Mostrar mensagens com a etiqueta Arlindo Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Arlindo Oliveira. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de julho de 2019

Zapping


1.No suplemento de economia do DN (Dinheiro Vivo, 13-07-2019): 
*Elon Musk criou uma escola para os seus filhos, em que os alunos escolhem as disciplinas pelos seus gostos e não são divididos por idades. A escola chama-se Ad Astra.
*Arlindo Oliveira, o Diretor do Instituto Superior Técnico, diz que com  Inteligência Artificial o ensino vai tornar-se personalizado, criando tutores que definem a aprendizagem à medida dos conhecimentos, gosto e rapidez de cada um.
Com a informação e conhecimento muito disseminados, a aula expositiva, em que o Professor é o único que sabe, fica em causa: os alunos quererão, sobretudo, pequenos vídeos bem feitos, com o essencial da matéria e, depois, a aula será, essencialmente, lugar de discussão e debate.
Uma aula colaborativa, em que especialistas, CEO de diferentes áreas experimentam a o olhar de cada qual sobre uma dada matéria, eis aulas que são já uma realidade, por exemplo, em cursos de Verão em algumas das melhores universidades norte-americanas. 

2.Diário de Notícias (06-07-2019): a Marinha, face a um número de desistências que, no ano passado, atingiu os 77%, decidiu adotar uma nova estratégia, evitando que os recrutas estivessem tanto tempo sem nada fazerem - chegavam a ser 8 horas num dia -, levando os pais a conhecer as instalações e os instrutores no primeiro fim de semana, da primeira semana, da recruta, tornando menos acelerada a passagem à dureza da vida militar (incluindo acabar imediatamente com telemóveis, como acontecia até aqui). Parece que as desistências baixaram para 44%
Só nesta última semana, suicidaram-se um PSP e um GNR, no nosso país. Infelizmente, não são casos isolados, mas um padrão que as estatísticas revelam, o que significa que o problema é muito mais do que individual, mas de um sistema. Isso preocupa-me, até porque vejo isto repetir-se, ano após ano, e sigo a situação nos últimos 20 anos. As taxas de divórcio, de álcoolização, etc., nestas forças, são também, em média, superiores à média das demais actividades.

3.O conceito de hospitalização domiciliária nasceu nos EUA em 1947, chegou à Europa, em França, em 1957, a Espanha em 1981 e a Portugal em 2015. Embora tardia, esta hospitalização domiciliária conta já com 23 grupos que prestam estes cuidados pelo país. 


5.Os canais generalistas de televisão, em Portugal, perdem anualmente 200 mil (tele)espectadores (MST, DN, 06-07-2019). Os telespectadores que assistiram ao Debate do estado da nação, em 2018, foram mais de 800 mil, se contarmos com aqueles que viram em diferido

6.Há, hoje, mais cerca de 1700 bombeiros e 13 helicópteros, para combate aos incêndios, do que em 2017. Portugal gasta agora, em termos absolutos, mais com saúde do que aquilo que gastava em 2015. Mas em termos relativos gasta menos (ver entrevista de António Costa à Visão, 11-07-2019). Ao argumento de que a conjuntura externa foi muito favorável - e daí os resultados económicos terem sido fáceis de alcançar - o PM responde com o nome de três países: Brasil, Angola e Alemanha. Nos dois primeiros casos, anos que chegaram a ser de recessão, no segundo quase uma estagnação económica ultimamente (ver Circulatura do Quadrado, TVI24, 11-07-2019). Afirma António Costa: aquilo que diziam há 4 anos que era impossível que fizéssemos - com Maria Luís Albuquerque a referir que era "aritmeticamente impossível" - é agora transformado em demasiado pouco. Na entrevista à Visão, o PM, sobre o Governador do Banco de Portugal: "estou muito à vontade, porque o que tinha a dizer sobre este governador disse-o no dia em que o dr.Pedro Passos Coelho me telefonou às sete da manhã a informar que ele ia ser reconduzido nessas funções...(...) O que tinha a dizer disse-o ao anterior primeiro-ministro, que me respondeu que agradecia muito a minha opinião, mas que era ao Governo que competia escolher e que só me tinha ligado para me informar e não para me ouvir (...) Sim [as relações com o Governador do BP], nunca foram desagradáveis. Nem mesmo sabendo que na própria tarde em que o Governo estava a tomar posse, o senhor Governador se encontrava a dirigir, sem informação prévia, uma carta ao Banco Central Europeu, informando que o Banif tinha de entrar em processo de resolução nas semanas imediatamente a seguir. Como presumo que não tenha sido uma conclusão que tenha retirado nesse dia..."(p.46).

