Na edição de Abril (2018), da revista de História, do JN, José Pedro Teixeira Fernandes inventariava um extenso catálogo de literatura "decadentista" acerca do Ocidente publicada nos últimos 15 anos (mesmo que vária dela sem presença entre editoras portuguesas), aliás na senda de uma tradição bem mais remota (mas com a aspiração a específicos motivos, situados na nossa história mais recente, para ter lugar e se desenvolver de modo prolixo também nesta década e meia). Ora, o penúltimo dos títulos sublinhados pelo Professor, A estranha morte da Europa. Imigração, Identidade e Religião, de Douglas Murray, publicado pela Desassossego (tradução de Jorge Colaço), foi uma das leituras que fiz nestas férias.
Se quiséssemos, em termos macro, situar a tese de Murray, ela talvez pudesse ser sintetizada do seguinte modo: a imigração em massa para a Europa desenvolve-se num tempo em que a Europa se encontra despida de crenças e convicções. Para lá do foco na "diversidade, tolerância e respeito", a Europa nada teria para oferecer, de substantivo, a quem aqui nasce. O que é que somos? Como nos definimos, nós europeus?
Passamos, desde há bastante tempo, por um período de cansaço, exaustão, esgotamento. E isso não pode apenas associar-se a um tipo de trabalho, à tecnologia, a um dado sistema económico. Esta fadiga repousaria, última ratio, em uma perda de sentido vital.
A crença em Deus foi-se, segundo o autor, em grande medida, com a exegese bíblica e o darwinismo (mais viçosa nas seitas evangélicas, mas feita de grande ignorância, mais fraca entre o público católico); a arte, putativo sucedâneo da religião, não conseguiu alcançar esse desiderato; a filosofia sofreu imenso, e passou 50 anos a desconstruir: não acreditamos na verdade, no conhecimento, na linguagem, em afirmar algo (pela positiva); a crença no homem perdeu-se em Auschwitz.
Acontece que as catedrais estão aí, ergueu-se um constructo (maxime, direitos humanos) que é um secularismo de raíz cristã (mas mesmo a defesa destes direitos humanos, sem as crenças que lhe deram origem, poderá estar em causa). Um sistema cultural formou-se. Um modo de vida. Não é previsível que encontremos outro (de iguais dimensões). E, se o encontrássemos, dificilmente seria melhor. Parece cada vez mais claro que Ernst Wolfgang Bockenforde teria razão quando suspeitou que o liberalismo político (o Estado Liberal) nutria-se (nutre-se) de pressupostos normativos que não podia garantir. Dito de outro modo, há um conjunto de liberdades que temos que tudo devem a uma tradição em que assentam. Uma tradição que passa por Atenas, Roma, Jerusalém (judeo-cristianismo) e o Iluminismo. O universalismo desse liberalismo surge, hoje, claramente questionado (embora, seja certo, inclusive no interior da Europa e por europeus "nativos", como vemos quando olhamos a Leste).
O que somos? Somos cristãos, é a resposta ou, mais rigorosamente, a proposta de Murray, mesmo que apenas, no caso de não crentes, cristãos culturais; (Murray cita Bento XVI quando este pedia aos não crentes que "vivam como se Deus existisse" e sublinhava a necessidade de filosofia e teologia dialogarem em permanência) e crentes e não crentes deveriam, em vez de digladiar-se, juntar-se na defesa de uma cultura - dessa cultura que fez um modo de vida - e que, se não defendida, dado a história ter horror ao vazio, pode ser (ou inevitavelmente será) substituída por outra. Sim, aqui se encontra o cerne da questão: o modo de vida que concebe a separação entre a Igreja e o Estado, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão (em termos amplos, normalmente com a inevitabilidade de alguém, aqui ou ali, se sentir ofendido), igualdade de direitos entre homens e mulheres, respeito por estas, bem como por minoria sexuais (mesmo que se possa falar de um constante work in progress). Não se pode ser tolerante com a intolerância, múltiplas regras, de sinal contrário, no mesmo Estado, não funcionam; o caos ou confusão (actual) pode dar lugar a uma definição de vida colectiva que remeta os adquiridos, as liberdades vindas de mencionar, para o baú da história, se não nos comprometermos com eles (e os europeus perderam o "sentido trágico da vida", a noção de que sem compromisso com a fonte a partir da qual foi possível um determinado desenvolvimento histórico, este entra em crise; perderam a noção de que a história não chegou ao fim e não temos, sem lutarmos por estas realidades, nenhuma garantia de que elas permanecem eternamente), porque uma cultura e um modo de vida assim - eis o universalismo deste questionado - não parecem verificados em todas as latitudes (sim, nós acreditamos na universalidade destes valores, mas sabendo que estes valores se desenvolveram à luz de uma tradição e de uma história; que cheguem a todos, em todo o lado, é um desejo, e já foi um empenho, a partir de aqui).
