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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Angela Merkel e a Alemanha por reconciliar


Não havia uma verdadeira igualdade na RDA. O facto de uma mulher ter sido membro do Politburo [comité central do Partido Comunista] , de nunca uma mulher ter dirigido um Combinat [grandes conglomerados de empresas estatais da era socialista], mostra bem que eram os homens quem ocupava os lugares onde se tomavam as decisões importantes. Havia, sim, uma atitude pragmática no que dizia respeito a cargos técnicos (...) Percebia-se imediatamente que, na maior parte das vezes, a educação dos filhos e as tarefas domésticas dependiam só das mulheres (...) Como sociedade - e era essa a natureza do sistema -, a RDA só se interessava pelo desenvolvimento colectivo, não pelo individual. Quanto menos expressássemos a nossa individualidade, menos problemas teríamos. Quanto mais a desenvolvêssemos, mais rapidamente seríamos considerados um problema. (...) Tenho reparado que mudou a maneira como nos referimos ao Leste. Retrospectivamente, vemos agora com maior clareza o imenso esforço que nós, alemães do Leste, precisámos para nos adaptarmos a um novo mundo em 1989. Foram anos de uma grande rutura. Algumas pessoas ainda hoje sofrem as consequências desse ponto de viragem. Digamos que, para elas, essa rutura não foi tão positiva quanto para mim. Eu encontrei rapidamente um trabalho e tive oportunidade de expandir os meus horizontes. Mas muitas outras pessoas, na sua maioria mais velhas do que eu, não tiveram este privilégio, embora também gostassem de fazer parte de uma sociedade livre tanto quanto eu. (...) Dos cerca de 11% de habitantes da RDA que trabalhavam na agricultura, apenas 1,5% e 2% conseguiram continuar a fazê-lo depois da reunificação [em 1990], Muitos sentiram-se inúteis - ficaram com a impressão de que nada servia o que sabiam fazer e o que lhes dava confiança. (...) A política [na RDA] impunha limites rígidos ao indivíduo, mas também não era omnipresente. Havia relações de amizade. Havia espaços de muito debate, onde se lia muito, onde se reflectia, onde se aprendia coisas e se fazia festas. Nenhuma destas facetas da vida aparecia na narrativa oficial. (...) E porque o sistema político nos vigiava, também era necessário confiar incondicionalmente nos outros. De outro modo, rapidamente enfrentaríamos uma ameaça existencial. (...) Há um sentimento crescente entre muitos alemães do Leste de que os seus méritos têm sido pouco valorizados. Esse sentimento é mais acentuado entre as pessoas que já tinham uma idade avançada quando caiu o Muro de Berlim. Até quem não pertence ao campo da direita partilha este sentimento. (...) Não acho que seja surpreendente haver frustrações na Alemanha de Leste. Isto deve-se à mudança de vida, ao desinteresse de que acabámos de falar e, também, ao número ainda insuficiente de figuras de referências positivas. Os alemães de Leste estão sub-representados em muitas áreas. Fico contente por o presidente do [instituto científico] Fraunhofer-Gesellschaft ser natural do estado oriental da Turíngia. A organização de assistência católica Caritas também teve em tempos um presidente da Alemanha de Leste. Mas estes são casos raros. Como tal, não me surpreende que as pessoas se sintam frustradas. (...) Eu [na questão do acolhimento dos refugiados] reagi a uma situação de emergência humanitária. Vi-me perante um desafio e tive de o enfrentar. Mas não me surpreendeu que uma grande parte da população nos novos Lander tivesse mais dificuldade do que noutras regiões em aceitar a minha decisão. Na RDA, havia muito pouca interacção com outras culturas. Os Vertragsarbeiter ["trabalhadores sob contrato" convidados para suprir a falta de mão de obra] de países longínquos não eram bem tratados e os seus contactos com os habitantes locais não eram encorajados. É possível que essa tendência se mantenha. (...) Por exemplo, durante muito tempo eles aceitaram que uma cuidadora de idosos na Alemanha Oriental ganhasse menos do que na Alemanha Ocidental. Partiram sempre do princípio que, um dia, haveria paridade salarial (...) Nalguns sectores, desapareceu a esperança de uma equalização rápida. (...) As heranças são menores, assim como as receitas fiscais, e as pessoas não conseguem acumular suficiente riqueza. (...) Os preços das rendas em Munique são elevados, enquanto no Leste, longe das grandes cidades, muitos apartamentos estão desocupados.

