Mas a Europa, no final da Segunda Grande Guerra, recompôs-se, como também sabemos. Os vários Estados europeus abraçaram a social-democracia, um ideário concertado nos finais dos anos quarenta entre de De Gasperi, primeiro-ministro italiano, e Adenauer, o chanceler alemão. Curiosamente, ou não, ambos eram democratas-cristãos. Esta raiz ou génese cristã do Estado Social não deve ser subestimada. De facto, ela confronta-nos, hoje em dia, com um enorme paradoxo. A Democracia Cristã, ao contrário do que se poderia esperar, foi a grande pioneira da protecção social dos mais pobres: não alijou a carga da caridade para cima das costas dos cidadãos, pelo contrário, erigiu-a – transformando-a – como obrigação política dos Estados. Este desafio, esta obrigação, este imperativo partiram da Direita.
Maria Fátima Bonifácio, A crise, Público, 17-10-2019.