7.Paulo Trigo Pereira deixa no ar, insinua, no Expresso da Meia-Noite (Sic Notícias, 12-07-2019) que Mário Centeno, e sua equipa das Finanças, podem começar, mas não irão concluir a próxima legislatura. Segundo Trigo Pereira, falhou ao atual Executivo medidas bastantes e atenção à questão demográfica, da natalidade e em alguma dimensão ao problema do crescimento económico.
Trigo Pereira nota como o PSD não repete necessariamente a estratégia da sua última presença no Governo, porque desta feita conta com algum incremento da procura interna. Joaquim Sarmento, por sua vez, faz notar (Sic Notícias, Especial Informação, 13-07-2019) sublinha que foi o PS que se converteu ao conservadorismo orçamental.

8.Um certo consenso sobre artigo de Maria de Fátima Bonifácio: "infeliz", "desastrado", "abjecto", com "conteúdo racista". Há muito tempo que um artigo de jornal não implicava tanto comentário. Talvez o melhor tenha sido o artigo de Miguel Poiares Maduro (primeiro, no facebook, depois no JN): num jornal de referência, a sério, não se deixa passar/não se publica artigos nos quais se fazem afirmações sem fundamentação para as mesmas. Os grandes jornais internacionais "mandam para trás" textos, mesmo sem a dimensão polémica, deste, justamente por aquele motivo. A nossa imprensa muito descapitalizada, de facto. Comentário com o qual mais me identifiquei, o de um investigador, no Público: tanta invocação da Cristandade e tão pouca bondade cristã (no artigo de Bonifácio). José Manuel Fernandes, Helena Matos, Rui Ramos, Mithá Ribeiro contaram-se entre aqueles que, mesmo mostrando discordâncias com a autora, a defenderam no espaço público. Personalidades como Francisco Louçã, Fernando Rosas ou Pacheco Pereira concordaram em que a resposta criminal não seria a adequada a casos como este, em que o debate deve ficar ao nível político (o mesmo se diga do conjunto de comentadores do Governo Sombra, TVI24, 12/13-07-2019).

9.São 288 mil milhões de euros em exposição a produtos tóxicos, a que está exposto o Deutsche Bank. Escrevendo sobre o assunto, no Expresso, Francisco Louçã coloca a hipótese de estarmos em presença de um novo Lehman Brothers, mas para pior (que, como sabemos, esteve na origem da crise sistémica a Ocidente, desde 2007-2008 praticamente ao presente, se entendermos que em alguns aspectos da economia ainda não regressámos ao ponto em que estávamos em 2008). Nota que 30 anos de excedente comercial alemão não cobririam o buraco financeiro. O Deutsche Bank apresentou um plano para rescisão dos contratos de 18 mil dos seus trabalhadores, 1/5 do total.

10.De acordo com o Expresso (13-07-2019), Mário Centeno (e a equipa das Finanças) são desfavoráveis à exclusividade dos médicos no sector público. Isto, porque, já hoje, os médicos trabalham o limite máximo de horas possíveis (legalmente) no SNS. Portanto, se os médicos ficassem em exclusivo no sistema público, o que se ganharia o sistema com isso? Mais, teria de haver uma compensação significativa ao nível salarial, pela exclusividade, sem ganhos correspondentes no que os médicos dariam ao público. Há, atualmente, um absentismo médico bastante considerável e o Executivo, ou Mário Centeno, entendem que é preciso actuar aí. Já a ministra Marta Temido é favorável à exclusividade dos médicos no sector público.