Angela Merkel, entrevistada por Jana Hensel, "Parece-me lógico haver paridade de género em todas as áreas", Die Zeit, 24-01-2019, traduzida para português por Maria Alves, e publicada no Courrier Internacional (edição portuguesa), Edição especial temática, Março 2019, pp.12-19. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Pelo mundo


Lendo o Courrier Internacional (edição portuguesa, Setembro 2018):

A República Checa tem um desemprego na ordem dos 2% (no fundo, um país com pleno emprego). Há muito que o mercado tem carência de mão de obra. Em especial, no domínio das tecnologias de informação. Para lá, têm migrado muita gente do Sul da Europa, vários espanhóis, gregos, portugueses. No caso português serão cerca de 700, o triplo face há uma década, os trabalhadores que por ali se encontram. O custo de vida é barato - faltando, aqui, saber se face à necessidade de mão de obra os salários serão realmente atractivos.

Hamburgo tem a primeira rua da Alemanha, na qual não podem transitar carros a gasóleo; muitas cidades estão a pensar-se sem parques de estacionamento; em LA, no último ano, foram 102 horas perdidas, em média, por cada automobilista (em hora de ponta); em 1984, eram 92% os jovens norte-americanos que tinham carta de condução; desde então, a percentagem caiu 15%. Na China, as bicicletas eléctricas fazem tanto fulgor que entre 2013 e 2017 se verificaram mais de 56 mil acidentes provocados por estes veículos, dos quais resultaram mais de 8400 mortos.

P.S.: neste novo número do Correio, os 30 mil bisontes (chegaram a ser 30 milhões) que resistem no mundo, mil dos quais no Canadá. Se nervosos, estes animais podem atingir os 50 km/h. A moda nas favelas brasileiras, querendo resgatar, para aquele mundo, a presença, efectiva, negra, sem a uniformização e homogeneização dos anúncios. E os futebolistas africanos que em grande número vão para o que pensam ser o Eldorado no Oriente, mas depois ficam encurralados nas ruas (por cada 40 que são aceites, 50 ficam na rua), muitas vezes sem documentação, com direitos e condições extremamente precárias.
O Daily Mail vende 1 milhão e 400 mil jornais por dia. 15% dos leitores, curiosamente, votaram no Partido Trabalhista, nas últimas legislativas.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Carros autónomos


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Em 1921, a cada 100 milhões de milhas (160,9 milhões de quilómetros) percorridas por norte-americanos, num automóvel, registavam-se 24 mortes (em resultado de acidentes com estes); em 2016, a média era de 1,18 mortos a cada 100 milhões de milhas percorridas (diminuição de 95% de sinistralidade mortal em acidentes de automóvel). Os dados de Megan McArdle, no Washington Post (vertidos pelo número de Setembro 2018 da edição portuguesa do Courrier Internacional), procuram colocar em causa a maior segurança dos carros autónomos, face aos carros pilotados por humanos. Isto, na medida em que a vítima mortal de um carro autónomo da Uber - empresa que retirou de imediato os seus carros autónomos de circulação -, nos EUA, em Março último, em Temple, no Arizona, sendo a primeira deve, no entender deste autor, ser perspectivada sob o ponto de vista das milhas percorridas pelos carros autónomos. E a sua conclusão é de que os carros autónomos, todos juntos, das diferentes marcas, não percorreram 100 milhas - pelo que o ratio seria pior do que o alcançado pelos carros conduzidos, não pelo computador, mas por humanos.
Inversamente, no Der Spiegel, no mesmo mês deste texto do Post (Março de 2018), Michael Kroger argumenta que aproveitar o caso de Temple para impugnar os carros autónomos é prestar "uma mau serviço à segurança rodoviária", e isto porque "engenheiros, investigadores e seguradoras são unânimes: os sensores e os programas informáticos de um veículo autónomo podem, evidentemente, ter defeitos, mas o número de acidentes provocados pelos condutores humanos humanos é muito mais elevado. Os peritos partem do princípio de que seria possível reduzir em 90% o número de acidentes, se os carros fossem pilotados por computador (...) o condutor informático é tão superior ao seu equivalente humano que não nos deveríamos perguntar se os computadores devem conduzir veículos mas, sim, por que motivo isso ainda não acontece".
A diretora da polícia local informou os jornalistas que mesmo que o carro fosse conduzido por um humano seria muito difícil ter evitado o acidente, na medida em que a vítima só ficou visível no último segundo. Já os juristas terão que se entender quanto ao responsável pelo acidente: o possuidor, o proprietário ou o fabricante do motorista digital.

