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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Sergio Ricardo - Calabouço (1973)



A situação da economia nutriu a politização da sociedade, mas a oposição também havia mudado o ritmo, a forma e a linguagem do enfrentamento político com a ditadura. Em Março de 1973, o estudante Alexandre Vannucchi Leme foi sequestrado, torturado e morto no Codi-DOI de São Paulo. Vannucchi era aluno da Universidade de São Paulo (USP), tinha liderança no meio universitário paulista, militava numa organização revolucionária - a ALN -, e o sequestro ocorreu dentro da Cidade Universitária. Sua morte comoveu a população e devolveu o movimento estudantil às ruas. Três mil estudantes compareceram à missa em memória do colega assassinado, celebrada em plena catedral da Sé, pelo Cardeal D.Paulo Evaristo Arns, uma das principais referências religiosas dos brasileiros na defesa pelos direitos humanos. A polícia cercou a USP, montou barreiras policiais em pontos estratégicos da cidade e um aparato de guerra em frente à catedral. Quem conseguiu furar o bloqueio e entrar na Igreja, porém, viveu um dia para não esquecer: 24 padres oficiaram com o cardeal Arns uma missa que emocionou o Brasil inteiro. Pouco antes da comunhão o compositor Sérgio Ricardo surgiu no altar, violão em punho, e cantou, pela primeira vez, a canção "Calabouço", unindo dois assassinatos: o de Alexandre Vannucchi Leme e o de Edson Luís de Lima Souto, morto pela polícia cinco anos antes, como vimos, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro.

Lilia M.Schwarcz e Heloísa M. Starling, Brasil. Uma biografia, Circulo de Leitores.Temas e Debates, Lisboa, 2015, p.479.


sábado, 19 de janeiro de 2019

Difícil resistir


O país [Brasil] tem (...) uma das maiores populações carcerárias do mundo: 730 mil pessoas. (...) Reconhece o ex-ministro da Segurança Raul Jungman: "Hoje, o sistema penitenciário brasileiro, que já é o terceiro maior do mundo, está sob o controlo das facções". (...) 
A campanha de Bolsonaro - "matar bandido", liberalizar as armas de fogo e reduzir a idade penal - foi o exemplo da solução populista. O novo governador do Rio, Wilson Witzel, fala em drones e snipers para o "abate" de suspeitos armados. O populismo dá votos, porque "o medo do crime é uma variável permanente na maioria da população brasileira", diz Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. "Os governadores vão-se valer do discurso da emoção e do medo e não lidar de uma forma racional", adverte o coronel Robson Rodrigues, ex comandante da Unidade de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro. Os estudiosos criticam a falta de informação (intelligence) e ausência de políticas preventivas, a começar pela regulação do mercado das drogas. A polícias estaduais e federais não colaboram quando o fenómeno é hoje federal. E recusam abordar o papel central dos presídios no fortalecimento das facções. Querem até mais presos. "As propostas [dos governadores] foram muito focadas na agenda de Bolsonaro, basicamente no enfrentamento violento ao crime e com discursos que encorajam a letalidade policial".

Jorge Almeida Fernandes, Bolsonaro e os bandidos, Público, 19-01-2019, p.33.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quem é o eleitor-tipo de Jair Bolsonaro?



2.As duas mais recentes sondagens para as Presidenciais do Brasil confirmam todas as tendências que vinham já dos estudos de opinião conhecidos na semana passada, esclarecendo a grande questão desta campanha: iriam os eleitores de Lula, destacadíssimo nas sondagens, seguir o seu endosso para o número dois da lista, Fernando Haddad? A resposta, em boa media, é sim; pelo menos, houve a suficiente transferência de intenções de votos de Lula para Haddad de modo a este ser já o virtual opositor de Jair Bolsonaro na segunda volta. 
Ciro Gomes consegue segurar o eleitorado que conquistou meritoriamente, mas não consegue subir desde há uma semana (e nos últimos dias, acabou por mostrar uma face que não se vira no resto da campanha, quando empurrou um jornalista, e o insultou, quando recebeu uma pergunta provocatória), Alckmin vai sair da campanha sem nela nunca ter entrado, Marina Silva perde votos a cada dia que passa. 
Para a segunda volta, as incógnitas - que parecem desfeitas face ao primeiro turno, mas que, de qualquer forma, numas eleições com mil e uma peripécias e reviravoltas não pode garantir-se como definitivamente encerradas - mantém-se nas sondagens, quer pelo empate técnico entre os candidatos Haddad e Bolsonaro, quer porque a taxa de rejeição deste último é apenas ligeiramente mais elevada do que a do candidato do PT, quer, ainda, porque Bolsonaro vai recuperando entre o eleitorado feminino.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma (pré) campanha emocionante (e completamente em aberto)


