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segunda-feira, 18 de março de 2019

Primavera Árabe 2.0?


No Médio Oriente, a idade média é de 24 anos. No início do século, esta região tinha a maior proporção de jovens no mundo; a população do Iraque está a aumentar um milhão todos os anos e quase 40% (desta mesma população) tem menos de 14 anos (segundo dados do Finantial Times). O Médio Oriente e o Norte de África têm as maiores taxas de desemprego jovem do mundo (note-se como na Argélia, com 40 milhões de habitantes, dois terços têm menos de 40 anos; 28% dos jovens argelinos estão desempregados). Segundo o FMI, serão cerca de 25%. A ONU diz que a população activa, desta região, em 2030, terá que acomodar mais 39 milhões de pessoas. Quem pode, está a ir-se embora, com as migrações a serem densas entre 2000 e 2015 (migração líquida de 8,4 milhões de pessoas). Em 2014, com a baixa dos preços do petróleo, os Governos, nestas regiões, tiveram de reduzir despesas, e o emprego aumentou (nomeadamente, no sector público). Já se fala numa nova Primavera Árabe (ou Primavera Árabe 2.0), mas hoje, e face ao que se observou na última meia dezena de anos, sem demasiadas expectativas democráticas. 
Os líderes de países como a Argélia, o Sudão, Tunísia ou Palestina vão tendo já uma idade avançada (a que, não raro, se junta uma doença) e alguns destes regimes estão sob protesto (por se encontrarem esclerosados).

De acordo com Robert Sapolsky, assim que nos são mostradas imagens de uma grande diversidade de pessoas, quando olhamos para aquelas que não associamos ao grupo a que nos vinculamos, activamos zonas cerebrais ligadas ao medo e, mesmo outras ligadas à empatia não funcionam com tanta intensidade assim, no que demonstra a facilidade e "aptidão" (biológica) para acomodarmos "bodes expiatórios" como explicação dos males que nos sucedem (nomeadamente, a nível societário).

Putin aprovou, muito recentemente, lei que proíbe os soldados em destacamento, de usarem smartphones (evitando que sejam localizados)

[No GPS, de Fareed Zakaria, de 17-03-19]

sábado, 25 de agosto de 2018

Últimas notas



Talvez com a excepção da parte do livro em que cita o vice-presidente da Comissão Europeia, em entrevista a um canal holandês, a dizer que mais de metade dos migrantes que vieram para a Europa em 2015 eram imigrantes económicos e não refugiados - um dado que eu desconhecia e que me parece relevante -, Douglas Murray, durante parte do seu ensaio, trata o problema, de refugiados e migrantes económicos, indiferenciadamente, ao qual se refere, simplesmente, como "imigração em massa". O que, se lhe permite sublinhar o “choque cultural” presente na actual Europa – na medida em que, independentemente das populações serem constituídas por migrantes económicos ou refugiados, em grande medida, poderem posicionar-se, face a valores estruturantes da sociedade de destino, com reservas ou certo incumprimento/boicote, divergência concretizada dos mesmos -, parece ignorar que a distinção tem que estar em permanência sobre a mesa, atendendo ao carácter humanitário e urgente da situação dos refugiados, face a uma avaliação mais demorada acerca de pedidos diversos destes. E não se isentará, porventura, de críticas quanto a quase transformar em invasores, aqueles que mais não fazem do que fugir de situações terríveis que vivenciaram, e num estado de emergência e de pura sobrevivência (no caso de refugiados).

Aliás, este aspecto, da manifesta necessidade de distinção entre refugiados e migrantes económicos, é especialmente notório quando, nas soluções políticas que apresenta, o próprio Douglas Murray considera que devia ser claro que os refugiados estão temporariamente num país, em princípio até que se desbloqueie, no país de origem, o(s) problema(s) subjacente(s) à necessidade de exílio. Precisamente, o estatuto do refugiado não creio que seja um ponto especialmente controvertido, mesmo entre quem, habitualmente, tem posicionamentos diversos em termos político-ideológicos.
Quando Murray cita um romance polémico francês de meados do séc.XX, para, no fundo, aparentemente concluir, para hoje, com um dos personagens da obra, que ou se deixa os migrantes entrar e destruir uma cultura, ou então morrem no mar, parece equacionar uma alternativa que não existe à luz da cultura e tradição que várias vezes evoca: não é possível, pura e simplesmente, à luz dessa tradição/cultura deixar, deliberadamente, que alguém pereça no mar (ainda esta sexta-feira, a decisão da Hungria de não alimentar refugiados, pessoas que entende que não devem estar no país, apesar da retórica identitária cristã, é o mais anti-cristã que se possa imaginar).

