Mostrar mensagens com a etiqueta D.António Ferreira Gomes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta D.António Ferreira Gomes. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Uma Antologia


A mais recente leitura de férias. Católicos e política, edição do Padre José da Felicidade Alves, é uma preciosa antologia de textos que Católicos, nessa rigorosa qualidade, enquadrados em grupo, solitariamente, leigos ou sacerdotes subscreveram, no âmbito da vida pública nacional, no contexto histórico do Estado Novo. Datados entre 1958 e 1969, eles testemunham, essencial ainda que não exclusivamente, uma consciência cristã católica, mesmo que minoritariamente assumida em tempo de ditadura, crucificada, e já não mais conseguindo calar uma indignação e revolta face ao que entendem como clara desconformidade entre "os princípios cristãos" e a conduta do Estado Novo. É certo, ainda, que nesta selecta não se ignoram dois documentos, igualmente subscritos por católicos, em sentido diverso dos primeiros e em defesa da compatibilidade entre o regime político, e suas práticas, então vigente em Portugal e os princípios do catolicismo. 
Mas a grande maioria dos textos, em bom português, acham-se marcados por uma tensão face à vida política portuguesa a partir dos fundamentos da fé (que os seus autores acusam), louvando-se, estes, com manifesto conhecimento de causa, e par e passo, numa doutrina lida à luz dos pronunciamentos de sucessivos Sumos Pontífices, mas, de um modo muito particular, se acaso haveria de ser apontado um documento-guia, da "Pacem in Terris", de João XXIII; são textos que se confrontam com os problemas da censura, da violência para com os presos políticos, com a questão colonial, com, até, a "defesa exterior" da Igreja simultaneamente ao postergar do espírito que a devia animar e ao concurso que asfixiava aqueles por quem mais esta devia zelar; são, pois, artigos de jornal, manifestos públicos, cartas, por vezes sem que saibamos os nomes de quem as assinou por motivos de segurança dos mesmos (á época), em que se discutem formas de "Constantinismo", de um estado qualificado como "totalitário" e se reflecte sobre as relações e ambiguidade do modo como os cristãos olham para a política (nessa qualidade de cristãos; em havendo convergência nos grandes princípios, e dificilmente se concebendo que a fé não implica o sujeito nas opções para a cidade, depois, na concretização dos mesmos, não deixa de se observar uma diversidade de pontos de vista e soluções, o que, em um quadro de liberdade e democracia nos surgem como o mais natural, de resto); textos de quem chega a fazer substantiva auto-critica pelo "pecado do silêncio e da cobardia",  cumplicidade que se percebe que a partir de 1958, da carta de D.António Ferreira Gomes a Salazar (presente integralmente nesta antologia), dos resultados, processo eleitoral das Presidenciais de 1958, da morte de Humberto Delgado, dos direitos proclamados pela Pacem in Terris, de João XXIII, como inerentes a todos os humanos, da presença de Paulo VI no Congresso Eucarístico e da destemperada reacção do Governo Português, da permanência e irresolução da questão colonial se afigurou, a muitos, definitivamente como não podendo continuar.
Neste livro, e de entre documentos e momentos célebres - como a já mencionada carta do Bispo do Porto a Salazar, mais do que qualquer outro -, encontramos também muito bem explicitada a jornada pela Paz e a noite de vigília que nos anos 60 levaria centena e meia de jovens-adultos à Igreja de São Domingos, da qual sairia a Cantata pela Paz ("Vemos, ouvimos e lemos"; cantata, na qual, não apenas os problemas portugueses, mas ainda os que contendiam com o nuclear ou o Vietname , por exemplo, estavam presentes).
Pese, como se disse, nem todos os documentos surgirem rubricados, nos diversos que o estão contam-se, em permanência, as assinaturas de figuras como João Benárd da Costa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Lino Netto, Francisco Sousa Tavares, António Alçada Baptista...o documento que acolhe mais assinaturas prende-se com a reacção de dezenas ou centenas de católicos contra o pronunciamento do regime, através dos Negócios Estrangeiros, à ida de Paulo VI ao referido Congresso. 
Uma carta de Bispos de Moçambique a favor da independência, ou pelo menos autonomia do poder espiritual ao temporal (onde se acusa este de tentar comprar e silenciar aquele) figura, igualmente, no corpus desta selecta. Na qual é possível, ademais, tomar nota como, já na longínqua década de 880, séc.IX portanto, o Papa Nicolau I postulava o erro grave da tortura (nomeadamente, desde logo, como método policial, como método de obter informações, ou confissão).

