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terça-feira, 11 de setembro de 2018

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Nem de propósito, saiu hoje uma entrevista com o Pontifício Conselho da Cultura sobre o actual momento pelo qual passa a Igreja Católica. Para os que são menos conhecedores, nestes âmbitos, Gianfranco Ravasi é aquilo a que se poderia chamar, por analogia com estruturas temporais, o Ministro da Cultura do Vaticano. Considerado um dos maiores biblistas da Igreja - bastante citado, por exemplo, na tese de Doutoramento de José Tolentino de Mendonça -, um intelectual de primeira linha, de uma erudição invulgar, tem vasta obra publicada (incluindo diversos livros traduzidos para português). Foi nomeado por Bento XVI para o cargo que ainda continua a exercer. Veio a Portugal, em Novembro de 2012, no âmbito do "Átrio dos Gentios", uma iniciativa do pontificado anterior que prossegue neste momento, com vista ao diálogo com não-crentes. Falou em Guimarães, numa sessão que contou com Marcelo Rebelo de Sousa, João Lobo Antunes e moderação de Maria João Avillez.
E o que diz ele, na entrevista dada hoje? Que as críticas ao Papa Francisco não têm "fundamento teológico nenhum" (e são próprias de quem defende uma Igreja "esclerótica e rígida"). E que, consoante o tipo de personalidade de quem se encontra em posição de decisão em âmbito da Igreja, tem acentuações (eclesiais) diferentes. 
Onde o actual Pontificado é mais "pastoral" (porque "a doutrina está muito consolidada"), o anterior colocava a tónica nesta mesma dimensão (doutrinal).
Por acaso, há exactamente 8 dias, tinha, neste blog, escrito este post (procurando explicitar estes, a minha perspectiva/interpretação destes "doutrinal" e "pastoral"):

A entrevista com Gianfranco Ravasi:


P.S.: é curiosa, para não dizer insólita, vinda de católicos, a forma como se utiliza a figura de um Papa para desmerecer outro (sendo que a figura evocada, depende, quando se procede desta maneira, é sempre diversa, consoante o particularismo/o movimento/a tendência de onde se vem). A dicotomia entre Papas, uma vez mais ressalta, mesmo na entrevista. E no caso de muitos que agora vêem tantas virtudes em Bento XVI, é pena que quando era necessária a sua defesa pública, face a tão má imprensa e tão pouco qualificada durante anos (uma série de preconceitos e ideias feitas, incapazes de acompanhar o que estava a ser a realidade desse mesmo Pontificado; e deixei aqui expressa a minha admiração pelo Pontificado de Bento XVI.) tenham estado tão silenciosos

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Ligações


Nas derradeiras leituras antes das aulas a sério começarem, registo que o filósofo Luc Ferry, mesmo sendo ateu, no livro que escreveu acerca da felicidade ("7 lições para ser feliz"), no capítulo acerca do amor, cita, com vários excertos, a encíclica "Deus Caritas Est", de Bento XVI. O livro acaba de sair na Temas e Debates; o original, em francês, foi publicado, no ano passado, em França.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Chave d'ouro


Provavelmente, a mais interessante e bela das respostas de Bento XVI, na última entrevista a Peter Seewald, aquela que mostra o carácter sempre inacabado de uma busca, a recusa da rotina das imagens e conceitos gastos e (a)batidos, o homem de fé que procura e sente a necessidade de dizer de novo, de fermentar e pensar a fé a partir do essencial.

Peter Seewald: Faço-lhe agora a pergunta que repetidas vezes nos tem ocupado: onde está na verdade esse Deus de quem falamos, do qual esperamos ajuda? Como e onde podemos localizá-l’O? Hoje em dia, vemos sempre cada vez mais longe no universo, com os seus muitos planetas, os incontáveis sistemas solares, mas até onde quer que seja que tenhamos conseguido ver até hoje, em lado nenhum há aquilo que poderíamos imaginar ser o céu, no qual Deus supostamente reina.

Bento XVI: (Ri) Sim, porque não existe tal coisa, não existe esse lugar onde Ele reina. Deus é, Ele próprio, o lugar dos lugares. Quando [você] olha para o mundo, não vê nenhum céu, mas por toda a parte vê os vestígios de Deus. Na constituição da matéria, em toda a racionalidade da realidade. Do mesmo modo, onde vê pessoas, encontra vestígios de Deus. Vê o vício, mas também a bondade e o amor. Esses são os lugares onde Deus Se encontra aqui.
É preciso libertar-se totalmente dessas noções antiquadas de espaço, que já não são bem-sucedidas, quanto mais não seja porque o universo, embora não sendo infinito na acepção rigorosa da palavra, é tão vasto que nós, os seres humanos, podemos designá-lo de infinito. Além disso, Deus não pode estar algures dentro ou fora, a sua presença é inteiramente outra.
É realmente importante renovar o nosso pensamento em muitos aspectos, eliminar por completo essas questões do espaço e compreender de novo. Tal como entre as pessoas existe a presença anímica – duas pessoas que estejam em continentes diferentes conseguem tocar-se, porque esta é uma dimensão diferente da espacial -, também Deus não Se encontra num lugar determinado, Ele é a realidade. A realidade que suporta todas as realidades. Para essa realidade eu não preciso de nenhum «onde», porque este «onde» já é uma delimitação, já não é o infinito, o Criador, que é o universo, que atravessa todos os tempos, mas Ele próprio não é tempo, cria-o e está sempre presente.
Creio que é preciso mudar muita coisa, tal como também se alterou toda a nossa imagem do ser humano. Já não são 6000 anos de história, segundo a imagem dada pelo calendário bíblico, mas não sei quantos mais. Deixemos em aberto essa questão desses números hipotéticos. Seja como for, com este conhecimento, a estrutura do tempo e da História é hoje diferente. Antes de tudo a teologia tem aqui de pôr mãos à obra e trabalhar mais profundamente para dar mais uma vez às pessoas possibilidades conceptuais. Neste aspecto, a transposição da teologia e da fé para a linguagem de hoje ainda é imensamente deficiente; é preciso criar esquemas conceptuais, ajudar hoje as pessoas a compreenderem que Deus não deve ser procurado num lugar determinado. Há muito a fazer. (…)
Ser amado e amar os outros de volta é algo que fui reconhecendo cada vez mais como fundamental para poder viver; para podermos dizer sim a nós próprios e aos outros. Finalmente, foi sendo para mim sempre mais evidente que Deus, Ele próprio, não só não é, digamos, um governador poderoso e uma autoridade distante, mas também é Amor e ama-me, e que a vida se deve por isso organizar a partir d’Ele, dessa força que se chama Amor.

Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, pp.268-269 e 272.


As "últimas conversas", de Bento XVI (II)

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[o Cristianismo na Europa]

Não podemos desistir de anunciar o Evangelho. No mundo greco-romano, a iniciativa de alguns judeus de partirem à conquista, para o cristianismo, do grande mundo greco-romano erudito e inteligente também pareceu uma ideia totalmente absurda. Haverá sempre grandes insucessos. Não sabemos como a Europa irá evoluir, em que medida é que ainda será Europa no caso das histórias de outros povos lhe darem uma nova estrutura. Independentemente de qualquer cálculo de percentagem de sucesso, é absolutamente necessário anunciar essa outra Palavra que tem em si a força para construir o futuro, dar um sentido à vida das pessoas e ensiná-las a viver. Os Apóstolos não podiam fazer nenhum estudo sociológico para saber se resultaria ou não. Tinham de confiar na força interior dessa Palavra. No início, as pessoas que aderiram eram muito poucas e insignificantes, mas depois foram crescendo. É evidente que a Palavra do Evangelho pode desaparecer de alguns continentes. Vemos bem que as primeiras regiões cristãs – a Ásia Menor e o Norte de África – já não são cristãs. Pode também desaparecer de espaços onde a sua presença era forte. Mas nunca pode deixar de ser dita e nunca pode deixar de ser importante.
pp.230/231

É notório que já não somos coincidentes com a cultura moderna. A configuração fundamental cristã já não é determinante. Hoje em dia vivemos numa cultura positivista e agnóstica, que se tem mostrado progressivamente mais intolerante em relação ao cristianismo, o que fará com que a sociedade ocidental – pelo menos na Europa – não seja, assim sem mais, uma sociedade cristã. Os crentes terão de esforçar ainda mais por continuarem a moldar e serem portadores da reflexão sobre os valores e a vida. Importante será uma religiosidade mais decidida por parte de cada uma das comunidades e das igrejas locais. A responsabilidade torna-se maior.
pp.261/262

Diria que sou um Papa do período entre essas duas eras [uma era passada e uma nova era]. Já não pertenço ao mundo antigo, mas o novo também ainda não chegou verdadeiramente.
p.262

[sobre a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, conhecida como «encíclica contra a pílula»]
A Humane Vitae foi para mim, nas circunstâncias de então e no quadro do pensamento teológico em que me situava um texto difícil (…) nós, eu incluído, não considerávamos o tipo de argumentação satisfatório. Eu procurava uma visão antropológica mais abrangente.
p.186

Peter Seewald: Qual considera ser o seu ponto fraco?
Bento XVI: Talvez a governação resoluta e clara, bem como as decisões que têm de ser tomadas não sejam o meu forte. Neste aspecto sou de facto mais professor, alguém que pondera e reflecte sobre os assuntos espirituais. A direcção prática não é bem a minha qualidade, o que é, diria eu, uma certa fraqueza.
p.266

Cada qual tem o seu carisma. Francisco é um homem da reforma prática. Foi durante muito tempo arcebispo, conhece o ofício, antes tinha sido superior dos Jesuítas e tem designadamente coragem para as questões de carácter organizacional. Eu sabia que não era o meu ponto forte, e também não era necessário porque tinha havido a reforma da Cúria levada a cabo por João Paulo II.
p.222

Talvez eu tenha pensado e escrito demais, é possível. Mas dizer que fiz apenas isso também não corresponderia à verdade.
p.223

Na posição de cardeal da Congregação para a Doutrina da Fé, fica-se a saber de tantas situações, já que ali vão parar todos os escândalos. É preciso ter uma alma forte para poder suportar tudo isso. É sabido que há sujidade na Igreja, mas aquilo que se tem de digerir como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé é imenso.
p.229

Contudo, no geral, [o Pontificado] foi um tempo em que muitas pessoas despertaram de novo para a fé e houve uma enorme movimentação positiva.
p.267


Bento XVI, in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D. Quixote, 2017.


A encíclica preferida


Peter Seewald: Tem uma encíclica preferida? [de entre as que publicou] De qual é que gosta mais?

Bento XVI: Sim, talvez da primeira, Deus Caritas Est.

in Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.237


sábado, 18 de março de 2017

Bento XVI e o futuro da Igreja


Sobre o seu sucessor, Bento XVI afirma, na entrevista a Peter Seewald, Conversas Finais, que se trata de "uma lufada de ar fresco na Igreja, uma nova alegria, um novo carisma com o qual as pessoas se identificam; de facto, é algo bonito" (p.60). A quando da sua eleição, Bento XVI ficou surpreendido ("foi por isso uma enorme surpresa para mim", p.54). Não que tivesse um nome na cabeça, mas um perfil ("não alguém em concreto, mas uma pessoa diferente, sim (...) não pensei que ele fosse um dos candidatos pré-seleccionados", p.55); ainda que o nome de Jorge Mario Bergoglio tivesse surgido com força no conclave que elegeu Ratzinger, a partir daí não mais tinha aparecido e o Papa Emérito não estava a pensar no argentino para Papa ("mas depois a sua forma, por um lado, de rezar e, por outro, de falar ao coração das pessoas acendeu imediatamente a centelha", p.54). Conhecia-o das visitas ad limina, tinha-o como um homem resoluto da argentina ("alguém que, na Argentina, de um modo bastante resoluto, afirmava: 'Isto faz-se e isto não se faz». Não conhecia a sua faceta afectuosa, de dedicação muito pessoal às pessoas", p.55), mas encontrou, agora, um afecto, um apego às pessoas, um calor que desconhecia. 
Francisco não consulta Bento XVI constantemente. Mas envia-lhe documentos - como exortações apostólicas - com especial reverência e simpatia. Sobre a Evangelii Gaudium: "Não é um texto pequeno, mas é bonito. Foi escrito de uma forma que nos prende. Certamente nem tudo é dele, mas contém muita informação pessoal" (p.59). Ou seja, Francisco "é certamente também um Papa da reflexão. Ao ler a exortação apostólica Evangelii Gaudium ou ainda as entrevistas, constato que é uma pessoa meditativa, alguém que trabalha intelectualmente as questões modernas" (p.57). Em todo o caso, Bento XVI acha "bem que que ele [Francisco] estabeleça um contacto tão direto com as pessoas, Pergunto-me naturalmente, quanto tempo é que ele irá aguentar, porque duzentos ou mais apertos de mão, e por aí adiante, todas as quartas-feiras, exige muita-força" (p.58) Vindo da Argentina, o Papa Francisco é também italiano, símbolo de uma união entre o antigo e o novo, no mundo católico que assim bebe uma inspiração tão necessária:

"Significa que a Igreja se mexe, é dinâmica e aberta e nela estão em curso novos desenvolvimentos. Significa que ela não ficou cristalizada num qualquer modelo. Antes pelo contrário, há sempre qualquer coisa de surpreendente a acontecer, ela tem uma dinâmica que a pode renovar constantemente. Admirável e encorajador  é o facto de precisamente também no nosso tempo acontecerem coisas de que não estávamos à espera e que mostram que a Igreja está viva e cheia de novas possibilidades. Por outro lado, era de esperar que a América do Sul tivesse um papel importante.  É o maior continente católico e, ao mesmo tempo, o mais sofredor e o mais problemático. Possui de facto grandes bispos e, apesar de todo o sofrimento e todos os problemas, também conta com uma Igreja muito dinâmica. Nessa medida, de alguma forma, era também a hora da América do Sul, sendo que o novo Papa é simultaneamente interior entre o antigo e o novo mundo, bem como a unidade interior da História (...) É evidente que a Europa já não é o centro da Igreja Universal. Pelo contrário, a Igreja surge agora verdadeiramente na sua universalidade, tendo o mesmo peso em todos os continentes. A Europa mantém a sua responsabilidade, as suas tarefas específicas. A fé na Europa tem-se enfraquecido de tal maneira que isso, só por si, faz com que apenas de forma limitada ela consiga ser a verdadeira força impulsionadora da Igreja Universal e da fé na Igreja. E vemos também que, através de novos elementos (por exemplo africanos, sul-americanos ou filipinos), há uma nova dinâmica que entra na Igreja e renova um pouco o Ocidente cansado, volta a dinamizá-lo, desperta-o mais uma vez do cansaço, do esquecimento da sua fé. Quando penso designadamente na Alemanha, lembro-me de que aí há certamente uma fé viva e um profundo empenho em Deus e nas pessoas. Contudo, por outro lado, temos o poder das burocracias, que está presente, a teorização da fé, a politização e a falta de uma dinâmica viva, que ainda por cima, sob o peso das estruturas, muitas vezes parece ser quase esmagada, pelo que a valorização de outros pesos na Igreja Universal e a nova evangelização  da Europa a partir do exterior são encorajadoras. (...) Não é apenas a Igreja, no seu todo, que influencia a igreja local. Segundo São Paulo, a doença de um qualquer membro afecta todos. O empobrecimento da fé na Europa, por exemplo, é também uma doença para os outros continentes" (pp.56-57 e 60)

Uma renúncia explicada


Sobre a renúncia de Bento XVI, a explicação do próprio não eliminará as desconfianças de muitos, nem, evidentemente, poderia (poderá) esgotar a leitura (plural) do seu significado. No entanto, sobre este ponto, o Papa Emérito, no livro de entrevistas com Peter Seewald, Conversas Finais, é bem claro, ao afirmar que não foi empurrado, nem pressionado para sair - e, caso tal tivesse sucedido, então é que permaneceria, mesmo, no cargo. Nem, tão pouco, em algum momento, causaria um escândalo para provocar uma limpeza na Igreja (p.50). Pareceu-lhe que o que tinha a dar, estava dado (à Igreja), o cansaço das viagens ao México e Cuba tremendos, o horizonte das Jornadas Mundiais da Juventude, no Brasil, demasiado penoso - o médico proibira-lhe viagens para a América. Só porque tudo estava pacificado, aduz, pôde tomar a decisão, comunicada em latim (p.44), porque uma decisão tão relevante teria que ter tal solenidade. A ideia de que já não consegue cumprir as funções inerentes ao Pontificado pode cair em âmbito de uma interpretação excessivamente "funcionalista", da sua parte, do Papado, mas há limites que lhe pareceram, mesmo, inultrapassáveis. O exemplo de João Paulo II estava contextualizado num Pontificado longo, num século em que o seu antecessor tinha carregado "o mundo aos ombros" e aquele martírio se incluía em tal lógica; a um pontificado de 8 anos, não poderia juntar-se 8 anos no mesmo estádio de doença (que se vira a J.Paulo II). E, na verdade, "não podíamos repetir a experiência [de J.Paulo II] indefinidamente" (p.48). Em todo o caso, o entrevistador não deixa de questionar, comentando o significado de um gesto: "Não foi certamente por acaso que a sua última grande celebração litúrgica coincidiu com a Quarta-feira de Cinzas. Foi como se dissesse: «vejam, era até aqui que eu vos queria conduzir: purificação, jejum, arrependimento"(p.61). Ao que Bento XVI responde, não contraditando propriamente in limine, no fim da resposta: "Ter, por um lado, o Sábado Santo a prevalecer sobre o início da minha vida e, por outro, a Quarta-feira de Cinzas, com os seus múltiplos significados, a recair sobre o fim do meu serviço concreto foi algo pensado, mas também aconteceu assim" (p.61). Rejeitando a ideia de que com a sua decisão tenha secularizado ("um cargo como os outros") o Papado (até porque, exemplifica, também os Bispos não ficam no lugar até ao fim, o que não os dispensa de particulares responsabilidades e cuidado para com a ecclesia), Bento XVI reconhece, contudo, que com a sua renúncia "o carácter humano [do Papado] se tenha tornado mais evidente"(p.54). Talvez o choque tenha sido superior ao que o próprio pensava, houve quem gostando da sua mensagem se sentisse em luto pela perda de um mestre, mas não dormiu especialmente mal na noite anterior de revelar a sua decisão, tomada em Agosto de 2012, aos cardeais e ao mundo. Peter Seewald que fez um conjunto de livros-entrevista com Joseph Ratzinger, e ganhou a sua consideração, não tem dúvidas na nota que deixa na Introdução: "por fim, mas não menos importante, o acto histórico da sua renúncia transformou profundamente o ministério petrino. Devolveu-lhe a dimensão espiritual que lhe tinha sido originalmente confiada" (p.22)

Uma auto-crítica


Provavelmente, não estive de facto muito no meio das pessoas.

[Bento XVI, questionado por Peter Seewald, acerca de que características do seu Pontificado estariam a ser corrigidas pelo Pontificado do Papa Francisco, Bento XVI. Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.58]

O prazer da contestação


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Sim, ele está cá, o prazer da contestação, é verdade.

[Bento XVI, questionado por Peter Seewald, sobre a rebeldia como uma das características de personalidade - em episódios desde a escola, até ao treino militar - em si presentes, em Bento XVI.Conversas finais com Peter Seewald, D.Quixote, Lisboa, 2017, p.79]

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Memória


Nesta semana em que terão lugar as Jornadas Mundiais da Juventude, na Polónia, com o Papa Francisco a visitar Auschwitz em silêncio, recordo o que escrevi há mais de 10 anos, quando outra visita, a do Papa Bento XVI, e o discurso que então pronunciou no que fora o lager da vergonha foi objecto de ampla discussão pública. Fica, pois, a minha crónica de 22-06-2006 no Lamego Hoje:


Bento XVI. Em Auschwitz.  

