Não havia uma verdadeira igualdade na RDA. O facto de uma mulher ter sido membro do Politburo [comité central do Partido Comunista] , de nunca uma mulher ter dirigido um Combinat [grandes conglomerados de empresas estatais da era socialista], mostra bem que eram os homens quem ocupava os lugares onde se tomavam as decisões importantes. Havia, sim, uma atitude pragmática no que dizia respeito a cargos técnicos (...) Percebia-se imediatamente que, na maior parte das vezes, a educação dos filhos e as tarefas domésticas dependiam só das mulheres (...) Como sociedade - e era essa a natureza do sistema -, a RDA só se interessava pelo desenvolvimento colectivo, não pelo individual. Quanto menos expressássemos a nossa individualidade, menos problemas teríamos. Quanto mais a desenvolvêssemos, mais rapidamente seríamos considerados um problema. (...) Tenho reparado que mudou a maneira como nos referimos ao Leste. Retrospectivamente, vemos agora com maior clareza o imenso esforço que nós, alemães do Leste, precisámos para nos adaptarmos a um novo mundo em 1989. Foram anos de uma grande rutura. Algumas pessoas ainda hoje sofrem as consequências desse ponto de viragem. Digamos que, para elas, essa rutura não foi tão positiva quanto para mim. Eu encontrei rapidamente um trabalho e tive oportunidade de expandir os meus horizontes. Mas muitas outras pessoas, na sua maioria mais velhas do que eu, não tiveram este privilégio, embora também gostassem de fazer parte de uma sociedade livre tanto quanto eu. (...) Dos cerca de 11% de habitantes da RDA que trabalhavam na agricultura, apenas 1,5% e 2% conseguiram continuar a fazê-lo depois da reunificação [em 1990], Muitos sentiram-se inúteis - ficaram com a impressão de que nada servia o que sabiam fazer e o que lhes dava confiança. (...) A política [na RDA] impunha limites rígidos ao indivíduo, mas também não era omnipresente. Havia relações de amizade. Havia espaços de muito debate, onde se lia muito, onde se reflectia, onde se aprendia coisas e se fazia festas. Nenhuma destas facetas da vida aparecia na narrativa oficial. (...) E porque o sistema político nos vigiava, também era necessário confiar incondicionalmente nos outros. De outro modo, rapidamente enfrentaríamos uma ameaça existencial. (...) Há um sentimento crescente entre muitos alemães do Leste de que os seus méritos têm sido pouco valorizados. Esse sentimento é mais acentuado entre as pessoas que já tinham uma idade avançada quando caiu o Muro de Berlim. Até quem não pertence ao campo da direita partilha este sentimento. (...) Não acho que seja surpreendente haver frustrações na Alemanha de Leste. Isto deve-se à mudança de vida, ao desinteresse de que acabámos de falar e, também, ao número ainda insuficiente de figuras de referências positivas. Os alemães de Leste estão sub-representados em muitas áreas. Fico contente por o presidente do [instituto científico] Fraunhofer-Gesellschaft ser natural do estado oriental da Turíngia. A organização de assistência católica Caritas também teve em tempos um presidente da Alemanha de Leste. Mas estes são casos raros. Como tal, não me surpreende que as pessoas se sintam frustradas. (...) Eu [na questão do acolhimento dos refugiados] reagi a uma situação de emergência humanitária. Vi-me perante um desafio e tive de o enfrentar. Mas não me surpreendeu que uma grande parte da população nos novos Lander tivesse mais dificuldade do que noutras regiões em aceitar a minha decisão. Na RDA, havia muito pouca interacção com outras culturas. Os Vertragsarbeiter ["trabalhadores sob contrato" convidados para suprir a falta de mão de obra] de países longínquos não eram bem tratados e os seus contactos com os habitantes locais não eram encorajados. É possível que essa tendência se mantenha. (...) Por exemplo, durante muito tempo eles aceitaram que uma cuidadora de idosos na Alemanha Oriental ganhasse menos do que na Alemanha Ocidental. Partiram sempre do princípio que, um dia, haveria paridade salarial (...) Nalguns sectores, desapareceu a esperança de uma equalização rápida. (...) As heranças são menores, assim como as receitas fiscais, e as pessoas não conseguem acumular suficiente riqueza. (...) Os preços das rendas em Munique são elevados, enquanto no Leste, longe das grandes cidades, muitos apartamentos estão desocupados.
Angela Merkel, entrevistada por Jana Hensel, "Parece-me lógico haver paridade de género em todas as áreas", Die Zeit, 24-01-2019, traduzida para português por Maria Alves, e publicada no Courrier Internacional (edição portuguesa), Edição especial temática, Março 2019, pp.12-19.