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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

E o Brasil


*Um dos dados mais insólitos desta eleição no Brasil prende-se com o facto de a Câmara dos Deputados passar de uns impressionantes 25 partidos que integravam a legislatura 2015-2019, para uns inimagináveis 30 partidos na legislatura que se segue. Sendo que a esta proliferação partidária estava indissociavelmente ligada a questão da "propina", quer dizer, da corrupção. Como convencer, de modo legal, os partidos a aprovar legislação proposta por quem sustenta o Executivo? Vai ser um dos pontos mais curiosos de observar. Honra seja feita, neste ponto, a Geraldo Alckmin, do PSDB, o único a colocar, ainda durante a primeira volta das Presidenciais, nos debates iniciais, a urgência da reforma deste sistema. Depois, veio a facada a Bolsonaro, o fim dos debates e de qualquer outra coisa que não uma gritaria e verbalização de ódio. 

*O Presidente do Brasil tem à sua disposição a nomeação de 24,6 mil pessoas para cargos que lhe incumbe fazer preencher.

*Uma expressão curiosa de Ricardo Alexandre para caracterizar o carisma de Fernando Haddad: "tem tanto de político e de capacidade de empolgar as massas como este escriba de conhecimentos de 'cultura de beterraba em meio hídrico não alcalino', para citar o saudoso mestre António Jorge Branco" (DN, 28-10-2018, p.6)

*Dados ainda da primeira volta das Presidenciais brasileiras: em 95% dos municípios mais ricos do Brasil, Bolsonaro venceu; em 90% dos mais pobres, ganhou Haddad; 70% dos municípios com maioria de população não branca votaram Haddad, 90% das cidades com maioria branca votou Bolsonaro. [o levantamento foi realizado por ElPaís]

*De acordo com Catarina Carvalho, "um estudo recente do Instituto Americano de Imprensa descobriu que mais de metade dos leitores não distinguem entre factos e opiniões - embora mais de 63% preferissem que houvesse mais factos do que opiniões na informação. Entre estes, os que têm mais dificuldades são os que usam a tv como principal meio de informação" (DN, 28-10-2018, p.2). A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.
Curiosamente, diz-nos Julie Posetti, investigadora do Reuters Institute e autora de um manual para a Unesco, "a investigação mais recente sugere que as redes sociais na verdade expõem os utilizadores a mais fontes de informação [e não a bolhas]. O problema é que, como nas redes sociais todas as fontes parecem iguais, é mais fácil manipular os utilizadores. Isso acaba por obrigar os meios de comunicação a ter mais trabalho para merecer a confiança dos leitores. Obriga a criar hábitos de verificação, de transparência e de colaboração com a comunidade. Devo dizer que por um lado estou confiante de que a era digital nos dá mais formas de evitar as tais bolhas, mas ao mesmo tempo isto exige um grau de responsabilidade por parte do utilizador. As notícias foram democratizadas, isso exige mais ao jornalista mas também ao cidadão: não chega simplesmente aceitar a afirmação de um político, é preciso verificar e pensar de forma crítica" (DN, 28-10-2018, p.14). Um estudo muito recente, levado a cabo em Itália e França pelo Reuters Institute, mostra que o consumo de informação em páginas on line de jornais, rádios, tv é maior do que o de páginas de desinformação, mas o número de interconexões - comentários, partilhas, reacções -, geradas por um pequeno número de páginas falsas igualaram ou excederam as interacções com marcas de notícias mais populares.

*Bernardo Pires de Lima dá nota de que, na Holanda, há uma entidade fiscalizadora, que verifica a exequibilidade das propostas dos diferentes partidos ou candidaturas, filtrando a intrujice, o eleitoralismo barato e pugnando a relação entre partidos e cidadãos pela responsabilidade e seriedade.

*Título de artigo de Ruy Castro: "A palavra do ano no Brasil: 'ódio'. E, em segundo lugar, 'medo'."

*Desde 1989 que não havia uma eleição sem debates entre os candidatos (como agora se verificou na segunda volta, por opção de Jair Bolsonaro).

*Confirmou-se que, pelo menos até ao presente, nunca um candidato que ganha a primeira volta das Presidenciais no Brasil, perde no segundo turno.

*O PT está em nono lugar no que a uma perversa classificação diz respeito, na política (partidária) brasileira diz respeito: no número de políticos "caçados" por corrupção. Se bem que o facto de ter um Presidente nessas condições adquira uma dimensão qualitativa que a mera "quantidade" não capta.