11.A Veja desta semana publicou várias mensagens de Sérgio Moro para os procuradores do Lava Jato. Aquele dá instruções a estes, celebra a obtenção de uma dada prova, em que diz ao MP que falta esta peça processual, em suma, comporta-se como juiz e líder da acusação ao mesmo tempo. A Veja, em editorial, diz que da mesma forma que denunciou a corrupção do PT não pode deixar de passar semelhantes irregularidades num estado de Direito. Os cidadãos até podem pensar que, neste caso, o juiz atuou no bom sentido, para ajudar a apanhar criminosos. Mas se aceitarmos esta intromissão - muito visível na rede social Telegram -, um dia podemos ter juízes a colaborar no mau sentido e aí o que dizemos?

12.Há um ano, a TVI seguia na liderança de audiências, dos canais televisivos em Portugal, com 4,6 pontos de vantagem sobre a SIC. Foram 12 anos sucessivos na liderança. Hoje, a SIC lidera com 4,5 pontos de avanço sobre a TVI. Daniel Oliveira é o rosto da mudança (um homem filho de pais toxicodependentes, que foram progenitores aos 16 anos). E, com ele, Cristina Ferreira como ponta de lança

13.Na sondagem publicada este fim de semana pelo Expresso, fica claro que os portugueses preferem impostos altos com bons serviços públicos, do que menos impostos com a debilitação dos serviços públicos. Mas querem também contas certas, conservadorismo orçamental. O que mais separa a direita da esquerda portuguesa, a crer neste estudo de opinião, é a atitude, mais restritiva ou mais aberta, respectivamente, para com a imigração.

14.Pela primeira vez, há uma mulher à frente do Instituto de Defesa Nacional. Chama-se Helena Carreiras. Em 2010, houve um pico de mulheres nas Forças Armadas, mas desde então tem decaído esse número. A Presidente do IDN diz que tal se deve ao facto de as mulheres estarem crescentemente qualificadas e nesses casos a relutância para o ingresso nas F.A. é maior (vide entrevista ao Expresso, 13-07-2019).

15.Estreia feliz de Jorge Jesus no Flamengo, num jogo muito intenso, e em geral bem jogado, para a taça do Brasil, em casa do Atlético Paranaense. Os locais jogaram mais e melhor, criaram mais oportunidades, viram 3 golos (bem) anulados, um penalty potencial por assinalar, uma bola defendida por Diego Alves, fora da área, por expulsar. Mais na expectativa e em contra-ataque, o Flamengo marcou, na sequência de um lançamento de linha lateral, após uma quebra no jogo e no seu ritmo, por causa do VAR (7 longos e penosos minutos; 10 minutos dados de compensação, no final do jogo, foram parcos). Gabigol marcou um bom golo, mas falhou pelo menos três evidentes. Foi mais um JJ conservador do que aquele de futebol apoiado e sedutor. Diego, aos 34 anos, entrou bem no jogo (mas, lá está, talvez pela idade, principiou no banco).

16.Neemias Queta completamente dominador junto ao cesto, em especial, na defesa, na estreia da selecção de sub20, no Europeu B. Razoável público em Matosinhos. O base titular foi Rafael Lisboa (filho de Carlos Lisboa), mas por ali passou também o triplista Francisco Amarante (FCP). Embaló (transfere-se do Angra para o Scp) com bastante agilidade ao pé das tabelas com um cesto de grande beleza. E Voytso, outro elemento fulcral na equipa. A Macedónia do Norte marcou poucos pontos.

17.O mundial de futebol (masculino), na Rússia, gerou 5,5 mil milhões de receitas. Já o mundial de futebol feminino deste ano, gerou receitas de 100 milhões. Os homens, receberam 9% das receitas do seu mundial; as mulheres, foram contempladas com 23% das receitas do seu. A meia-final do Mundial feminino teve 11 milhões de telespectadores britânicos (houve mais cem mil telespectadores para este jogo face à final masculina da Champions League). A meia final masculina na Rússia teve 24 milhões de telespectadores britânicos (louvo-me nos dados apresentados por Ricardo Reis, no suplemento económico do Expresso, 13-07-2019).
A Federação Brasileira obriga cada clube a ter um time feminino.

