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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Testemunho


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A castidade e a pobreza não são difíceis. A obediência é que é muito difícil. É pôr a inteligência e a vontade nas mãos do bispo. [Fica preocupado com estes movimentos mais tradicionalistas?] Tenho uma pena muito grande. São pessoas óptimas, mas ainda não entenderam que a Igreja se renova constantemente. É engraçado que quando eu estudei Teologia há 60 e tal anos, já nós falávamos no progresso dogmático, quer dizer o próprio estudo dogmático vai crescendo, vai-se renovando. Portanto, ficar parado nas coisas velhas é ser velho quando se é jovem, e é uma pena. Perdem a oportunidade de encontrar um sentido novo para a sua própria Igreja que corresponde ao mundo. (...) Nessa altura fui também pregar um rito aos bispos. Tinha 36 anos. Passei noites sem dormir. Estudava, estudava para no dia seguinte sair bem. A última conferência era sobre o documento do Concílio que me apaixona mais, Gaudium et Spes, sobre a acção social da Igreja. Falei sobre a responsabilidade sociopolítica da Igreja e fui interrompido por um bispo: 'Como é que você tem a coragem, perante os benefícios que temos do Estado Novo, de falar assim? Eu disse: 'Senhor bispo, vai-me desculpar, estou a ler os textos do Concílio aprovados por vossa excelência'. Aí tomou a palavra o cardeal Cerejeira: 'Senhores bispos, o padre Vítor tem razão'. (...)
[Depois de contar à Conferência Episcopal o que se estava a passar no dia 25 de Abril de 1974] O D.António Rodrigues, das Forças Armadas, disse: "Excelências, podemos estar tranquilos, porque o general Costa Gomes é de comunhão diária". E era! O Costa Gomes acabou por ficar al considerado, mas equilibrou isto para não cair no PC. (...)
Perguntei ao Protocolo da Santa Sé qual era o meu lugar [durante a visita de João Paulo II a Portugal, em 1982]. "Ao lado do Papa, mas não fazes nada, nem dizes nada". O Papa não disse uma palavra o dia inteiro. Ia em contemplação. A certa altura, João Paulo II pediu ao secretário o discurso que ia fazer a Braga. Cortou um parágrafo completo. [Sobre o quê?] Dizia-se que os casais recasados não podiam comungar. "O Papa sabe que quando chegar a Braga vai ter muitos casais recasados, não quer magoá-los", disseram-me. Uma coisa são as regras. Outra coisa é a relação com as pessoas. Não foi o Homem que foi feito para as leis. São as leis que foram feitas para o Homem. (...)
[Como surgiu o convite em 1992 para alto-comissário do Projecto Vida, de luta contra a droga?] Quem tinha este pelouro era o juíz Armando Leandro. Como queria sair, propôs ao primeiro-ministro Cavaco Silva que fosse eu a substituí-lo. Falei com D.António Ribeiro que me disse: "Aceita, porque a Igreja não pode estar longe deste problema". Estive três anos com Guterres. Com o Cavaco estava tudo resolvido em 15 minutos. Com o Guterres, ficávamos três horas a conversar (...)
[Bento XVI foi pouco compreendido pela opinião pública?] As pessoas com cultura, mesmo agnósticos, acharam o Papa Bento XVI espectacular. Os com menos cultura, que tinham a ideia pelos jornais de que ele era conservador, tiveram mais dificuldade em aceitá-lo. (...)
O sacerdote não é só o pregador. Não é só quem celebra a eucaristia. Não é só quem se preocupa com os pobres. Na comunidade paroquial, estes três ministérios são realizados com toda a intensidade. A primeira característica que impus quando cheguei aqui: acolher, acolher, acolher. Nunca dizer não. Quem quer falar comigo venha falar comigo. (...). Durante a semana preparo o que vai acontecer ao Domingo. A homilia tem de ter em conta a palavra de Deus e o jornal diário. Por isso na homilia meto muitos acontecimentos: o Papa disse isto, há um problema na Colômbia. Tudo o que se diz está integrado num ponto-chave.
[Tem tempo para ler outras coisas?] Tenho de ter. Nunca me deito antes da meia-noite e levanto-me às sete. [Fez muitas viagens] Corri o mundo em trabalho. A mais marcante foi a primeira ida à Terra Santa, em 1965. Quando fomos ao Santo Sepulcro, encostei a minha cabeça no altar. Tiveram de me ir buscar porque me tinha perdido. Uma coisa de uma beleza fantástica. (...)
[Com o que sonha agora?] Merecer o Céu. Quero chegar à casa de Deus, ao banquete prometido pelo profeta Isaías. Só espero que haja - nada mais nada menos - do que trouxe-de-ovos, se possível do Luíz da Rocha, em Beja, as minhas favoritas.

Vítor Feytor Pinto, 85 anos, entrevistado por Ana Catarina André para a Sábado, de  28 de Setembro a 3 de Outubro de 2017, pp.66-71