*"Em momento solene, em discurso público, num lugar político nobre, o Congresso, frente a câmaras de televisão, ele [Jair Bolsonaro] ter aplaudido e dado vivas ao torturador Carlos Brilhante Ustra. (...) Ustra foi um torturador do regime militar brasileiro e colocava fios eléctricos descarnados nas vaginas de mulheres e chegou a mostrar aos filhos das presas a mãe nua, urinada e vomitada" (Ferreira Fernandes, DN, 28-10-2018, p.48)

*6 a 7 milhões de entre os cerca de 35 milhões de brasileiros que com os governos Lula da Silva se estima que tenham saído da pobreza, a ela terão regressado, com a recessão económica que passou também e muito por um Governo PT (com Dilma Rousseff)

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Por entre as coordenadas deste tempo


1.Outra das notícias bastante curiosas e interessantes, em termos políticos, da semana passada foi dada, em primeira mão, por ElMundo (aqui) e passa pela apresentação conjunta, nas eleições europeias, de uma coligação Ciudadanos-EnMarche-Partido Democrata (Italiano). É uma revelação bastante curiosa porque a) num momento de regresso (para outros, refúgio, para outros ainda retrocesso) a um foco e recentrar nacional(ista), há aqui forças políticas que querem afirmar, com um sublinhado muito forte, uma pertença a valores políticos e a uma força política transnacional; b) o Ciudadanos foi visto, por diferentes comentadores, como uma espécie de EnMarche avant la lettre (um partido liberal, de centro direita, na sua essência, com liderança marcante; tal como, por exemplo, Sílvio Berlusconi não deixa de ser entendido, por outros tantos, como um Trump avant la lettre) e aqui se assinala e ratifica essa proximidade (política-ideológica); c) mau grado, ou porventura por via, das tendências liberais (do ponto de vista económico) dos movimentos de Albert Rivera e Emanuel Macron, Matteo Renzi tenderá a aderir ao movimento. Ora, neste sentido o PD assume uma leitura da realidade como sendo dicotómica entre os que defendem uma abertura e os que são favoráveis a um fechamento (do mundo). Uma leitura nem sempre conducente a integrar os pontos de vista de muitos na comunidade, que não explica o porquê de tantos quererem fechar (nem perceber o que reivindicam, nem procurar reformar sistemas capazes de atenderem às suas inseguranças e anseios), nem tão pouco de que abertura, que proposta de abertura se faz; d) face a um alinhamento habitualmente descrito como assentando exclusivamente pelo interesse de cada país, nomeadamente no Parlamento Europeu, aqui temos uma aliança política-ideológica transnacional; e) em cada tempo, múltiplas forças se jogam e contendem: das listas transnacionais (chumbadas) a este movimento que, no fundo, parece procurar ir na mesma linha.