Num Brasil em que ainda cerca de 50% da população não tem saneamento básico, em que as remunerações dos brancos são cerca de 80% mais elevadas do que as dos negros e mestiços (e em que as mulheres negras se encontram no fundo da tabela salarial), quem vive em favelas tem o triplo do risco de morrer baleado face aos que habitam outros bairros de uma cidade, a (pré) campanha eleitoral, para as Presidenciais de Outubro, não poderia estar mais carregada de emoções.
Nos últimos dias, Fernando Henrique Cardoso (FHC) chamava a atenção para o facto de as intenções de voto que as sondagens - que vão saindo diariamente em catadupa - atribuem, consistentemente, a Jair Bolsonaro fazerem com que a disputa PT vs PSDB seja antecipada para a segunda volta (assumindo, portanto, o ex-Presidente do Brasil que na segunda volta será Bolsonaro frente a um outro candidato). Apesar desta perspectiva, em realidade, o partido de FHC, no primeiro tempo de antena, no primeiro comercial/spot de campanha, atirou, com força, em Bolsonaro (e ao seu lado machista, recordando acções e palavras suas, há muito conhecidas, ao longo dos anos). Como que partindo do pressuposto de que deve lutar por um eleitorado (de direita) que, até ao momento, Bolsonaro terá conquistado numa dimensão para alguns inesperada (e, ao mesmo tempo, supondo, com tal estratégia, pelo menos assim parece, que não haveria uma inevitabilidade da passagem de Bolsonaro à segunda volta). Por outro lado, também é certo, com o impedimento, primeiro, da candidatura de Lula (de estar presente, sequer, em debates), com a indiciação criminal do número dois na candidatura do PT (Haddad), com o protelar, com sucessivos recursos, de uma indicação definitiva do candidato às próximas eleições, o PSDB poderia ter alguma dificuldade em focar o alvo definitivo (do PT). Entretanto, o próprio Alckmin vê-se sob acusações de  corrupção. Voltas e reviravoltas, casos diários, uma campanha muito preenchida de peripécias.
Por outro lado, a semana, quanto a sondagens, principiou com uma subida de 3% de Ciro Gomes, do PDT. Houve quem interpretasse o "actual" voto em Ciro como "voto escala", quer dizer, o eleitor do PT que durante o fim de semana ficara sem ilusões quanto à possibilidade de Lula se recandidatar - mau grado, reitere-se, a candidatura de Lula prosseguir recursos, incluindo queixa na ONU, que curiosamente interveio no processo eleitoral brasileiro, recomendando que Lula tivesse lugar nos debates, considerando que o caso do ex-Presidente não se encontra sob trânsito em julgado -, migrara, temporariamente, para Ciro, dada, em certa medida, a proximidade ideológica com o PT, até desaguar, em definitivo, no candidato que Lula virá a indicar (Haddad). Isto, um ou dois dias antes de Haddad ser acusado de corrupção. Na verdade, tal exercício interpretativo é manifesta e necessariamente interpretativo, e, em realidade, o desempenho de Ciro Gomes nas sucessivas "sabatinas" (como chamam no Brasil ao exercício de perguntas que os candidatos têm sido chamados a responder), dos mais variados media, tem sido francamente positivo, articulado, assertivo. Não pode, pura e simplesmente, colocar-se de lado a hipótese de que Ciro fixe os 3% de eleitorado que terá conquistado na última semana.