Apesar do advérbio de modo utilizado para falar do contributo que imigrantes podem dar a uma sociedade - "indubitavelmente" - o livro é bastante parco acerca da matéria (de exemplos de contributos de imigrantes na sociedade de destino, raramente enquadrados para além da diversidade gastronómica, e mesmo esta a surgir com uma dimensão de imigração que descartava o incremento dos anos recentes, para o autor) e muito centrado nos perigos dessa mesma imigração.

Alguns, dirão, adicionalmente, que, na construção de Murray, corre-se o risco de uma generalização acerca do Islão, dos seus seguidores na Europa, vários dos quais, porventura, suficientemente integrados. Sim; em qualquer caso, parece claro que múltiplos estudos – abundantemente citados neste livro - acerca de posições prevalecentes entre comunidades muçulmanas na Europa em temas como a liberdade de expressão ou homossexualidade, por exemplo, são ilustrativos de uma cultura (ou conjunto de culturas, sempre sob a injunção islâmica) que não transformando cada membro da mesma - nem sendo esta completamente homogénea, como vimos diversas vezes - num "extremista", tende a albergar, repetidas vezes, subjectividades com posicionamentos em matérias que consideramos centrais do modo de vida na Europa, susceptíveis de colocar essas matérias e princípios em cheque. 

O livro não deixa, ainda, de colocar – mesmo para quem considere que face ao global da população europeia, a percentagem de refugiados nesta não tem um peso tão marcante, e que, sobretudo, as percepções da maioria da população, em diferentes países europeus, como os estudos têm demonstrado, vão no sentido de pressuporem uma percentagem de imigrantes na sua terra natal que não tem correspondência com a realidade, ou que são, inclusive, as (pessoas de) zonas com menos imigrantes no interior de países que acolhem um conjunto significativo destes que mais os sentem como ameaça, apesar de com estes não lidarem – com acuidade o problema da falta de controlo – da impossibilidade, por imensa falta de meios em Itália ou Grécia, por exemplo -, de desconhecimento das autoridades, de quem é quem que vem para a Europa (com as populações a sentirem-se especialmente preocupadas). O mesmo ensaio que não deixa de sublinhar, talvez contra a corrente mas que não pode deixar de tomar-se em atenção, que diferentes perspectivas das seguidas por Angela Merkel, ou outros parceiros, por muito que entendamos que estas foram no sentido correcto (o autor não acha que foram as posições certas, mas não é importante para este ponto), não são, necessariamente, perspectivas de pessoas de “extrema-direita” ou “fascistas”, que movimentos houve que contestaram estas políticas com, simultaneamente, cartazes anti-nazis, e que a banalização dos termos “extrema-direita” e “fascistas” tende não apenas a descurar quem segue, na realidade, tais linhas políticas como impossibilita uma discussão plena, e integradora, de composições que na marginalidade inorgânica poderão ser menos escrutinadas e mais perigosas.

A estranha morte da Europa discute abertamente, e com base nos documentos que são disponibilizados para garantir que há um contributo económico positivo, líquido, dos imigrantes, nos países afluentes, impugnando as conclusões, e identificando falhas, em especial nos que versam a situação do Reino Unido – no que exigiria um conhecimento técnico dos mesmos que o leitor não possui (fica apenas o registo dessa impugnação).

Fazendo-nos revisitar casos como o de Alemanha no Ano Novo (de há dois anos, salvo erro), o livro garante a primeira versão dos acontecimentos (agressões sexuais, face a alemãs, e alemães jovens, por parte de imigrantes que nas notícias foram vinculados ao mundo cultural muçulmano) que mais tarde vimos contraditadas (os abusos não teriam ocorrido, ou não nas dimensões antes aludidas, e não teriam sido praticados por imigrantes vinculados ao mundo cultural islâmico, na sua grande maioria; as coisas, surgiram, então, nesta segunda versão, noticiadas, entre nós, como se se tratasse de um novo caso arrastão, que os portugueses conhecem da última década): haverá uma conclusão clara sobre tais acontecimentos? Em tempo de verdades alternativas, e de notícias sobre notícias que não duram um dia nos telejornais, encontramo-nos, não raro, sem um cabal conhecimento dos factos - como este caso demonstra. Também neste domínio, as descrições de recepções eufóricas, por parte de europeus, com grandes cartazes, sinalizações de vária ordem, de imigrantes remetem-nos para imagens com que quase nunca fomos confrontados sempre que estes temas se discutiram.