2.Leio ainda no livro de Bernardo Pires de Lima, um on road pelas capitais dos 28 países da UE, que na República Checa os salários continuam muito baixos, o público paga três vezes mais do que o privado e que a abstenção nas eleições é sempre muito elevada (quase 40%, nas mais recentes legislativas). Na Estónia, 90% da relação entre cidadão e Estado é realizada online (identidade da Estónia: um Estado digital; o país conhecido também por lá se ter criado o Skype, mas também o E-Estónia, ou o E-Ambulance; o seu modelo digital está já a ser exportado para a Finlândia, Panamá, Moldávia ou Geórgia). Na Finlândia, a noção de que, pese o custo reputacional que o quase colapso da Nokia teve no país, cerca de 95% dos "recursos humanos" que estavam vinculados àquela empresa, foram "rapidamente absorvidos" no mercado de trabalho, evidenciando, crê-se a qualidade, desde logo, do modelo educativo finlandês. Desde a década de 1960, Estado e privados, com vista à prevenção de um possível ataque, desenvolvem uma cidade subterrânea. Há cerca de 400 túneis que percorrem as ruas de Helsínquia, com uma profundidade de 20 a 80 metros abaixo do nível do mar. Só 30% da Helsínquia subterrânea está aberta ao público. A Finlândia é, a par da Grécia, o único país da UE que nunca abandonou o Serviço Militar Obrigatório. Num país com 5 milhões de habitantes, existem 2 milhões de saunas, usadas como forma privilegiada de diplomacia. Em Bratislava, verifico que se deu algo que já se havia observado em Malta: jornalistas a investigarem actos de corrupção de altas figuras do Estado a serem mortos. O sistema financeiro contribui com 6% do PIB europeu e dá emprego a 6,4 milhões de pessoas. Desde os anos 60 que o Luxemburgo liderou a inovação dos produtos financeiros; emitiu a primeira eurobond, nessa década; o Banco da China ali abriu a primeira sucursal; ali se acomodou a primeira instituição islâmica de base ocidental. É o maior centro de fundos de investimento da Europa e o segundo maior a nível mundial (depois dos EUA). Primeira bolsa a listar um título islâmico, em 2002 e ofereceu o primeiro título soberano islâmico em 2014. É o terceiro maior centro de finanças islâmicas, depois da Arábia Saudita e da Malásia.
Do livro de Bernardo Pires de Lima, que conclui com a referência a George Steiner e aos cafés europeus e às «identidades plurais» de Amartya Sen, surgem como constantes nos 28 Estados que compõem a UE: i) a importância das migrações no debate público; ii) a centralidade dos problemas da corrupção, gerando grandes protestos em muitas capitais; iii) a força de partidos de extrema direita, em diferentes estados membros; iv) a sedução de Putin e a envolvência russa em diversas eleições, normalmente junto de sectores de extrema-direita; v) a emergência de um nacionalismo identitário; vi) a queda, em muitos lados, de partidos tradicionais, nomeadamente social-democratas (impressionante a queda de 70%, na República Checa, apesar dos bons números económicos); vi) a ascensão de figuras populistas, muitas vezes oriundas das camadas mais favorecidas da população; vii) o liberalismo político, a democracia liberal em jogo (risco). Em suma, as grandes coordenadas do nosso tempo - às sete anteriores, poder-se-ia juntar o inverno demográfico em muitos países europeus (para além da imigração para solo europeu de populações de outras zonas do globo, a emigração, em diferentes países europeus, constitui, a vários títulos, um constrangimento), bem como problemas fortes de segurança social (por exemplo, na Lituânia, de 2000 até ao presente a população activa diminuiu em 25%), ou o regresso do sistema militar obrigatório, em particular no Leste Europeu e em países nórdicos (na Noruega também as mulheres foram convocadas a este SMO), em função da ameaça russa - são documentadas nesta obra, de um especialista de relações internacionais, cosmopolita e claramente filiado numa direita liberal.
Compreendo, de algum modo, o posicionamento de Pires de Lima, quanto a uma menção à herança judaico-cristã no Preâmbulo do que seria uma Constituição Europeia, face ao que as reivindicações dessa mesma herança, no Leste Europeu, tem significado nos últimos anos: em nome do cristianismo, que significou historicamente acolhimento e hospitalidade como obrigação face ao próximo (sem exclusivismos étnicos, mas com vocação universalista), produziram-se actos, declarações, discursos, leis de teor xenófobo ou racista - em nome do cristianismo, tomaram-se medidas e actuou-se de modo anti-cristão. E sem dúvida que é preciso saber viver e dialogar com as comunidades muçulmanas com forte presença na Europa (6 milhões em França, 8,8 por cento da população; 5 milhões na Alemanha, 6,11 por cento; 4 milhões no Reino Unido, 6,3 por cento da população; 1,2 milhões na Holanda, 7,11 por cento da população, 1,2 milhões em Espanha, 2,6 por cento da população - números de A direita e as direitas, J.Nogueira Pinto, p.31). 
Agora, e que sem prejuízo de várias presenças culturais-religiosas no continente europeu ao longo dos séculos e da herança que deixaram (em especial, mas não só, no sudeste europeu, nos Balcãs, etc.), a mundividência judaico-cristã, com o seu inestimável contributo para constructos fundamentais como o entendimento acerca da dignidade humana, o entendimento da igualdade entre as pessoas, liberdade religiosa, direitos humanos, etc., moldou uma paisagem, de modo determinante, e criou uma cultura que se pretende honrar, isso, vários dos mais prestigiados autores, mesmo sem qualquer filiação de natureza religiosa, não deixaram de sublinhar. E apagar um marco tão estruturante - e que a meu ver, defende o humano como nenhum outro - isso já me parece ser deitar fora o bebé com a água do banho (a discussão fez-se no seu tempo próprio, mas retomando, como faz o politólogo agora, significa vê-la exclusivamente por derivas negativas que, no entanto, não podem decidir e desfigurar um debate bem mais amplo).

domingo, 24 de junho de 2018

Viagem à Europa


A verdade é esta: se o governo alemão quisesse mesmo pôr Orbán na ordem já o poderia ter feito via PPE ou através do condicionamento comercial, tal é a dependência húngara. Ao nunca ter escolhido este caminho, e deixando crescer o poder de Orbán, acabou tacitamente por aceitar o seguinte corolário: o reconhecimento de que uma UE a várias velocidades e com diversos círculos de integração implica viver e aceitar áreas semiautocráticas na frente Leste.

(...)

