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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Música concentracionária (II)



"Cadenza", Viktor Ullmann.

Um dos sobreviventes compositores diz no filme (ver post anterior) que a música era uma espécie de religião, nos campos, através da qual as pessoas expressavam, ainda, uma réstia de liberdade e reclamavam ser "mais do que um naco de carne". Numa altura em que querem reduzir o humano a uma "mera superfície biológica", como se não tivéssemos espírito, vale seguir esse testemunho e essa reivindicação.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mestres (VI)



"A beleza é o carácter", concretiza, em fórmula depurada, a definição solicitada, Wole Soyinka. É mesmo isso. O homem que esteve preso dois anos, pela ditadura nigeriana, encontra prazer, mas não beleza na sexualidade, no orgasmo. Na cadeia, nunca foram tais temáticas que solicitaram a sua atenção. Motivo de consolação, aí, as obras de arte entranhadas em si, em especial a música, sinfonias sabidas de cor que interiormente percorreu e o salvaram, num silêncio preenchido, na prisão. Além disso, muito logicamente, precaveu-se, lutando para encontrar as fórmulas, equações matemática aprendidas na escola para preservar a sanidade mental, ocupando-lhe muito tempo. Um ofício. Mas, momento belo, na cadeia, ele que viu seus semelhantes agrilhoados, nos pés, a caminho do enforcamento, foi escutar, certo dia, sem aviso, os seus companheiros naquele lugar inóspito, cantarem, cantarem colectivamente, canções tradicionais e outras, cristãs. Uma força que assim se afirmava, ainda que não agressiva.
Saberá Soyinka, o Nobel da Literatura de 1986, porque é que quem leu Rilke e ouviu Beethoven foi capaz, no momento seguinte, de torturar (a grande questão de Steiner)? Tal como Rilke quis aceder ao âmago, à essência (pura) da poesia, os carrascos podem ver-se no papel de escultores de uma humanidade purgada de elementos não puros, perfeitos. O mesmo quanto à exaltação, harmonia e perfeição, dimensão visionária em Beethoven: a transposição dessa perfeição cabia ao verdugo. Soyinka conheceu-o de perto: aquele julga que a humanidade se divide em escumalha e elite, e, obviamente, pertence a este segundo grupo, pelo que cumpre-lhe pôr fim ao restante conjunto (de [sub-]humanos).
O pressuposto de que a vida vale a pena não lhe interessa. Parece-lhe isso: um pressuposto, um a priori que rejeita. Vive-se e pronto. Sem fatalidade, cabendo a cada um cumprir o seu destino (moldá-lo). 
Para a religião yoruba, a que pertence, há três esferas inter-relacionadas: a dos que não nasceram, a dos vivos e dos mortos.
A conversa começara pela indagação acerca de uma eventual percepção do belo pelos animais (maxime, pavão), ou se se trata de propriedade - a percepção - dos humanos. Na infância, já Soyinka retirava consolação da literatura e da Natureza - estando a sós com ambas; gostando, ainda, hoje, de uma hora no mato, para descansar; gostando, ainda, da caça.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Mestres (II)



Yehud Menuhin deu concertos desde os 13 anos, viajando por todo o mundo, obrigando-se a uma ordem e rotina que se furtam ao amador que decide numa noite tocar um belo quarteto: estudo da composição no avião ou automóvel, descanso da parte da tarde, concerto à noite. Dificilmente, o experiente músico consegue encontrar a obra que exprima, simultaneamente, beleza e consolação - mas acaba por achar Schubert, cujas memórias, nostalgia de casa, de regresso, motivaram sempre a tocar o Ave Maria aos militares. E, no entanto, prossegue até à Nona de Beethoven, que, tal como as grandes Paixões de Bach, ou as peças de Shakespeare, purgam a alma - das suas emoções maiores, da dor e sofrimento, da bondade e alegria. A arte devia ser sempre sublimação da violência. Os quadros de Goya, sem o sangue dos soldados, contêm, ainda, essa esperança de redenção - algo que o cinema e a tv já não incorporam, criando uma carapaça de indiferença: 'isto ocorre todos os dias, que posso eu fazer?. De resto, até à criação do Estado  de Israel, os judeus haviam cumprido os 10 mandamentos. Mas o monopólio da violência adstrito à máquina estatal impediu que tal caminho continuasse a ser trilhado. Ora, a lição que Israel podia dar aos demais era a reconciliação com os antigos inimigos. Jerusalém não mais deveria ser a cidade do sacrifício.
 O momento maior de Menuhin dá-se no encontro com Bártok, o professor magiar, que nunca aceita falar de trivialidades, já com leucemia: "nunca pensei que alguém pudesse tocar tão bem uma composição de alguém que já morreu!". Máximo elogio a alguém que não acredita em ceú e inferno em outro mundo, mas na construção de céus e infernos terrestres, com os outros, coroando uma existência com um toque de júbilo - e não de tristeza - em um funeral. Prossigamos. E, com Menuhin fazia, com a associação Live Music Now, levar a todos os recantos, em particular aos marginados, a vitória da beleza: no mais inóspito dos locais, sem uma planta, uma flor, um quarteto trás uma alegria inaudita aos reclusos. À saída, oferecem ao maestro uma rosa. Como uma rosa, naquele lugar? Se fosse um pano pintado, era coerente com aquele local. Agora, uma rosa?...não sei de onde veio.