18.Dezasseis anos depois, o FCGaia, regressa à primeira divisão de andebol, em Portugal, pelas mãos de Ricardo Costa. Pena que influências perversas, no mundo da arbitragem, não lhe tenham permitido ser campeão, como mereceu, no FCPorto, onde colocou a equipa, durante alguns meses, a jogar um andebol de grande beleza. O filho de Ricardo Costa, aos 16 anos, também pelo Gaia, foi um dos melhores marcadores da segunda liga [adenda: face à desistência do Fermentões, será o Setúbal a regressar ao andebol de I Divisão].

19.No contrato que estabeleceu com o Moreirense, com vista à transferência de Chiquinho, o clube da luz estabeleceu pagar mais 750 mil euros em caso de apuramento para a Champions. Ou seja, ser campeão. Agora imaginem como não defrontará, imaginemos, a equipa dos Cónegos, o FCP em jornadas decisivas, o mesmo se diga de uma ida à Luz, por exemplo. Um jornalista do JN chama, este Sábado, neste jornal, a esta prática, o jogo da mala (mas à vista de toda a gente). 

20.O vencedor do torneio de Wimbledon deste ano receberá 2,6 milhões de euros de prémios. Não foi o jogo mais bonito, a muito esperada meia-final Nadal-Federer. Muitas bolas decididas no serviço, sem grandes trocas de bola. Mas o jogo final foi tremendo, com a espantosa capacidade de resistência e resiliência de Nadal a vir ao de cima [adenda: a final foi a mais demorada da história de Wimbledon, o jogo foi bonito e Federer não costuma falhar dois matchpoints a servir].

21.A probabilidade de se acertar no Euromilhões é de 1 em 28773. 

22.Nas legislativas de 2015 no Reino Unido foram a votos 462 partidos e listas. Mais de 30 concorreram, nos EUA, para o Congresso, em 2012. Foram 25 na Alemanha, nas legislativas de 2013 (p.10, Carlos Jalali, 2017).

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Teste de Turing


A primeira menção a máquinas de pensamento não humanas pode ser atribuída à Ilíada, de Homero, e podem encontrar-se outras em numerosas obras literárias, como Frankenstein, de Mary Shelley. (p.79). A investigação sobre a moderna inteligência artificial teve início em meados da década de 1950 (p.79).

Turing propôs um teste inspirado pelo jogo da imitação, um jogo de salão em que um homem e uma mulher entram em salas separadas e os restantes convidados tentam depois determinar em que sala está o homem e em que sala está a mulher lendo respostas, dactilografadas, às perguntas feitas pelos jogadores. No jogo original, um dos jogadores tenta enganar os interrogadores de maneira a que estes tomem a decisão errada enquanto o outro jogador ajuda os interrogadores a tomarem a decisão certa. Turing propõe que se substitua a mulher por uma máquina e que, tanto o homem como a máquina, tentem convencer os convidados de que são humanos. Numa proposta posterior, Turing sugere que o júri faça perguntas a um humano e a um computador. O computador passaria o teste se uma proporção significativa do júri acreditasse que o computador era o humano (p.82).

Apesar disso, o Teste de Turing ainda possui um forte preconceito antropocêntrico, porque força o computador a imitar o comportamento humano. Por essa razão, e também por outras, continua a ser um teste muito difícil para os programas de IA, mesmo para os mais avançados. Para passar o teste, um computador deveria possuir raciocínio, memória, sentimentos e emoções semelhantes aos humanos, uma vez que não são impostas nenhumas limitações ao que pode ser perguntado. Em última análise, pode ser usado qualquer comportamento não humano (como ausência de emoção) para distinguir o computador do ser humano. Por exemplo, o júri poderá perguntar ao programa qual é a sua memória mais antiga, ou qual foi o seu momento mais doloroso, ou se gosta de sushi (p.82).

Ao longo dos anos, muitos outros programas pareceram ter passado o Teste de Turing. No entanto, todos eles passaram apenas versões muito restritas do teste, e pensa-se que decorrerão décadas até que algum computador passe uma versão não restrita do Teste de Turing. Porém, isso não significa que nunca venha a acontecer (p.85).