O plano de Macron é baseado essencialmente no relatório Pisani-Ferry-Enderlein, de 2014, o qual contou com a participação do actual presidente francês e do [então] ministro da Economia alemão, Sigmar Gabriel. Internamente, um generoso menu para infra-estruturas, tecnologia e formação de desempregados, ao mesmo tempo que deseja baixar impostos às empresas e flexibilizar contratações e despedimentos.

(...)

Com um aumento de 20 por cento no orçamento para ajuda ao desenvolvimento, a Alemanha quer liderar uma nova relação entre África e Europa, atraindo investimento, gerando emprego, monitorizando gastos, responsabilizando decisores, estabilizando sociedades e reduzindo vagas de imigração forçada. Para já, estão no radar cinco países (Costa do Marfim, Senegal, Ruanda, Marrocos e Tunísia), mas, se pensarmos que nos próximos 30 anos só a população jovem africana passará de 230 milhões para 452 milhões, percebemos o potencial de fazer tudo a tempo e o risco de não fazer nada

(...)

A Alemanha não fechou ainda o círculo de contenção do pós-guerra, nem sequer garantiu a coesão interna depois de 1989, capaz de conduzir mentalmente o Leste do país a uma postura internacionalista pró-activa. Pelo contrário: os números impressionantes que o Die Linke e a AfD aí terão espelham uma versão facciosamente virada para dentro, profundamente identitária, saudosista, alinhada com Moscovo e jamais com Bruxelas. Jana Puglierin, diretora do programa europeu no German Council on Foreign Relations, confirma-me o financiamento russo à AfD e ao Die Linke.

(...)

Em 2016, a Comunidade de Madrid recebeu 5,74 milhões de turistas, tendo a Catalunha recebido 17,99 milhões.

(...)

Hoje, só as receitas do turismo em Lisboa valem 8,5 mil milhões de euros, qualquer coisa como quatro Autoeuropa e quatro vezes os proveitos das exportações do calçado.


Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.200-243.


sexta-feira, 1 de junho de 2018

Europa: paragem Estocolmo

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Um terço dos mais recentes refugiados que chegaram à Suécia, sobretudo mulheres, têm uma escolaridade abaixo do 9ºano. Ora, naquele país patrões e sindicatos haviam chegado a acordo para que os salários subissem muito consideravelmente, sendo que passaria quase a não haver empregos para quem não tivesse completado o Ensino Secundário. Neste sentido, ou a guetização dos refugiados - sem hipóteses, assim, de aceder ao mercado de trabalho ("...a forma como a acumulação de riqueza permitiu à Suécia criar e cristalizar uma subclasse étnica sequestrada em subúrbios invisíveis", p.138) -, ou, por outro lado, a revisão dos acordos laborais, com possível efeitos nefastos sobre a qualidade do trabalho e os níveis salariais colocou-se (coloca-se) como dilema ("grupos empresariais e alguns políticos defendem a interrupção do modelo laboral de modo a incentivar a empregabilidade, mas os cépticos temem que isso arrase o mercado de trabalho", p.138). Políticos há, na Suécia, que atribuem, ainda, à imigração a queda dos níveis de sucesso do país, nos testes PISA. 
De resto, a Suécia "tem uma das maiores taxas de participação da força de trabalho na OCDE, apesar dos generosos programas de assistência social ao desemprego"(p.139), ou, dito pelo inverso, a existência de generosos programas de assistência social em nada contende com a procura (e a existência) de postos de trabalho (pelos beneficiários de tais regras). 
Com o Brexit, a Suécia foi obrigada a dar maior ênfase a matérias de Defesa, existindo quem sustente «uma aproximação regional ao Reino Unido num bloco nórdico» (p.139). Em Março de 2017, a Suécia anunciou a restauração do serviço militar obrigatório (que havia sido abolido em 2010). No entanto, o recrutamento não é universal. No início de 2016, as Forças Armadas apenas tinham 5800 funcionários, soldados e marinheiros a tempo integral, 800 abaixo do necessário (p.142). Os reservistas são sete mil, menos do que o objectivo dos dez mil. Os salários são baixos e os jogos entendem o serviço como antiquado. A adesão à NATO divide a opinião pública - a ameaça russa mudou a percepção da importância de um vínculo desta ordem, para muitos suecos. A economia da Suécia "é uma das mais fortes da União Europeia, e o país lidera os rankings da OCDE em matéria de ajuda aos trabalhadores despedidos, com mais de 85 por cento a encontrarem novos trabalhos no espaço de um ano, principalmente devido aos tais acordos entre empregadores e parceiros sociais. O modelo sueco ajuda a tornar a economia mais dinâmica e as empresas a libertarem-se de postos de trabalho improdutivos sem resistência sindical, permitindo aos recém-desempregados encontrar novas ocupações em pouco tempo, devidamente apetrechados com formação adequada. A ideia não é defender os empregos, mas sim apoiar os trabalhadores. As empresas suecas são assim apoiadas pelas estruturas públicas em processos de reestruturação, o que lhes permite adaptarem-se a novas condições de mercado, mantendo-se competitivas. As negociações de rescisão são mais fáceis, e a expectativa de readmissão no mercado de trabalho é normalmente cumprida, o que contribui também para diminuir o sentimento de culpa dos empregadores. Contribuir financeiramente para os conselhos de segurança do trabalho é benéfico para a reputação e imagem pública de responsabilidade social dos empregadores. No fundo, a cultura colectiva sueca leva as pessoas e as empresas a apoiarem políticas que talvez não as beneficiem pessoalmente, embora ajudem a consolidar um modelo identitário nacional. A vaga de refugiados veio abalar este edifício comum"(p.140).

