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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Defesa, mercearia, confiança mútua


Em 2017, os gastos com a defesa nos países da União Europeia tiveram um aumento superior a 3% face a 2016. Em 2016, os gastos militares da UE totalizaram 200 mil milhões de euros (1,3% do PIB), o dobro do investimento em protecção ambiental. A despesa da UE em 2016 foi superior à da China (189 mil milhões de euros) e mais de três vezes a despesa da Rússia (60 mil milhões, valor que em 2017 caiu 20%).

[dados apresentados por Viriato Soromenho-Marques, no DN, 16-12-2018, afirmando que o afã com a Defesa, aumentando despesa, mas sem visão estratégica, sem a confiança mútua entre líderes, povos, países fará com que, apesar deste acréscimo de recursos, a capacidade de acção e defesa esteja muito limitada; o exemplo dado foi: face a uma hipotética invasão russa da Letónia, estará a ver-se uma resposta europeia ou o que teremos, para o plano militar, é a mesma miopia verificada no plano económico, na qual se impôs uma "austeridade tão cruel como absurda" (?), justamente pela ausência de pertença comum, de solidariedade, confiança mútua]

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A ALTERNATIVA MONÁSTICA


A vida monástica está tão em desacordo com o mundo exterior, que frequentemente inspira uma enorme hostilidade. Como Leigh Fermor salienta várias vezes, os edifícios em ruínas dos grandes conventos e abadias da Europa fazem lembrar a selvajaria dos reis e reformadores que por sucessivas vezes os destruíram. Mesmo hoje, as pessoas sentem-se frequentemente perplexas com o estilo de vida dos monges e freiras, por estar em conflito com tantos dos nossos valores mais seculares e parecer desumano e desprovido de alegria. Em vez de procurarem riqueza, conforto e sucesso material, os monges optam por uma pobreza em que nem sequer podem chamar suas às escovas de dentes que usam. O celibato voluntário e a renúncia à intimidade parecem violar os instintos humanos básicos, num mundo que coloca tanta ênfase nos valores da família. Além disso, talvez o ponto mais difícil - apesar de Fermor não explorar esta questão -, abdicam da liberdade e da autonomia individual, fazendo voto de obediência aos superiores de um modo que repugna ao ethos de independência da modernidade. E, contudo, há pessoas que continuam a optar por esta austeridade. Como Leigh Formor mostra, apesar de as suas abadias terem sido destruídas uma e outra vez, as ordens religiosas regressaram sempre, retomando a disciplina que traz aos monges a paz e a realização que não encontram no mundo exterior.
O monasticismo diz-nos algo importante sobre a estrutura da humanidade. Quase todas as tradições mais importantes do mundo desenvolveram alguma forma de vida cenobítica. Assim como alguns indivíduos - em todas as épocas e em todas as culturas - se sentem impelidos a ser bailarinos, poetas ou músicos, outros são irresistivelmente atraídos para uma vida de silêncio e oração. Têm um talento invulgar para a meditação, de modo algum concedido a todos os fiéis, e só serão felizes se conseguirem desenvolvê-lo e praticá-lo assiduamente. O atleta e o bailarino revelam o potencial do corpo humano; sujeitam-se de boa vontade a uma disciplina dolorosa, rigorosa e esgotante, abdicando de muitos confortos e prazeres para aprenderem o seu ofício. Graças a esta dedicação, conseguem realizar proezas físicas fora do alcance de quem não treina. Do mesmo modo, o contemplativo sujeita-se de livre vontade a um regime igualmente exigente e, depois de adquirir competência, manifesta o pleno potencial do espírito humano. (...)
O monótono modo de vida dos monges foi concebido deliberadamente para os proteger das distracções e do desejo de novidade: fazem as mesmas coisas dia após dia, vestem-se de igual e elidem o individualismo e o estilo pessoal. Mantêm um silêncio quase permanente, de modo que a atenção se dirija para dentro. Entoam as escrituras juntos, para que os textos sagrados passem a fazer parte da sua paisagem interior. A vida comunitária é muito importante, já que a experiência de viver com pessoas que não escolheram e que podem não achar agradáveis apaga gradualmente o egoísmo que os impede de alcançar a experiência transcendente que procuram.
