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domingo, 14 de abril de 2019

Resgatar


A Marie

O pai, a mãe, os irmãos e as irmãs foram gaseados à entrada.
Os pais eram velhos de mais, os filhos novos de mais.
A Marie diz: «A minha irmã mais nova era muito
bonita. Não fazem ideia de como ela era bonita.
Não devem ter olhado para ela.
Se tivessem olhado, não a tinham matado.
Não tinham conseguido.»

Charlotte Delbo, Auschwitz e depois, BCF Editores, 2018, p.47.

"Os filhos do comandante brincam no jardim"


O comandante do campo mora muito perto, do lado de fora do arame farpado. Uma casa de tijolos, com um jardim de roseiras e relva, begónias de cores brilhantes em caixas pintadas de azul. Entre a sebe de roseiras e o arame farpado é o caminho para o crematório, o caminho por onde passam as macas em que os mortos são transportados. Os mortos sucedem-se ao longo de todo o dia. As horas deslocam a sombra da chaminé sobre as sebes e a relva.
Os filhos do comandante brincam no jardim. Brincam aos cavalos, à bola, ou então brincam ao comandante e ao prisioneiro.

Charlotte Delbo, Auschwitz e depois, BCF Editores, p.137.

Cf.: aqui.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Cães


O cão salta sobre a mulher - sem rosnar, sem arfar, sem ladrar. Em silêncio, como num sonho. O cão salta sobre a mulher, crava-lhe os dentes na garganta. E nós não nos mexemos, enredadas numa espécie de coisa viscosa que nos impede de esboçar sequer um gesto - como num sonho. A mulher grita. Um grito arrancado. Um único grito que rasga a imobilidade da planície. Não sabemos se o grito vem dela ou de nós, da sua garganta furada ou da nossa. Sinto os dentes do cão na minha garganta. Grito. Berro. Nenhum som sai de mim. O silêncio do sonho. A planície. A neve. A planície. A mulher cai. Um sobressalto e é o fim. Qualquer coisa que estala. A cabeça na lama de neve não passa de coto. Os olhos são feridas sujas. (...) O SS puxa a trela. O cão desprende-se. Tem sangue no focinho. O SS assobia, vai-se embora.
(...)
Há quinze mil mulheres a bater com os pés e não se ouve barulho nenhum. O silêncio está solidificado em frio. A luz está imóvel. Encontramo-nos num meio onde o tempo foi abolido. Não sabemos se existimos, só o gelo, a luz, a neve ofuscante, e nós, nesse gelo, nessa luz, nesse silêncio.
(...)
Todos os gestos tinham sido abolidos. Coçar o nariz ou soprar nas mãos era algo do domínio do fantástico, era o mesmo que um fantasma coçar o nariz ou soprar nas mãos.
(...)
Caminhávamos. Autómatos caminhavam. Estátuas de frio caminhavam. Mulheres esgotadas caminhavam.
(...)
Não sei se percebera que tínhamos de correr porque, de cada lado do portão e ao longo da Lagerstrasse, numa dupla ala, tudo o que o campo contava de SS de saias, de prisioneiras com braçadeiras ou blusas de todas as cores e de todos os graus, tudo estava armado de bengalas, paus, correias, cinturões, chicotes e batia como um malho em tudo o que passava entre as duas alas. Evitar uma paulada era cair mesmo a tempo sob o alcance de uma correia. As pancadas choviam na cabeça, nas nucas. E as fúrias vociferavam: Schneller! Schneller! [Mais depressa!]. Mais depressa, mais depressa, o malho a bater cada vez mais depressa, sempre cada vez mais depressa no grão que se escoava, corria, corria. 
(...)
A Alice já morrera há semanas e a perna de pau ainda jazia na neve. Depois voltou a nevar. A perna ficou enterrada. Voltou a aparecer no meio da lama. Aquela perna no meio da lama. A perna da Alice - cortada viva - no meio da lama.
Vimo-la durante muito tempo. Um dia, já lá não estava. Alguém a devia ter levado para lenha. Com certeza uma cigana, porque mais ninguém teria coragem.
(...)
Ao longo de todo o percurso, pauladas na cabeça, chibatadas nas têmporas, pancadas de correia nas costas (...) Para quem trabalha com a enxada, as pancadas vêm de trás. São três fúrias que vão e voltam e batem em tudo por onde passam, sem parar um instante, a gritar, a gritar sempre as mesmas palavras, as mesmas injúrias repetidas naquela língua incompreensível, batendo cada uma por sua vez, com toda a força, de preferência nas mesmas, naquelas em que repararam, numa porque é pequena e lhe custa muito trabalhar com a enxada, noutra porque é grande e sentem o tamanho dela como um desafio, noutra porque tem as mãos a sangrar de frieiras. Os SS mais afastados fizeram uma fogueira com ramos. Aquecem-se. Os cães aquecem-se com eles. Quando os berros atingem o paroxismo, juntam-se-lhes, berram e também se põem a bater. Sem saber. Sem razão. Aos pontapés. Aos murros. Então o pântano fica em silêncio, como se a bruma se tornasse mais espessa e abafasse o barulho. Depois os berros voltam a furar o silêncio.