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.137-146] 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Copenhaga

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Entre os países da UE, a Dinamarca é aquele que possui o maior número de benefícios (sociais) não contributivos [benefícios para os quais as pessoas não descontaram/contribuíram]. Um apoio da assistência social pode chegar facilmente aos 1500 euros por mês (p.115). Todavia, e ainda assim, naquele país o Estado Social não só foi já mais generoso, como, sobretudo, foi mais consensual e não colocado em causa e criticado, mesmo pelos sectores que tradicionalmente mais o defenderam como os partidos sociais-democratas. "Se o Estado Social foi durante anos um tema progressista, hoje é defendido como causa antimigratória, conservadora, de recusa da integração. O mesmo acontece noutros países nórdicos, com partidos de extrema-direita nos governos da Noruega e da Finlândia" (p.115). 
Hoje em dia, sustenta Bernardo Pires de Lima, não pode, contudo, falar-se, já, de um modelo nórdico, precisamente, em virtude das diferentes atitudes tomadas, em cada um destes países, face à imigração; não pode, pois, falar-se num modelo regional ("quem olha para a Escandinávia como um bloco uno e indivisível, não está atento aos sinais dos tempos", pp.117-118). Enquanto que a Suécia optou, pelo menos durante muitos dos últimos anos, por uma posição de maior abertura, acolhimento e hospitalidade, a Dinamarca comportou-se de um modo muito mais restritivo, acusando os vizinhos de ingenuidade e de, pela sua postura acrítica face a um consenso pró-imigração, ter estado na origem da subida ao primeiro posto nas sondagens do partido de extrema-direita ("o Governo dinamarquês adoptou a abordagem contrária à concessão de asilo político. Em Setembro, colocou anúncios em quatro jornais libaneses, alertando os possíveis imigrantes para as dificuldades que enfrentariam se decidirem mudar-se para a Dinamarca. Numa primeira fase, ofereceu-se a contragosto para receber mil refugiados localizados noutros países europeus, mas rapidamente mudou de ideias. A Suécia, pelo contrário, abriu os braços. Este ano, cerca de 150 mil sírios, afegãos e gente de outras nacionalidades procuraram ali asilo, tendo a maioria entrado pela Dinamarca. Proporcionalmente, receberam mais do que a Alemanha. Tudo mudou em Novembro de 2015, quando o governo social-democrata de Stefan Lofven se curvou perante a pressão dos números. A partir de Abril de 2016, a maioria dos refugiados passou a usufruir apenas de protecção temporária, tendo perdido o direito de trazer familiares para a Suécia. Para um país que faz da moral e da consciência pilares da sua acção externa, isto representou uma grande inversão identitária", p.117).
Em realidade, sem embargo, os estudos mostram, consistente e sistematicamente, que os imigrantes são contribuintes líquidos dos países de acolhimento; isto é, entre o que beneficiam dos Estados (sociais) dos países que os acolhem e aquilo que contribuem para estes é maior a soma de contribuição que fornecem do que despesa que dão (mesmo neste mais estrito olhar utilitário e despersonalizado): "Só que, tal como no Reino Unido, os dados mostram que os imigrantes foram contribuintes líquidos na Dinamarca, ajudando a financiar o Estado Social de que acabam por beneficiar. Os resultados fazem-nos repensar o tal nexo de causalidade entre a livre-circulação e os abusos sobre o orçamento das políticas sociais, sugerindo que o bem-estar social é muito menos vulnerável ao impacto da livre-circulação do que o discurso político actual vai fazendo acreditar" (p.116). 
De resto, Bernardo Pires de Lima retrata o modelo económico baseado na flexissegurança - flexibilidade laboral, facilidade de despedimentos, modelo liberal por um lado e rede de protecção dos rendimentos por outro; "aquele" emprego em concreto não é protegido com cláusulas que impeçam ou dificultem, de algum modo, o despedimento, mas a pessoa nunca fica sem rendimentos, aliás generosos, enquanto se reintegra no mercado de trabalho, sendo pago para readquirir, ou enquanto adquire novos conhecimentos/competências/formação profissional - presente também na Dinamarca. O Governo dinamarquês quer aumentar em 20 por cento o orçamento da Defesa nos próximos 5 anos, fazendo face ao aumento da actividade militar russa na Europa Central e de Leste. Arquitectura arrojada, amplos espaços verdes, bicicletas retro, água como parte da identidade, país mais feliz do mundo em sucessivas estatísticas, a Dinamarca, com grande homogeneidade cultural apesar das vagas migratórias, viu abrirem-se feridas e mudanças de identidade até nos partidos, com as polémicas em torno do Estado Social, imigração, refugiados.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Amesterdão

