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sábado, 25 de novembro de 2017

Indústrias Criativas

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Carlos Abrunhosa de Brito, da ADDICT, esteve, na tarde de ontem, em uma sessão organizada pela UTAD, integrada no Douro Creativ Hub, na Biblioteca Municipal de Vila Real, perante uma plateia composta por uma faixa etária bastante jovem, fazendo a apologia da aposta nas indústrias criativas. Mobilizando dados de 2012 e recorrendo ao mais recente estudo, de Novembro de 2016 (mas, segundo o conferencista, mau grado o esforço de voluntariado, em universidades ou autarquias, por si realizado, ainda muito pouco conhecido e fora da agenda política e mediática), coordenado por Augusto Mateus, sobre esta tais indústrias, deu nota de que estas, em Portugal, geraram uma receita superior a 5 mil milhões de euros (dados de 2012) e empregaram 147 mil pessoas.
No interior do sector das indústrias criativas, o peso das artes performativas é muito substantivo. A economia criativa surge em um contexto cultural de forte autonomia dos jovens, grande capacidade de mobilidade - pelo menos, quando comparada com tempos pretéritos e por banda de, pelo menos, uma parte da população -, muita informação disponível e crescente exigência das pessoas (e dos consumidores).
Durante o período da troika em Portugal, a economia criativa mostrou grande resiliência, contrariando aqueles que foram os resultados globais, no mesmo período, da economia portuguesa.
Economia criativa, esta, todavia, que se encontra muito - diríamos, demasiado - concentrada nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto (mais de 67%).
As exportações das indústrias criativas cresceram 38% desde 2007 (passando a representar 4%, face aos anteriores 3,5% das exportações portuguesas). De resto, a partir de 2012 passamos a exportar mais do que a importar, neste domínio.
Nestas exportações, um grande destaque merece o design de móveis e as porcelanas. Móveis de luxo, com um design muito apelativo saem de Portugal com um grande valor acrescentado e num mundo tão heterogéneo há sempre gente para comprar tais produtos, sendo aqui, então, porventura, produzir em enormes quantidades (quem manda produzir, ou compra este tipo de produto - pelo qual, Portugal é conhecido e reconhecido no exterior - sabe da qualidade do que aqui é feito e está disposto a pagar 4/5 mil euros por um pequeno móvel, por exemplo; isto, em determinados países árabes, como o Dubai, é muito evidente).

Ao longo da tarde, a sessão deriveraria pela situação do turismo no nosso país e Carlos Abrunhosa de Brito referir-se-ia, neste âmbito, ao Teatro Nacional de S.João como tendo tido que operar mudanças para que turistas não nacionais possam assistir aos espectáculos. Considerou, mais ainda, que o Porto possui meia-dúzia de equipamentos, não mais do que isso, pelo que os actuais níveis de turismo tenderão a esgotar-se rapidamente - ou se consegue uma outra integração (digamos, de um conjunto de produtos turísticos a oferecer; ou há, portanto, um outro pulsar), ou então esse turismo tenderá a diminuir imenso (numa observação que muito me fez lembrar o que M.M.Carrilho, no livro de entrevistas com J.J.Letria referiu relativamente a Lisboa, a uma ausência de um festival de música a sério, de ópera, etc.). 

O palestrante, questionado sobre a sua actividade privada, falou acerca do que fez enquanto empresário, mas também ao nível do ensino, sendo que conseguiu incrementar as receitas de negócios em que intervém através do ensino puramente online, em plataforma a partir de Londres, com aulas, p.ex., sobre design de móveis. Trabalha em Londres e em Madrid, vive no Porto.

P.S.: Num documento com cerca de 10 anos, de cerca de 20 páginas, que depois reproduzi também neste blog na íntegra, dedicado a Vila Real referia-me a tais indústrias, assim: 


