Mbour é uma zona portuária, no Senegal. Lá, onde pais muito pobres não conseguem criar os filhos e entregam-nos a mestres corânicos (para que estes os eduquem). Cinco da manhã é hora de levantar. Começa a recitação do Corão, luzco-fusco na rua. Até às seis, o decorar em tábuas os versos ditados ao Profeta é a tarefa. Hesitações ou erros são severamente castigados. As crianças são permanentemente batidas. Espera-se que ao fim de uns anos na escola corânica, os meninos saibam, na íntegra, as páginas do Corão. Nessa altura, está completo o kamil. Às seis da manhã começa a mendicidade das crianças. Se não trouxerem cerca de 80 cêntimos, em dinheiro ou espécie aos seus mestres, são, de novo, seviciadas. Em zona piscatória, por vezes levam peixe para a escola de origem, noutras pratos já cozinhados pela vizinhança, roupas. A população local, escutada em Os meninos das madrassas, reportagem exibida na sicnotícias, parece concordar com a mendicidade infantil. São 8 horas a pedir e 9 horas a recitar o Corão, por dia. Há sono por colocar em ordem. Finalizada a formação inicial, muitas crianças vão trabalhar para propriedades rurais dos mestres corânicos. Outros fogem: fartos da pancada, sobretudo. Deixam, então, o Corão de lado. Se as madrassas acolhiam centenas de miúdos, uns em cima dos outros, vão agora tentar a sorte na grande metrópole - Dakar tem três milhões de habitantes. Assistentes sociais e médicos farão os possíveis pelos meninos. Os talibés são cerca de 50 a 100 mil, segundo a contabilidade internacional; 300 mil, de acordo com ONG senegalesa. E é um fenómeno que tem vindo a aumentar na África ocidental. Pobreza extrema, descuido, irresponsabilidade. Há escolas, ao lado das corânicas, cujo objecto não é o "texto sagrado" e que são gratuitas ou quase - mas, por exemplo, os miúdos têm que ir almoçar e jantar a casa. Há pais que nem isto conseguem sustentar. E, mesmo estas escolas, têm condições extremamente precárias. Os talibés muitas vezes nem conhecem os pais, ou só fazem a partir da adolescência.