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Em Amesterdão, há pessoas de 178 nacionalidades diferentes. Mais do que em Nova Iorque. Nas últimas legislativas, na Holanda, votaram 82% dos eleitores - uma participação muito assinalável em tempos, nalguns lugares, de grande absentismo. Na capital da Holanda, venceram Os Verdes, com um projecto de abertura e tolerância, o partido preferido das classes mais educadas. Mesmo no todo nacional, e sem prejuízo do tempo que demorou a formar-se o (novo) Executivo, 70% dos mandatos foram conquistados por formações partidárias que tinham programas e posicionamentos contrários à xenofobia ou o racismo, não cavalgando a onda anti-refugiados e/ou anti-imigração. Isto, apesar da Holanda ser um país que fez da questão da identidade um elemento chave da agenda pública desde há vários anos ("Ou seja, a centralidade da identidade no debate político ocidental não está reduzida nem sequer enclausurada numa só categoria cultural que parece fazer do homem branco e supostamente puro a essência da salvação humana ocidental e, em particular, europeia", p.77). Não foi a economia a liderar os debates - até porque na altura das eleições o PIB crescia 2,1% e o desemprego era baixo (5,5%). Há 14 partidos com assento no Parlamento, e, provavelmente, este leque muito alargado de formações partidárias contribuiu para a ida às urnas de tanta gente. "Com um quarto do território e 60 por cento da população a viverem abaixo do nível da água, a Holanda soube fazer desse cerco líquido um desígnio interno de unidade, desafiando-a a preservar uma estratégia de engenho comercial que transformou em grande potência um país 12 vezes menor do que Espanha, aportando da Costa Leste dos EUA às Caraíbas e ao Brasil, passando pela Costa Dourada do Gana à África do Sul, do Japão à Indonésia e aos estreitos estratégicos do Índico, nas imediações do Sri Lanka. É impressionante como um país tão pequeno, e enclausurado entre os colossos alemão e britânico, conseguiu tanto e ir tão longe. De certa forma, é um traço parecido com o português, ainda que tenha enraizado de forma  completamente diferente uma cultura política e social liberal que ainda hoje o caracteriza (...) O que mais admiro na Holanda é o facto de apresentar as mais baixas taxas de horas de trabalho no Ocidente e ser, ao mesmo tempo, o sexto país mais rico do mundo; consegue ser o segundo maior exportador agrícola universal, tem o maior porto da Europa (Roterdão), o seu povo vive em duas rodas como um prolongamento do corpo (...) E como é imprescindível o lazer para nos desbloquear da teia de bugigangas, futilidades e angústias que diariamente nos consomem"(pp.74-76).

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018]

domingo, 20 de maio de 2018

Dublin

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Bernardo Pires de Lima explica, em O lado B da Europa, que as reformas da troika para a Irlanda não tocaram no Estado Social, na Saúde e na Justiça, e que é isso que justifica que as revoltas de Atenas não tenham tido réplica em Dublin. E cita a obra Austerity and Recovery in Ireland: Europe's poster child and the great recession (2016), de William K. Roche, Philip J. O'Connell e Andrea Prothero para  registar as conclusões da mesma: a austeridade corrigiu as finanças públicas irlandesas, mas não foi responsável pela rápida recuperação da economia que se deve ao seu perfil exportador. Durante a crise, houve fuga de cérebros, mas estes regressaram e trouxeram, até, outros. Pires de Lima recorda James Joyce, Bernard Shaw, Yeats, Oscar Wilde para dizer que quadrava bem o nome de «cidade da literatura» para qualificar Dublin. Devido ao Brexit, pela primeira vez em 20 anos, a reunificação da Irlanda voltou a estar na agenda. Antes da crise, havia cerca de meio milhão de imigrantes de Leste, que tinham chegado para o sector da construção. A Irlanda tem agora o seu PM mais jovem de sempre, 38 anos, e o primeiro a assumir a sua homossexualidade.