Mas as sondagens vão dizendo outras coisas, como, em algumas delas, perceber-se que Marina Silva está, ou pode ser, challenger de Bolsonaro (pese o seu discurso vago e uma prestação bem longe de brilhante nos debates e entrevistas, e da recordação do apoio a Aécio Neves, na segunda volta das Presidenciais de há 4 anos; Aécio que agora se encontra também a braços com sérios indícios de corrupção, o que não surpreende quem assistiu aos debates de 2014 e viu ausência de respostas convincentes face a questões já então levantadas a este respeito; este, um ponto que Rui Tavares não ponderou no seu artigo de início da semana, no Público, no qual considerava que hoje Aécio podia estar a ser eleito com toda a tranquilidade; o que, por sua vez, não desmerece da tese geral de que sem o impeachment, e com a economia a sangrar - ainda que neste instante com ligeira recuperação -, o PSDB talvez resistisse aos casos de corrupção que têm abalado, sucessivamente, o Brasil e ganhasse face à fraqueza do PT neste âmbito e aos números da economia).
No limite, a luta PT vs PSDB nem seria antecipada para a primeira volta; nenhum dos partidos marcaria presença na segunda volta - se seguíssemos literal e definitivamente as sondagens mais recentes.
E, já nesta quinta-feira, e nas últimas horas, Bolsonaro foi esfaqueado em uma acção de campanha (o filho do candidato diz que este se encontra bem e rapidamente voltará à estrada; o golpe terá sido superficial), o que, além de ilustrativo de um clima emocional intenso na campanha, de polarização das atenções neste candidato, de violência inaceitável numa democracia, tenderá, do ponto de vista da pura contabilidade eleitoral, a não ser desfavorável a uma candidatura que vai na dianteira das sondagens para a primeira volta (mas já não assim para a segunda; até hoje, segundo as sondagens, Bolsonaro perderia para todos os principais candidatos a consigo passar ao segundo turno, com excepção de Haddad, com o qual há um empate técnico).
Antes deste significativo acontecimento, o que mais marcara a campanha, tanto quanto é possível observar à distância, terão sido dois aspectos: a) o problema da violência, dos homicídios na rua e a noção de que só a mão implacável de um Bolsonaro o poderia resolver ou mitigar (uma narrativa que estaria a atrair, segundo as sondagens, 21-22% dos eleitores brasileiros - para já, numa primeira volta com inúmeras candidaturas); b) a proposta para resolver a dívida de 63 milhões de brasileiros, apresentada por Ciro Gomes (que, para já, pode ter convencido cerca de 12-15% dos eleitores). 
Se há campanha eleitoral, em que os dados ainda não parecem lançados, e em que a incerteza é enorme quer quanto a saber-se quem passa à segunda volta (e, antes disso, resolver a equação sobre o que fará o PT), quer, depois, nesta, caso um dos candidatos seja Bolsonaro o que farão as demais candidaturas e partidos, é esta.