No discurso proferido a 28 de Maio de 2006, na visita efectuada ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, Bento XVI voltou, felizmente, a inquietar os espíritos. E a ser discutido. Virulentamente criticado (veja-se, por todos, Rui Tavares e Vasco Pulido Valente, Público, 3 e 4/06/06, respectivamente) e enfaticamente aplaudido (por todos, João Bénard da Costa, Público, 4/06/06).  
Li também, com a maior atenção e interesse, as cerca de três substantivas páginas que compuseram a subjectividade do olhar Papal germânico sobre o lugar do horror (já disponíveis na íntegra e também em português no excelente sitio do Vaticano: www.vatican.va).
Percebera já em Deus Caritas Est, a primeira encíclica deste pontificado, que na dissertação do líder católico tudo estava arrumado, em su sítio, como numa encíclopédia (peço a comparação de empréstimo a Frei Bento Domingues, se bem que valore de modo bem mais positivo esse facto, do que me pareceu fazê-lo este autor, no comentário ao primeiro texto fundamental de Bento XVI). Cada palavra pesada. Explicada. Interpretada. Um texto de grande densidade, muito fundamentado do ponto de vista histórico/filosófico, etimológico/conceptual, de uma clareza cristalina. Isto, se quisermos, de um ponto de vista estético. De um ponto de vista ético, quanto ao conteúdo/mensagem, a assumpção de que uma das acepções de amor, o eros, comporta uma dimensão carnal, tida como um dos fundamentos de um amor completo - “Se o homem pretendesse ser apenas espírito e quisesse afastar a carne como se (esta) fosse uma herança meramente animal, espírito e corpo perderiam a sua dignidade”, sendo que “Se pelo contrário, repudia o espírito e portanto considera a matéria, o corpo como realidade exclusiva, malogra igualmente a sua grandeza”; “Só quando alma e corpo se fundem verdadeiramente numa unidade, o homem é plenamente ele” – ainda que a marca de novidade cristã, neste domínio, seja o agapé - o amor que deixa de ser egoísta e se centra no outro, o amor que “já não se busca a si mesmo, não se some na embriaguez da felicidade, antes anseia melhor o bem do amado: converte-se em renúncia, está disposto ao sacrifício, mais ainda, à busca” - fez-me entender que a sua resistência ao tempo, de que o repúdio do relativismo moral era vivo exemplo, significava agora que a (sua) tão glosada ortodoxia enquanto Ratzinger (certamente não sem razão por parte dos críticos, dentro e fora da Igreja; estou lendo a sua obra, guardando, pois, por ora, juízo sobre tal adjectivação) daria lugar a infirmações de tais proclamações a propósito de Bento XVI (este descomplexado e, digamos assim, nada moralista entendimento e valorização do lado carnal, no amor, suplantando platonismos ou cartesianismos, porventura demasiado estreitos, é disso indício).
Sabendo que nada viria, pois, ao acaso, entrei pelo discurso proferido em Auschwitz, anotando, desde logo, as três citações bíblicas feitas pelo Santo Padre: duas dos Salmos; outra do Deutoronómio. Extensas e decisivas na compreensão do texto, as transcrições dos Salmos (com que, ademais, se encerra a meditação papal). Querendo isto dizer alguma coisa, o que significava, afinal? Os Salmos devem ser lidos e compreendidos como o lugar do diálogo com um Deus ao mesmo tempo acessível e temeroso (...) O coração dos Salmos é o da familiaridade sublime de um Deus que se deixa convocar, suplicar, não como Deus da justiça e da cólera, mas já como um Pai que nos conduz pela mão e sustenta com a sua direita. O louvor que lhe é devido é íntimo reconhecimento não apenas, ou antes de tudo, do Criador do Céu, da lua, das brilhantes estrelas (...)mas d´Aquele que fala na nossa fala, que é mais íntimo a nós mesmos que nós mesmos como diria mais tarde Santo Agostinho” (Eduardo Lourenço, num comentário aos Salmos, a que chamou O Canto de Deus, numa edição, com diferentes autores a comentarem os vários livros que compõem a Bíblia, da Três Sinais Editores, em 2001). Se atentarmos nesta pré-compreensão da essência salmista, verificaremos do rigor da escolha papal, na precisão do verbo enxertado no praticamente indizível e incomunicável, e partiremos em busca do alcance da palavra metódica de Bento XVI, sem cabeças e corações frios (Bénard da Costa). Uma das críticas apontadas ao líder da Igreja Católica, foi a de pretender julgar Deus – “Senhor, porque silenciaste? Por que toleraste tudo isto?”- evitando, assim, a crítica ao comportamento humano e, muito particularmente, á actuação da Igreja durante o Holocausto. Bastaria, porém, ler as palavras de Bento XVI - “enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição” – para facilmente concluirmos do mal fundado de tal observação. Quem não perceber, na verdade, que vós, porém, éreis mais íntimo que o meu próprio íntimo e mais sublime que o ápice do meu ser (Santo Agostinho), dificilmente acederá ao âmago do pensamento do sumo pontífice, quando este refere que “o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo”. Ou dito ainda sob outra forma, e regressando ao substracto bíblico de que o discurso em apreço participa, as formas múltiplas de louvor ou de solicitação da benevolência divina estão inscritas nesse sentimento profundo que os salmistas têm de que são eles menos que interpelam Deus de que Deus fala neles. O enraizamento do ser na realidade divina é absoluto e sem essa convicção o canto não teria podido nascer (Eduardo Lourenço).  
Quanto às responsabilidades da Igreja Católica, nomeadamente por omissão, em tempo de Holocausto, penso que não apenas vale a pena esperar por toda uma investigação crítica à acção de Pio XII, como registar o que escreveu, por estes dias, António Marujo (especialista do Publico em questões religiosas) sobre esta matéria: que, ao que se sabe, foi inclusivamente pedido, por resistentes e oponentes ao regime nazi, ao Papa de então, que não se pronunciasse sobre a matéria, porque poderia prejudicar ainda mais os alvos da indigência nacional-socialista. Ainda mais (?!), questionamo-nos hoje. Como seria tal possível?! Temos demasiadas interrogações, que deixaremos aos historiadores desvendar. Não ficaremos, contudo, abrigados sob o manto diáfano de uma (jurídica) dúvida razoável. Para a Igreja, aliás, a questão mais do que ao nível da responsabilidade em face do Direito, da culpa, coloca-se, obviamente, na natureza do pecado (ofensa a Deus). De resto, como bem notou o insuspeito Jurgen Habermas (numa teorização intitulada Fé e Saber, em 14 Outubro de 2001, em Frankfurt), nem sempre a passagem à linguagem secular se fez sem perdas: Quando o pecado se converteu em mera culpa, algo se perdeu. Pois a busca do perdão dos pecados leva associado o desejo, bem afastado de qualquer sentimentalismo, de que possa dar-se por não realizada, de que possa ser reversível, a dor que se inflingiu ao próximo. Se há algo que não nos deixa em paz, é a irreversibilidade da dor passada, a irreversibilidade da injustiça sofrida pelos inocentes maltratados, humilhados e assassinados, uma injustiça, que, por (ser) pretérita, está para além de quaisquer medidas de uma possível reparação que pudesse estar nas mãos do homem. A perda da esperança na ressurreição não faz senão deixar atrás de si um vazio bem tangível. 
Assim, não deixará de doer, particularmente, à igreja, por exemplo, que em 1950, o padre franciscano Edoardo Domoter, supostamente com a colaboração do bispo Alois Hudal, tenha fornecido um passaporte falso de refugiado da cruz Vermelha com o nome de Ricardo Klement a alguém como Adolf Eichmann, podendo este, desta sorte, eximir-se de responder pelos seus actos (estamos a falar de um dos homens da máquina nazi, que acabaria capturado na Argentina, pela Mossad, sendo julgado, condenado e executado em Israel), como, ao invés, não deixará de a orgulhar as famílias cristãs (católicas) que ajudaram a esconder judeus e, sobretudo, a dádiva daqueles, que, por ajudarem o seu próximo perseguido, acabaram executados.   
Vale a pena falar e criticar os cobardes, reprovar a hierarquia pelo que fez de mal ou pelo que não fez; esta, como, aliás, a Igreja como um todo, sem acrimónia ou revisionismos históricos, não tem mais que buscar o perdão, como expressão de um arrependimento que crê na ressurreição (o gesto, em meu entender corajoso e virtuoso, de João Paulo II, ao pedir perdão pelos pecados, crimes em que a Igreja esteve envolvida ao longo dos séculos, teve o condão de não agradar aos mais ortodoxos dentro da comunidade católica, nem aos que medem tudo pelo útil, fora dela); mas convém lembrar, mais que quaisquer outros, os que se fizeram Cristos na Terra e deram o exemplo da convicção e da coragem Do amor. Da vida. Dos padres mais anónimos, ao leigo mais humilde, também eles foram/são igreja.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Deus Caritas Est - 10 anos