sexta-feira, 2 de março de 2018

IA e empregos - um olhar optimista


O site de análise financeira Market Watch publicou recentemente um artigo segundo o qual os robôs apoderar-se-ão de metade dos postos de trabalho nas próximas duas décadas. O artigo era acompanhado por um gráfico que ilustrava a variação dos números.
Ora, isto é grotesco! (Tento manter a postura profissional enquanto escrevo, mas às vezes...). O artigo adianta, por exemplo, que, nos Estados Unidos da América, em um milhão de pessoas afectas a tarefas de manutenção só 50 mil permanecerão no activo, porque os robôs farão o seu trabalho. 
Ora, quantos robôs existem que sabem efectivamente desempenhar estas tarefas? Zero. Quantas foram as demonstrações que provaram as aptidões dos robôs neste domínio? Zero. O mesmo se aplica a 90% dos empregos que necessitam da presença física no local e que estariam supostamente em perigo. Previsões erróneas fazem-nos temer coisas que não se concretizarão. É o caso do desaparecimento em grande escala de postos de trabalho (...). Para quase todas as inovações da robótica e da Inteligência Artificial, a execução demora muito mais tempo do que a maioria das pessoas julga, sejam especialistas ou não.

Rodney Brooks, Quem tem medo da Inteligência Artificial, artigo publicado em 06-10-2017, na MIT Technology Review, e traduzido por Ana Marques, na edição portuguesa do Courrier Internacional, nº264, Fevereiro de 2018, pp.38-49.

P.S.: o autor do texto é Professor Emérito do MIT. Dirigiu o laboratório de ciências informáticas e de Inteligência Artificial entre 1997 e 2007 e com uma empresa, a Rethink Robotics, empresa especializada no desenvolvimento de robôs colaborativos para a indústria, onde hoje é diretor-geral.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Da complexidade de um perfil (de um) "terrorista"


A propósito da tentativa de uma melhor compreensão dos factores envolvidos no mais recente atentado terrorista perpetrado em Londres, e no seu protagonista, Khalid Masood, um texto de Jason Burke que me parece relevar do melhor que o jornalismo pode oferecer: muito informado, com dados de investigação, problematizando várias hipóteses, integrando a complexidade na sua aproximação ao fenómeno, sem simplismos, inteligente.