Charlotte Delbo, Auschwitz e depois, BCF Editores, 2018, pp.45-72. 

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Rostos


Resultado de imagem para charlotte delbo auschwitz e depois

Há os intelectuais. Médicos ou arquitectos, compositores ou poetas, distinguem-se pela forma como andam e pelos óculos. Também eles viram muita coisa durante a vida. Estudaram muito. Alguns chegaram mesmo a imaginar muito para escrever livros e nada do que imaginaram se parece com o que vêem aqui.
(...)
Há os que tinham viajado durante dezoito dias que enlouqueceram e se mataram uns aos outros nos vagões e
os que tinham sufocado durante a viagem de tão apertados que iam
evidentemente que estes não descem.
Há uma menina com a boneca apertada ao peito, as bonecas também se asfixiam.
(...)
Hão-de vestir uma orquestra com as saias plissadas das meninas. O comandante quer que se toquem valsas vienenses ao domingo de manhã.
(...)
E durante todo o dia e durante toda a noite
durante todos os dias e todas as noites as chaminés fumegam com o combustível de todos os países da Europa
ao pé das chaminés há homens que passam os dias a remexer nas cinzas para encontrar o ouro fundido dos dentes de ouro. Têm ouro na boca todos aqueles judeus e são tantos que há toneladas dele.
E na Primavera homens e mulheres espalham as cinzas nos pântanos drenados cultivados pela primeira vez e fertilizam o solo com fosfato humano.
(...)
E não se receie que haja falta chegam comboios e comboios todos os dias e todas as noites a todas as horas de todos os dias e de todas as noites.


Charlotte Delbo, Auschwitz e depois, BCF Editores, 2018, pp.17-20.

Não saber nada


Ó vós que sabeis
sabíeis que a fome faz brilhar os olhos que a sede
os esmorece
Ó vós que sabeis
sabíeis que de manhã se quer morrer
que à noite se tem medo
Ó vós que sabeis
sabíeis que um dia é mais do que um ano
um minuto mais do que uma vida
Ó vós que sabeis
sabíeis que as pernas são mais vulneráveis do que os olhos
os nervos mais duros do que os ossos
o coração mais sólido do que o aço
Sabíeis que as pedras do caminho não choram
que só há uma palavra para o pavor
só uma palavra para a angústia
Sabíeis que o sofrimento não tem limites
o horror fronteiras
Sabíeis
Vós que sabeis.


Charlotte Delbo, Auschwitz e depois, BCF Editores, 2018, p.23.

O INCONCEBÍVEL


Todos levaram vida própria, era sobretudo a vida que era preciso levar.
E quando chegam
julgam que chegaram
possivelmente
ao inferno. Mas não acreditavam.
Não sabiam que se apanhava o comboio para o inferno mas já que lá estão armam-se e sentem-se prestes a afrontá-lo
com os filhos as mulheres os velhos parentes com as recordações de família e os papéis de família.
(...)

Esperam o pior - não esperam o inconcebível.
E quando lhes berram para se formarem em fileiras de cinco homens, homens de um lado, mulheres e crianças do outro, numa língua que não entendem, entendem à paulada e perfilam-se cinco a cinco porque não há nada que não esperem.
(...)

No Inverno são surpreendidos pelo frio. Sobretudo para os que vieram de Creta e a neve é uma novidade.
No Verão o sol cega-os ao saírem dos vagões escuros trancados à partida.
À partida de França da Ucrânia da Albânia da Bélgica da Eslováquia da Itália da Hungria do Peloponeso da Holanda da Macedónia da Áustria da Herzegovina das margens do mar Negro e das margens do Báltico das margens do Mediterrâneo e das margens do Vístula. 
Queriam saber onde estão. Não sabem que aqui é o centro da Europa. Procuram a placa da estação. É uma estação que não tem nome.
Uma estação que para eles nunca terá nome. 


Charlotte Delbo, Auschwitz e depois, BCF Editores, 2018, pp.14-15.

*a autora nasceu, em 1913, em França, filha de pais italianos e foi deportada para Auschwitz-Birkenau em Janeiro de 1943. Sobrevivente, instalou-se na Suiça, trabalhando, até 1960 para a ONU. Foi, depois, assistente do filósofo Henri Lefebvre. Morreu em 1985.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Onde estava Deus em Auschwitz?


[Onde estava Deus em Auschwitz?]


Deus estava nos cristos que foram mortos e feridos. Deus manifesta-se sempre na carne.

