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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Atoleiro (ideológico)


Quando Robert Rubin era secretário do Tesouro de Clinton, gabava-se de ter convertido os défices da época de Reagan em consideráveis superávites  orçamentais. Desde então, com os republicanos, os EUA avançam com rapidez na direcção errada. Em junho de 2001, depois da queda das dot.com e de umas controvertidas eleições, a Administração Bush tinha aplicado uma redução fiscal que se estimava que custaria ao governo federal 1,35 biliões de dólares em dez anos. Isto beneficiou sectores chave, mas também acabou com os superávits de Rubin e foi feito intencionalmente. Os republicanos tinham-se convencido de que os superávits tendiam a fomentar um maior gasto público. O seu enfoque foi o inverso, aquilo que os estrategas republicanos da época de Reagan denominaram «matar a besta à fome». Ao consolidar os cortes tributários e expôr-se a uma crise fiscal, criariam uma imperiosa necessidade de diminuir a despesa, restringir o direito a prestações sociais e reduzir a marca do Governo
O problema é que os cortes de despesa que se supunha que se seguiriam às reduções fiscais nunca se produziram. Os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 puseram os EUA em pé de guerra. A Administração Bush respondeu com um enorme incremento de despesa em Segurança e Defesa. Depois, meteu os Estados Unidos, de um modo que espantosamente recordava o Vietname, no atoladeiro iraquiano. Em 2006, enquanto se reunia o grupo do Projecto Hamilton, o Iraque encontrava-se à beira de uma sangrenta guerra civil sectária. A questão era como sair dali. Não era apenas desmoralizador e humilhante, também era extremamente custoso. A Administração Bush fez todo o possível para manter os custos da guerra fora do Orçamento ordinário, pelo que um grupo de peritos do Partido Democrata decidiu fazer as contas. Para 2008, a factura, só para o Afeganistão e o Iraque, ascendia, no mínimo, a 904 mil milhões. Os cálculos menos conservadores situavam a cifra em 3 biliões de dólares. Era, sem dúvida, mais do que os Estados Unidos tinham gasto em qualquer guerra, desde a segunda guerra mundial. (...) Sem embargo, a Administração Bush não apenas não anulou os cortes fiscais, como, em maio de 2003, redobrou a aposta introduzindo uma nova ronda de desagravamento fiscal. Com a ideia de que o orçamento militar era sagrado e de que o resto dos gastos discricionários não bastavam para marcar a diferença, os republicanos propuseram reduzir a brecha com cortes muito pouco equitativos em «benefícios» sociais. No entanto, não puderam obter a aprovação do Senado, onde os republicanos tinham uma escassa maioria e os «moderados» eram decisivos. Este bloqueio foi o que converteu o superávit orçamental de Rubin, 86400 milhões de dólares em 2000, num défice sem precedentes de 568000 em 2004, sem que se visse houvesse um fim à vista

Adam Tooze, Crash. Cómo una década de crisis financieras ha cambiado el mundo, Crítica, Planeta, Barcelona, 2018, pp.39-40 [tradução minha]

domingo, 26 de novembro de 2017

Cegueira e cupidez

Resultado de imagem para ganância

A 20 de Março de 2003 começavam os ataques da ofensiva americana a Bagdade ou Operação de Libertação do Iraque. O nome depende da zona do globo onde se vive. Para Luís Barreiros, então embaixador em Bagdade, a guerra libertou os iraquianos de um ditador mas deixou-os num vazio de poder. "Depois da guerra, Bush disse que o mundo estava mais seguro. Não sei de que mundo está a falar", diz, recordando que o Daesh cresceu a seguir ao conflito
Seis dias antes, Portugal tentava ficar na fotografia do lançamento da ofensiva militar. A cimeira dos Açores, organizada por Durão Barroso, juntou José Maria Aznar, Tony Blair, George W.Bush para fazerem a declaração de guerra. Na capital iraquiana, o embaixador era apanhado de surpresa: "Fiquei preocupado porque tive dificuldade em perceber o que Portugal tinha que ver com aquela guerra". Pedi orientações a Lisboa que "não respondeu nada de especial".
Do outro lado do mundo, Pedro Catarino, embaixador em Washington, foi avisado pelo primeiro-ministro. "Durão Barroso não teria sido presidente da Comissão Europeia se não tivesse o relacionamento que tinha com Bush. Era um bom relacionamento. A relação entre a UE e os EUA é fundamental e convinha aos líderes europeus terem um presidente com um bom relacionamento com o Presidente americano".
O pós-guerra provocou um assalto dos empresários à reconstrução. Itália e Espanha foram dos países mais ávidos na corrida, mas vários empresários nacionais também tentaram a sua sorte. "Houve um gabinete em Bagdade criado pelo ministro Martins da Cruz para isso. Na primeira visita foram 10, mas não sei se os negócios se concretizaram", revela Luís Barreiros. O mais conhecido dos investidores era a Sonae Sierra que tentava fazer negócios através de um centro de distribuição que tinha na Síria. 

Carolina Reis, Os nossos olhos pelo mundo, Revista do Expresso, p.40. Expresso nº2352, 25-11-2017