Pode não ser tão simples como parece. Há especialistas que contestam o conceito de radicalização. O FBI fala em “caminhos para a violência”, realçando que o percurso de cada indivíduo até se tornar num criminoso extremista é único e só seu. Há debates acesos sobre o papel da ideologia, das circunstâncias sociais e dos traços de personalidade individuais e da doença mental. Os analistas preferem falar de “factores de risco” em vez de “causas”.
Apesar de tudo, algumas coisas são claras. Uma é a idade. Masood tinha 52 anos, o que é raro. Há dez anos, a idade média dos atacantes no Ocidente andava pelos 29. Agora aproxima-se dos 25. Em França, quase dois mil adolescentes foram radicalizados (pelo Daesh?), um aumento de 121% entre 2015 e 2016.
Um motivo possível é a demografia. Há muitos imigrantes de segunda geração que chegaram à idade adulta. Outro é a utilização intensiva das redes sociais nos omnipresentes smartphones e a consequente exposição à propaganda. Uma terceira razão é o apelo específico do Daesh, que promete aventura, camaradagem, dinheiro e até oportunidades sexuais, o que contrasta com o ascetismo de grupos radicais anteriores, como a Al-Qaeda. Isto ajuda a explicar a razão pela qual a proporção de simpatizantes terroristas com perfis criminosos também cresceu. Antigos activistas do Daesh na Europa descrevem a atracção do grupo como a de um gangue, onde a violência e a misoginia se transformam em “resistência” e “redenção” para pecadores errantes. A mensagem distorcida do grupo, carente de argumentos teológicos ou políticos que não sejam simples e distorcidos, seduz, apesar de tudo, quem não tenha bagagem intelectual nem inclinação para debater, discutir ou aprender.
Masood foi condenado por atos de violência, o último dos quais em 2003. Parece ter-se convertido ao Islão por essa altura. Os conversos representam uma percentagem desproporcionalmente alta das pessoas envolvidas em atentados no Ocidente. No Reino Unido, entre 2001 e 2013, 12% dos “jihadistas caseiros” eram convertidos, categoria em que cabe menos de 4% da população muçulmana no seu todo. Nos Estados Unidos, a fatia de conversos terroristas era, em 2015, de 40%, contra 23% entre todos os muçulmanos. Terão os conversos algo a provar? Com um saber cultural e teológico superficial, serão mais vulneráveis a interpretações extremistas de ensinamentos e dogmas religiosos.
Depois vem a questão da identidade. Masood, nascido Adrian Russel Elms, cresceu numa aldeia de Kent, em que só havia dois homens pretos, filho de uma mãe adolescente branca e solteira. Muita da sua vida terá ficado marcada por tensões étnicas. Também isto ajuda a explicar a atracção, não apenas da conversão ao Islão como do extremismo.
Já em 2008, os serviços de segurança franceses sublinhavam as “identidades divididas” como factor importante por detrás do extremismo (…)
Masood não parece ter alguma vez tentado sair do Reino Unido para lutar pela sua causa. Entre 2004 e 2009, contudo, terá passado pela Arábia Saudita, onde ensinou inglês. Uma viagem ao mundo muçulmano é outra característica comum no percurso dos atacantes extremistas. A maioria deles passa uns meses a estudar e não a leccionar, língua árabe e religião islâmica. Muitos, provavelmente incluindo Masood, são doutrinados em correntes mais rigorosas, intolerantes e puritanas de uma fé que raramente questionam, dado o seu conhecimento limitado do Islão. (…)
Um fator revelado por estudos e notícias recentes sobre violência radical é o papel de pares, amigos e família. O terrorismo é uma atividade social, e não obra de solitários enlouquecidos. No ano passado, a investigação apurou que 45% dos radicais islâmicos discutiam a sua inspiração e possíveis acções com parentes e amigos.
É frequente haver irmãos envolvidos: em Paris, em Novembro de 2015, e em Boston, em 2013. Um casal levou a cabo um atentado na Califórnia. Amigos chegados unem esforços, como os convertidos de origem nigeriana que mataram o soldado Lee Rigby, em Londres, há quatro anos. Um estudo feito pelo FBI, em 2009, mostrou que há uma média de três a 14 “vizinhos” em cada ataque. Ou seja, são pessoas que provavelmente sabiam o que ia acontecer mas não o impedir (…)
Há, finalmente, a velocidade com que se percorre o “caminho para a violência”. As autoridades britânicas admitiram uma radicalização rápida, mas muitos peritos têm dúvidas. Lenta ou veloz, poucos dos que resvalam para o extremismo acordam de um dia e decidem que querem ser assassinos a soldo do Daesh. O processo é gradual, ainda que possa ser rápido. (…) Antigos radicais relatam que estavam longe de imaginar o seu putativo destino na fase inicial do percurso rumo à violência.
Quando Masood alugou, um ou dois dias antes a viatura que utilizou no ataque, estava decidido a agir há dias, semanas ou meses? A humilhação de ter tido de abandonar a casa em que vivia com a família terá sido a gota de água que o levou a avançar? Que dizia nas mensagens do WhatsApp minutos antes do atentado? E a quem?
É da natureza humana tentar interpretar o desconhecido criando narrativas lineares que fornecem respostas e explicações. É isto que a investigação à radicalização de Masood espera apurar. Sabemos, porém, que nem a nossa própria vida é simples e linear. Apesar da predisposição para a violência e o crime. Masood era, como a maioria dos assassinos, um homem vulgar.
Vamos ter algumas respostas às nossas perguntas. Quem, no entanto, espera resolver de forma definitiva o enigma de um homem nascido há 52 anos no Kent – que se torna assassino e morre no centro da capital britânica -, arrisca-se a uma desilusão.