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.276


Em Auschwitz, vi como era o homem sem Deus. Quando falei em Jerusalém, no monumento de comemoração da Shoah, parti da palavra do Génesis, quando, após o pecado, Deus procura Adão. Na verdade, a pergunta «Adão, onde estás?» é mais «Onde está o homem?». O homem capaz de fazer como Adão, como Caim. «Não és o homem que criei, estás demasiado afastado e és um monstro». Um homem sem Deus é capaz de o fazer.
Inverto a pergunta. Para compreender melhor o que penso, talvez pudesse ler o que disse em Jerusalém no monumento da Shoah. E em Auschwitz, simplesmente. Quem fez aquilo? Um homem que se esqueceu de que foi feito à imagem de Deus.

p.217

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Música concentracionária (II)



"Cadenza", Viktor Ullmann.

Um dos sobreviventes compositores diz no filme (ver post anterior) que a música era uma espécie de religião, nos campos, através da qual as pessoas expressavam, ainda, uma réstia de liberdade e reclamavam ser "mais do que um naco de carne". Numa altura em que querem reduzir o humano a uma "mera superfície biológica", como se não tivéssemos espírito, vale seguir esse testemunho e essa reivindicação.

Música concentracionária



"Zal Tango", de Josef Kropinski. Músico e compositor, foi deportado para Auschwitz e para Buchenwald, onde, no Bloco Patológico, no qual nem sequer todos os nazis podiam entrar, zona onde se dissecavam corpos, e com eles se pretendia experienciar, mesmo perante esse mundo macabro, crê-se que à luz da vela, Josef Kropinski compôs 400 peças, vertendo-as, noite após noite, imperturbável para o minucioso traço em papel. 
O maestro Francesco Lotoro partiu em missão de guardar, recolher toda a música que fosse possível, ainda, encontrar, feita em campos de concentração. Ontem, 27 de Janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, a RTP2 passou "Música contra o esquecimento" ("The Maestro", no original, um documentário de 2016), um filme de Alexandre Valenti. Resgatando a memória e, para alguns dos prisioneiros dos campos, o registo de como a arte, neste caso a música, foi, mesmo, determinante para se manterem vivos.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Perversão


Aos prisioneiros são distribuídas roupas como as que se encontram neste retrato. O calçado, ainda pior. Desde manhã, diariamente, uma orquestra, constituída por prisioneiros, é obrigada a tocar. 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Auschwitz, muitos rostos



No Museu de Auschwitz, nas paredes podemos ainda encontrar várias fotos de prisioneiros, com a indicação da respectiva profissão - que poderia servir no trabalho escravo para os nazis -, quer as datas de entrada naquele campo e, quase sempre, a data do falecimento (poucos meses depois da entrada no lager).

Nome, memória


Dos que sabemos o nome, e que os carrascos quiseram transformar em números com vista à sua desumanização, e de muitos outros que ficaram anónimos. O dever de nunca esquecer a Shoa.

Como gado


Num pequeno vagão como este, chegavam a Birkenau 90 a 100 pessoas. Vinham em vagões para animais, tratadas como gado. Praticamente, sem possibilidade de espaço entre si, sem quase ponta por onde o ar entrar. No Verão tórrido, vindo dos mais variados pontos da Europa, muitos sucumbiram durante a viagem. Sem comida e sem bebida, e, mesmo à chegada, sem qualquer garantia de lhes abrirem as portas antes de muitas horas passarem. 
Quando tomaram a Polónia, os nazis consideraram que a aldeia onde temos Birkenau era o espaço adequado para o campo de concentração e extermínio. Então, destruíram a aldeia e aproveitaram os materiais das casas para os vários edifícios do campo. Há, ainda, edifícios depois acrescentados com piores materiais, como madeira. Em Birkenau, chegaram a estar 90 mil prisioneiros. Uma área imensa, estendendo-se por alguns quilómetros.

Oswiecim


Neste patíbulo, em Auschwitz I, foi justiçado/enforcado Rudolf Hoess, o comandante do campo de Auschwitz durante dois anos, com casa mesmo colada ao lager. Pai de cinco filhos, viu a mulher enviar carta a amiga descrevendo a presença desta naquele lugar como a melhor temporada de férias de sempre. Conseguindo fugir no pós-guerra, Hoess foi, dois anos depois, capturado pelos ingleses. O povo polaco entendeu que o local apropriado para cumprir a pena seria Auschwitz. Hoess morreria neste local em Abril de 1947.

Na memória


Na visita que fiz a Auschwitz-Birkenau, neste início de Agosto, gostei de constatar dois elementos essenciais: i) apesar dos receios, ou constatações, sobre o modo como visitantes encarariam, em anos recentes, a visita aos campos de concentração e extermínio (como um outro, um mais, lugar de férias), observei, felizmente, um extenso grupo de pessoas com uma atitude extremamente respeitosa, contida, atenta durante toda a visita; ii) num momento em que se fala de crise de memória, do desaparecimento da centralidade que a Shoa teve (na consciência europeia, desde logo), os milhares de pessoas pelas quais passei, apenas no Sábado, em visitas certamente replicadas ao longo de todo o ano, evidenciou como o significado daquele lugar continua presente em milhões de pessoas. 