A vida monástica exige uma espécie de morte - a morte do ego que alimentamos tão vorazmente na vida secular. (...) Esta preocupação connosco mesmos, no entanto, como dizem todas as religiões do mundo, impede-nos paradoxalmente de nos tornarmos o nosso melhor eu. Muitos dos nossos problemas derivam deste egocentrismo frustrado. Ficamos ressentidos com o sucesso dos outros; nos momentos mais sombrios, de maior auto-comiseração, sentimo-nos particularmente maltratados e subestimados; a consciência das nossas limitações entristece-nos. No mundo exterior ao claustro é sempre possível escapar ao auto-descontentamento: podemos telefonar a um amigo, tomar uma bebida ou ligar a televisão. Mas o religioso tem de enfrentar a sua própria mesquinhez 24 horas por dia, 365 dias por ano. Quando cultivada devidamente e com todo o empenho, a vida monástica liberta-nos de nós mesmos - aos poucos, lentamente e de modo imperceptível. Depois de um monge transcender o seu próprio ego, assumirá um modo de ser alternativo. É um ekstasis, uma «superação» dos limites do eu. (...)
Só desde o Iluminismo do século XVIII o Ocidente fez da «crença» - a aceitação de determinadas proposições do credo - «o primeiro postulado» da vida religiosa. No Ocidente, desenvolvemos uma cultura racional, científica e pragmática; sentimos necessidade de acreditar que uma proposição é verdadeira antes de basearmos as nossas vidas nela, bem como de estabelecer o carácter convincente de um princípio antes de o aplicarmos. No período pré-moderno, no entanto, em todas as fés mais importantes, a ênfase principal recaía não sobre a crença, mas sobre o comportamento. Primeiro mudava-se de estilo de vida, e só depois se podia sentir Deus, Nirvana, Brâmane ou o Tao enquanto realidade viva. (...)
Ouvindo os monges cantarem os salmos e orações da Liturgia das Horas, [Leigh Formor] sentiu intimações de transcendência e iluminação. Quando teve de deixar a abadia e regressou a Paris, o mundo secular pareceu-lhe inicialmente um «inferno de ruído e vulgaridade»; foi tão difícil retomar a vida normal como tinha sido adaptar-se ao silêncio e isolamento monásticos.
Mesmo uma experiência limitada da vida monástica pode revelar ao indivíduo o verdadeiro significado da religião com muito mais eficácia do que crenças teológicas abstractas. No século XI, os monges beneditinos de Cluny, perto de Paris, fizeram um enorme esforço para educar os leigos da Europa, reveladores de uma ignorância crassa nas matérias do cristianismo. Não tentaram ensinar aos leigos as compilações doutrinais da Igreja. Em vez disso, enviaram-nos em peregrinação, actividade que, sob a égide de Cluny, se tornou extraordinariamente popular. Enquanto viajavam para o destino sagrado, homens e mulheres tinham de viver algum tempo como monges. Os peregrinos deixavam para trás a vida normal e assumiam uma vida comunitária; rezavam juntos; as privações da viagem eram uma forma de ascetismo; deviam manter o celibato durante a peregrinação e estavam proibidos de lutar ou de empunhar armas. O objectivo da experiência era transformar o comportamento deles de um modo que os levaria a intuir o significado mais profundo da fé cristã. (...)
A teologia é uma forma de poesia, uma tentativa de exprimir o inexprimível, e não se pode ler um soneto de Shakespeare no meio da tagarelice e da confusão de uma festa. Estas verdades são esquivas e resistem a conceptualizações fáceis. Temos de nos abrir aos textos sagrados com um espírito calmo e receptivo. Percebi gradualmente que, sem a distracção da conversa constante, as palavras na página começavam a falar directamente com o meu eu interior
Compreendo bem Leigh Formor quando ele comenta certa vez com o abade que é um enorme alívio não falar o dia todo. «Sim», respondeu o abade, «no mundo exterior abusam muito das palavras». O nosso mundo é ainda mais ruidoso do que era nos anos 1950, quando Leigh Formor escreveu este livro: a música enlatada e os telemóveis não param de tilintar, e foge-se do silêncio e da solidão como se fossem estranhos e contranatura. (...)
Pouquíssimos de nós são capazes de ser freiras ou monges contemplativos, mas podemos não só aprender a dar valor ao modo como estes vivem o sagrado, mas também a integrar algo dessa disciplina tranquila e silenciosa nas nossas próprias vidas