Jason Burke, The Observer, 25-03-2017, publicado na edição de Maio do Courrier Internacional, nº255, com tradução de Mafalda Almeida

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O inventário de Obama

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Apresentar um quadro de feitos e insucessos dos mandatos de Obama não significa valorizar, de igual modo, uns e outros. Obama, essencialmente, melhorou a vida de milhões de pessoas - e das que precisavam, urgentemente, de ver melhorado o seu padrão de existência -, e isso me parece que deve ser a finalidade da política e, globalmente, fez opções políticas que estão próximas do que me parece o justo. A Síria representará o pior dos seus mandatos, a meu ver (juntamente com o sempre controvertido uso de drones). O segundo mandato, provavelmente, melhor do que o primeiro. Prolonguei noites nas duas mais recentes eleições norte-americanas, e os resultados destas alegraram-me. Nunca esperei um ser sobrenatural no lugar de um humano - uma contradição espúria de termos, uma expectativa, aliás, tanto colocada por os seus apoiantes menos razoáveis, quanto dos seus detractores que ao colocarem o horizonte no impossível teriam garantido, à partida, a desilusão do mandato -, e qualquer expectativa teria sempre os constrangimentos do jogo político (veja-se, exemplarmente, a explicação de Obama na entrevista de Agosto ao New York, este fim de semana traduzida pelo Expresso, acerca do porquê de os estímulos à economia não poderem ter sido maiores, como reclamava a ala esquerda do seu partido, alguns prémios Nobel da Economia incluídos). Afinal, como reflecte Paulo Portas - contrariando, um pouco, é certo, a ideia de inexistência de qualquer superpotência, ou um mundo rigorosamente apolar -  na edição especial da Sábado/FLAD sobre as eleições americanas, os "EUA são a única superpotência" e o que decidem os seus cidadãos impacta em todo o planeta. Os EUA aumentaram a dívida e desde Clinton que não alcançam um Orçamento equilibrado. Tenho, ainda, a noção de que, como escreve o correspondente do The Guardian nos EUA (desde 2003), Gary Younge, "os legados nunca são imutáveis, estão em constante evolução", pelo que não se encerra agora a análise e interpretação do que foi o legado Obama ("Ronald Reagan é agora celebrado como um herói conservador, embora tivesse apoiado uma amnistia para os imigrantes indocumentados e inflacionado enormemente o défice governamental. Durante o último ano da presidência de Bill Clinton, a maioria das pessoas achava que o legado dele seria o escândalo. Em vez disso, foi celebrizado por haver presidido a uma recuperação económica sustentada. Mas quando a sua esposa procurou a nomeação presidencial ele teve de renegar partes fundamentais desse legado, como a lei do crime, a reforma da segurança social, a desregulação financeira. Justamente os factores que haviam empobrecido de forma desproporcionada os afro-americanos e enriquecido os bancos"). Em todo o caso, importará proceder a um balanço, e, neste, recusar uma lógica maniqueísta. A fonte escolhida: G.Youngue e o seu artigo para o Guardian, num trabalho extenso, publicado em Março deste ano (e agora presente na edição de Novembro do Courrier Internacional, pp.27-38)