[As visitas guiadas aos lager - Auschwitz I e Birkenau, que estão separados por uma curta distância - são, a julgar pelo que me sucedeu, extremamente profissionais, com exposições claras e uma mensagem ética indisputável. Por outro lado, elas apresentam um ritmo que não permite demoras prolongadas em cada um dos recantos de cada campo (o que por vezes, pode ser penalizador; é verdade que também aqui a maximização da resposta à procura é igualmente patente); ainda assim, uma hora e meia em cada um dos campos, três horas ao todo, permeadas por curtos intervalos, serão um tempo ainda considerável nos registos de cada um; sem guia, estou em crer, perde-se um fio condutor que penso enriquecer, manifestamente, a visita e interpretação de cada espaço]

sábado, 15 de julho de 2017

Fragmentos cruciais


Pessoalmente, sempre me questionei se o cristianismo morreu em Auschwitz, ou se Auschwitz existiu porque o cristianismo nunca foi posto em prática.

Manuel Fraijó, Avatares de la creencia en Dios, Trotta, 2016, p.62

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Memória


Nesta semana em que terão lugar as Jornadas Mundiais da Juventude, na Polónia, com o Papa Francisco a visitar Auschwitz em silêncio, recordo o que escrevi há mais de 10 anos, quando outra visita, a do Papa Bento XVI, e o discurso que então pronunciou no que fora o lager da vergonha foi objecto de ampla discussão pública. Fica, pois, a minha crónica de 22-06-2006 no Lamego Hoje:


Bento XVI. Em Auschwitz.  

