A vida monástica está tão em desacordo com o mundo exterior, que frequentemente inspira uma enorme hostilidade. Como Leigh Fermor salienta várias vezes, os edifícios em ruínas dos grandes conventos e abadias da Europa fazem lembrar a selvajaria dos reis e reformadores que por sucessivas vezes os destruíram. Mesmo hoje, as pessoas sentem-se frequentemente perplexas com o estilo de vida dos monges e freiras, por estar em conflito com tantos dos nossos valores mais seculares e parecer desumano e desprovido de alegria. Em vez de procurarem riqueza, conforto e sucesso material, os monges optam por uma pobreza em que nem sequer podem chamar suas às escovas de dentes que usam. O celibato voluntário e a renúncia à intimidade parecem violar os instintos humanos básicos, num mundo que coloca tanta ênfase nos valores da família. Além disso, talvez o ponto mais difícil - apesar de Fermor não explorar esta questão -, abdicam da liberdade e da autonomia individual, fazendo voto de obediência aos superiores de um modo que repugna ao ethos de independência da modernidade. E, contudo, há pessoas que continuam a optar por esta austeridade. Como Leigh Formor mostra, apesar de as suas abadias terem sido destruídas uma e outra vez, as ordens religiosas regressaram sempre, retomando a disciplina que traz aos monges a paz e a realização que não encontram no mundo exterior.
O monasticismo diz-nos algo importante sobre a estrutura da humanidade. Quase todas as tradições mais importantes do mundo desenvolveram alguma forma de vida cenobítica. Assim como alguns indivíduos - em todas as épocas e em todas as culturas - se sentem impelidos a ser bailarinos, poetas ou músicos, outros são irresistivelmente atraídos para uma vida de silêncio e oração. Têm um talento invulgar para a meditação, de modo algum concedido a todos os fiéis, e só serão felizes se conseguirem desenvolvê-lo e praticá-lo assiduamente. O atleta e o bailarino revelam o potencial do corpo humano; sujeitam-se de boa vontade a uma disciplina dolorosa, rigorosa e esgotante, abdicando de muitos confortos e prazeres para aprenderem o seu ofício. Graças a esta dedicação, conseguem realizar proezas físicas fora do alcance de quem não treina. Do mesmo modo, o contemplativo sujeita-se de livre vontade a um regime igualmente exigente e, depois de adquirir competência, manifesta o pleno potencial do espírito humano. (...)
O monótono modo de vida dos monges foi concebido deliberadamente para os proteger das distracções e do desejo de novidade: fazem as mesmas coisas dia após dia, vestem-se de igual e elidem o individualismo e o estilo pessoal. Mantêm um silêncio quase permanente, de modo que a atenção se dirija para dentro. Entoam as escrituras juntos, para que os textos sagrados passem a fazer parte da sua paisagem interior. A vida comunitária é muito importante, já que a experiência de viver com pessoas que não escolheram e que podem não achar agradáveis apaga gradualmente o egoísmo que os impede de alcançar a experiência transcendente que procuram.
A vida monástica exige uma espécie de morte - a morte do ego que alimentamos tão vorazmente na vida secular. (...) Esta preocupação connosco mesmos, no entanto, como dizem todas as religiões do mundo, impede-nos paradoxalmente de nos tornarmos o nosso melhor eu. Muitos dos nossos problemas derivam deste egocentrismo frustrado. Ficamos ressentidos com o sucesso dos outros; nos momentos mais sombrios, de maior auto-comiseração, sentimo-nos particularmente maltratados e subestimados; a consciência das nossas limitações entristece-nos. No mundo exterior ao claustro é sempre possível escapar ao auto-descontentamento: podemos telefonar a um amigo, tomar uma bebida ou ligar a televisão. Mas o religioso tem de enfrentar a sua própria mesquinhez 24 horas por dia, 365 dias por ano. Quando cultivada devidamente e com todo o empenho, a vida monástica liberta-nos de nós mesmos - aos poucos, lentamente e de modo imperceptível. Depois de um monge transcender o seu próprio ego, assumirá um modo de ser alternativo. É um ekstasis, uma «superação» dos limites do eu. (...)
Só desde o Iluminismo do século XVIII o Ocidente fez da «crença» - a aceitação de determinadas proposições do credo - «o primeiro postulado» da vida religiosa. No Ocidente, desenvolvemos uma cultura racional, científica e pragmática; sentimos necessidade de acreditar que uma proposição é verdadeira antes de basearmos as nossas vidas nela, bem como de estabelecer o carácter convincente de um princípio antes de o aplicarmos. No período pré-moderno, no entanto, em todas as fés mais importantes, a ênfase principal recaía não sobre a crença, mas sobre o comportamento. Primeiro mudava-se de estilo de vida, e só depois se podia sentir Deus, Nirvana, Brâmane ou o Tao enquanto realidade viva. (...)
Ouvindo os monges cantarem os salmos e orações da Liturgia das Horas, [Leigh Formor] sentiu intimações de transcendência e iluminação. Quando teve de deixar a abadia e regressou a Paris, o mundo secular pareceu-lhe inicialmente um «inferno de ruído e vulgaridade»; foi tão difícil retomar a vida normal como tinha sido adaptar-se ao silêncio e isolamento monásticos.
Mesmo uma experiência limitada da vida monástica pode revelar ao indivíduo o verdadeiro significado da religião com muito mais eficácia do que crenças teológicas abstractas. No século XI, os monges beneditinos de Cluny, perto de Paris, fizeram um enorme esforço para educar os leigos da Europa, reveladores de uma ignorância crassa nas matérias do cristianismo. Não tentaram ensinar aos leigos as compilações doutrinais da Igreja. Em vez disso, enviaram-nos em peregrinação, actividade que, sob a égide de Cluny, se tornou extraordinariamente popular. Enquanto viajavam para o destino sagrado, homens e mulheres tinham de viver algum tempo como monges. Os peregrinos deixavam para trás a vida normal e assumiam uma vida comunitária; rezavam juntos; as privações da viagem eram uma forma de ascetismo; deviam manter o celibato durante a peregrinação e estavam proibidos de lutar ou de empunhar armas. O objectivo da experiência era transformar o comportamento deles de um modo que os levaria a intuir o significado mais profundo da fé cristã. (...)
A teologia é uma forma de poesia, uma tentativa de exprimir o inexprimível, e não se pode ler um soneto de Shakespeare no meio da tagarelice e da confusão de uma festa. Estas verdades são esquivas e resistem a conceptualizações fáceis. Temos de nos abrir aos textos sagrados com um espírito calmo e receptivo. Percebi gradualmente que, sem a distracção da conversa constante, as palavras na página começavam a falar directamente com o meu eu interior.
Compreendo bem Leigh Formor quando ele comenta certa vez com o abade que é um enorme alívio não falar o dia todo. «Sim», respondeu o abade, «no mundo exterior abusam muito das palavras». O nosso mundo é ainda mais ruidoso do que era nos anos 1950, quando Leigh Formor escreveu este livro: a música enlatada e os telemóveis não param de tilintar, e foge-se do silêncio e da solidão como se fossem estranhos e contranatura. (...)
Pouquíssimos de nós são capazes de ser freiras ou monges contemplativos, mas podemos não só aprender a dar valor ao modo como estes vivem o sagrado, mas também a integrar algo dessa disciplina tranquila e silenciosa nas nossas próprias vidas.
Karen Armstrong, Prefácio, in Patrick Leigh Fermor, Tempo de silêncio, Tinta da China, 2018, pp.9-17.