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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

COMO CAIU MUSSOLINI


O momento crucial surgiu em finais de 1942, quando as forças aliadas forçaram a saída do Eixo do Norte de África, criando uma plataforma para libertar a Europa a partir do Sul, através da Itália. A deterioração da posição deste país reflectiu-se em mudanças no seu dirigente.
Nem o italiano comum, nem as forças armadas, nem o acossado rei desejavam ser associados ao Terceiro Reich. O paganismo transparente de Hitler não caía bem nos católicos e muitos resmungaram quando, em 1938, Mussolini permitiu os mesmos estatutos antissemitas aprovados anos antes na Alemanha. Mesmo os que adoravam o Duce, e talvez especialmente esses, não gostaram de o ver sócio minoritário de um racista teutónico (...) O Grande Conselho do Partido Fascista reuniu-se [em Julho de 1943] em Roma. (...) Enquanto ele [Mussolini] discursava os delegados fizeram circular furtivamente uma declaração propondo o restabelecimento dos plenos poderes constitucionais do rei e do Parlamento. O principal autor, Dino Grandi, estivera no início entre os companheiros mais militantes de Mussolini. Agora, levantava-se para enfrentar o antigo chefe:

O senhor acredita que conta com a devoção do povo, mas perdeu-a no dia em que amarrou a Itália à Alemanha. O senhor sufocou a personalidade de toda a gente sob o manto de uma ditadura historicamente imoral. Deixe-me dizer-lhe que a Itália se perdeu no dia em que o senhor colocou o galão dourado de marechal no seu boné.

A resolução de Grandi, posta à votação, foi aprovada (...) contando-se o genro de Mussolini entre os que pediam a mudança. O ditador infalível já não contava com o apoio do partido que tinha forjado na bigorna do próprio poder - e desta maneira uma votação de vinte minutos fechou a cortina sobre vinte anos de fascismo. Numa última tentativa de salvação, o Duce procurou obter uma renovada declaração de solidariedade por parte do rei - em vão. Durante mais de duas décadas, Vítor Emanuel curvara-se perante Mussolini porque sentia que não tinha outra opção e porque era cobarde. 
Agora, finalmente, as cartas mais altas tinham caído na sua mão. «Hoje, o senhor é o homem mais odiado de Itália», disse o rei ao visitante. «Se isso for verdade, apresento a minha demissão», foi a resposta. «E eu aceito-a incondicionalmente», declarou ainda Vitor Emanuel. 
As notícias sobre o fim de Mussolini foram recebidas com celebrações por toda a Itália. As fotografias emolduradas do ditador deposto foram retiradas das paredes aos milhares e deitadas nos caixotes do lixo; de repente, não havia nada mais difícil de encontrar do que um fascista confesso. (...) As tropas de Hitler ocuparam a parte setentrional do país e insistiram em que Mussolini fosse o chefe de um regime fantoche. Ele aceitou, infeliz, praticamente prisioneiro dos alemães. (...)
Nos dias finais da guerra, soldados americanos e comunistas italianos convergiram para o mal defendido quartel-general de Mussolini. O ditador caído fugiu, primeiro com a esperança de se encontrar com o que ele imaginava ser um resíduo substancial de seguidores preparando-se para resistir. Fracassado este plano, ele e os companheiros juntaram-se a alguns soldados alemães que estavam em fuga na direcção da fronteira austríaca. No dia 28 de Abril de 1945, apesar de ele envergar um sobretudo e um capacete da Luftwaffe, foi reconhecido por membros de um destacamento comunista. Um pelotão de fuzilamento matou-o, bem como a amante de longa data, Claretta Petacci, e outros membros do grupo, meteu os corpos num camião e despejou-os em Milão.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, 2018, pp.99-103