No discurso proferido a 28 de Maio de 2006, na visita efectuada ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, Bento XVI voltou, felizmente, a inquietar os espíritos. E a ser discutido. Virulentamente criticado (veja-se, por todos, Rui Tavares e Vasco Pulido Valente, Público, 3 e 4/06/06, respectivamente) e enfaticamente aplaudido (por todos, João Bénard da Costa, Público, 4/06/06).  
Li também, com a maior atenção e interesse, as cerca de três substantivas páginas que compuseram a subjectividade do olhar Papal germânico sobre o lugar do horror (já disponíveis na íntegra e também em português no excelente sitio do Vaticano: www.vatican.va).
Percebera já em Deus Caritas Est, a primeira encíclica deste pontificado, que na dissertação do líder católico tudo estava arrumado, em su sítio, como numa encíclopédia (peço a comparação de empréstimo a Frei Bento Domingues, se bem que valore de modo bem mais positivo esse facto, do que me pareceu fazê-lo este autor, no comentário ao primeiro texto fundamental de Bento XVI). Cada palavra pesada. Explicada. Interpretada. Um texto de grande densidade, muito fundamentado do ponto de vista histórico/filosófico, etimológico/conceptual, de uma clareza cristalina. Isto, se quisermos, de um ponto de vista estético. De um ponto de vista ético, quanto ao conteúdo/mensagem, a assumpção de que uma das acepções de amor, o eros, comporta uma dimensão carnal, tida como um dos fundamentos de um amor completo - “Se o homem pretendesse ser apenas espírito e quisesse afastar a carne como se (esta) fosse uma herança meramente animal, espírito e corpo perderiam a sua dignidade”, sendo que “Se pelo contrário, repudia o espírito e portanto considera a matéria, o corpo como realidade exclusiva, malogra igualmente a sua grandeza”; “Só quando alma e corpo se fundem verdadeiramente numa unidade, o homem é plenamente ele” – ainda que a marca de novidade cristã, neste domínio, seja o agapé - o amor que deixa de ser egoísta e se centra no outro, o amor que “já não se busca a si mesmo, não se some na embriaguez da felicidade, antes anseia melhor o bem do amado: converte-se em renúncia, está disposto ao sacrifício, mais ainda, à busca” - fez-me entender que a sua resistência ao tempo, de que o repúdio do relativismo moral era vivo exemplo, significava agora que a (sua) tão glosada ortodoxia enquanto Ratzinger (certamente não sem razão por parte dos críticos, dentro e fora da Igreja; estou lendo a sua obra, guardando, pois, por ora, juízo sobre tal adjectivação) daria lugar a infirmações de tais proclamações a propósito de Bento XVI (este descomplexado e, digamos assim, nada moralista entendimento e valorização do lado carnal, no amor, suplantando platonismos ou cartesianismos, porventura demasiado estreitos, é disso indício).
Sabendo que nada viria, pois, ao acaso, entrei pelo discurso proferido em Auschwitz, anotando, desde logo, as três citações bíblicas feitas pelo Santo Padre: duas dos Salmos; outra do Deutoronómio. Extensas e decisivas na compreensão do texto, as transcrições dos Salmos (com que, ademais, se encerra a meditação papal). Querendo isto dizer alguma coisa, o que significava, afinal? Os Salmos devem ser lidos e compreendidos como o lugar do diálogo com um Deus ao mesmo tempo acessível e temeroso (...) O coração dos Salmos é o da familiaridade sublime de um Deus que se deixa convocar, suplicar, não como Deus da justiça e da cólera, mas já como um Pai que nos conduz pela mão e sustenta com a sua direita. O louvor que lhe é devido é íntimo reconhecimento não apenas, ou antes de tudo, do Criador do Céu, da lua, das brilhantes estrelas (...)mas d´Aquele que fala na nossa fala, que é mais íntimo a nós mesmos que nós mesmos como diria mais tarde Santo Agostinho” (Eduardo Lourenço, num comentário aos Salmos, a que chamou O Canto de Deus, numa edição, com diferentes autores a comentarem os vários livros que compõem a Bíblia, da Três Sinais Editores, em 2001). Se atentarmos nesta pré-compreensão da essência salmista, verificaremos do rigor da escolha papal, na precisão do verbo enxertado no praticamente indizível e incomunicável, e partiremos em busca do alcance da palavra metódica de Bento XVI, sem cabeças e corações frios (Bénard da Costa). Uma das críticas apontadas ao líder da Igreja Católica, foi a de pretender julgar Deus – “Senhor, porque silenciaste? Por que toleraste tudo isto?”- evitando, assim, a crítica ao comportamento humano e, muito particularmente, á actuação da Igreja durante o Holocausto. Bastaria, porém, ler as palavras de Bento XVI - “enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição” – para facilmente concluirmos do mal fundado de tal observação. Quem não perceber, na verdade, que vós, porém, éreis mais íntimo que o meu próprio íntimo e mais sublime que o ápice do meu ser (Santo Agostinho), dificilmente acederá ao âmago do pensamento do sumo pontífice, quando este refere que “o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo”. Ou dito ainda sob outra forma, e regressando ao substracto bíblico de que o discurso em apreço participa, as formas múltiplas de louvor ou de solicitação da benevolência divina estão inscritas nesse sentimento profundo que os salmistas têm de que são eles menos que interpelam Deus de que Deus fala neles. O enraizamento do ser na realidade divina é absoluto e sem essa convicção o canto não teria podido nascer (Eduardo Lourenço).  
Quanto às responsabilidades da Igreja Católica, nomeadamente por omissão, em tempo de Holocausto, penso que não apenas vale a pena esperar por toda uma investigação crítica à acção de Pio XII, como registar o que escreveu, por estes dias, António Marujo (especialista do Publico em questões religiosas) sobre esta matéria: que, ao que se sabe, foi inclusivamente pedido, por resistentes e oponentes ao regime nazi, ao Papa de então, que não se pronunciasse sobre a matéria, porque poderia prejudicar ainda mais os alvos da indigência nacional-socialista. Ainda mais (?!), questionamo-nos hoje. Como seria tal possível?! Temos demasiadas interrogações, que deixaremos aos historiadores desvendar. Não ficaremos, contudo, abrigados sob o manto diáfano de uma (jurídica) dúvida razoável. Para a Igreja, aliás, a questão mais do que ao nível da responsabilidade em face do Direito, da culpa, coloca-se, obviamente, na natureza do pecado (ofensa a Deus). De resto, como bem notou o insuspeito Jurgen Habermas (numa teorização intitulada Fé e Saber, em 14 Outubro de 2001, em Frankfurt), nem sempre a passagem à linguagem secular se fez sem perdas: Quando o pecado se converteu em mera culpa, algo se perdeu. Pois a busca do perdão dos pecados leva associado o desejo, bem afastado de qualquer sentimentalismo, de que possa dar-se por não realizada, de que possa ser reversível, a dor que se inflingiu ao próximo. Se há algo que não nos deixa em paz, é a irreversibilidade da dor passada, a irreversibilidade da injustiça sofrida pelos inocentes maltratados, humilhados e assassinados, uma injustiça, que, por (ser) pretérita, está para além de quaisquer medidas de uma possível reparação que pudesse estar nas mãos do homem. A perda da esperança na ressurreição não faz senão deixar atrás de si um vazio bem tangível. 
Assim, não deixará de doer, particularmente, à igreja, por exemplo, que em 1950, o padre franciscano Edoardo Domoter, supostamente com a colaboração do bispo Alois Hudal, tenha fornecido um passaporte falso de refugiado da cruz Vermelha com o nome de Ricardo Klement a alguém como Adolf Eichmann, podendo este, desta sorte, eximir-se de responder pelos seus actos (estamos a falar de um dos homens da máquina nazi, que acabaria capturado na Argentina, pela Mossad, sendo julgado, condenado e executado em Israel), como, ao invés, não deixará de a orgulhar as famílias cristãs (católicas) que ajudaram a esconder judeus e, sobretudo, a dádiva daqueles, que, por ajudarem o seu próximo perseguido, acabaram executados.   
Vale a pena falar e criticar os cobardes, reprovar a hierarquia pelo que fez de mal ou pelo que não fez; esta, como, aliás, a Igreja como um todo, sem acrimónia ou revisionismos históricos, não tem mais que buscar o perdão, como expressão de um arrependimento que crê na ressurreição (o gesto, em meu entender corajoso e virtuoso, de João Paulo II, ao pedir perdão pelos pecados, crimes em que a Igreja esteve envolvida ao longo dos séculos, teve o condão de não agradar aos mais ortodoxos dentro da comunidade católica, nem aos que medem tudo pelo útil, fora dela); mas convém lembrar, mais que quaisquer outros, os que se fizeram Cristos na Terra e deram o exemplo da convicção e da coragem Do amor. Da vida. Dos padres mais anónimos, ao leigo mais humilde, também eles foram/são igreja.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