Quem vem para a Europa não tem as mesmas dúvidas, ou o mesmo medo que os europeus possuem; não se encontra cansado, esgotado, exaurido existencialmente como os europeus parecem encontrar-se (há uma ampla literatura do "cansaço" ou do "esgotamento" na Alemanha); uma confiança que faz com tenham uma energia (vital) - também, registe-se, as certezas literais de que se nutrem, conquistadas por falta da mesma exegese que, inversamente, vemos no Cristianismo, quanto a uma sistema de crenças que perfilham; evidentemente, fala-se, neste livro do Islão - que poderá implicar uma transformação das nossas sociedades (para pior; limitação drástica da liberdade de expressão, ausência de liberdade religiosa, não separação do poder temporal do espiritual, mulheres sem o reconhecimento da mesma dignidade e direitos que os homens, minorias sexuais sem lugar) em décadas vindouras (sendo que embora se fale do Islão como um todo, também, depois, se diferencie, nesta obra, dado que, ainda na Europa, a maioria dos muçulmanos mortos, nos últimos anos, foi-o por outros muçulmanos; nomeadamente, foram assassinados muçulmanos que se filiavam em correntes minoritárias do Islão, pelo que o embate na Europa, no Islão é também intra-religioso ou intra-cultural).
Neste contexto, se a atitude crítica face à nossa cultura (que recobre a Europa), ao nosso passado faz parte dela (e é um núcleo feliz da mesma), e é saudável, pois sem esse registo crítico ela não teria futuro, já o permanente escarnecimento dela, a ausência de apreço manifestado por ela parece colocá-la em risco ("se a cultura que molda a Europa Ocidental não tem lugar no seu futuro, há outras culturas e tradições que seguramente avançarão para tomar o seu lugar. Voltar a injectar a nossa própria cultura com um senso de finalidade mais profundo não precisa de ser uma missão proselitista, mas simplesmente uma aspiração de que deveríamos estar conscientes. É claro que é sempre possível que a maré da fé, que começou o seu longo rugido de retirada no século XIX, volte a encher. Mas quer ela proceda ou não a uma reparação da cultura, será impossível se o religioso pensar que aqueles que se separaram da mesma árvore são o seu maior problema, enquanto os do ramo secular tentam cortá-lo para se separarem da árvore como um todo. Muitas pessoas conseguem sentir a dor dessa separação e o desejo subsequente de significado que emana das águas pouco fundas. Ocorreu uma divisão na nossa cultura que levará o trabalho de uma geração a consertar", p.299)..
Nos livros de Michel Houellebecq - que Douglas Murray considera o "escritor emblemático do nosso tempo", por ter, nos seus livros, vários personagens profundamente niilistas, e o próprio autor assim se apresentar, não raro - perpassa a noção, pelo menos como captação do "espírito do tempo" com uma "lucidez depressiva", de que afora momentâneos prazeres (sexuais), nada parece valer a pena nesta vida (e, acrescenta Murray, que uma escrita de qualidade como a de Houellebecq, e não lixo, venda tanto, sugere uma certa aproximação do leitor aos sentimentos, perspectivas que perpassam os personagens). O que o editor associado de The Spectator, e ex director do Centre for Social Cohesion reflecte, neste A estranha morte da Europa, em continuidade com a derrisão de Houellebecq é o seguinte: sim, a discoteca, momentaneamente, pode ser um lugar do qual se gosta. A nossa cultura indicou a discoteca como (o) lugar. Como único lugar - metáfora de uma sociedade para a qual afora prazeres, não há nada (que interesse ou importe); o mesmo diagnóstico de Vargas Llosa sobre o entretenimento e o espectáculo como o exclusivo na nossa cultura (não há mais vida para além do entretenimento), e de vários autores e até com maior densidade, como na altura aqui sublinhámos, antes dele.
