Nesta semana em que terão lugar as Jornadas Mundiais da Juventude, na Polónia, com o Papa Francisco a visitar Auschwitz em silêncio, recordo o que escrevi há mais de 10 anos, quando outra visita, a do Papa Bento XVI, e o discurso que então pronunciou no que fora o lager da vergonha foi objecto de ampla discussão pública. Fica, pois, a minha crónica de 22-06-2006 no Lamego Hoje:
Bento XVI. Em Auschwitz.
No discurso proferido a 28 de
Maio de 2006, na visita efectuada ao campo de concentração de
Auschwitz-Birkenau, Bento XVI voltou, felizmente, a inquietar os espíritos. E a
ser discutido. Virulentamente criticado (veja-se, por todos, Rui Tavares e
Vasco Pulido Valente, Público, 3 e 4/06/06, respectivamente) e
enfaticamente aplaudido (por todos, João Bénard da Costa, Público,
4/06/06).
Li também, com a maior atenção e
interesse, as cerca de três substantivas páginas que compuseram a
subjectividade do olhar Papal germânico sobre o lugar do horror (já
disponíveis na íntegra e também em português no excelente sitio do Vaticano: www.vatican.va).
Percebera já em Deus Caritas Est,
a primeira encíclica deste pontificado, que na dissertação do líder católico
tudo estava arrumado, em su sítio, como numa encíclopédia (peço a
comparação de empréstimo a Frei Bento Domingues, se bem que valore de modo bem
mais positivo esse facto, do que me pareceu fazê-lo este autor, no comentário
ao primeiro texto fundamental de Bento XVI). Cada palavra pesada. Explicada.
Interpretada. Um texto de grande densidade, muito fundamentado do ponto de
vista histórico/filosófico, etimológico/conceptual, de uma clareza cristalina.
Isto, se quisermos, de um ponto de vista estético. De um ponto de vista ético,
quanto ao conteúdo/mensagem, a assumpção de que uma das acepções de amor, o eros,
comporta uma dimensão carnal, tida como um dos fundamentos de um amor completo
- “Se o homem pretendesse ser apenas espírito e quisesse afastar a carne como
se (esta) fosse uma herança meramente animal, espírito e corpo perderiam a sua
dignidade”, sendo que “Se pelo contrário, repudia o espírito e portanto
considera a matéria, o corpo como realidade exclusiva, malogra igualmente a sua
grandeza”; “Só quando alma e corpo se fundem verdadeiramente numa unidade, o
homem é plenamente ele” – ainda que a marca de novidade cristã, neste domínio,
seja o agapé - o amor que deixa de ser egoísta e se centra no outro, o
amor que “já não se busca a si mesmo, não se some na embriaguez da felicidade,
antes anseia melhor o bem do amado: converte-se em renúncia, está disposto ao
sacrifício, mais ainda, à busca” - fez-me entender que a sua resistência ao
tempo, de que o repúdio do relativismo moral era vivo exemplo, significava
agora que a (sua) tão glosada ortodoxia enquanto Ratzinger (certamente não sem
razão por parte dos críticos, dentro e fora da Igreja; estou lendo a sua obra,
guardando, pois, por ora, juízo sobre tal adjectivação) daria lugar a
infirmações de tais proclamações a propósito de Bento XVI (este descomplexado
e, digamos assim, nada moralista entendimento e valorização do lado carnal, no
amor, suplantando platonismos ou cartesianismos, porventura demasiado
estreitos, é disso indício).
Sabendo que nada viria, pois, ao
acaso, entrei pelo discurso proferido em Auschwitz, anotando, desde logo, as
três citações bíblicas feitas pelo Santo Padre: duas dos Salmos; outra
do Deutoronómio. Extensas e decisivas na compreensão do texto, as
transcrições dos Salmos (com que, ademais, se encerra a meditação
papal). Querendo isto dizer alguma coisa, o que significava, afinal? Os Salmos
devem ser lidos e compreendidos como o lugar do diálogo com um Deus ao mesmo
tempo acessível e temeroso (...) O coração dos Salmos é o da
familiaridade sublime de um Deus que se deixa convocar, suplicar, não como Deus
da justiça e da cólera, mas já como um Pai que nos conduz pela mão e sustenta
com a sua direita. O louvor que lhe é devido é íntimo reconhecimento não
apenas, ou antes de tudo, do Criador do Céu, da lua, das brilhantes estrelas
(...)mas d´Aquele que fala na nossa fala, que é mais íntimo a nós mesmos que
nós mesmos como diria mais tarde Santo Agostinho” (Eduardo Lourenço, num
comentário aos Salmos, a que chamou O Canto de Deus, numa edição,
com diferentes autores a comentarem os vários livros que compõem a Bíblia, da Três
Sinais Editores, em 2001). Se atentarmos nesta pré-compreensão da essência
salmista, verificaremos do rigor da escolha papal, na precisão do verbo
enxertado no praticamente indizível e incomunicável, e partiremos em busca do
alcance da palavra metódica de Bento XVI, sem cabeças e corações frios
(Bénard da Costa). Uma das críticas apontadas ao líder da Igreja Católica, foi
a de pretender julgar Deus – “Senhor, porque silenciaste? Por que toleraste
tudo isto?”- evitando, assim, a crítica ao comportamento humano e, muito
particularmente, á actuação da Igreja durante o Holocausto. Bastaria, porém,
ler as palavras de Bento XVI - “enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes
de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos
apenas para a sua destruição” – para facilmente concluirmos do mal fundado de
tal observação. Quem não perceber, na verdade, que vós, porém, éreis mais
íntimo que o meu próprio íntimo e mais sublime que o ápice do meu ser (Santo
Agostinho), dificilmente acederá ao âmago do pensamento do sumo pontífice,
quando este refere que “o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito
que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença
escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos
corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos
homens, da indiferença e do oportunismo”. Ou dito ainda sob outra forma, e
regressando ao substracto bíblico de que o discurso em apreço participa, as
formas múltiplas de louvor ou de solicitação da benevolência divina estão
inscritas nesse sentimento profundo que os salmistas têm de que são eles menos
que interpelam Deus de que Deus fala neles. O enraizamento do ser na realidade
divina é absoluto e sem essa convicção o canto não teria podido nascer
(Eduardo Lourenço).