'A noite cairá'




Um dos aspectos que A noite cairá (Night will fall, Andre Singer, 2014) não deixa de tocar, e que por vezes se quer varrer para debaixo do tapete da História, é a dupla vitimação a que foram sujeitos os libertados, pelos Aliados, dos campos de concentração nazi: diferentes países, diferentes populações, como Grã-Bretanha ou EUA, não queriam receber "ex-reclusos", não pretendiam integrar aquelas pessoas vítimas da monstruosa máquina industrial da morte (nazi) entre os seus. Eu vou sair daqui, mas fico na Polónia? Como, se os judeus ali são tão mal tratados?, recorda, ter-se questionado, então, em 1945, uma das mulheres libertadas. Libertada deveras? Ainda hoje, podemos, aliás, ler ou escutar outros testemunhos de homens e mulheres que estiveram nos lager que nos dizem que não convinha contar, logo a seguir, a história do horror, porque isso virava-se contra os próprios. Muita gente não queria ouvir, não queria saber. Quem viesse trazer más notícias era mal visto. A viagem aos campos, pela população de Weimar, quase em turística, é deveras elucidativa. Um sistema económico que não se importava de aproveitar o trabalho escravo de terceiros, desde que o cheiro nauseabundo ficasse afastado das suas preciosíssimas narinas. De resto, as imagens, muitas delas de German Concentration Camps (Night will fall é um documentário sobre aquele filme) continuam absolutamente perturbadoras e a figura do muçulmano, entre o vivo e o morto, como questionando radicalmente o - que é - ser humano, como específica personagem dos campos nazis, perseguir-nos-à. A narração do filme exprime a esperança de que nós, os que olhamos o Sol de frente, não mais repitamos Bergen-Belsen. É de esperança que se trata.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

