1. Para Gilles Lipovetsky, a leveza, em si mesma, não é má. Apenas "a leveza fútil erigida em ideal de vida supremo" (p.333). Em realidade, "o perigo não é a leveza frívola, mas a sua hipertrofia, quando invade a vida e sufoca as outras dimensões essenciais da existência: a reflexão, a criação, a responsabilidade ética e política. A leveza de frivolidade não é uma coisa dramática em si mesma, e só se torna dramática quando se impõe como modo de vida dominante a ponto de abolir aquilo que faz uma vida humana «rica». Haverá algo mais aborrecido do que a frivolidade?" (p.333). Diferentemente, "a verdadeira leveza" reclama "trabalho esforçado, disciplina, coragem de suportar as dificuldades", em uma luta "contra a agitação e o frenesim do mundo moderno" (p.334). Uma vida sem a leveza, o "amar tudo o que existe" (nietzscheano), perderia a sua graça, embora o estado da mesma não se encontre num programa (um livro, um conselho, seja o que for), sendo a sua brevidade, tal como a brevidade do seu estado contrastante, da sua natureza.
2. Em Da Leveza, e concentrando-me no capítulo final, dedicado à política, Gilles Lipovetsky observa que o momento inicial de um tempo descentrado do futuro, afastado das grandes narrativas, dos grandes sistemas de sentido teve na "economia da leveza consumista" um lugar charneira: "alterou a relação dos homens consigo próprios, com a sociedade e com a História" (p.310). Diversamente dos maiores críticos desta sociedade centrada no consumo - os Popper, Steiner, Adorno, Debord, Castoriadis -, Lipovetsky pretende mostrar o outro lado da moeda - as consequências "positivas" que esta sociedade aduz ao campo político -, quando não (quase que exibe) a sua preferência e defesa deste mesmo estádio cultural em que nos situamos. Na medida em que, sobre um dado momento societário, apenas divisar-se sinais de condenação se afigure como algo pouco interessante, ou produtivo, as lições de Lipovetsky têm um lugar com alguma pertinência (neste dilucidar do tempo que vivemos e de encontrar zonas de conforto para nele nos situarmos); na medida em que a análise possa, eventualmente, escamotear o que, neste entorno social, se presta a consequências muito negativas, é menos útil.
"Pátria", "nação", "revolução", "social-democracia", "liberalismo", ou "comunismo" serão palavras que hoje não mobilizam. Os efeitos dos totalitarismos tornaram a suspeita sobre as ideologias de tal modo agudas que a desmobilização se tornou a opção (preferida). Mas não só: uma sociedade consumista tende a centrar-se nos interesses individuais, e muito menos no que é "público". As pessoas estão menos interessadas, e muito pouco aptas, a um pensamento sistemático, elaborado, e centram-se em pequenas causas, fragmentárias, com um interesse ocasional - não necessariamente apatia - pela política. Esta, perdeu o (seu) carácter "heróico" (uma anotação, esta, relativa à heroicidade, e ao carácter pontual e não sistemático de actuação na política. na qual Lipovetsky e Innerarity concordam). Todavia, questionar-se-à o leitor, se se pede tanto à política, se a revolta contra o "establishment" é tão grande, se a "raiva" contra políticos que utilizaram mal o veículo que poderia mudar para melhor as vidas de tantos cidadãos, se o irrealismo no que se pede à política face ao que a política pode dar é tão manifesto, não há aqui uma dimensão justamente "heróica" assacada à política (mesmo que nela não nos envolvamos "heroicamente")? Como compreender esta contradição (e estas expectativas)? Por regra, não se é (a generalidade das pessoas não é, hoje), portanto, segundo, Lipovetsky um "social-democrata hard" ou um "liberal hard", etc., porque não se investe apaixonadamente (nem sistematicamente, de modo racional-dogmático) na ideologia. Isto, sublinha o filósofo, com interesse, leva a que, por exemplo, e ao contrário do que muitos pensam, a democracia esteja mais consolidada do que nunca: não havendo apaixonados, na globalidade, por sistemas e ideologias contrários à democracia, como os houve no séc.XX, isso significa uma consolidação e aceitação da democracia - que, assim, nunca será posta em causa - como não havíamos tido (até há poucas décadas). Será mesmo assim? Quando olhamos para os inquéritos relativamente ao empenho que o Estado deve (ou não) ter em matéria de protecção social, nos EUA, vemos como o eleitorado se divide, sistematicamente, ao meio (seja qual for o candidato dos dois maiores partidos norte-americanos, cada bloco não desce abaixo dos 40%, com lógicas, pois, muito sedimentadas). Se a centralidade da "política identitária", como constatava Innerarity em Política em tempos de indignação, conheceu nova vindicação na passada terça-feira, não menos clara é esta linha de fractura ao nível da economia política: ora, isso pode levar-nos a perguntar se não há uma linha muito clara de identidade política (nestes termos do papel do estado da Economia) que não transformando, necessariamente, alguém em "social-democrata hard" ou "liberal hard", ou, muito menos, com um pensamento sistemático em algum dos lados, vincula uma parte significativa do eleitorado a uma linha político-ideológica clara.