Ontem e hoje (25 e 26/02) decorreu no Vaticano um Congresso Internacional para celebrar, debater, conferenciar, os 10 anos da encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI. Relembro bem o entusiasmo, a surpresa refrescante, a alegria que me invadiu, o texto magnífico, a busca filológica, as concepções filosóficas, o amor nas suas diversas configurações, os autores mais diversos conhecidos de cor, o fel de Nietzsche e o mel do agapê como novidade neo-testamentária tão delicadamente explicados. No acolhimento do corpo, na ironia de dois ilustres que se cumprimentavam galhardamente ("oh corpo!", ao que o outro retorquía "oh, alma"), a hospitalidade do homem todo. Um texto inicial - nunca há uma segunda oportunidade para se causar uma primeira impressão - que desmentia, para quem queria saber, para quem queria ler, para os que levavam a sério o ofício de participarem, todo um prognóstico/agenda eivado de um preconceito negativo para com Ratzinger. Uma encíclica que agarra o leitor a um pontificado, que faz de imediato intuir um estilo, que reclama atenção, que exige estudo e preparação, que quer gente com razões, e razão crente. Um marco que convém, de facto, festejar. Uma encíclica inesquecível.


sexta-feira, 31 de julho de 2015

IOR



No documentário Dinheiro sagrado (uma co-produção de que fez parte a ZDF Arte e que a RTP2 transmitiu, conduzido pelo historiador John Dickie), John Allen, um (re)conhecido especialista em questões relacionadas com o Vaticano, afirmava que o Papa Francisco era escolha, para Sumo Pontífice, "mais anti-establishment dos últimos 100 anos", decorrente do estado muito complicado de inúmeras situações na Santa Sé, mas, em particular, dos problemas ligados ao IOR. Francisco não teria/terá que ser apenas um reformador, mas, dada a magnitude das reformas, um reformador necessariamente muito veloz e contundente.
O que o documentário evidencia é que muitos erros e conflitos éticos que contendem com o chamado Banco do Vaticano, mas ainda do tratamento de questões de dinheiro na Igreja se prendem com inúmeras e diversificadas causas: a) problemas de gestão em diferentes paróquias, ou dioceses, no mundo por falta de formação de eclesiásticos ou leigos a quem se confia, por vezes, essa missão; b) ingenuidade na ausência de mecanismos de controlo, supervisão, monitorização quando, por exemplo, a colecta recolhida fica apenas a encargo de uma pessoa (não se curando aqui de tentações que se impõem à natureza humana); c) introdução, nas esferas eclesiásticas, de pessoas com carácter deficiente que procuraram actuar sob a capa da Igreja para melhor prosperar financeiramente; d) sedução ideológica (o exemplo de Maribor, na Eslovénia, logo após a queda do comunismo e o triunfo imponente de um dado modelo de capitalismo, onde a Diocese perdeu 800 milhões, depois de investimentos que versaram a indústria química, petrolífera, empresas audiovisuais, mesmo que transmitindo estas conteúdos hardcore); e) as contas a serem abertas no IOR terem que ser em nome de uma instituição, uma congregação religiosa, uma Diocese, etc., e, na medida em que o dinheiro chegava do interior da Igreja entendia-se que não era de bom tom escrutinar a obtenção do mesmo; f) nos últimos anos, a questão da pedofilia fez com que cerca de 10 Dioceses nos EUA fossem à falência e, em indemnizações se pagasse, naquele país, 3,3 mil milhões de euros; g) a questão patrimonial, em grande escala, mormente ao nível imobiliário, coloca-se, para a Igreja, com os Pactos de Latrão, altura em que Mussolini revê aquilo que a Igreja perdera com a unificação da Itália, em 1870, devolvendo um grande património a esta.
De acordo com este documentário, há 19 mil clientes do IOR, gerando/movimentando 6 mil milhões de euros. Em 2010, Bento XVI, visto por este ensaio sobre a Igreja e o dinheiro à luz de alguns escândalos dos últimos anos, como um reformador que a Cúria queria travar, iniciou o processo de supervisão financeira, de legislação conducente a evitar a repetição de problemas como os que estavam a ser observados, sendo que cumpre agora a Francisco acelerar o processo (numa das suas viagens, no avião, colocou mesmo, como possibilidade, o encerramento do IOR no horizonte: "ouço vozes [a sugerir isso]...não sei").
Entre a necessidade de dinheiro para fazer o bem e a advertência, múltipla, evangélica dos perigos que face a este se incorre, eis "uma relação de amor-ódio" (sic) que com dificuldade se afasta por completo.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma tese (VII)