As leituras a que sempre é preciso regressar

Paisagens da Metrópole da Morte




E, na verdade, alguns escreveram mesmo de lá [de Auschwitz], postais, mas os postais que as pessoas enviavam – aquelas que os enviavam – tentavam geralmente fazer saber aos que ficavam que, por exemplo, «todos os dias encontramos o Onkel Hlad» ou o «Onkel Mavet», o que significa «Tio Fome», em checo, ou «Tio Morte», em hebraico. (…) O que era aquele campo, que oficialmente se denominava BIIb mas a que os prisioneiros se referiam como Familienlager, porque estavam lá alojadas famílias completas, ao contrário do que acontecia nos outros campos? Qual o significado daquele «milagre»? Qual a finalidade daquele campo? Nunca ninguém descobriu, nem sequer depois de o campo ter sido liquidado. (…) Chamava-se Fredy Hirsch, um homem de prestígio e autoridade entre os jovens, um madrich (…) pediu que o dispensassem desse cargo [de ser Kapo, em Auschwitz, naquele bloco] e o deixassem fazer algo diferente (…) Reuniu todas as crianças e jovens numa grande estrutura – ou «bloco» como se chamava lá – e dedicou-se, juntamente com a equipa de madrichim que seleccionou, a educar e cuidar dos mais novos. Ao fim de um curto período de tempo, esses barracões tornaram-se o centro da vida espiritual e cultural do lugar. Digo isto na plena acepção das palavras: era um local onde se encenavam peças e davam concertos – e tudo isto, é claro, a entre cento e cinquenta a duzentos metros do cais de selecção e trezentos a quatrocentos metros dos crematórios. As experiências que recordo de lá constituem a base moral do modo como encaro a cultura, a vida, quase tudo, tal como ganhou forma dentro de mim durante esses poucos meses, aos dez e onze anos, entre Setembro de 1943 e a liquidação do campo, em Julho de 1944. (…) O que recordo com maior clareza é a nossa primeira aula de História. Nela ouvi falar pela primeira vez dos acontecimentos fascinantes da batalha das Termópilas e de toda a miríade de guerras entre os persas e os gregos. Lembro-me também de ter ficado tão fascinado com elas que absorvi quase todas as palavras das aulas, e quando chegou um inspector – havia, realmente, uma unidade de inspecção de criação própria que controlava o progresso dos alunos -, eu, o mais pequeno do grupo, desbobinei todas aquelas histórias fascinantes sobre a Primeira e a Segunda Guerras Pérsicas, a grande batalha naval de Salamina, a batalha das Termópilas, e a mensagem emocionante do corredor de Maratona…Não se tratava de uma experiência profunda – eu tinha experiências mais profundas e fortes -, mas era, julgo eu, a primeira de lá. Por vezes, rio para mim mesmo ao considerar a possibilidade de o encontro que talvez me tenha destinado à profissão que na juventude, quando cheguei à universidade, não me pareceu ter qualquer objectivo ou finalidade em seguir – o estudo da história – ter as suas raízes nessa experiência de formação. Possivelmente.
O que era muito mais entusiasmante, e me marcou muito mais fortemente, foi os eventos terem lugar no bloco e participarmos neles. Um deles, o mais grandioso, foi uma ópera infantil completa que lá representámos. Lembro-me de ter participado em muitos ensaios. Não vi a representação em si, porque na altura estava no hospital, com difteria. Foi tudo muito excitante, devido ao esforço tremendo que implicava a preparação dos textos – em alemão -, os recitativos e o canto, bem como os restantes preparativos, nomeadamente as pinturas das paredes.
Mas o que se fixou ainda mais na minha memória foram as sátiras em que participei. Cada grupo se encarregou de apresentar uma imaginária situação futura baseada na realidade de Auschwitz (…) Um grupo apresentou «Auschwitz Celeste-Auschwitz Terreno»: recém-chegados ao Céu, descobrimos, para nosso espanto, que no mundo lá em cima havia selecções e havia crematórios. Ou, noutra cena do espectáculo: para espanto do cirurgião que estava a fazer uma operação no Auschwitz Celeste, os mesmos parasitas emissários de morte das epidemias de Auschwitz forma descobertos nos intestinos do paciente.
Outra coisa de que me lembro bem é que os membros das SS assistiam às representações, como espectadores. Entre eles contavam-se o doutor Mengele e outro médico chamado Lucas – mais tarde, testemunhei contra ele no julgamento de Auschwitz, em Frankfurt. As insinuações crípticas, a linguagem codificada permitiam-nos – tanto às crianças como aos madrichim – dar expressão às duas facetas da nossa situação. Quer aqueles espectadores captassem a mensagem, quer não, aquilo era importante para nós. Aquele humor especial, aquele humor negro com que gracejávamos, mesmo sem espectáculo, acerca do único caminho por onde se saía de Auschwitz – através das suas chaminés, as chaminés dos crematórios -, piadas deste tipo, ou a linguagem que elaborámos para nosso vernáculo, eram um trabalho em curso constante que foi lá criado, e não consigo lembrar-me de algo semelhante, deste ponto de vista, em qualquer fase da minha vida. (…)
Nos barracões das crianças havia um maestro de coro. O seu nome, parece-me, era Imre (…) Organizou um coro infantil e fizemos ensaios. (…) Esse barracão tinha uma acústica excepcional (…) Lembro-me sobretudo de uma obra que cantávamos e também me recordo da letra. A letra estava relacionada com a alegria e com a fraternidade entre os homens (…) Cerca de um ano e meio depois, quando o campo já não existia, quando a maioria dos seus prisioneiros já havia sido cremada ou distribuída como escravos por todo o Reich, e apenas restavam algumas dezenas de jovens e havíamos sido transferidos para o Mannerlager, o grande campo de escravos, obtive, não sei bem como, uma harmónica. Aprendi a tocá-la e tocava coisas que me haviam ficado na mente, nomeadamente uma das melodias que cantávamos no coro infantil (…) Estava eu a tocar a melodia num desses raros momentos de silêncio e tranquilidade naquele campo, e um jovem prisioneiro judeu de Berlim vem ter comigo – era eu então um rapaz de onze anos – e diz: «Sabes o que estás a tocar?». E eu respondo-lhe: «Olha, aquilo que estou a tocar é uma melodia que cantávamos naquele campo – que já não existe». Ele explicou-me então o que eu estava a tocar e o que cantávamos lá e o significado daquelas palavras. Penso que também tentou explicar-me o terrível absurdo da situação, a terrível maravilha da situação, de uma canção de louvor à alegria e à fraternidade entre os homens, a Ode à Alegria de Schiller, da Nona Sinfonia de Beethoven, estar a ser tocada em frente aos crematórios de Auschwitz, a algumas centenas  de metros do local de execução, onde o maior incêndio jamais enfrentado por essa mesma humanidade que era o tema do que se estava a cantar ocorria no preciso momento em que falávamos e em todos os meses que lá estivemos.