Na edição de 2008, o programa Elbot convenceu três dos doze juízes, levando-os a pensar que o computador era o humano após uma conversa de cinco minutos. Isso chegou muitíssimo perto do objectivo original de enganar uma «fracção significativa» dos juízes, que Turing propôs como sendo de 30 por cento. Mas uma conversa de cinco minutos não significa muito. No momento em que escrevo, o vencedor do Prémio Loebner em 2013, o chatbot Mitsuku, está disponível para interacção na Web. Se interagirmos com o programa, não tardaremos a perceber que ele é realmente um programa e que possui um modelo bastante superficial do mundo, não estando perto de superar o que Turing pretendeu que fosse um teste de inteligência não enviesado (p.85).

Principais objecções ao Teste de Turing: ele encontra-se na dependência das características, do grau de sofisticação do - dos membros do - júri. E é capaz de classificar como não inteligentes comportamentos inteligentes por não se aproximar suficientemente do comportamento humano (p.85).

in Arlindo Oliveira, Mentes Digitais, IST Press, 2017

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Objecções à possibilidade de os computadores poderem ser (tidos como) inteligentes


Arlindo Oliveira elenca e procura responder, em Mentes Digitais, aos argumentos, historicamente invocados, para rejeitar a possibilidade de se considerar os computadores como inteligentes (p.83):

1) "A objecção Teológica afirma que o pensamento é um resultado da alma imortal do homem e não pode, portanto, ser simulado por uma máquina. Baseia-se no pressuposto de que os seres humanos são únicos no universo e são as únicas criaturas que têm alma. (...) Baseia [-se] na dualidade da mente e do corpo";

2) "A objecção da Informalidade do Comportamento baseia-se na ideia de que não existe nenhum conjunto de regras que descreva o que um ser humano fará em todas as circunstâncias possíveis, o que implica que o comportamento humano nunca poderá ser simulado por um computador. De certa forma, este argumento equivale à ideia de que a inteligência humana é não-algorítmica";

3) "Uma outra objecção afirma que as consequências de uma máquina pensante seriam tão atrozes que nunca surgirá nenhuma, presumivelmente porque a humanidade evitará desenvolvê-la. Mas a humanidade não parece ter conseguido desviar-se de nenhuma tecnologia com o fim de evitar os riscos que ela apresenta";

4) "Duas objecções baseiam-se no argumento de que o cérebro não é equivalente a uma máquina de Turing, ou porque pode (de uma maneira não especificada) calcular funções não computáveis, ou porque a inerente capacidade das células cerebrais para trabalharem com sinais de valor real lhes confere um poder adicional";

5) "Outra objecção (...) baseia-se no argumento de que os computadores seguem necessariamente regras fixas e são, portanto, incapazes de originalidade, fazendo com que o comportamento deles conduza sempre a resultados previsíveis. Esta objecção ignora o facto de que os sistemas muito complexos, mesmo se completamente definidos por regras fixas, têm comportamentos totalmente imprevisíveis, como bem sabem os engenheiros e os cientistas modernos";

6) "Uma outra objecção baseia-se na ideia de que os seres humanos dispõem de percepção extrassensorial, que não pode ser emulada por uma máquina. Como a percepção extrassensorial nunca foi observada em condições controladas, esta objecção tem pouco peso";

7) "Uma última objecção filosófica, que poderá ser mais profunda do que as outras , defende que a inteligência só pode ter origem na consciência, e que uma máquina que manipule símbolos nunca poderá ser consciente. O argumento de que um computador nunca poderá exibir inteligência através da manipulação de símbolos foi apresentado muito mais tarde (...) na experiência conceptual da Sala Chinesa de John Searle (1980)".