Adenda: ao contrário das informações iniciais, soube-se, nas últimas horas, que o esfaqueamento de Bolsonaro teve consequências físicas de gravidade, implicando cirurgia e transfusão de sangue ao candidato.

domingo, 19 de novembro de 2017

Exames nacionais: uma experiência comparada



No Brasil, ou na Grécia, o Ensino Superior não consegue absorver sequer 1/5 dos alunos que concluem o Secundário e querem ir para a universidade pelo que a pressão dos exames é tremenda; na Coreia do Sul, os exames nacionais são uma Instituição, a Administração Pública fecha e os alunos que se atrasam têm direito a escolta policial para o exame. Os aviões têm a sua frequência reduzida para não fazerem barulho para os alunos. 
Fazemos exames para que se consiga tirar pelo menos 10 em 20 valores. Mas podíamos exigir 12, 14 ou 7: depende do que queiramos que os alunos saibam. 
Na Finlândia, só há exames no final do Secundário e tem sido passado a ser administrado online: computadores ligados fisicamente por cabo ao servidor da escola ligado ao Ministério da Educação e os alunos recebem o enunciado, respondem, copy paste, processador de texto e enviam para o Ministério da Educação. Os exames não são mais os mesmos: por exemplo, os exames de ciências sociais, ou História, incluem vídeos, a Matemática há uma série de outras ferramentas disponíveis para os alunos. 
Em Singapura, no final do Secundário, os exames são produzidos por Cambridge e têm reconhecimento internacional desses exames/diplomas. Singapura indica os conteúdos, o que pretende examinar, mas são produzidos por Cambridge.
Nos últimos 250 anos, apenas a partir de aí, surgiram os exames de aferição. A Irlanda tem um sistema de exames de aferição muito interessante. O Canadá tem dos exames de aferição mais precoces no mundo: logo no final do jardim de infância. Provas voluntárias para ajudar os pais a decidir o melhor percurso para as crianças. Em Singapura, numa sociedade multicultural e multilingue, os alunos vão para turmas especiais, logo no 1º ano do ensino básico.
Em França não há numerus clausus para o ensino superior. Mas em Janeiro os alunos começam a inscrever-se e a serem distribuídos da melhor forma. Para Medicina e Informática, há sorteio. 
Na Holanda, existem 400 provas escritas e 200 on line para acomodar todas as vias possíveis.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Turistas brasileiros, em Portugal


Nunca, como no ano passado, tantos brasileiros visitaram Portugal como turistas: foram 624,5 mil. Um aumento de 13% face a 2015.

domingo, 20 de março de 2016

Um país sui generis


1/3 dos membros que compõem a comissão que analisa o impeachment de Dilma Rouseff está indiciado pela justiça, sendo que muitos destes (deputados) por corrupção.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Da nossa História (II)


O Brasil deriva o seu nome das substâncias corantes com o mesmo nome (pau-brasil) presentes na lucrativa madeira vermelha que foi encontrada pelos portugueses quando acham o litoral brasileiro. Inicialmente, deslumbrados, como se pode ler em Pero Vaz de Caminha - com semelhanças com a atitude de marinheiros ingleses e franceses com as beldades do Taiti e das ilhas do Pacífico - com a inocência dos "selvagens" que encontram - o Adão em estado puro, pronto para a conversão, o "bom selvagem" antes de ser teorizado filosoficamente -, mas logo, em virtude da não completa obediência e acatamento dos ameríndios a todo o tipo de trabalhos forçados impostos, tidos por "bestas" incorrigíveis (que punem, sem tino, com uma ferocidade, ela sim, selvática). Em virtude da ameaça da possível fixação dos franceses neste território, D.João III promove a sistemática colonização do território.

Da nossa História



Uma obra, O Império Marítimo Português 1415-1825, na qual o historiador (conservador) Charles Boxer contraria as teses de Gilberto Freyre quanto ao luso-tropicalismo: "há uma grande quantidade de provas que contrariam a moderna posição portuguesa de que o Brasil foi um caso em que não houve derramamento de sangue, caracterizado por uma instintiva simpatia e compreensão dos ameríndios, que as outras nações colonizadoras na América, quer se tratasse da Espanha, da Inglaterra, da França ou da Holanda, não possuíam" (p.104). 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"Ouro doce"



Tão importante o açúcar no séc.XVI ou XVII português que lhe chamavam "ouro doce". E, no entanto, "o doce vai cheio de pecado", conquanto na sua extracção tantos pereciam - nomeadamente, os escravos negros (muitos da Guiné), no Brasil.

domingo, 15 de junho de 2014

Mundial 2014: primeiras notas. Sterling e a sucessão ao trono





1.Depois de três mundiais consecutivos intranscendentes, o Brasil 2014 já nos ofereceu dois jogos memoráveis: Espanha-Holanda e Inglaterra-Itália.

2.Antes do formidável voo de Robin van Persie, na passada sexta-feira, havíamos ficado, se bem me lembro, no slalom fantástico de Michael Owen, em velocidade e finta vertiginosa sobre a defesa das pampas, estávamos ainda no século passado, 1998. Antes do domínio prodigioso de Arjen Robben, da simulação de Andrea Pirlo e do bilhar às três tabelas entre Sterling, Rooney e Sturridge permanecíamos na finta solar, do 10 puro que era Oriel Ortega e na desmarcação extraordinária de Dennis Bergkamp no Holanda-Argentina do mundial francês. O futebol regressou ao Mundial.