No mundo “poroso”, para que o sistema (comunitário) fosse perene necessidade havia, contudo, de escapes, de um respirar outro, de um fora, de entre os quais/no qual o Carnaval se destacava. A ordem reclamava, ainda que por momentos, o caos. Princípios contraditórios coexistem, então, buscando-se uma combinação sinergética: “todos os códigos precisam de ser contrabalançados, por vezes mesmo afundados na sua negação, sob pena de rigidez, enfraquecimento, atrofia da coesão social, cegueira, talvez em última análise de autodestruição”[1]. Esta sabedoria como que continua a não ser-nos estranha: sentimos, em diferentes ocasiões, a pertinência de propiciar descontinuidades em nosso rotineiro existir. Há, sem embargo, aqui, uma diferença de tomo, quando ponderamos as diferentes sociedades em presença: em uma etapa, como a nossa, na qual o pluralismo tende a ser a norma, nem toda a sociedade, diferentemente de antanho, adere a esta urgência de encontrar uma antiestrutura e, tão pouco e não menos determinantemente, de a codificar no ordenamento jurídico-político.
As premissas que contextualizam a transformação operada são as que separam a compreensão de um enxertar do humano em um cosmos mais vasto, funcionando o anticódigo como quesito para um alinhamento do Homem com esse horizonte amplo em que se integra, de uma divergente intelecção da realidade, a partir da qual se dá o “eclipse desse sentido de complementaridade (…) que precedeu e contribuiu para ocasionar a secularização do espaço público”[2]. O que é singular, em nosso tempo, não é bem a ideia/tentação de legislarmos em absoluta independência (etsi cosmos non daretur); é termos sucumbido a ela. E em esse desistir de uma prudente resistência, a queda no espírito do totalitarismo: “a ideia de que um código não necessitasse de deixar espaço ao princípio que o contradiz, de que não seria necessário um limite à sua aplicação (…) constitui o espírito do totalitarismo”[3]. A utopia é o código perfeito que não carece, nem admite restrições, limites, travões – tradicionais; e, nomeadamente, morais - de acção. Ora,
“visto que o homem permanece sempre livre e dado que a sua liberdade é também sempre frágil, não existirá jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado. Quem prometesse o mundo melhor que duraria irrevocavelmente para sempre, faria uma promessa falsa; ignora a liberdade humana. A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. A livre adesão ao bem nunca acontece simplesmente por si mesma. Se houvesse estruturas que fixassem de modo irrevogável uma determinada – boa – condição do mundo, ficaria negada a liberdade do homem e, por este motivo, não seriam de modo algum, em definitivo, boas estruturas”[4].

Os regimes demo-liberais contemporâneos, em não caindo, é certo, nos extremos dos sistemas autoritários, e sem prescindir da consideração pela antiestrutura, relegaram-na para o espaço privado – as esferas da arte, da música, da literatura, do pensamento, da vida religiosa, “sem as quais a nossa libertação pessoal seria radicalmente empobrecida”[5], devem desenvolvidas entre família e amigos, em associações; portanto, a base de vinculação é voluntária, as possibilidades de criação infinitas, mas ilimitado, também, o perigo de isolamento e perda de significado. Hoje, por hoje
“o apelo da antiestrutura ainda é forte no nosso mundo altamente interdependente, tecnológico e superburocratizado. De certa maneira, mais poderoso do que nunca. Uma torrente de protestos, contra o controlo central, a disciplina excessiva, a tirania da razão instrumental, as forças da conformidade, a violação da natureza, a eutanásia da imaginação, acompanharam o desenvolvimento desta sociedade, nos últimos dois séculos. Chegaram a um clímax, recentemente, nos anos sessenta e setenta, e podemos estar certos de que não será o último”[6].

Uma quarta acepção de secularização, nos termos de Charles Taylor, passa pela noção de tempo: as pessoas que vivem no saeculum estão implantadas no tempo comum, vivem a vida do tempo comum; opõe-se, pois, aos que vivem mais próximos da eternidade, em um tempo superior. Secularidade será o tempo comum (por contraponto ao tempo superior). Ora, e “porque são os tempos superiores, superiores?”. A resposta, “para a eternidade que a Europa herda de Platão e da filosofia grega” não se afigura impenetrável: “o ser pleno, realmente real, está fora do tempo, imutável. O tempo é uma imagem em movimento da eternidade. Ele é imperfeito ou tende à imperfeição”[7].
A ideia que sobre o tempo o Cristianismo desenvolve, sem precludir a herança recebida, oferece novos motivos:
“A Bíblia vê o universo como feito por Deus. E conta, igualmente, uma história das relações de Deus com os humanos. Esta história divina-humana é incompatível com a ideia de que há ciclos que se repetem de forma contínua. E significa que o que acontece no tempo é importante. Deus entra no drama no tempo devido. A Encarnação, a Crucificação acontecem no tempo e, assim, o que acontece aqui já não pode ser visto como menos do que perfeitamente real. De onde emerge uma outra ideia de eternidade. Quando concebido à maneira de Platão e, depois dele, Plotino, o nosso caminho para Deus reside na nossa ascensão para fora do tempo. E também Deus, como impassível, para lá do tempo, não pode realmente ser um interveniente na história. A concepção cristã tem de ser diferente disto (…) A sua formulação mais conhecida no Cristianismo Latino é a de Santo Agostinho. Com ele a eternidade é reconcebida como tempo reunido”[8]

Santo Agostinho sustenta que Deus pode tornar, e de facto assim faz, todo o tempo num tal instante de acção. Deste modo, todos os tempos são para ele presente e ele conserva-os na sua simultaneidade alargada. O seu agora contém todo o tempo (Para sempre – é composto de Agoras, escreverá/imprimirá em inversa face da moeda, Emily Dickinson[9]). À eternidade só podemos aceder pela participação na vida de Deus, facto pelo qual a Sexta-feira Santa deste ano pode estar mais próxima da Crucificação, do que um dia de meio do Verão passado. “E a própria Crucificação, uma vez que a ação/paixão de Cristo participa aqui na eternidade de Deus, está mais próxima de todos os tempos do que eles estão entre si em termos seculares”[10]. Os tempos seculares não são homogéneos, mas “coloridos pela sua posição em relação aos tempos superiores”. Mas, diversamente, na consciência moderna, o tempo, como o espaço, tornou-se “num contentor, indiferente ao que o preenche”[11]. Quer dizer,