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Tecnologia, cultura (II)


Talvez não soubéssemos que a palavra computador significava, originalmente, desde que foi usada no séc.XVII, e até meados do séc.XX, pessoa que efectuava cálculos, ou computações (p.49). Computador é alguém ou algo que executa sequências de cálculos simples - sequências que podem ser programadas. Antes dos computadores digitais, as tabelas científicas e militares eram calculadas por grandes equipas de pessoas chamadas «computadores» (p.41). Nos séculos XVI e XVII "foram construídos vários dispositivos de cálculo mecânicos, mas nenhum deles era programável. Charles Babbage foi o primeiro a conceber e a construir parcialmente um computador mecânico totalmente programável; chamou-lhe o Engenho Analítico" (p.49). Nos primeiros tempos dos computadores digitais, estes foram usados, pois, em aplicações científicas e militares; na década de 1960, os mainframes (grandes computadores que ocupavam salas inteiras) começaram a ser usados em aplicações empresariais. Só nas últimas décadas "se tornou claro que os computadores iriam tornar-se o aparelho mais versátil e mais difundido alguma vez criado" (p.41). Só com a World Wide Web (que começou de forma quase imperceptível, em 1989, como uma proposta para interligar documentos em diferentes computadores, de modo a que os leitores de um documento pudessem aceder facilmente a outros documentos relacionados) que os computadores entraram na vida quotidiana da maioria das pessoas (p.41).
Segundo Arlindo Oliveira, muito provavelmente, "nenhum fenómeno alterou tão rapidamente e tão completamente a cultura e a vida diária em todo o mundo como a internet" (p.42). Um dos exemplos gráficos dados passa pela comparação do mundo com a Encyclopaedia Britannica e a Wikipédia, embora a aproximação feita em Mentes Digitais tenha uma natureza de tipo quantitativo e não qualitativo (algo que aqui provavelmente mereceria outro aprofundamento; factores como "credibilidade", "certeza", "segurança", "redigido por reputados especialistas", "estabilidade" etc. mereceriam ser neste contexto considerados): "no momento em que escrevo, a versão inglesa da Wikipedia (uma enciclopédia construída na web por milhares de voluntários) inclui mais de 4,6 milhões de artigos de artigos que contêm mais de mil milhões de palavras. Isso é mais de 30 vezes a quantidade de palavras existentes na maior enciclopédia de língua inglesa jamais publicada, a Encyclopedia Britannica. O crescimento do número de artigos na Wikipédia (...) seguiu uma curva acelerada, embora mostre uma tendência para desacelerar, à medida que a Wikipedia começa a abranger uma fracção significativa do conhecimento mundial, relevante para um grande conjunto de pessoas" (p.44). Além deste exemplo, o acrescentar valor em plataformas como o youtube, o facebook ou o a importância imensa que tem hoje o comércio electrónico, bem como a interligação entre milhões de jogadores em jogos em linha - a comercialização de bens que apenas existem no mundo virtual, a elevados preços, no mundo real - são alterações aduzidas. As tecnologias digitais representam uma fracção crescente da economia mundial - a sociedade actual é completamente dependente das tecnologias de informação e comunicação - e os cálculos, para os EUA, apontam a 7% do PIB deste contributo (p.45). Registe-se: "os serviços digitais que já sustentam uma grande parte da nossa economia são, na verdade, prestados por computadores sem assistência humana significativa. No entanto, presentemente esses serviços são prestados em nome de uma qualquer empresa que, em última instância, é controlada por proprietários ou acionistas, que são seres humanos. O cálculo do valor global da economia atribui, em última análise, o valor acrescentado por uma empresa aos proprietários dessa empresa. Neste sentido, toda a produção económica hoje gerada é atribuível às actividades humanas. É certo que, em muitos casos, a propriedade é difícil de determinar, por as empresas serem propriedade de outras empresas. Porém, no final, alguma pessoa ou grupo de pessoas será o proprietário de uma empresa e, portanto, o gerador da produção económica que, na realidade, é criada por sistemas muito autónomos e, em certos casos, muito inteligentes. Esta situação permanecerá inalterada até ao dia em que algum agente computacional tenha personalidade jurídica, com direitos e deveres, comparáveis aos dos seres humanos ou das corporações, e possa ser considerado o derradeiro produtor dos bens ou serviços. Nesse momento, e só nesse momento, teremos de mudar a forma como vemos a economia mundial enquanto produto que resulta unicamente da actividade do homem" (p.47)
Segundo o Professor Arlindo Oliveira, a chamada Lei de Moore, o poder de processamento dos computadores duplicaria a cada 18 meses, começa a ficar em causa: "existem evidências de que, ao fim de 25 anos, a Lei de Moore está a perder momento - porque o número de transístores que podem ser inseridos num circuito integrado não está a aumentar tão rapidamente como no passado. Mas é provável que outras tecnologias entrem em jogo, resultando num aumento contínuo (embora mais lento) do poder computacional dos computadores."