Note-se, ainda, que Lipovetsky não se refere apenas às "religiões seculares" (ideologias), mas, ainda, às religiões propriamente ditas como tendo perdido a capacidade de influência e conformação (dos indivíduos e das sociedades) que antes haviam tido. Desaparece a fronteira Igreja-mundo, p.ex., regista. Precisamente, aqui, uma questão-chave: a violência política, a luta por grandes ideais, qualquer finalidade perderam-se e assim, dado que ninguém luta por coisa alguma (que não um interesse momentâneo, particular, que contenda com a "esfera pública"), então o regime político não é posto em causa (mas também, não pode deixar-se de sublinhar, não teremos, neste contexto, nenhuma defesa acrisolada do mesmo). Vejamos: adaptando o célebre dito de Chesterton "quem não acredita em nada, está disposto a acreditar em qualquer coisa". A combinação de uma recusa de ver o outro como semelhante, para o qual faça sentido carrear, através de impostos, algo do meu rendimento, com um niilismo desenfreado - este último ponto muito sublinhado, por diferentes comentadores, nos últimos dias, no caso norte-americano - não conduziu à vitória de trump (e a outros populistas que disseram o mesmo; leiam-se as declarações de Sílvio Berlusconi neste pós-eleições americanas)? Creio que, aqui, Lipovetsky negligencia os efeitos destrutivos, politicamente, de uma ausência de recursos - axiológicos, mundividenciais e político-ideológicos - na actuação eleitoral dos cidadãos (que, por exemplo, desconhecem tanto uma doutrina social e como esta se ancora, como o princípio da diferença rawlsiano - não por acaso, Eduardo Paz Ferreira diz que a primeira teorização do Estado Social é de Rawls; quer dizer, como, sem tais recursos (imateriais), posso suplantar qualquer tendência eventual para me recusar a qualquer distribuição, ou redistribuição?).
Em todo o caso, importa notar, Lipovetsky reconhece que os ataques, terroristas, perpetrados por jovens ocidentais, "são a prova da incapacidade do universo frívolo para responder a todo um conjunto de exigências de fundo dos indivíduos hipermodernos: sentido da vida, identidade social colectiva, referências estruturantes, auto-estima" (p.308). O sentido da vida, pois, é demandado, segundo esta visão, que, desta forma, se afasta da ideia de A era do vazio de que "não há sentido e ninguém quer saber". O recuo dos sistemas de sentido, reconhece aqui o autor, pelo contrário, ao deixarem tanta gente ansiosa, insegura, sem certezas, se permitiu a emancipação individual - a destradicionalização - deixou a pessoa num salto sem rede.
Há um paradoxo curioso relativamente à muito evocada questão das redes sociais que é a da sua ligação com as novas gerações - e os resultados mostrarem que estas, no concreto caso norte-americano, terem votado, maioritariamente, contra Trump (ou a favor de Hillary; isto, se quisermos personalizar - outro traço, o não programático, dos tempos hodiernos). Ainda assim, muitos apostaram na candidatura republicana. Mas votem onde votarem os mais jovens, ou os menos jovens, o que sempre se perguntará é se a não leitura de (bons) jornais, a ausência de mediação, de contexto, de opinião diversa e de contraditório, o reallity show permanente, a politica-espectáculo não permitirá, cada vez mais vezes, que o grotesco se imponha (politicamente também). A política inscreve-se numa cultura, como dizíamos.
Sobre o racismo, Lipovetsky escreveu: "Tanto em França, como noutros países europeus, assistimos a uma liberalização da expressão racista e antissemita, a um aumento das declarações abjectas que visam os ciganos, os muçulmanos, os judeus e os negros: o discurso racista já não é tabu. Enquanto o populismo se desenvolve um pouco por toda a Europa, cerca de três em cada dez franceses declaram-se «bastante racistas» ou «um pouco racistas» (...) [Porém] O racismo contemporâneo abandonou a ideologia da hierarquia das raças e já não sustenta uma visão desigual dos homens: o outro já não tem um carácter substancialmente diferente. Podemos detestá-lo, mas já não é um ser ontologicamente diferente" (p.309). Lipovetsky não explica porque o "detestamos", e como tal se compagina com o nos considerarmos iguais. Isto, numa sociedade que está longe de, em todos os campos, assentar em acquis da ciência para deixar de discriminar - o que implicaria uma lógica racional da qual nos vemos muito afastados (e na qual alguns não deixam de regozijar-se pela manifestação de liberdade que essa atitude contém, mesmo que não gostemos da atitude - cf. Fernando Savater, ElPais, 13/11/16; perspectiva da qual me afasto, consubstanciada na imagem, utilizada pelo filósofo, sobre a atitude perante uma casa em chamas, em que o homem livre seria o que se manteria em casa, mesmo com o fogo, cantando salmos. O que fugiria de casa, segundo o autor, apenas responderia ás circunstâncias. Eu, que não sou filósofo, chamaria a isso apenas suicídio, uma opção tão livre - pelo menos para aqueles que não consideram que este é sempre, ou em algumas ocasiões, resultante de uma perturbação mental -, quanto a de não querer morrer). Fernando Medina, há dias, chamava a atenção, precisamente, para este ponto: a sua geração nunca pensou que depois de 1945 fosse possível voltarmos a ouvir um discurso abertamente racista e xenófobo, como o que encontramos ao longo desta campanha norte-americana (mas não só). Aí, razão a Pacheco Pereira: não há "progresso" (moral, ético, político), a História não mostra ter uma "teleologia", e o "novo" e o "velho" são catalogações ou ingénuas ("não voltaremos a ouvir falar de racismo"), ou interessadas ("os protestos são uma coisa do século XIX"). Ainda que a "presentização" diagnosticada por Lipovetsky (e muitos outros autores) seja, para mim, uma análise correcta da realidade (no que isto confronta o último escrito de Pacheco Pereira no Público). A História permanece em aberto.