“as disciplinas da nossa ordem civilizada moderna conduziram-nos a medir e organizar o tempo, como nunca antes na história humana. O tempo tornou-se num recurso precioso, a não ‘desperdiçar’. O resultado foi a criação de um rigoroso ambiente temporal ordenado. Este envolveu-nos, até se tornar como que natural. Construímos um ambiente em que vivemos um tempo secular unívoco, uniforme, que tentamos medir e controlar de modo a conseguir realizar coisas. Esta ‘moldura temporal’ merece, talvez mais do que qualquer outra faceta da modernidade, a famosa descrição de Webber de uma ‘stahlhartes Gehause’ (jaula de ferro). Ela veda a passagem de todos os tempos superiores, torna-os ainda mais difíceis de conceber”[12].      





[1] Charles TAYLOR, A era secular, 63.
[2] Ibidem.
[3] Ibidem.
[4] BENTO XVI, Carta encíclica Spe Salvi, 24, Paulus, Lisboa, 2008. Mais: “Portanto, não há dúvida de que um ‘reino de Deus’ realizado sem Deus – e por conseguinte um reino somente do homem – resolve-se inevitavelmente no ‘fim perverso’ de todas as coisas (…) Digamos isto de uma forma mais simples: o homem tem necessidade de Deus; de contrário, fica privado de esperança”, in Ibidem, 23.
[5] Charles TAYLOR, A era secular, 65.
[6] Ibidem, 65-66.
[7] Ibidem, 68.
[8] Ibidem.
[9] Emily DICKINSON, Duzentos poemas, Relógio D’Água, Lisboa, 2014, 97.
[10] Charles TAYLOR, A era secular, 70.
[11] Ibidem.
[12] Ibidem, 72.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Uma tese


INTRODUÇÃO

Em um mundo em constante devir, as referências parecem erodidas no magma de ruídos que perpassam a cidade, caracteristicamente diversa e, por isso, ciosa de uma palavra supostamente neutra que a atravessa.
Descobre-se, contudo, aturdida, por vezes, a polis, na cacofonia que a percorre, e requer razões densas e substantivadas, diríamos com memória e experiência, para que valha a pena fazer silêncio e escutar.
Em uma estação secular, como aquela que tendemos a reconhecer, hoje, a Ocidente, que papel, afinal, para a religião e, em particular, para a tradição judaico-cristã, geradora de valores e realizações, neste espaço, nos últimos dois mil anos?
Quando os quotidianos, quase sem excepções, em esta geografia, são marcados por uma crise que interpela política e ética, economia e axiologia, impor-se-á, porventura, um tempo em que, de modo radical, questionemos o modo como nos organizamos colectivamente, as instituições que criámos, as vozes a que damos guarida.
Neste Relatório, procurar-se-à, desde logo, compreender os exactos termos, conceitos, expressões, acomodações históricas, de que se revestiram expressões como “secularidade” ou “laicidade”, eventuais declinações que, partindo destas raízes, se foram forjando. Principiaremos, pois, no capitulo I, por esclarecer o que dizemos quando recorremos a tais vocábulos, a vida que foram conhecendo, a polemização que originaram e prosseguiremos, identificando, em especial com Charles Taylor, as acepções, mais desenvolvidas e teorizadas, as balizas e critérios que são utilizados, em nossos dias, para descrever a realidade como – mais, em uns casos, ou menos, em outros – secularizada.
Em um segundo momento, atentaremos em um acervo de significativas elaborações, de pensadores relevantes no nosso humano caminhar, de Nicolau Maquiavel a Hannah Arendt, para registar as (contundentes) objecções colocadas à relação cristianismo-política, isto é, à presença do cristão na política, na cidade.
A explicitação de uma motivação (muito) argumentada/ancorada teologicamente para sustentar a – obrigação de – participação do cristão/católico no espaço público, na vida política, nomeadamente através da proposta (teológica) de Jean-Baptist Metz, contar-se-á como fundamental resposta às contestações vindas de assinalar e, do mesmo passo, um dos momentos que cremos determinantes da presente exposição. Assim se concluirá o capítulo II.
A que se soma, igualmente, no terceiro capítulo, a arguição, em diálogo com autores clássicos do pensamento que o liberalismo político consubstancia, de que a voz religiosa, a razão crente, as motivações de cada cidadão, de cada pessoa, para assentir em uma dada concepção de justiça, podem remeter, ultima ratio, para uma tradição que não pode sonegar-se, sob pena de uma mutilação (humana) injustificável – e assim se julga poder contribuir para a superação de um secularismo redutor.
Finalmente, em alegando, nós, a imprescindibilidade de um singular contributo advindo da tradição judaico-cristã, em especial formulado pela Igreja Católica, mister será proceder a tal demonstração, realizando, em este domínio, um conjunto de sublinhados a partir da encíclica Caridade na verdade, de Bento XVI, conquanto as suas demandas de reforma global continuam a colocar-se com grande acuidade. Fá-lo-emos, bem entendido, em permanente diálogo com um vasto conjunto de elaborações que procuram, também, em este momento, enriquecer a cidade e os que nela habitam.
Determinados a, com mais e melhores razões, ensinarmos mais claramente e em profundidade, apresentaremos, suportados nos elementos propiciados pelo presente excurso, um dispositivo/proposta didáctica para o ensino secundário (11º ano), tendo em conta a Unidade Lectiva “Política, Ética e Religião”, na qual as matérias que aqui se investigaram são acolhidas.