Douglas Murray não se coíbe de, em permanência, apontar os media e as autoridades (policiais, judiciais, governativas) de esconderem, em vários países, uma realidade permeada por permanentes abusos sexuais, ligados a comunidades como as que vimos referindo (sendo que apenas, é certo, mostra a evolução, efectivamente, impressiva e dramática, do aumento de casos desta natureza, na Suécia, no espaço de 2 anos: 2014-2016), mas ainda da falta de autópsias de mortes ocorridas nestas comunidades (registadas como naturais, quando resultado, afirma, de violência, nomeadamente sobre mulheres; sugerindo, uma espécie de outro racismo: como se essas vítimas não merecessem a consideração da investigação necessária, como se fossem aceitáveis à luz de (uma) outra(s) cultura(s) sobre a qual, ou sobre determinadas práticas nela presentes, não se poderiam emitir juízos de censura, num relativismo cultural e ético sem adversativas).

No âmbito propositivo, a ideia de estabelecer protocolos, com países vizinhos daqueles de onde partem os imigrantes, até pela proximidade cultural e integração destes, e aí se proceder a uma clara identificação das pessoas e ajudá-las até em empregos a criar (preferível empregados na Jordânia do que desempregados na Dinamarca, diz o autor), impedindo que venham a ser vítimas de máfias – o livro não deixa de abordar o problema do racismo no interior das embarcações, com os imigrantes da África subsariana, os mais pobres, a serem remetidos para o porão, e mais expostos, em caso de naufrágio, à morte, para lá das ainda mais drásticas condições do que as já de si muito precárias com que todos enfrentam o Mediterrâneo, no que, uma vez mais, parece ratificar o conceito de aporofobia, mesmo em âmbitos como o que aqui se faz notar – em viagens inter-continentais. O regresso a casa, torna-se, igualmente, mais rápido (potencialmente). O alojamento seria mais fácil e muito menos dispendioso, num país do Médio Oriente, do que na fria Suécia (os cálculos apontam 50 a 100 vezes a diferença, nestas circunstâncias).

Murray diz, sobretudo e vezes sem conta, que os cidadãos não querem o tipo de políticas adoptadas por chefes de estado que nas últimas décadas chamaram aos seus países - tudo principia no pós II Guerra, com a necessidade de reconstrução da Europa e de trabalhadores para a promoverem - uma "imigração em massa". O argumento pode ser rebatido, afirmando-se que os eleitorados ratificaram essas mesmas lideranças e até a principal visada, em boa medida, no livro, Angela Merkel, saiu finalmente chanceler (e o seu partido, inquestionavelmente o mais votado, nas últimas legislativas), ainda que numa posição mais precária do que nunca. Poderia retorquir-se que as pessoas votaram num programa amplo e não exclusivamente no tipo de política migratória, aliás sobre a qual Merkel teve que dar sinais de determinada mitigação. Sendo que o partido mais crítico com essa política, na Alemanha, aparece em crescendo claro nos inquéritos de opinião. Se a maioria da população boicotasse a entrada de refugiados, não deveria, ainda assim, quem governa decidir acolher os mesmos, indo contra a tirania da maioria com o respeito por direitos básicos das pessoas em fuga (da morte)? Eu responderia, sim; um líder, numa democracia representativa, e a afirmação de um estado de direito, não podem ficar cativos de quem ameaçasse o núcleo duro de valores, de respeito pela dignidade da pessoa que são a marca de água desta cultura e tradição.

sábado, 21 de novembro de 2015

Longe das identidades monolíticas



No ocaso da trama - de Longe dos homens, de David Oelhoffen -, Mohamed (Reda Kateb) é colocado perante a inevitabilidade da escolha. Nas palavras de Daru (Viggo Mortensen) e nas imagens que nos remetem para um caminho rochoso, sabemos que o homem acusado de homicídio não pode furtar-se à decisão: ou se entrega, na sua aldeia, à polícia; ou segue o deserto até os nómadas o acolherem sem perguntarem motivos. Naquela cena, naquele instante a mais manifesta explicitação de uma abordagem existencialista da vida que um filme inspirado em O hóspede, de Albert Camus, traria com naturalidade: estamos condenados a sermos livres
Longe dos homens significa, aqui, porventura, a recusa de todas as identidades absolutas e únicas em que por vezes estes, os homens, se enclausuram, como se fosse preciso, seja sempre preciso, ir além da ideologia, do nacionalismo, do fanatismo para olharmos o outro concreto que tornamos - podemos tornar - amigo. O ex-combatente, oficial, francês, mas agora professor primário numa escola argelina, desabafa, a certa altura, que o pretendem francês na Argélia e que o vêm argelino em França. Para lá dos contextos históricos e biográficos de O hóspede, a intriga como que nos pede um renovado esforço para sermos homens e mulheres de fronteira, capazes de escutar mais do que uma narrativa (irredutível), colocando a pessoa antes de qualquer constructo.

[mais gente do que habitualmente, para assistir a um filme, no Teatro de Vila Real, na passada 3ª feira]