreveu: "Aceito Deus unitrino, mas não aceito Deus cabeleireiro de senhoras". Acho que, em certa medida, esta frase de M.S. Lourenço resume um pouco, de uma forma um bocado irónica, aquilo que estás a dizer. Da mesma maneira que todo um poema é sempre um poema em construção, porque, mesmo dentro do leitor, ele continua a fazer-se, como o livro continua a ser escrito. É uma relação profundamente dialéctica, cheia de mudanças, e é isso que a torna igualmente fascinante, além do comprometimento pessoal, da paixão e do amor.
José Tolentino de Mendonça: O acto de crer para mim é um acto de exposição de si. É expor-me à questão, ao problema, ao olhar, fazendo disso uma espécie de caminho, de experiência. Sem nenhuma pretensão, isso é o acto de crer e de revisitar essa experiência dos outros, os textos fundamentais, mas de certa forma é isso que o António faz. O livro Padres do deserto explicava isso, nós vamos ser salvos pelo desejo de Deus, é essa fome de Deus. Não é por estarmos empanturrados d'Ele, é por nos sentirmos sempre aquém. Isto que o António diz é muito comovedor. É, no fundo, um homem, que é um criador extraordinário, próximo ou dentro do mistério da própria vida, que se sente aquém. Isto é o acto de crer.
António Lobo Antunes: Só o mistério nos faz viver.
José Tolentino de Mendonça: É isso mesmo. A relação com Deus não é uma relação de posse, de direito, é uma relação de desejo, de busca, de procura.
António Lobo Antunes: Acho que é Augusto Abelaira que conta isto. Um homem diz a um amigo: "Descobri que a minha mulher deixou de gostar de mim quando deixou de se vir despedir de mim à escada". E o outro respondeu: "Ou foste tu que te esqueceste de olhar para trás?". É que muitas vezes nós esquecemo-nos de olhar para trás e ver os gestos e o sorriso que ficaram lá em cima.
Visão nº1312, 26-04 a 2-05-2018, pp.56-59 [declarações feitas no Visão Fest, no encontro entre Lobo Antunes e Tolentino de Mendonça, e reproduzidas na Visão, na peça Uma conversa de deuses, da autoria de Sara Belo Luís]