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sábado, 27 de outubro de 2018

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Que tratamento editorial a dar ao II Volume das Memórias do Prof.Cavaco? Por um lado, a grande novidade da obra, e normalmente isso é que faz/seria notícia, está em Cavaco colocar-se como a guarda avançada contra a troika, dado que esta era de "um absurdo e uma prepotência inaceitável" e tratava "Portugal como se fosse um protectorado", sendo "inconcebível a atitude de inflexibilidade e de insensibilidade social"; em assinalar Vítor Gaspar como mais troikista do que a troika - "o seu compromisso era com o país, não para com a troika. O que os portugueses esperavam era que ele enfrentasse a troika e a convencesse a recuar. E não me parecia que fosse impossível convencer os nossos parceiros europeus do absurdo da posição irredutível da troika"; em observar que alertou  Passos Coelho para os efeitos da Lei das Rendas, nomeadamente para o facto de os idosos, sobretudo os mais pobres, não terem os direitos acautelados - "o governo falhou ao não aprovar logo as condições de acesso ao subsídio de renda"; em notar a "obsessão" de Passos com o Tribunal Constitucional, em especial a ideia de se demitir em função de pronunciamentos por parte deste - "se desistisse significava que o PSD e o CDS não eram capazes de governar numa democracia constitucional. Não havia precedentes de uma tal atitude por parte de um Governo. O Governo não pode encarar uma decisão do TC como aprovação de uma moção de censura".
Por outro lado, também é manifesto que o principal significado político do livro, das entrevistas que Cavaco deu em sequência da publicação do mesmo, e do posicionamento político do ex-PM é o da crítica à actual solução governativa e uma colagem a Passos - que é um bocado paradoxal face a discrepâncias "profundíssimas", como ontem lhe sublinhava Clara de Sousa, na Sic, que sustenta, no livro, como as passagens vindas de destacar, terem existido face ao Executivo anterior
Um jornalista, portanto, que decida fazer uma notícia acerca do livro de Cavaco confronta-se, pois, com esta situação: dar ênfase a não notícias que estão plasmadas na obra, relativamente ao actual PM e à solução/coligação que o sustenta (que é o que o autor pretende, politicamente, passar); ou acentuar novidades, como as grandíssimas divergências que Cavaco manifesta face ao Governo Passos que, na verdade, são depois, em sucessivas entrevistas, "desdramatizadas", se possível ignoradas, sendo o foco colocado noutro lado (nem, se assim não fosse, Passos marcaria presença no lançamento da obra, nem todos os demais grandes protagonistas políticos portugueses, na actualidade, estariam ausentes do mesmo).
Em função das diversas pré-publicações em diferentes media, pelos excertos conhecidos, somos com Ricardo Sá Fernandes a dizer que o que mais impressiona no que se conhece do livro é a falta de reflexão acerca dos grandes temas nacionais. Ficam os retratos de caracteres, ficam as revanchezinhas, o pequeno corte na casaca que alimenta a política com minúsculas, mas nada há com grandeza, do que se conheceu nas últimas duas semanas sobre o livro. 
Cavaco fica com uma página saliente enquanto PM - com uma política desenvolvimentista, fontista, neo-keynesiana, em grande medida necessária, à época, ao país, com desenvolvimentos ao nível do Estado Social, sem ignorar do que houve, simultaneamente, contudo, de desindustrialização e dos dinheiros comunitários para destruir sectores económicos muito relevantes -, mas sem nota enquanto PR. A tentativa de se reencontrar com 10 anos muito aquém das expectativas, também não parece estar a ser particularmente feliz
Não deixa de ser curioso que o escrito de Cavaco se apresente, agora, com uma consciência social-democrata, na qual, não raro, ao longo de anos, o autor foi enquadrado, mesmo se, no momento presente, apenas por oportunismo - como o qualifica, em editorial, Ana Sá Lopes. Mesmo que o que escreve agora não tenha sido exactamente o que pensou, fez, ou pelo menos, com a relevância que agora se atribui, a verdade é que ao escrevê-lo, e assim querendo passar à história, Cavaco presta, objectivamente, tributo a esses valores (os da equidade que não foi garantida na distribuição dos sacrifícios, segundo agora refere - "cometeu o erro de não cuidar adequadamente da equidade na repartição dos sacrifícios que foram exigidos aos cidadãos"); o da preocupação com despejos desumanos de idosos - como o Público/RR confrontou Assunção Cristas, principal autora política da Lei das Rendas; o do respeito pela Constituição, ou, até, a recusa da TINA, quando sustenta o pluralismo no interior da Economia, afirmando que o PM não podia chamar "ignorantes" a quem não concordava com o Ministro das Finanças, pois "em Economia não há soluções únicas"). Já não é coisa pouca.

P.S.: Clara de Sousa continua a confirmar-se como uma entrevistadora política de excelente nível. Na TSF, com Fernando Alves, Cavaco não quis dizer se votaria no candidato que concorre contra Bolsonaro, no Brasil. Um pouco como fez Assunção Cristas. Pena que não tenham seguido bons exemplos, nesta matéria, como os de Freitas do Amaral, Pinto Balsemão ou Paulo Rangel. E a carta de David Dinis ao Observador é tremenda.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"O Independente" e o cavaquismo - reavaliação de uma relação


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Miguel Esteves Cardoso já fez uma certa contrição em algumas entrevistas. Mas, por outro lado, essa irresponsabilidade levou a que aquela geração, sem o perceber, desempenhasse, afinal, o papel de idiotas úteis do cavaquismo. Ao disseminarem na sociedade portuguesa um sentido festivo, desregrado, lúdico, em que não havia propriamente limites, disseminaram também uma noção de bem-estar que favoreceu as maiorias absolutas do PSD. Apesar de ter feito muitas manchetes contra os Governos de Cavaco Silva, O Independente promoveu e incentivou uma cultura hedonista, que começou no topo, nas elites, mas depois com a abertura das grandes superfícies e de autoestradas se disseminou por toda a sociedade. Tudo isso contribuiu para uma sensação de conforto difuso que teve efeitos politico-eleitorais evidentes.