[a partir de Arlindo OliveiraMentes DigitaisA ciência redefinindo a humanidade, IST Press, Técnico, Lisboa, 2017, tradução do original em inglês por Jorge Pereirinha Pires

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Tecnologia, cultura


A palavra tecnologia foi criada em 1722 por Johann Beckmann, mas o vocábulo raramente foi utilizado antes do século XX (p.2-3). Esta, a tecnologia, gerando/forjando constante novidade e inovação,  tornou estes dois tópicos verdadeiras "constantes civilizacionais" (a tecnologia como que fazendo cultura, gerando externalidades culturais, modos de vida, que, portanto, externaliza; sendo-lhe intrínsecos a permanente novidade e inovação, e estando a tecnologia a permear, fortemente, o tecido social, conseguindo, ademais, reproduzir-se autonomamente, não se oferece, aqui, pois, como neutra em termos de valores sociais que promove). A ideia de progresso - que fez tanto caminho, entre nós, até há bem pouco tempo - pode ainda interpretar-se à laia dos desenvolvimentos advindos do mundo tecnológico. Em realidade, os computadores aprendem com a experiência (p.6). A evolução (das espécies) é, ela mesma, comparada por Arlindo Oliveira a um algoritmo. Para o Presidente do Instituto Superior Técnico, percebemos, hoje, tão bem o funcionamento de um cérebro que podemos reproduzir o seu funcionamento em mentes digitais. Thomas Hobbes, no séc.XVII, havia, de resto, argumentado que o cérebro mais não é do que um computador (p.16)
Segundo o especialista, a primeira tecnologia importante forjada pelo humano foi o uso, controlado, do fogo (pp.9-10), descoberta, de resto, anterior, inclusive, ao Homo Sapiens. Contudo, a "descontinuidade" mais conhecida no desenvolvimento tecnológico dá-se com a Revolução Industrial do século XVIII. 
Diferentemente de outros autores que dão como adquirida a existência de uma 4ª Revolução Industrial, subsumida na internet das coisas, na fusão homem-máquina, Arlindo Oliveira escreve que a existência de um novo estádio, completamente separado do anterior, neste contexto, é algo que carece ainda apurar.
Postulando que as tecnologias da informação e conhecimento são as mais importantes (p.13), regista que os primeiros sistemas de escrita foram desenvolvidos para registo das quantidades de mercadorias produzidas ou devidas (p.14). E assegura que o transístor, muito provavelmente, foi a tecnologia mais revolucionária alguma vez produzida pela humanidade (p.22).
A Física foi a força motriz por detrás dos grandes progressos tecnológicos do séc.XX (p.28). O transístor, insiste-se, a par da bomba atómica, introduziram grandes alterações na vida e na cultura, aquelas mesmas mudanças através das quais nos demos na conta de avanços nos domínio das matemáticas, digamos assim, que de outra sorte ficariam confinadas a uma corte de estudiosos.
As mudanças tecnológicas serão cada vez maiores e mais rápidas (o seu lado exponencial), com maior dificuldade em nos adaptarmos a estas, transformações na tecnologia em cada vez menor tempo, demandando uma impressionante capacidade de actualização.

[a partir de Arlindo Oliveira, Mentes Digitais. A ciência redefinindo a humanidade, IST Press, Técnico, Lisboa, 2017, tradução do original em inglês por Jorge Pereirinha Pires