3.Não é preciso ser grande adivinho para perceber que Austrália, Camarões ou Grécia não passarão à segunda fase do Mundial 2014. A falta de talento na selecção grega faz, de facto, da presença na competição um feito. Se Samaras é o melhor do onze inicial e joga quase a extremo, não se pode esperar muito da equipa helénica.

4.Não enterrem já a Espanha. Não foi tão má como o resultado frente à Holanda parece indiciar. Durante largos minutos da primeira parte, conseguiu, simultaneamente, um domínio e controlo de jogo, em qualidade, que não vi ainda replicado. Se não colapsar psicologicamente no jogo com o Chile – os minutos iniciais do encontro poderão ser determinantes -, pode ir muito longe. E com jogadores com a experiência de Xavi, Iniesta ou Silva é expectável que a equipa não colapse. Vicente Del Bosque, reagindo com a elegância habitual, no final do jogo garantiu que não haveria revoluções. Julgo que deve ser esse o caminho. Mudar uma identidade porque se perdeu um jogo – mesmo por números estratosféricos – faria pouco sentido. Identidade, contudo, que com a presença de um avançado com as características de Diego Costa – muito solicitado em profundidade, em um jogo directo – fica um pouco em causa. Foi melhor a Espanha, nos últimos campeonatos, sem um 9 clássico, do que com ele. Cesc Fabregas será, provavelmente, a melhor opção para o jogo associativo. Caso contrário, mesmo sem a intensidade de outrora, David Villa parece-me o avançado mais ligado com o (restante) conjunto. O oportunismo de sempre apontou o erro infantil – evidente – de Casillas. Há 4 anos, na final da África do Sul, quando parou o magnífico Robben isolado, dando, a poucos minutos do fim, o 0-0 que permitiria aos espanhóis ir a prolongamento e ser campeões do mundo, onde estavam os heróis?

5.Será interessante de seguir a diferença de estilos no jogo a eliminar entre uma Croácia muito racional, calculista até, linhas baixas e um México, mais anárquico, mais solto, mais festivaleiro, mais errático. Num encontro sem a possibilidade de perfeita analogia, mas com alguns traços que podemos aqui convocar, entre o apolíneo italiano e o dionisíaco inglês, prevaleceu o primeiro.

6.Com excepção de Joel Campbell, da Costa Rica, todos os demais destaques individuais nos jogos até agora disputados, neste mundial, foram de jogadores já celebrizados neste desporto: Neymar e Óscar, Robben e Van Persie, Sterling ou Balotelli.

7.Além de dois jogos para recordar, o Mundial teve já duas grandes surpresas: Espanha-1-5-Holanda e Uruguay-1-3-Costa Rica.

8.Apesar da vitória histórica sobre os espanhóis, não se pode dar por garantido um grande Mundial holandês. Com Sjneider longe do fulgor de outros tempos, o meio campo laranja é não só muito faltoso – terrível De Jong – como muito pouco criativo (ou criador de jogo). Mesmo com os astros de Manchester United e Bayern na frente, pode ser curto. Estou em crer que será.

9.Um dos grandes méritos uruguaios nas últimas competições em que entrou foi o espírito de grupo, um trabalho intenso, sacrifício, luta. Tudo aspectos completamente ausentes do jogo com a Costa Rica, em uma displicência totalmente inesperada. Uma vez mais, a identidade, quando traída, dá de si.

10.Até agora ainda não vi uma grande exibição de um guarda-redes neste mundial. Não se terão proporcionado para isso os jogos. Apenas uma menção honrosa, para Keylor Navas, da Costa Rica.

11.Já na fase de apuramento para o Mundial fiquei com a sensação de que a Colômbia tem jogadores para um jogo bem mais bonito do que aquele que acaba por praticar. Os 3-0 frente à Grécia ocorreram num paupérrimo desafio de futebol. E até me parece que Pekerman conhece muito bem o jogo. Que se passa?