Capitulo I – contornos e ambiguidades de uma era secular


De que tonalidades se faz um tempo? Não se furtará este a delimitadas fronteiras que procuram captá-lo (capturá-lo) com absoluta nitidez? E não avançamos, nós, também, para ele, para o tempo (furtivo), com categorias e esquemas rígidos de classificação (pré-formatados)? De resto, estaremos nós, habitantes deste tempo, em condições bastantes para o cartografar, seja porque gostaríamos de nos afastar para que a sua imagem refulgisse com insuperável transparência (e contingente é a nossa condição), seja porque procedemos a comparações que implicam colocarmo-nos em tempos remotos, épocas nas quais nos adentramos, necessariamente, com certa timidez, prudência e cautela? E será, este, ainda, um tempo uniforme, ou, como raramente sucedeu em universos menos interdependentes, temos a exacta noção de como vivemos, à escala global, tempos diferentes, penetrados por colorações de sentido divergente?
            A demanda de esboçar um acervo de referências que tornem o nosso tempo inteligível, afinal uma impreterível necessidade (de racionalidade), não pode deixar de constituir-se como ambicioso móbil, enxertado que se encontra na precaridade de certezas absolutas que, ademais, vêm sendo abaladas pelos próprios enunciadores de leituras sem adversativas. No que à presença do religioso, em nossas sociedades, diz respeito, já se afirmou tudo – a morte de Deus, o desencantamento do mundo, uma secularização absoluta e irrevogável – e o seu contrário – a dessecularização, o regresso de Deus, o reencantamento do mundo. Mais: houve já quem, fixando-se, em uma aproximação inicial, em um dos pólos, no interior deste tipo de enunciados/descrições, tivesse feito mea culpa (epistemológico/metodológico) e caminhado para o seu exacto oposto. Há, adicionalmente, modos outros de matizar conclusões, de rever problematizações, de mitigar perentoriedades, e constroem-se, frequentemente, novos instrumentos analíticos, critérios de aferição que são reivindicados como mais pertinentes - do que aqueles que os precederam - para sistematizar a realidade.
            Conscientemente, como que seguindo a pegada de sólidos investigadores, tomamos/damos nota do que sugerimos serem os (possíveis) contornos e as (inevitáveis/inescapáveis) ambiguidades de uma estação humana (necessariamente complexa). Uma era secular? Sim (e cabe explicar porque “sim”), mas (e cumpre elucidar porque “mas”).


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Guerras



Inventariando as possibilidades próximas de uma guerra, Paulo Rangel, em entrevista a António José Teixeira, no último Sábado (SicNotícias), aludiu às reiteradas palavras do Papa Francisco sobre uma Terceira Guerra Mundial (e até a Ratzinger/Bento XVI pela sua alusão a Bento XV).
Na encíclica Laudato si, Francisco fala expressamente em um “cenário favorável a novas guerras” (nº57). Este cenário tem que ver com os recursos (naturais) que se esgotam.
A este propósito, escreve o Santo Padre, se a dívida financeira faz com que alguns países pobres sejam controlados por outros (não pobres), todavia esquece-se que estes últimos contraíram para com os primeiros, em não raros casos, uma dívida ecológica, dada a riqueza da biosfera presente nos ditos países, utilizada por terceiros. Um olhar que não seja redutor, uma “ecologia integral”, com horizontes amplos – que faltam a muitos governos, na crítica feita pelo Papa -, que se pretendem inscritos no documento dirigido a todos os habitantes do Planeta (nº3), tem por consequência olhar a todas as – a todo o tipo de – dívidas. Para que não haja guerras. Até porque, ao olharmos para questões concretas como a da privatização da água (nº30), teremos sempre de ter em conta e garantir que não se privam os mais pobres do acesso a esta, indispensável à vida.
De resto, “é previsível que o controle da água por grandes empresas multinacionais se transforme numa das principais fontes de conflito deste século” (nº31).

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Surpresa


Ouvir Pedro Abrunhosa, sobre o que é a arte, a citar Bento XVI, em entrevista a Vítor Gonçalves, na Grande Entrevista, da RTPInformação. Certamente, referindo-se ao encontro com os Artistas, promovido em Novembro de 2009, na Capela Sistina, num dos discursos significativos daquele Pontificado (leia-se aqui ).


sábado, 15 de dezembro de 2012

Para construir paz


Mais um texto extremamente oportuno e assertivo de Bento XVI, em que deveriam meditar, especialmente, os que, afirmando ter na sua base (doutrinária) a Doutrina Social da Igreja degradam, incessantemente, com as leis que introduzem/apoiam, o valor do trabalho, "o estatuto jurídico dos trabalhadores", a sua dignidade e, bem assim, entendem o Estado Social como um empecilho que convém limitar a um mínimo.
 
 
Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado (…) A bem-aventurança de Jesus diz que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana. Na verdade, a paz pressupõe um humanismo aberto à transcendência; é fruto do dom recíproco, de um mútuo enriquecimento, graças ao dom que provém de Deus e nos permite viver com os outros e para os outros. A ética da paz é uma ética de comunhão e partilha. Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem antropologias e éticas fundadas sobre motivos teorico-práticos meramente subjectivistas e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por Deus na consciência de cada homem. A paz é construção em termos racionais e morais da convivência, fundando-a sobre um alicerce cuja medida não é criada pelo homem, mas por Deus (…) Caminho para a consecução do bem comum e da paz é, antes de mais nada, o respeito pela vida humana, considerada na multiplicidade dos seus aspectos, a começar da concepção, passando pelo seu desenvolvimento até ao fim natural. Assim, os verdadeiros obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida humana em todas as suas dimensões: pessoal, comunitária e transcendente. A vida em plenitude é o ápice da paz. Quem deseja a paz não pode tolerar atentados e crimes contra a vida (…) O obreiro da paz deve ter presente também que as ideologias do liberalismo radical e da tecnocracia insinuam, numa percentagem cada vez maior da opinião pública, a convicção de que o crescimento económico se deve conseguir mesmo à custa da erosão da função social do Estado e das redes de solidariedade da sociedade civil, bem como dos direitos e deveres sociais. Ora, há que considerar que estes direitos e deveres são fundamentais para a plena realização de outros, a começar pelos direitos civis e políticos. E, entre os direitos e deveres sociais actualmente mais ameaçados, conta-se o direito ao trabalho. Isto é devido ao facto, que se verifica cada vez mais, de o trabalho e o justo reconhecimento do estatuto jurídico dos trabalhadores não serem adequadamente valorizados, porque o crescimento económico dependeria sobretudo da liberdade total dos mercados. Assim o trabalho é considerado uma variável dependente dos mecanismos económicos e financeiros. A propósito disto, volto a afirmar que não só a dignidade do homem mas também razões económicas, sociais e políticas exigem que se continue «a perseguir como prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção». Para se realizar este ambicioso objectivo, é condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho, fundada em princípios éticos e valores espirituais, que revigore a sua concepção como bem fundamental para a pessoa, a família, a sociedade. A um tal bem corresponde um dever e um direito, que exigem novas e ousadas políticas de trabalho para todos. De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia (…) Para sair da crise financeira e económica actual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa óptica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspectiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom. Concretamente na actividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a actividade económica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos (…) No âmbito económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes económicos e com um controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objectivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua actividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e económico (…) Uma missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais, escolásticas e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para uma reflexão científica que radique as actividades económicas e financeiras numa sólida base antropológica e ética. O mundo actual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz.
Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2013.