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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Empréstimos a universitários


Em 2007, no ensino universitário público (...) apenas 1% dos alunos admitiu ter contraído empréstimos destinados ao financiamento dos estudos.

António M.Feijó e Miguel Tamen, A Universidade como deve ser, FFMS, 2017, p.54, nota de rodapé 29

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Na universidade (portuguesa) (IV)


A ideia de universidade que defendemos funda-se em três posições simples e antigas. A primeira é a de que a universidade não deve visar fins úteis. A segunda é a de que deve oferecer aos seus alunos o acesso a todos os domínios do saber. A terceira é que deve ser autónoma de todos os poderes, e gerir-se a si mesma.
Se a primeira posição parece etérea ou contra-intuitiva, considere-se a pequena parábola de alguém que queira inscrever-se num curso que o Estado tenha impedido de abrir num dado ano lectivo, por não satisfazer o requisito legal de empregabilidade dos seus licenciados, geologia, por exemplo. (...) Se o candidato responder que não procura emprego, mas apenas estudar geologia, ser-lhe-á respondido que não poderá fazê-lo por o estudo da geologia não lhe garantir emprego. O candidato insistirá que não quer emprego, só quer estudar geologia, prosseguindo, deste modo, sem fim aparente que não o cómico involuntário, um diálogo de surdos. Este inconclusivo diálogo trai, no entanto, uma posição do Estado face á ciência, a de a considerar de um ponto de vista exclusivamente prático (no sentido mais trivial deste termo)
As ciências, constituídas e especificadas em disciplinas, estão decerto entre os mais altos feitos da espécie. A geologia formaliza, sob a espécie conceptual e histórica, clara e distinta, uma parte da experiência e do mundo que, até à emergência e especificação dessa formalização disciplinar, se mostrou enigmática, sem uso, ou com um reduzido elenco de usos. O abandono ou redução de uma disciplina científica são destrutivos de um domínio da ecologia racional da espécie, árdua e cumulativamente construída por gerações de investigadores. Até mesmo do ponto de vista prático, tal negligência é imprudente, por não ser claro que eventual situação futura, lesiva da espécie, a disciplina possa ser chamada a responder. A razão maior do valor da universidade é hoje relativamente imperceptível. Pode, no entanto, ser formulada de modo preciso, mesmo se num vocabulário quase desaparecido: a criação e a aprendizagem de uma disciplina científica induzem uma forma de contentamento intelectual, e são um bem em si mesmas
É este valor que constitui o sentido da designação «artes liberais», dada pela universidade, desde o seu início, às disciplinas que a constituem. A designação «liberal» tem aqui um sentido preciso. (...) Na definição do cardeal Newman, na mais influente descrição moderna da ideia de Universidade, o conhecimento liberal «funda-se nas suas pretensões próprias, é independente de sequelas, não espera complemento, recusa-se a ser informado por qualquer fim, ou absorvido por qualquer arte prática, para devidamente se apresentar a si mesmo á nossa contemplação».
Uma definição mais económica, a do filósofo britânico Michael Oakeshott, define «liberal», neste contexto, como significando «liberto da dispersiva actividade de satisfazer necessidades contingentes». O oposto de «liberal» é, pois, «servil» ou «regulado por um extrínseco fim prático». (...) Uma educação «liberal» é (...) a aprendizagem da participação naquilo a que se chama uma «cultura», termo habitualmente equívoco que, na definição de Oakeshott, denota «a totalidade daquilo que um conjunto associado de seres humanos criou para si mesmo, para além da satisfação evanescente das suas necessidades imediatas». A noção de «cultura», tal como nela se acolhem os domínios do saber estudados na universidade, denota aqui não uma doutrina, mas um «encontro conversacional» que pode ser, e muitas vezes é, argumentativo no tom. Cada disciplina ou domínio do saber constitutivo do conhecimento liberal, a geologia por exemplo, é uma linguagem específica unicamente acessível através da literatura particular que a fixa, a da exemplaridade e especificação do seu ensino por professores e alunos. Na definição de Oakeshott, uma cultura é o dissonante coro de vozes que num mesmo lugar se encontram e colidem numa conversa ininterrupta. A educação liberal é uma iniciação a essa conversa, a delimitação de um tempo em que os alunos ouvirão diferentes vozes e modos de enunciação, num espaço que deverá ser alheio a imperativos «práticos» que as conjunturas sempre, suposta e urgentemente, ditam. O que de importante se passa numa universidade ocorre num grupo de pessoas que falam entre si, durante um certo tempo, numa sala.

António M.Feijó e Miguel Tamen, A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.23-25

[Na universidade medieval, as «artes liberais» eram constituídas por dois sub-conjuntos disciplinares: o trivium, que incluía a gramática, a lógica e a retórica, e o quadrivium, que incluía a aritmética, a geometria, a astronomia e a música]

Na universidade (portuguesa) (III)