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

D. António Ferreira Gomes e o Concílio Vaticano II



D. António FERREIRA GOMES, A Igreja pós-conciliar, Telos Editora, Porto sd.
 

Nestas celebrações jubilares da Diocese de Vila Real foi-me dado como tema: “A Igreja pós-conciliar».           
Claro que, desde o fim do Concílio, já muita água correu debaixo das pontes: a torrente de acontecimentos eclesiais, que se caracteriza decerto por aquela «aceleração da História» que o Concílio reconheceu e em vários sentidos canonizou, torrente densa, tumultuosa e alagadora, como as que mais o são nas páginas da história, e, que no entanto não abalou nem abalará os pilares das pontes por onde circula o essencial e permanente do Espírito de Cristo no mundo: - a história da Igreja é fluxo, transitório, - mas também margem, fixa. Essa história rápida e tensa, já concretizada em três Sínodos, daria só por si objecto para uma ou várias conferências. No entanto, ao propor-se-me o tema da «Igreja pós-conciliar», creio que se pensou principal e directamente no próprio Concílio e no essencial dos seus propósitos e finalidades, enquanto traduzidos em ideias e vivências no tempo actual da Igreja, do nosso Kairos eclesial.

Sendo assim, parece que deveríamos começar por historiar o próprio Concílio, na sua dialéctica interna; se mesmo prescindíssemos de ponderar e analisar as causas, ocasiões e necessidades que levavam tantos espíritos a voltar-se para a ideia dum Concílio, o qual fosse a continuação ou a sucessão do que se encerrara ou suspendera precipitadamente, em face das tropas que assaltavam os Estados pontifícios, ideia que inesperada e como que inspiradamente foi assumida e posta em marcha pelo Papa João XXIII.
Historiar o próprio Concílio, porém, impedir-nos-ia, por falta de tempo, de falarmos da Igreja pós-conciliar, tanto mais que, dentro da minha experiência e na perspectiva que me parece mais adequada, eu teria de distinguir dois Concílios no só e único Concílio Vaticano II. Na verdade, quando foram examinados, contestados e rejeitados os dois esquemas que ao Concílio tinham sido oferecidos como formulação da doutrina sobre a Igreja e sobre a Revelação e quando o «bom Papa João» reconheceu e tornou efectiva a tendência do voto indicativo dos Padres conciliares sobre esses propostos esquemas, então se pôde dizer, e eu próprio o disse e escrevi, (em  referência a uma apreciação expressada e celebrada logo ao início do Vaticano I): - O Concílio está feito!.

O essencial era na verdade julgar se a Igreja queria e aceitava a tendência doutrinal e a própria formulação escolástica - e não na tradição da melhor Escolástica, deve bem reconhecer-se - dessas propostas. As sessões agitadas e mesmo tempestuosas de meados de Novembro de 1962, repetidas de novo no mês de Dezembro seguinte, mostraram bem a ordenação da Igreja. Dizendo o que não queria, o Concílio tinha cumprido a sua missão essencial: não há que esquecer acerca da assistência do Espírito de Cristo e do Pai à Igreja, que esta é primária e essencialmente negativa.
Recusados os esquemas propostos, o resto, isto é, a reconstrução, pela leitura e discussão dos novos esquemas, que são hoje as constituições dogmáticas sobre a Igreja (Lumen gentium) e sobre a Revelação divina (Dei Verbum), viria por acréscimo. Notáveis sem dúvida, mesmo geniais por muitos aspectos, são no entanto resultantes de ocasião, por efeito daquele voto negativo, e apressadamente elaborados. Grande e histórico Concílio, uno ou duplo, não teria eu tempo de o historiar, mesmo apenas nos seus maiores acontecimentos, sem prejuízo do tema que me foi dado. No entanto, fora de qualquer intento narrativo, mas precisamente apenas para situar nas suas coordenadas o tema que devo abordar, lembrarei tão só o carácter histórico e essencialmente excepcional deste Concílio. As notas desse carácter absolutamente excepcional, notas que afloram por diversas ocasiões e sob vários ângulos de incidência nas palavras de João XXIII e Paulo VI, levariam quase a pô-lo em categoria à parte da já longa série dos concílios. Concílio extra seriem, pelas próprias circunstâncias históricas, só seria comparável àquele que, por via de razões paralelas, sendo o primeiro e o maior, ficou também fora de série e não é contado na lista conciliar - o Concílio de Jerusalém.