"Está disponível on-line (http://www.serralves.pt/fotos/editor2/inserralves/Estudo%20Macroeconomico%20Relatorio%20Final.pdf) o estudo macro-económico que a Junta Metropolitana do Porto, a Casa da Música e a Porto VivoSociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuensepromoveram, referente à avaliação da possibilidade de “desenvolvimento de um cluster das indústrias criativas na região Norte” portuguesa.
Insertos em tal marco geográfico, importa atentar no documento em causa. É um texto interessante e merece bem a leitura: faz o diagnóstico, descrevendo constrangimentos e potencialidades; identifica oportunidades; propõe soluções, tudo no quadro das infra-estruturas, instituições e recursos humanos susceptíveis de alavancar a hipótese enunciada em epígrafe.
Mais centrado, é certo, no Porto e sua área metropolitana, o estudo aponta Braga, a sua demografia, juventude, movida e Universidade como pólo(s) atractivo(s); Guimarães com forte potencial, caso vença, como se espera, o desafio de capital da cultura de 2012; Aveiro com unidades relevantes na aposta em I & D, numa Universidade reconhecida. Depois, bom, depois há um significativo parágrafo sobre Vila Real: “ não obstante a sua posição privilegiada nos cruzamentos do IP4 e IP3, e consequente ligação ao Douro, Centro e Espanha (Chaves-Orense, Bragança-Zamora) não apresenta dinâmicas significativas no que respeita à ecologia criativa, e o esforço de incorporação desta dimensão passaria obrigatoriamente por um forte voluntarismo, sendo que não será de excluir o apoio a todas as dinâmicas que surjam nomeadamente nas redes de ligação transfronteiriça, e no que diz respeito á posição privilegiada de Vila Real, como porta para o Alto-Douro vinhateiro”.
Que ecologia, que ambiente criativo é este de que estamos privados? Comecemos por uma definição simples. Indústrias Criativas são a Arquitectura, Publicidade, Artes Visuais e Antiguidades, Artesanato e Joalharia, Design, Cinema, Vídeo e Audiovisual, Artes Performativas, TV e Rádio, Software e Serviços de Informática. Uma boa ecologia local exige galerias, museus, auditórios, programação cultural – e esta reclama rede de espaços e serviços; locais para ensaios, ateliês, territórios de trabalho devidamente equipados; acesso a financiamento especializado (existência de recursos públicos); moradas onde os profissionais se possam encontrar, partilhar e construir relacionamentos que contribuam para a troca de ideias e ainda um sentimento de propriedade, dos criadores, sobre tais edificações, permitindo-lhes imprimir a sua identidade. A inclusão de aposta em I & D – o exemplo dado é Braga nas engenharias de materiais e de polímeros – é crucial. E espaços não monotemáticos, mas lugares interdisciplinares de encontro. Fundamental, do mesmo modo: uma robusta parceria autarquia-universidade. “O poder político deve fazer o papel de motor de arranque (legislação, infra-estruturas, derrube de barreiras físicas e jurídicas, apoios, enquadramento fiscal)”.
12 – “A criatividade daqueles que habitam e lideram uma cidade determina o seu futuro”, pode ler-se, sem surpresa, no relatório final, da elaboração vinda de mencionar.
Um exercício de cidadania passa, pois, também, por aqui, pelo momento de proposta.
Sofrendo um vasto conjunto de obras, nos anos mais recentes; com equipamento audiovisual disponível; know-how feito de experiência, a zona do Pioledo, em Vila Real, mais concretamente a sua antiga sala de cinema, bem poderia ser alvo – se se procurasse promover um entendimento alargado entre os detentores de tal área de jurisdição – de uma parceria publico-privada, que pudesse recriar o local (se precisássemos de alguma inspiração, evocaríamos a sala Passos Manuel, no Porto, reformulada, igualmente nos últimos anos, com inegável vantagem face ao estúdio anterior; ainda que em Vila Real, obviamente, um espaço sob outras formas, linhas e cores, projectando a arquitectura, os criadores locais). Seria paisagem multiforme, de cinema e de teatro; de exposições e artes performativas; de concertos – a música ao vivo vai ganhando relevância ao nível da facturação da respectiva indústria, como se refere no dito estudo – conferências. A perspectiva não monotemática vingaria.
De resto, a forte inclinação da cidade para a margem do Teatro Municipal e do moderno centro comercial a ele contíguo, e, bem assim, dos jardins junto ao Corgo suporiam, numa lógica de harmonização das várias “geografias” e “clusters” da cidade, uma aposta neste sentido.
Porventura melhor ainda, mas talvez com custos acrescidos, um imóvel com a caracterização descrita, não já na zona anteriormente mencionada, mas no centro histórico vila-realense, desertificado no ocaso de cada dia, despido de gente e alma, sem vida. Uma das prioridades acometidas ao consórcio que efectuou o estudo passou, aliás, grandemente, pelo ultrapassar dessa irreversibilidade de abandono e degradação dos centros históricos, onde a visão preconizada pudesse vir a gerar um conjunto de intervenções públicas (o documento foi pródigo nos exemplos britânicos de recuperação de tais locais; um leitor de Orwell, não terá deixado de notar como n´O Caminho para Wigan Pier, Sheffield já não é um espelho de horrores, mas um bom aluno de uma requalificação que pode ensinar-nos)".