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Links


*Algoritmos e ética, do Prof.Arlindo Oliveira





*Baixas "fraudulentas"? A primeira notícia conveniente tinha por título: “Mais de metade das baixas na Educação foram fraudulentas”. Teve origem em dados divulgados pela Comissão Europeia, relativos a cerca de 3000 doentes, que juntas médicas mandaram regressar ao trabalho. Fraudulentas? Se uma junta delibera em desacordo com o médico que segue o doente, trata-se de uma fraude? Saberão os autores da notícia que a maioria dos médicos que integram as juntas são tarefeiros, cuja contratação arbitrária pela Segurança Social deixa legítimas reservas sobre o seu grau de autonomia? Que se guiam por tabelas de duração média das doenças? Tendo as depressões o peso que têm na classe docente, poderá uma pronúncia de escassos minutos derrogar o parecer de um psiquiatra, fundamentado em horas de consultas, ao longo de meses? À memória veio-me o caso escabroso do funcionamento de uma junta, que testemunhei, onde o mais inocente do processo foi o relatório final ser assinado por alguém que nem sequer esteve presente naquele acto médico. À memória vieram-me mais casos. De Manuela Estanqueiro, doente de leucemia, em estado terminal, mandada regressar às aulas na EB 2/3 de Cacia, por uma junta médica. Morreu um mês depois, em sofrimento atroz, para não ser despedida por faltas injustificadas. De Artur Dias, professor na Escola Secundária Alberto Sampaio, de Braga, vítima de um cancro na garganta, que uma junta médica mandou regressar às aulas, apesar de não ter laringe. Morreu três meses depois. De Manuela Jácome, professora de Faro, doente oncológica que, apesar de não ter um quarto do estômago, vesícula, baço, duodeno e parte do intestino, foi considerada, por uma junta médica, apta para dar aulas. (do Prof. Santana Castilho, hoje no Público)

*Salários de professores:  Por fim, a terceira notícia conveniente foi o dilúvio de mentiras que a divulgação do relatório Education at a Glance proporcionou. Dólares, euros e paridades de poder de compra foram alegremente misturados, atirados ao ar e caíram onde calhou, para serem traduzidos em letras de imprensa e sons de rádio e televisão. Por negligência ou pura malícia, mas sem que uma só voz soprasse dos lados do Ministério da Educação para repor a verdade e defender os professores, miseravelmente enxovalhados. O relatório coloca os salários dos professores portugueses no topo da carreira acima da média da OCDE. Mas os números apresentados são muito superiores aos reais e não têm em conta os anos em que as carreiras estiveram congeladas. Situação que determina que não há no activo um só professor no último escalão, o 10º. E quanto teria de vencimento líquido esse hipotético professor (não casado, sem dependentes), depois de um mínimo de 36 anos de serviço? Uns milionários 1989,70 euros. O relatório situa um professor com 15 anos de carreira no 4º escalão. Mas porque durante 9 anos, 4 meses e 2 dias as carreiras estiveram congeladas, ele está, de facto, no 1º escalão, com o invejável salário líquido de 1130,37 euros. Durante os tempos negros da austeridade, relatórios deste tipo lograram pôr escravos pobres, modernos, contra pobres escravos, antigos. António Costa disse-nos que a austeridade acabou. Mas os relatórios e os seus efeitos continuam. (Santana Castilho, Público)

*Sobre a pedofiliaComo penso que sobre qualquer matéria, tanto quanto possível, se deve procurar chegar o mais próximo possível da verdade das coisas, mesmo quando possam estar mais afastadas de concepções dominantes, ou que tenhamos sobre as mesmas matérias, aqui fica o texto, de há 3 dias, no Público, acerca da pedofilia e do que se está a fazer na Alemanha, a propósito de uma conferência organizada pela Faculdade de Medicina do Porto: https://www.publico.pt/2018/09/15/sociedade/noticia/como-evitar-que-um-pedofilo-se-transforme-num-abusador-1844107

O texto diz coisas que me parecem importantes (em havendo consenso científico) sobre este âmbito: 

a) a OMS considera a pedofilia uma doença;
b) "a pedofilia não é uma escolha, é um destino";
c) a pedofilia não tem cura;
d) a pedofilia não conduz, necessariamente, a abusos sexuais;
e) o sujeito com essa orientação sexual não está (pré)"determinado" a abusar sexualmente de crianças;
f) assim sendo, havendo esse abuso há culpa, porque houve liberdade;
g) não sendo a doença curável, é possível prevenir, tomar medicação, ter terapia para evitar a consumação da filia em abuso sexual;
h) há 1% da população com semelhante orientação