Luzes

*Retirada de soldados americanos do Iraque
*Amenizar das relações com Cuba
*Neutralização da ameaça Bin Laden
*Acordo nuclear com o Irão
*Desemprego nos 4,9% (praticamente "pleno emprego", tendo recebido um desemprego na ordem dos 7,8%)
*Adiamento, por tempo indeterminado, da deportação de pais de crianças que fossem cidadãs norte-americanas ou fossem residentes legais nos EUA (alargando tal protecção às crianças entradas ilegalmente no país com pais)
*Recurso à energia eólica e solar (triplicando os níveis existentes). Eficiência energética, eficiência do carbono
*Indústria automóvel salva
*Sistema de saúde para algumas dezenas de milhões de pessoas que não tinham cobertura médica
*Defesa do controlo de armas
*Reforma dos empréstimos estudantis
*Atenção a minorias, com nomeação de uma quantidade inédita de juízes negros, bem como da primeira latina para o Supremo Tribunal
*Libertou vários milhares de condenados não-violentos por delitos relacionados com drogas

Sombras

*Aumentaram os combates no Afeganistão e as tropas continuam neste país
*Deportação de mais pessoas do que em qualquer outro mandato de um Presidente dos EUA
*Lei de 1917 sobre Espionagem utilizada para processar mais do dobro dos reveladores de segredos públicos, que todos os Presidentes norte-americanos juntos
*Ratificação de um aumento de 700% nos ataques com drones em países como Paquistão, Iémen, Somália, resultando em um número considerável de vítimas humanas (entre 1900 e 3000), sendo que 100 das quais inocentes
*Crescimento da desigualdade de riqueza e rendimentos
*Na Síria, Obama "traçou na areia uma fronteira a vermelho e depois disse que não o fizera"
*Não processou um único agente dos serviços de informações por causa das acusações de tortura
*Não levou um único financeiro a tribunal por tropelias relacionadas com a crise de 2007/2008
*Não encerrou a prisão de Guantánamo
*Tensão racial


Todavia, "os legados dizem respeito tanto ao que as pessoas sentem como àquilo que sabem, e tanto ao presente quanto ao passado", pelo que, e muito especialmente numa hora em que a grosseria, a ausência de argumentos, o ataque pessoal mais mesquinho inundou as primárias (republicanas, sobretudo) e os debates presidenciais, Obama tenderá a ser visto como alguém especialmente respeitável: "Quando o tom da política desce a este nível, quando se espera tão pouco dos candidatos e as opções são tão pobres, o facto de Obama ter tentado - e a maneira como tentou - começam a eclipsar o facto de ter falhado tantas vezes. Tal como um médico consciencioso, efectuou a triagem dum paciente relutante e não desistiu, nem sequer quando as perspectivas lhe pareciam lúgubres. Fez o seu trabalho. Quando este mandato chega ao fim e a natureza fraturada e volátil da política eleitoral do país é mais uma vez posta a nu, os americanos poderão ter compreendido que, com Obama, tiveram um adulto na sala. Enquanto a violência irrompe nos comícios eleitorais e transborda para as ruas, eles poderão acabar por apreciar a ausência de escândalos e de dramas a partir da Casa Branca (...) Com Obama, os americanos perdem alguém que levou a sério o serviço público (...) Alguém que representou algo maior e mais importante do que ele próprio. É o fim da linha para um líder que acreditava que os factos tinham importância. Que os americanos não eram tolos, que a democracia deles tinha algum sentido e que o Governo tinham um papel a desempenhar. E, sobretudo, que a América podia ser melhor que isto".

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Hillary



O problema de Hillary Clinton é não ter um grande desígnio susceptível de mobilizar os eleitores, que estão especialmente descontentes este ano (...) Alguns temas centrais [do programa de Hillary] parecem evidentes: defesa do legado de Obama (e do seu marido), em especial na Saúde; prossecução da política democrata em matéria de imigração [designadamente, regularização dos clandestinos]; apoio aos programas para a primeira infância, ao sistema de creches mais baratas e a um sistema de ensino universitário que não obrigue os alunos a endividarem-se. Nas questões de política externa, atitude firme mas pragmática (...) O fundo da questão é a dificuldade persistente de Hillary em conseguir explicar, de forma simples e clara, o que quer realmente fazer quando for Presidente.