António AraújoDa direita à esquerda, entrevista concedida a Filipa MeloLer, Inverno 2016/2017, p.40

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Privatizações (balanços) (II)


Uma primeira [vaga de privatizações], na altura do governo de Cavaco Silva; uma segunda, durante o governo socialista de António Guterres; e uma terceira, obra do governo de Passos Coelho que, entre imposições da troika e preconceitos ideológicos, levou o processo a extremos nunca dantes pensados (…)
O governo de Cavaco Silva não foi o que mais avançou neste processo, tendo mantido alguns grandes grupos económicos públicos. A receita total das privatizações andou pelos 6,8 mil milhões de euros, enquanto os governos Guterres subiram o montante para 15,9 mil milhões e o de Passos Coelho, apesar das reduções anteriores do sector, atingiria 9,3 mil milhões, sensivelmente o dobro do acordado com a troika. (…)
De resto, o actual artigo 293º da Constituição relativo à reprivatização foi clara e ostensivamente violado em múltiplas situações. O desprezo pelo Direito teve ainda expressão no processo de venda da TAP e na garantia dada pelo Estado aos bancos de que, em caso de prejuízos da empresa, procederia à sua nacionalização, em absoluta violação da Lei nº 62-A/2008, de 11 de Novembro.

Eduardo Paz Ferreira, Por uma sociedade decente, p.113/114

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O tempo dos radicais (V)


Cavaco Silva colocou-se, ontem, no discurso ao país, naquela posição de quem, deliberadamente, se auto-limita a escolher entre duas incoerências: a) ou a de vir a manter um governo de gestão por vários meses - algo que o próprio, antes, considerou ser altamente prejudicial ao país; b) ou a de depois de considerar "catastrófico" um governo de esquerda, vir a dar-lhe posse. Estou convencido que a incoerência em causa será a segunda (b)); seja como for, claramente desnecessária. Quando ganhou maiorias absolutas como PM, ou quando foi eleito PR à primeira volta, Cavaco conseguiu, sempre, ir além de uma área política, somando votos de múltiplos sectores. Que, quando o país atinge níveis inauditos de radicalização política, Cavaco se transforme em mais um dos radicais de facção; quando se exigia um moderador e árbitro, vemos o mais alto magistrado da nação entrar num discurso completamente sectário, vemos um político que perdeu muitas qualidades e que em nada contribuiu para deslaçar o nó em que a vida política portuguesa se encontra. Ademais, como Paulo Rangel dissera a quando do discurso de entrega a Passos das condições para formar governo, a excessiva parcialidade tende, até, a prejudicar - a ter esse potencial - a parte pela qual se faz coro. Ou seja, hoje já a esquerda junta diz que em caso de governo de gestão, todos os prejuízos devem ser assacados ao Presidente da República e ao Governo - um argumento suficientemente forte para Cavaco não indigitar esse Governo de gestão, como estou convencido que não indigitará. E, de facto, mesmo desgostando-se da situação que está em marcha quanto à formação de um governo, não parece muito patriótico estar-se a criar anátemas que venham a prejudicar o país. De resto, Jorge Coelho disse na sic notícias que nada funcionaria tão bem como cimento à esquerda - nomeadamente, entre o grupo parlamentar do PS - como um discurso tão descentrado como o ontem realizado em Belém. Entre um governo com défice de legitimidade política e muitos escolhos à partida, e um discurso pouco democrático que acha que só uma área política pode governar em Portugal, assim vamos, continuamos, sem políticos à altura.

sábado, 11 de julho de 2015

As regras absolutas



A questão da Grécia como problema absoluto de incumprimento de regras (a que todos estão sujeitos e não se podem, jamais e em tempo algum, incumprir): 

a) não se pode falar em incumprimento de regras, porque estamos perante uma situação radicalmente nova para a qual não haviam, portanto, sido estabelecidas regras (Adriano Moreira);

b) as regras que a Alemanha impôs aos países que estavam em pior situação não estavam previstas em nenhum Tratado europeu: não há, por isso, incumprimento de regras europeias (Freitas do Amaral);

c) como se poderia entender como absoluta a regra de não violação de regras, a nível europeu, se países como a Alemanha, ou França as incumpriram sem sanções e não apenas uma vez (pensemos no Pacto de Estabilidade e Crescimento)? (Pacheco Pereira)

sábado, 18 de abril de 2015

Funcionários públicos


*Em 1995, no final dos governos Cavaco, havia em Portugal 647893 funcionários públicos nos quadros (com dezenas de milhares de outros a recibos verdes);

*Em 2002, no final dos governos Guterres, havia 778782 funcionários públicos;

*Em 2011, no final dos governos Sócrates, havia 737774 funcionários públicos;

*Em finais de 2014, a menos de um ano do governo Passos Coelho, havia 655620 funcionários públicos.