Karen Armstrong, Prefácio, in Patrick Leigh Fermor, Tempo de silêncio, Tinta da China, 2018, pp.9-17.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Ainda a crise vista do cinema


A crise económica que recentemente afectou o país deixou marcas profundas na sociedade portuguesa. Não se tratou apenas de um período de austeridade esmagadora, com uma grande depressão que empobreceu quase todos levando casas e empregos. Foi uma crise com graves sequelas morais, emocionais e psicológicas, que se repercute ainda nos nossos dias. O ambiente durante o período de auxílio financeiro da troika era de tal forma devastador que não sobravam penas para escrever os sucessivos episódios dramáticos, muitas vezes roçando a tragédia, de cada família
Alguns cineastas portugueses sentiram a urgência de retratar aquele período, para memória presente e futura, até porque, além do mais, como se sabe desde a Antiguidade Clássica, as tragédias albergam um manancial de histórias. Contudo, não deixa de ser notável que a crise económica tenha despoletado tantos filmes, sabendo que outros períodos marcantes da história recente de Portugal (...) tenham sido objecto de relativamente poucas obras ao longo dos anos.

Manuel Halpern, As pequenas histórias da grande crise, JL, nº1225, 13 a 26 de Setembro de 2017, p.18

domingo, 11 de junho de 2017

Planando


Sobre a entrevista/debate de António Costa a José Gomes Ferreira, na Sic, esta semana, Graça Franco fez as duas anotações que se impunham: a) é uma novidade a ideia de que baixar o défice - pelo menos, se entendido em qualquer circunstância - é sempre boa política, como transmitiu o PM (após muito do que foi dito sobre o Tratado Orçamental, e antes deste, de conjunturas que demandem uma política contra-cíclica em ambiente recessivo); b) no debate sobre se a "austeridade" continua (ou não) a vigorar em Portugal, há uma diferença muito grande, quer se queira quer não, "entre aumentar os impostos dos produtos petrolíferos ou baixar o RSI, ou entre aumentar o IVA ou diminuir os abonos de família". Um terceiro apontamento de Graça Franco foi para o título de um livro publicado por Gomes Ferreira, que nele se colocava na pele de Primeiro-Ministro com programa a aplicar, perpassando, evidentemente, nesse lembrete, um tom jocoso sobre tal presunção, além do que nele de ideologicamente se reivindicava, caminho aberto a uma noite carregada de ironia com que Costa se superiorizou ao jornalista, vestindo a pele de um jovial governante, com sentido de humor, estilo que, mais do que o conteúdo vindo de observar, fixou as atenções de quem o viu em prime-time.

sábado, 8 de setembro de 2012

Novo falhanço

Passos Coelho “falou que iria haver impostos sobre o capital e riqueza, mas não concretizou, enquanto relativamente aos rendimentos do trabalho, concretizou. É de recear que continue a haver falta de equidade”

Jorge Miranda, em declarações, esta noite, à agência Lusa.

 

Como não estávamos perante um mix de medidas técnicas, antes possuindo a política fiscal uma clara dimensão ideológica, aqui fica: não se mexeu, p.ex., em um imposto no qual houvesse progressividade, antes se preferindo aumentar uma taxa que é igual para todos a ela sujeitos (que não são todos os profissionais). Justiça? E relembrando o que foi publicado no último ano, os estudos existentes, em matéria de desagravamento da taxa social única para as empresas, e sua correlação com a criação de postos de trabalho e o incremento da economia, vai ser preciso uma dose muito grande de boa vontade (?) para acreditar que os efeitos sobre o emprego e o crescimento vão ser positivos e significativos.