Na verdade, nessa altura eu já sabia quem era Beethoven. Não sabia no tempo em que o cantávamos. Entre esse primeiro momento, quando cantámos, e a surpreendente descoberta e identificação da melodia, estivera no hospital, com difteria, e na enxerga por cima de mim encontrava-se um dos jovens prisioneiros, com cerca de vinte anos. O seu nome era Herbert. Acho que não se curou e, caso se tenha curado, acabou onde acabaram tantos outros na Metrópole da Morte. Um dos nossos divertimentos, embora fosse sobretudo dele, era explicar-me, ou transmitir-me, parte da riqueza cultural que acumulara, como se estivesse a legar-me esse património. A primeira coisa que recebi dele foi um livro, o único livro que ele possuía, e eu iria lê-lo. Começa com a descrição de uma idosa e de um jovem que a atinge com um machado, que comete assassínio e fica atormentado – Crime e castigo, de Dostoievsky. Foi o que ele levou para Auschwitz e foi a primeira obra de grande literatura que li desde que fora separado da biblioteca dos meus pais, na Checoslováquia, aos nove anos. Não nos ficámos por Dostoievsky. Passámos para Shakespeare e Beethoven e Mozart e tudo aquilo que ele me conseguiu fazer empinar sobre a cultura europeia. E empinei bastante.
Quando Schiller e Beethoven foram identificados mais tarde, comecei a reflectir, e tenho reflectido desde então, sobre as razões e o significado dessa decisão do maestro, o tal Imre, que recordo, como se fosse hoje, como uma figura grande e desajeitada envergando o uniforme azul-acinzentado de prisioneiro e grandes tamancos de madeira, com as mãos grandes de um maestro, dirigindo o coro, fazendo-o unir-se e depois dando-lhe liberdade, e pondo-os a cantar como anjinhos, com as nossas vozes proporcionando o acompanhamento aos cortejos de pessoas de negro engolidas lentamente pelos crematórios.
Naturalmente, a pergunta que fazia a mim mesmo, e que continuo a fazer a mim mesmo ainda hoje, é o que fazia mover aquele Imre – não quanto a criar o coro infantil, porque, afinal, poderia dizer-se que, no espírito daquele projecto do centro educativo, era necessário, de alguma forma, preservar a sanidade, de alguma forma, manter as crianças ocupadas -, em que acreditava ele. Qual fora a sua intenção ao decidir interpretar precisamente aquele texto, um texto que é considerado um manifesto universal de todo aquele que acredita na dignidade humana, nos valores humanísticos, no futuro – diante daqueles crematórios, no local onde o futuro era, talvez, a única coisa definida que não existia? Foi uma espécie de manifestação de protesto, absurda talvez, talvez sem qualquer finalidade, mas uma tentativa de não renunciar e de não perder, não a crença, mas a dedicação a esses valores a que, em última instância, apenas as chamas podiam pôr termo – apenas aquele fogo, e não tudo aquilo que o antecedia e que grassava à nossa volta; isto é, enquanto respirar, o homem respira liberdade, ou algo semelhante?
Trata-se de uma possibilidade, de uma possibilidade excelente, mas existe uma segunda, que parece ser muito mais provável, ou que pode ser invocada por vezes. Não direi quando prefiro a primeira e quando me inclino para a outra. Refiro-me à possibilidade de isso ter sido um acto de extremo sarcasmo, até ao máximo extremo possível, de autossatisfação, por parte de uma pessoa que controla seres ingénuos e implanta neles valores ingénuos, valores sublimes e maravilhosos, mas que, ao mesmo tempo, sabe que esses valores não têm qualquer desígnio ou intenção ou significado.
Por outras palavras, que se tratou de uma espécie de auto-satisfação quase demoníaca por tocar melodias para acompanhar aquelas chamas que ardiam silenciosamente, dia e noite, e aqueles cortejos engolidos pelos insaciáveis crematórios.
À primeira vista, a segunda ideia parece mais lógica. É muito tentador acreditarmos na primeira ideia. E talvez eu acredite nela, talvez ela me tenha influenciado, talvez tenha influenciado grande parte do que me ocupa e em que acredito. Mas há muitas vezes em que penso que me agarro a uma ilusão e a transmito de diversas formas. Porque aquele sarcasmo abissal, para além de qualquer limite possível, também podia ser um critério para variações menos extremas da realidade de um mundo onde as coisas não se desenrolam de acordo com a crença sem reservas de Beethoven e Schiller como tais, mas sim do Beethoven e do Schiller que haviam sido cantados outrora em frente aos crematórios de Auschwitz. Mas é claro que isso faz parte da minha mitologia pessoal.
Regresso amiúde a tudo isso e também me ocupa em termos profissionais, embora nunca refira directamente o episódio. Mas quando tenho de interpretar a continuidade da existência de normas sociais, de valores morais e culturais nas condições que foram criadas imediatamente após a ascensão dos nazis ao poder e no caminho que conduziu à orla das valas do assassínio em massa e dos crematórios, aí sinto-me inclinado amiúde, talvez inconscientemente, a escolher a crença naquela manifestação, uma manifestação sem esperança mas a única possível naquela situação, embora pense, como afirmei, que aqui a ilusão é por vezes muito maior do que a ferocidade do sarcasmo ou o divertimento cínico de alguém que ainda era capaz de brincar com isso perante morte daquela ordem de grandeza. Essa abordagem era talvez mais – não direi mais realista – mas mais autêntica.

Otto Dov Kulka, Paisagens da metrópole da morte, Temas e Debates, Lisboa, 2013, p.40-60.