Ora, o humano, e o europeu em concreto, percebe que a discoteca não preenche(u) a sua ânsia de sentido. O vazio permanece após o ocasional prazer (ou, se se quiser, a soma destes prazeres não o preenche). Murray assistiu a como europeus, face ao niilismo vigente, aderiram, converteram-se ao radicalismo islâmico (que lhes dê um sentido, um propósito, uma finalidade). Nem a pessoa aceita degradar-se em exclusivo consumidor. E sabe, quer o queira reconhecer quer não, que a promessa da ciência, de que tudo explicaria, de modo nenhum dá vazão ao mistério com que cada um se confronta, rodeia, percebe, absorve, intui. E não ignora que uma sociedade sem anima (alma), sem convicções, sem crenças, sem motivações fundas para existir/fazer/edificar não constrói, não ergue nada de relevante. "Uma sociedade que diz que somos definidos exclusivamente pelo bar e pela discoteca, pela autoindulgência e pela sensação de ter direitos, não se pode dizer que tenha raízes profundas ou muita probabilidade de sobrevivência. Mas uma sociedade que sustente que a nossa cultura consiste na catedral, na casa de espectáculos e no campo de jogos, no centro comercial e em Shakespeare, tem hipóteses" (p.298).
Atacada pelo autor pela política migratória prosseguida, Angela Merkel é, contudo e paradoxalmente, aquela que deixa um balanço das questões que se colocam à Europa, e à que tem sido a sua cultura, do qual, creio, A estranha morte da Europa mais se aproximará. Questionada, no final da sessão, em 2015, em que recebeu um doutoramento honoris causa, em Berna, acerca da relação da Alemanha com o Islão, Angela Merkel respondeu da seguinte forma - e eu sublinho diálogo, porque jamais se poderia desejar qualquer transe de tipo bélico e ainda porque para dialogar é necessário conhecermos bem as razões do nosso falar, do que queremos dizer:
«Temos o debate sobre se o Islão é parte da Alemanha. Quando se tem quatro milhões de muçulmanos no nosso país, acho que não temos de discutir sobre os muçulmanos são ou não, agora, uma parte da Alemanha e o Islão não é, ou se o Islão é também uma parte da Alemanha (...) Claro que temos todos a possibilidade e a liberdade de ter o culto da nossa própria religião (...) E se estou a deixar escapar alguma coisa em tudo isto, não seja que estou de alguma forma a censurar quem quer que seja por ser fiel à fé muçulmana, mas sim que então devemos ser corajosos o suficiente para dizer que somos cristãos, sermos corajosos o suficiente para dizer que estamos a entrar num diálogo. Mas, então, por favor, na base de também ter tradições - ir ocasionalmente a um serviço religioso, ser um pouco versado na Bíblica, e talvez também saber como explicar uma pintura na Igreja. E se pedíssemos ensaios, na Alemanha, sobre o que significa o Pentecostes, diria que o conhecimento do Ocidente cristão não é tão grande. E, depois, acho um pouco estranho, em consequência, queixarmo-nos de que os muçulmanos conhecem o Corão melhor. E talvez este debate possa levar a que ocasionalmente consideremos as nossas próprios raízes e ganhemos um pouco mais de conhecimento acerca disto. A história europeia é tão rica em conflitos dramáticos e horríveis, que deveríamos ter muito cuidado quando nos queixamos de imediato se alguma coisa má acontece noutro sítio qualquer. Temos de ir contra isto, tentar lutar contra isto, mas não temos quaisquer motivos para sermos arrogantes, devo dizer. Digo isto agora como chanceler alemã» (pp.202-203).
Acrescentou Murray, "Merkel foi muito elogiada nos media alemães pela coragem e sabedoria desta resposta".
P.S.: como várias vezes me acontece, quis ler um livro para me confrontar com posições, à partida, diversas das minhas, neste caso relativamente às migrações e à imigração para a Europa - sabia que o autor apresentava posições de um maior fechamento, neste âmbito. E em outros textos situarei e pontuarei essas diferenças que relevo. De qualquer modo, também não posso deixar de sublinhar esta matriz que me parece não negligenciável; bem pelo contrário.