Rever os números - Grécia

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Na Grécia, o PASOK passou de 43,9% dos votos, em 2009, para 12,3%, em 2012. O PIB grego recuou 27% (no início de 2017, cresce 1,6%). O desemprego atingiu os 27,3%, em 2013 (entre os mais jovens, 18-24 anos, atingiu os 47,4%, segundo a OCDE, em 2016; em 2017, o desemprego situa-se nos 22%); a dívida correspondia a 180% do PIB. Em 2015, mais de 4 milhões de pessoas estavam em situação de exclusão social (36% da população). Em 5 anos, a Grécia solicitou 3 resgates financeiros no valor global de 260 mil milhões de euros. O negócio da construção civil caiu 50%, com várias obras inacabadas. Desde 2010, a Grécia conheceu 6 PM's diferentes. Desde 2010, emigraram 430 mil gregos, a maioria jovens licenciados. O Estado passou a ser accionista dos quatro principais bancos do país, em três dos casos como maioritário. No período de crise, a Grécia viu assomarem ao país, mais de um milhão de refugiados das guerras civis da Síria, da Líbia e do Iraque, do conflito Afegão, as purgas na Etiópia, no Sudão e na Somália. A evasão fiscal permanece, a teia burocrática por deslindar; Saúde, Educação e Justiça a funcionarem mal. Tsipras causando embaraço, acabando a governar com medidas contrárias ao seu programa inicial (ainda assim com bons resultados eleitorais). O mundo dos mecenas a funcionar bem nas artes deixadas sós pelo Estado. A Documenta a percorrer, durante meses, bairros e praças. As esplanadas enchem. Organizações da sociedade civil, como a Earth Organization, ajudaram a dar aulas, formação profissional e desporto aos refugiados. O Syriza protegeu os pensionistas de efeitos diretos dos compromissos com a Troika. Há think tank com grandes orçamentos para influenciar as políticas públicas. A proximidade de Tsipras a Moscovo a não ter o corolário previsto, de uma maior atenção de Washington a Atenas.

[a partir de Bernardo Pires de Lima, O lado B da Europa. Viagem às 28 capitais, Tinta da China, 2018, pp.15-28]

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Obama e a questão energética



Durante a semana que passou soubemos que Arábia Saudita, Rússia, Venezuela e Qatar concordaram congelar a sua produção de petróleo, de modo a tentar moderar os excessos de oferta com que o mercado se vê actualmente (inundado), visando, com este pacto, a inflação do preço do petróleo - que, de tão diminuto, tem dinamitado algumas economias (a Venezuela deve ver o PIB descer 18% este ano). Ora, escutando alguns especialistas na matéria, em diferentes depoimentos, nos últimos dias, constatámos que, hoje, os EUA importam cerca de metade (do petróleo) que ainda há 3 ou 4 anos importavam. Trata-se de uma mudança de grande alcance que é um dos grandes legados da Presidência Obama, como escreve Bernardo Pires de Lima (XXI, nº6, pp.34-35): 


Mas talvez o grande fardo do próximo presidente seja maximizar a importância da revolução energética em curso nos EUA e no Atlântico. Obama pode não ter acertado completamente a agulha na política externa, mas tornou os EUA auto-suficientes, alterando o seu perfil de importador crónico para grande produtor global. Desde Nixon que todos os presidentes bateram nesta tecla, mas nenhum inverteu a condição nem tão pouco o papel determinante da OPEP na geopolítica da energia. Este quadro vai mostrar-nos como serão os próximos vinte anos tão diferentes dos últimos.
O boom exploratório das empresas norte-americanas levou os EUA, a partir de 2009, a alterar a sua trajectória energética, ultrapassando hoje a Rússia como maior produtor de gás mundial e projectando o seu papel como futuro líder exportador desse recurso. Em 2013, já 95% do gás natural consumido nos EUA teve origem interna, contornando a crise económica e sinalizando uma maior independência face a zonas tradicionalmente problemáticas do ponto de vista da importação de petróleo, como o Médio Oriente.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Bater no fundo