Em sentido preciso, nunca houve universidade no Portugal contemporâneo. Houve, e há, ensino universitário de alta qualidade científica e pedagógica, mas não universidade enquanto tal. Uma aluna que, concluído o ensino secundário, se inscreve numa universidade e se licencia em geologia, poderá vir a ser iniciada nesse domínio do saber de um modo excepcional, e nada nos leva a duvidar de que o seja. O confinamento curricular num único domínio do saber torna, todavia, a sua formação exclusivamente vocacional, e a universidade que a dispensa um mosaico de escolhas vocacionais. Não é claro em que consista a natureza universitária de uma formação mono-disciplinar e vocacional, a não ser que «formação universitária» signifique, neste contexto, «formação especializada avançada», a qual poderia ser obtida pela frequência de um instituto de investigação dedicado em exclusivo a esse domínio monodisciplinar; um tal instituto, por essa sua redução de âmbito a um único domínio, nunca será uma universidade, embora possa ser parte de uma (nem o Caltech, nem o MIT são, neste sentido, uma universidade, como o não seria o Instituto Superior Técnico ou a Academia Militar, se reduzidos a si mesmos).
O nosso argumento aqui não se funda no sentido original da palavra «universidade», que, como por vezes erradamente se julga, denotaria o «lugar onde se cultiva o conhecimento universal» (embora nos pareça que uma universidade deva ser exatamente isso). O sentido original da palavra é outro: uma «corporação» de mestres e alunos. Se algum argumento se pode deduzir do sentido original do termo é o de ser o ensino de licenciatura, e não a investigação, a actividade central de uma universidade. Esta centralidade da licenciatura explica que muitas das mais importantes universidades existentes tenham sido inicialmente relutantes em acolher a investigação e o ensino pós-graduado, tendo algumas delas afastado do campus as infra-estruturas que a actividade de investigação tornava necessário criar - laboratórios, por exemplo. (...)
A inexistência de uma universidade enquanto tal não é uma singularidade portuguesa, mas, com algumas excepções, uma realidade europeia. O modelo vocacional é aqui dominante (...) 

António M.Feijó e Miguel Tamen, A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.20-22

domingo, 24 de setembro de 2017

Na universidade (portuguesa) (II)


A valorização social do emprego como fim último, se não único, da educação universitária revela uma aspiração social pobre. (...) É, todavia, de notar que o nível de emprego dos licenciados portugueses é estatisticamente alto, e que o benefício financeiro projectável de uma formação universitária em Portugal é dos mais significativos no espaço europeu [o salário de um trabalhador com licenciatura universitária correspondia em média em Portugal (dados de 2014) a 231% do de um trabalhador com o ensino secundário. A média da OCDE era de 183%; a fonte é a OCDE no seu Education at a Glance 2016]. (...) O que possa decorrer da obtenção de um vínculo de emprego, que consecução de outros fins possa ele permitir, é, contudo, deixado cepticamente no limbo das interrogações desnecessárias, ou considerado um exclusivo bem privado de quem consiga obtê-lo. A empregabilidade que o Estado defende como valor ignora a noção socrática de que uma vida não examinada não merece ser vivida. Ao ser tomada como virtude abstracta de qualquer actividade que a assegure, a empregabilidade igualiza toda e qualquer actividade, e obscurece a diferença de valor que diferentes formas de trabalho humano possam ter para quem as pratique.
Este zelo pragmático do Estado, que o debate público sobre educação genericamente perfilha, elege como fim maior, se não exclusivo, de um curso profissional as «saídas profissionais» que possibilita. Nenhuma ideia de educação minimamente robusta subjaz a este entendimento, que ignora qualquer valor intrínseco que a educação possa ter. O diploma concedido a um licenciado na conclusão de um curso é tido por um brevet ou licença necessária ao acesso a uma profissão. Um diploma é considerado uma nota promissória de que uma actividade profissional é devida a quem o possua, não sendo todavia claro quem tenha a obrigação de pagar o que nela é prometido. Se considerarmos, como consideramos, que o trabalho é parte decisiva da vida de qualquer pessoa e, por isso, uma questão política maior, não nos parece, porém, daí decorrer que uma política de emprego deva reconfigurar, e nessa reconfiguração perverter, os fins da universidade. Na sua acepção precisa, um diploma é um documento retrospectivo que inconsequentemente atesta que o seu detentor percorreu com sucesso um curso de estudo organizado numa sequência ordenada de disciplinas. Este percurso curricular traduz uma ideia de educação: a de que, nessa sua progressão bem-sucedida por uma sequência de disciplinas, o diplomado teve importantes ganhos cognitivos, e que, na socialização intensa com os seus pares e instrutores em que essa progressão se fez, se constituiu como adulto, ou como mais adulto, e conhece agora melhor as exigências e pressões do lugar que ocupa.

António M. Feijó (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Vice-Reitor) e Miguel Tamen (Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), A universidade como deve ser, FFMS, 2017, pp.17-19


Neste passo do ensaio ora publicado na colecção de ensaios da FFMS, algumas notas bem claras:

i) a noção generalizada no debate público de que universidade é, ou deve ser igual, a licença para um emprego; 
ii) com tal noção, assim a universidade deixa de ser vista como fim em si mesmo, e adquire um mero carácter instrumental;
iii) se essa noção correspondesse à realidade, se a universidade tendesse a significar exactamente essa licença para o emprego, afinal quem o garante e o paga (ao diplomado)?;
iv) pensar que é boa, sem mais, a finalidade "emprego" é tornar igualmente bom/pensar como igualmente bom qualquer emprego que se consiga (que se siga do curso; e independentemente de como ele venha a ser valorizado pelo próprio empregado); 
v) não se pensa, pois, que outros fins esse emprego possa permitir alcançar (por exemplo, se permite prosseguir a conversação iniciada na universidade e, muito em particular, uma vida examinada); 
vi) toma como assente que um curso é exclusivamente um bem privado da pessoa;
vii) ora, um diploma universitário é "inconsequente" no sentido de que não conduz, necessariamente, a uma dada "consequência" (por exemplo, no plano laboral), é fim em si mesmo, que reconhece ganhos cognitivos e avanços no adulto em formação.