12.Cinco jogadores do Liverpool, a sensação futebolística do ano em minha opinião, são titulares na Inglaterra. Sterling e Sturridge, dois dos mais excitantes jogadores da temporada, voltam a encantar. Mas aos ingleses falta um Coutinho, um 10 que saiba pausar o jogo, algo que não assenta às características de Rooney e que também não vi em Barkley quando entrou. Roy Hodgson nunca foi um aventureiro, mas com uma espécie de 10 ao lado de Gerrard e Henderson poderia vir a confirmar-se com o líder do mais interessante projecto futebolístico deste Mundial. Seria, para regressar à metáfora de Jurgen Klopp, juntar o heavy metal – velocidade furiosa não falta a esta Inglaterra – com a música clássica (a pausa e harmonia que faltam). Mais uma vez se prova que uma selecção que aproveite uma espinha dorsal de uma equipa tem tudo para fazer uma grande competição.

13.Admira-me que uma equipa que aposta tudo na mobilidade dos jogadores da frente e que gosta de jogar com um falso 9, como o Barcelona, não pense em Sturridge e/ou Sterling como reforços para os anos vindouros.

14.Poderá Sterling, que joga muito aos 19 anos, entrar na luta pela sucessão ao trono – bola de ouro – e vir a ultrapassar Neymar nessa corrida, ou nem por isso? O mundial poderá ditar outras contas, mas a época foi muito mais do jogador dos reds do que do dos blaugrana.



quarta-feira, 11 de junho de 2014

O Brasil e o futebol


"O Brasil parar em função do Mundial, como se fosse a coisa mais importante que existe, é absurdo. O país tem milhões de problemas sociais para resolver.

Essa história sempre repetida de que o Brasil é o país do futebol não faz sentido. Metade da população do Brasil não acompanha o jogo. Sempre que fazem sondagens, a maior torcida do país é a dos que não tem clube. Só no Campeonato Mundial é que fica esta coisa louca, o país pára, é uma coisa quase delirante, diga-se de passagem. Por exemplo, o campeonato dos EUA tem uma média de espectadores do que o Brasileirão".

Tostão, em entrevista ao Expresso, 07/06/14




P.S: Considerado um dos grandes craques da história do futebol brasileiro, viu-se obrigado, por lesão, acabar, precocemente, a carreira de futebolista. Enveredaria pela carreira académica, vindo a ser médico e Professor de Medicina. Continua a comentar futebol, que ama ver, sendo reputado crítico brasileiro sobre o jogo.



P.S.2: "Mourinho é um grande treinador, competente, brilhante estratego, com um currículo vencedor, organiza as equipas muito bem e eu admiro muito esse lado. Mas é também um representante, talvez o maior, da escola pragmática, utilitária, resultadista. Vencer é muito importante (…) mas falta-lhe, a ele e à maioria dos treinadores, um entendimento de que o futebol também é espectáculo. Veja o caso da utilização no Chelsea do Azpilicuelta, com o Atlético de Madrid (…) Um erro. Em vez de usar o Óscar ou outro jogador de qualidade preferiu fechar o lado do campo. Às vezes resultam as mudanças estratégicas dele, outras vezes falham. Mas ele gosta de as fazer para que depois se diga: foi o Mourinho que ganhou o jogo. Ele tem esse lado vaidoso, narcisista, de ser o centro do jogo, isso é evidente".


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Brasil e literatura


No Público:

Para o brasileiro Luiz Ruffato “escrever é um compromisso”. O autor de “Estive em Lisboa e lembrei-me de ti” (que é editado em Portugal pela Quetzal e Tinta da China) quer “afectar o leitor”, modificá-lo, para transformar o mundo. “Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias”, disse nesta terça-feira, na cerimónia oficial de abertura da Feira do Livro de Frankfurt, que este ano tem o Brasil como país convidado.
O escritor de Minas Gerais foi escolhido para ser o orador literário da cerimónia de boas vindas ao país convidado ao lado da presidente da presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, naquela que é a mais importante feira mundial do sector e que nesta quarta-feira abre portas. Fez um discurso que não deixou ninguém indiferente, mostrando como o Brasil é um “país paradoxal”: “Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edénicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza.”
Falou do genocídio histórico dos índios, que em 1500 eram quatro milhões e hoje são 900 mil, das desigualdades sociais, da violência, do racismo, afirmando que a história do Brasil se tem alicerçado “quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença. No final havia gente a aplaudir de pé.
Emocionou, por exemplo, a mais importante agente literária brasileira, Lucia Riff, uma das veteranas de Frankfurt, e foi ao encontro do que pensa o escritor brasileiro Paulo Lins, autor de “Cidade de Deus” e de “Desde que o Samba é Samba” (ed. Caminho), que se sentiu muito bem representado e para quem o discurso do colega mostrou “o Brasil como ele é”. “A gente fica passando essa visão debaixo do pano, ele falou somente a verdade”, disse ao PÚBLICO, surpreendido com a opinião daqueles que consideraram não ser a Feira do Livro de Frankfurt o lugar para se fazer um discurso daquele tipo argumentando que só iria aumentar o estereótipo. “Não seria o lugar?! Mas qual seria o lugar, no congresso nacional brasileiro? Ainda mais tendo os escritores um compromisso com a verdade”. Também o escritor Cristovão Tezza, autor do premiadíssimo “O Filho Eterno” (ed. Gradiva) disse ao PÚBLICO ter sentido o discurso de Luiz Ruffato como “muito autêntico e verdadeiro”, alegando que não reforçava o cliché
Luiz Ruffato começou com uma interrogação pertinente: "O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso.” Lembrou o “mito corrente” da chamada “democracia racial brasileira”, de que não houve “dizimação, mas assimilação dos autóctones”. “Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um facto indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.” E ouviu-se silêncio na sala.
O escritor continuou. “Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.” E lembrou que 75% de toda a riqueza brasileira se encontra nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Disse que “quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas eléctricas, segurança privada e vigilância electrónica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.”
Lembrou que são “machistas”, ocupam “o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica”, e que são “hipócritas”, sendo reveladores os casos de intolerância em relação à orientação sexual : “o local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.”
Mas o discurso de Ruffato em Frankfurt terminou com optimismo. Além de referir a conquista da sua geração, a democracia, voltou à pergunta inicial: “o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida? Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contacto, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade.”


terça-feira, 23 de julho de 2013

Uma viagem e expectativas altas



No en vano, el viaje a Río está siendo parangonado con la histórica visita en 1979 de Karol Wojtyla, el primer papa polaco de la historia, a la Varsovia comunista. En aquel momento se dijo que Juan Pablo II había sido escogido pontífice para luchar contra un comunismo que impedía las libertades y boicoteaba los derechos fundamentales imponiendo una dictadura atea de izquierdas. En aquel primer viaje a Polonia, Wojtyla gritó contra el comunismo que pretendía “excluir a Cristo de la historia”. Y más tarde sería Mijaíl Gorbachov quien agradecería al papa polaco “su ayuda para hacer caer el muro de Berlín”.

Francisco llega a un continente, el suyo, para gritar no contra los que pretenden excluir a Cristo de la historia. Aquí no hay dictaduras que encarcelan a los cristianos, ni comunismos estalinistas que impiden las libertades fundamentales de los ciudadanos. Lo que existe son las políticas neoliberales o populistas teñidas de socialismo que siguen creando pobres. Lo que puede hacer que este viaje cambie la historia, como lo hizo Wojtyla en Polonia, es que ayude a convertir esta realidad en políticas de inclusión y de igualdad de oportunidades.

Quien lo conoce de cerca afirma que el papa argentino es sencillo en su vida y humilde religiosamente, pero sutil y con ambiciones de cambiar no solo a la Iglesia sino de influir en un cambio de sociedad a escala mundial.

Lo mismo que suele decirse que el hombre religioso no puede dejar de ser un animal político, pero sin entrar en la política de partidos e ideologías, Francisco piensa que el católico —el cristiano en general—, así como el judío o el musulmán o el budista, sin dejar su fe, debe bajar al infierno de las desigualdades y colocarse al lado de los que la sociedad de la opulencia y del consumo deja abandonados a su suerte. Es significativo que él insiste en que cuando encuentra a una persona no le pregunta cuál es su credo, sino “si hace o no algo por los demás”, si se preocupa por el prójimo.


Pablo Ordaz/Juan Arias, ElPais, 23/07/13.