Quanto às responsabilidades da
Igreja Católica, nomeadamente por omissão, em tempo de Holocausto, penso que
não apenas vale a pena esperar por toda uma investigação crítica à acção de Pio
XII, como registar o que escreveu, por estes dias, António Marujo (especialista
do Publico em questões religiosas) sobre esta matéria: que, ao que se
sabe, foi inclusivamente pedido, por resistentes e oponentes ao regime nazi, ao
Papa de então, que não se pronunciasse sobre a matéria, porque poderia
prejudicar ainda mais os alvos da indigência nacional-socialista. Ainda mais (?!),
questionamo-nos hoje. Como seria tal possível?! Temos demasiadas interrogações,
que deixaremos aos historiadores desvendar. Não ficaremos, contudo, abrigados
sob o manto diáfano de uma (jurídica) dúvida razoável. Para a Igreja, aliás, a
questão mais do que ao nível da responsabilidade em face do Direito, da culpa,
coloca-se, obviamente, na natureza do pecado (ofensa a Deus). De resto, como
bem notou o insuspeito Jurgen Habermas (numa teorização intitulada Fé e
Saber, em 14 Outubro de 2001, em Frankfurt), nem sempre a passagem à
linguagem secular se fez sem perdas: Quando o pecado se converteu em mera
culpa, algo se perdeu. Pois a busca do perdão dos pecados leva associado o
desejo, bem afastado de qualquer sentimentalismo, de que possa dar-se por não realizada,
de que possa ser reversível, a dor que se inflingiu ao próximo. Se há algo que
não nos deixa em paz, é a irreversibilidade da dor passada, a irreversibilidade
da injustiça sofrida pelos inocentes maltratados, humilhados e assassinados,
uma injustiça, que, por (ser) pretérita, está para além de quaisquer medidas
de uma possível reparação que pudesse estar nas mãos do homem. A perda da
esperança na ressurreição não faz senão deixar atrás de si um vazio bem
tangível.
Assim, não deixará de doer, particularmente,
à igreja, por exemplo, que em 1950, o padre franciscano Edoardo Domoter,
supostamente com a colaboração do bispo Alois Hudal, tenha fornecido um
passaporte falso de refugiado da cruz Vermelha com o nome de Ricardo Klement a
alguém como Adolf Eichmann, podendo este, desta sorte, eximir-se de responder
pelos seus actos (estamos a falar de um dos homens da máquina nazi, que
acabaria capturado na Argentina, pela Mossad, sendo julgado, condenado e
executado em Israel), como, ao invés, não deixará de a orgulhar as famílias
cristãs (católicas) que ajudaram a esconder judeus e, sobretudo, a dádiva
daqueles, que, por ajudarem o seu próximo perseguido, acabaram executados.
Vale a pena falar e criticar os cobardes, reprovar a hierarquia pelo que
fez de mal ou pelo que não fez; esta, como, aliás, a Igreja como um todo, sem
acrimónia ou revisionismos históricos, não tem mais que buscar o perdão, como
expressão de um arrependimento que crê na ressurreição (o gesto, em meu
entender corajoso e virtuoso, de João Paulo II, ao pedir perdão pelos pecados,
crimes em que a Igreja esteve envolvida ao longo dos séculos, teve o condão de
não agradar aos mais ortodoxos dentro da comunidade católica, nem aos que medem
tudo pelo útil, fora dela); mas convém lembrar, mais que quaisquer outros, os
que se fizeram Cristos na Terra e deram o exemplo da convicção e da coragem Do
amor. Da vida. Dos padres mais anónimos, ao leigo mais humilde, também eles
foram/são igreja.