Essas marcas, comuns aos dois Concílios extra seriem, poderiam enunciar-se, em referência à história interna e exterior, mais ou menos nos seguintes pontos:

1. Uma Igreja, sem poder próprio e sem dependência dos poderes temporais: convocado e presidido pelo Papa, como outrora por Pedro, este Concílio sem poder não dependia das potências seculares, como nem a eleição do próprio Papa, na sua eleição, livre do veto das potências «católicas».
2. Concílio sem nacionalismo, embora tenha, como o de Jerusalém, julgado nacionalismos de mais que uma espécie. Como no princípio, para obviar às queixas dos «gregos», os Padres conciliares aplicam-se apenas à oração e à Palavra de Deus, perscrutando os sinais dos tempos de hoje.
3. Concílios de libertação: outrora da Lei de Moisés, hoje convergindo e centrando-se na Declaração da Liberdade religiosa.
4. Concílios de abertura ad Gentes: outrora aos gentios de cultura helénica ou helenizada, hoje aos homens do nosso tempo, de cultura secular.
5. Concílios da unidade: outrora pelo encontro e mútua aceitação entre Jerusalém e Antioquia ou entre Pedro-Tiago e Paulo-Barnabé, hoje pela aceitação franca, ao menos in voto, do ecumenismo cristão. Dizia-se, com amável e significativa ironia, que em S. Pedro só tinham entrado bispos e...hereges.
6. Concílios da graça e da benevolência: pax christiana, acima de tudo, outrora pela mútua aceitação das pessoas e tendências, com remissão ao juízo de Deus; hoje pastoral, como norte dado ao Concílio por João XXIII.
7. Concílios do laicato, pelo sacerdócio universal e apostolado essencial dos fiéis, ao mesmo tempo que pelo acento posto sobre a essência carismática, ao lado da essência hierárquica da Igreja.
A estas sete se podem reduzir as notas que aproximaram entre si os dois Concílios, primeiro e último, até agora, e que tendencialmente poriam este último, como o primeiro, também fora de série, fazendo dele um «Concílio de novidade» ou ainda «um milagre de novidade», como se compraz em dizer S. S. Paulo VI.
Disso um dia Jorge Bernanos: - «Entre Dieu et Satan, Dieu n'a mis que le coeur de l’homme»; e, por isso, não temos senão um preceito e uma missão a cumprir -  «Mettez-y de l'amourl».

Pois bem: No Concílio a Igreja, que se quer dos pobres por chamamento evangélico, e portanto pobre ela mesma, a Igreja sem poder e sem alianças espúrias deu-se por lema e estrela de rumo que entre o Reino de Deus e o do «Príncipe deste mundo» não há senão a consciência. Livre e responsável do homem. Que não há pois senão que dar-lhe conteúdo e densidade interior, para assegurar o domínio daquela lei de gravitação espiritual de que já falava S. Agostinho: - amor meus, pondus meum! – lei que poderíamos traduzir em termos do paradoxo paralelístico: o espírito atrai espírito na razão directa das densidades da consciência e na inversa do quadrado das distâncias ideológicas. E como hoje, nestes tempos da cientismo, secularização e laicidade, Deus está mais que nunca longe do mundo natural, isto é, da imagem naturalista do mundo e da sociedade - contra tanto spinozismo imanente à cultura moderna, diríamos, com as palavras de Spinoza, mas contra a sua mente, que Deus, não sendo de forma alguma natura naturans, está cada vez mais longe de ser sentido como natura naturata - como Deus não está com o homem, individual ou social, senão mediante a consciência humana, o Concílio fez ao homem confiança, animou-o a ir mais longe, sempre mais longe, a realizar-se e enriquecer-se de densidade interior, a libertar-se sempre mais e melhor na sua autonomia própria, porque Deus não tem inveja do homem nem se encontra em qualquer caminho ou encruzilhada do humano, mas antes para além do fim de todos os caminhos e coordenadas do homem.
 
(cont.)