Nós, europeus, batemos no fundo. Temos sido incapazes e incompetentes para influenciar positivamente as fontes da atual vaga migratória, das guerras na Síria, Iraque, Líbia, Somália e Afeganistão, às perseguições na Eritreia e Etiópia. Passámos de fervorosos intervencionistas humanitários nos anos 1990 para uns abstencionistas identitários sem vontade, coordenação ou humildade perante erros de missões recentes. Não precisamos de "exportar democracia" à lei da bala, mas de lutar contra a bolha em que nos enfiámos, contra a Europa fortaleza e moralista que vê tudo arder à sua volta mas que só acorda quando o drama chega ao seu quintal. Perdemos o sentido de perspetiva histórica e, pior que tudo, o de visão a médio prazo. A responsabilidade europeia existe quando os programas de democratização e desenvolvimento mediterrânicos por si criados falharam redondamente. Perdemos a vantagem em liderar processos, influenciar governações, exigir contrapartidas humanistas, falhámos os timings da coerção e tornámo-nos uns burocratas da política internacional. E têm sido guerras e o colapso de Estados e suas economias a levar o desespero a Lampedusa e Calais. Preferimos muros e arame farpado a rotas legais e orientadas por todos para impedir que as máfias lucrem com a desgraça alheia. Preferimos gastar milhões a patrulhar roteiros de quem foge à morte, a partilhar entre Estados membros uma integração excecional, chamando-lhes "praga", atiçando os cães e engrossando o arame. Cinco mil refugiados em Calais numa UE com 500 milhões. 40 mil candidatos ao exílio (o grosso desta prolongada migração mediterrânica) sem agilização processual à altura do momento, a maior parte jovens que não podem ser perdidos. Líderes apavorados com políticos extremistas, tiranetes à frente de países, outros a caminho e uma complacência perigosa que envergonha. Batemos outra vez no fundo.


Bernardo Pires de Lima, DN, 04/08/2015


sábado, 4 de julho de 2015

Grécia (II)


Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã na Grécia. À partida, incerteza e medo tendem a beneficiar o "Sim" no referendo, punindo a reta final de Tsipras nas negociações já em clima de controlo de capitais e incumprimento ao FMI. O resultado disso seria a demissão do governo, entrando eventualmente em cena uma solução tecnocrata que assegurasse o regresso à negociação com a troika, bem ao jeito do que Martin Schulz gostaria. Os tecnocratas podem ser os melhores amigos dos credores, mas contribuem muito pouco para a saúde das democracias, favorecendo extremos e populismos. Ainda vamos ouvir os líderes da zona euro dizer que teria sido preferível apoiar o governo de Tsipras em vez de perder a Grécia para a Aurora Dourada. Mas se em tese o "Sim" pode beneficiar com a incerteza e o medo, as últimas horas podem ter contribuído para um assomo de apoio ao "Não", sobretudo nas faixas etárias mais novas. O dado relevante é obviamente o relatório libertado pelo FMI, a contragosto dos europeus mas apoiado pelos EUA, e rapidamente aproveitado por Tsipras na parte que lhe é politicamente favorável: afirmar a impossibilidade do pagamento da dívida, de garantir um nível mínimo de crescimento económico, reconhecer a inevitabilidade de um perdão parcial, admitir o alargamento das maturidades. Há, neste relatório, um duplo motivo de interesse. Por um lado, a frontalidade destas ideias. Por outro, o timing da divulgação. Se a primeira corresponde ao reconhecimento do falhanço da receita até agora levada a cabo na Grécia, o segundo indicia que Washington regressou finalmente à política europeia. Um dos mitos que cai é a irrevogabilidade do antiamericanismo da esquerda grega. Um dos erros que sobressai é o facto de Tsipras ter demorado tempo demais a conquistar Obama para o seu lado. Mais vale tarde do que nunca.

Bernardo Pires de Lima, DN, 04/07/2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

Caixa de pandora (V)











sexta-feira, 26 de junho de 2015

Estratégia



Curiosamente, se, em vez de correr para Putin, Tsipras tivesse recorrido a uma intensa campanha diplomática junto da Administração Obama, talvez houvesse dado o verdadeiro golpe de mestre, alcançando a máxima pressão junto dos decisores europeus, eventualmente, mesmo, dividindo Merkel e Schauble, notou, ontem, Bernardo Pires de Lima, em As palavras e os actos (RTP1, 5ª, 20h50), lá onde considerou que o actual PM grego sabe que não é vendável um acordo na Grécia - seja que acordo for - pelo que eleições ou um referendo serão os cenários mais prováveis. Segundo o especialista de relações internacionais, as propostas e conduta dos políticos gregos têm sido surpreendentemente sensatas - no que assim se afasta das visões hegemónicas na interpretação da atitude grega. A procura de levar até ao último segundo as negociações, com isso apertando ao máximo a pressão sobre quem tem a última palavra fará parte de um jogo com lógica.