Todd S.Purdum, em The Politico, 01-05-2016, publicado pelo Courreier Internacional [tradução de Isabel Fernandes], nº245, Julho 2016, pp.45-46

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Individualismo


Os jovens em Portugal não se organizam como em Espanha ou na Grécia. "Preferem procurar uma solução individual fora do país" [Elísio Estanque]

no L'Obs, in Courrier Internacional, nº234, p.52, Agosto 2015, peça (04.05.2015) da autoria de Sarah Halifa-Legrand (tradução Ana Castro)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Melting pot lisboeta




Sobre os Buraka som sistema, escrevia, em Novembro, o New York Times, citado na edição de Fevereiro do Courrier Internacional (o texto é de Rachel Donadio, tradução de Isabel Fernandes):


“Num país mais conhecido pela música melancólica do fado, e pelas sombras da crise do euro, esta banda revela um lado de Portugal e da Europa como melting pot musical multiétnico. É um pós-colonialismo que nos faz dançar. ‘São o oposto do fado’, comentou Vítor Belanciano, crítico de música do diário Público (…) O nome do grupo evoca a Buraca, uma zona operária da Amadora, com uma grande população de imigrantes de Angola e Moçambique (…) ‘O som foi criado na cidade’, disse Kalaf Ângelo, de 36 anos, o vocalista [de uma banda que deu o seu maior concerto na América do Sul, em Bogotá, Colômbia, para 150 mil espectadores] (…) Os Buraka Som sistema ‘são um exemplo típico da música urbana mundial, música que está a ser criada, misturada e desenvolvida nos subúrbios das grandes cidades europeias’, disse Marc Benaiche, fundador da Mondomix, uma revista on-line sobre música e cultura mundial, editada em Paris. ‘É uma mistura muito genuína e muito inovadora e é por isso que, na minha opinião, funciona tão bem’, prosseguiu. ‘É uma música que diz cada vez mais aos jovens, porque os jovens são cada vez mais de etnias mestiças.’ (…) O investimento angolano tem ajudado a amparar Portugal. De certa forma, os Buraka Som Sistema revelam, através da música, o modo como o mundo em desenvolvimento está a dar à Europa um impulso de energia. “Na Europa, estamos a gerir a tendência fade-out”, comenta João Barbosa. A banda mantém-se fiel às suas raízes lisboetas e às Os Buraka Som Sistema revelam, através da música, o modo como o mundo em desenvolvimento está a dar à Europa um impulso de energia (…) Kalaf Ângelo comentou: “Lisboa é única. Toda a estética, o ritmo, as cores. A cidade contém todos estes sons secretos”. Tímidos e discretos, os membros da banda têm uma grande camaradagem. Todos cresceram na classe média e pertencem a uma geração que, na generalidade, se sente confortável nas suas múltiplas identidades. O pai de Rui Pité, de origem indiana, é de Moçambique e a mãe é portuguesa. O pai de Andro Carvalho é angolano e a mãe é cubana; Andro, que hoje tem 34 anos, passou parte da sua infância em Cuba e veio viver para Lisboa aos 18 anos. Está agora a pedir a nacionalidade cabo-verdiana, a mesma da sua mulher”.

terça-feira, 4 de março de 2014

Indústria do calçado português




Os fabricantes de sapatos, por exemplo, que usam a Portela para enviar pares individuais a clientes de topo, incluindo a família real britânica e celebridades como David Beckham ou Madonna, aumentaram as exportações em 8% no ano passado, tendo atingido um recorde de vendas ao estrangeiro de mais de 1700 milhões de euros. Ao longo dos últimos quatro anos o sector cresceu 28%, com 1700 empresas a exportar 98% da sua produção.
Outrora uma indústria que competia com salários baixos e preços baixos, as empresas de calçado portuguesas transformaram-se investindo em design, tecnologia e imagem de marca.
No mundo dos sapatos, made in Portugal já só fica atrás de made in Italy em termos de prestígio internacional e dos preços de fábrica que alcançam, afirma Jorge Correia, fundador da Helsar, uma firma de calçado sediada no Porto.

Peter Wise, no Financial Times, de 16/02/14, em artigo (re)publicado na edição nº 217, de Março de 2014, pelo Courrier Internacional (edição portuguesa), com tradução de Pedro Cordeiro, p.23.