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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Por um olhar crítico sobre a internet


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O que nestes dez anos se impõe é o desenvolvimento incrível da internet com uma ausência total de reflexão crítica. O que existe, isso sim, é uma espécie de adulação, um sentimento absoluto de liberdade. É a primeira vez que há assim tão pouca reflexão sobre a revolução técnica, económica, humana. Por exemplo, com a questão nuclear, houve crítica sobre a favor da ecologia, mas agora não existe qualquer crítica sobre a internet. Tudo está bem, tudo é encarado como progresso, tudo é entendido como suprema felicidade. E, quando alguém aparece a criticar, é logo apelidado de velho, diz-se que tem fobia da tecnologia. (...) A técnica jamais substituirá o Homem. Pode ajudá-lo, mas nunca poderá substitui-lo. (...) A emancipação da internet se transformou numa potência financeira gigante com o GAFAM [acrónimo de Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsof]. É interessante que, em vez de estarmos a regulamentar o GAFAM pelo lado da democracia, o estejamos a controlar pelo lado fiscal. Mas, além dos impostos, também é a vida privada, as fake news, a democracia.(...) Acreditamos que a técnica vai assegurar a comunicação - e não vai. (...) Uma pessoa pode ser um excelente internauta e, simultaneamente, ser um autista. Há anos que o digo: a internet é perfeita do ponto de vista da comunicação técnica, mas os homens não vivem sem sentimentos, sem visões, sem sonhos, sem representações. É preciso repensar tudo isto e sair do fascínio pela técnica. (...) É preciso estar consciente de que a técnica nunca tornou ninguém feliz. (...) As escolas devem ensinar a fazer uma reflexão crítica sobre as forças e as fraquezas da internet. Olhar para os livros, para os papéis, ouvir a rádio, ver a televisão. Parar de dizer que a rádio e a televisão são velhas e que, pelo contrário, a internet é que é o progresso. (...) Nós não amamos a técnica, amamos os homens e as mulheres. Por isso é mais fácil ser um bom internauta do que ter relações afectivas ou amorosas. (...) É o amor que nos mantém vivos. (...) Do meu ponto de vista, o mais importante no tema dos "coletes amarelos" é a solidariedade humana, a felicidade que as pessoas têm em se encontrarem, em estarem juntas, faça chuva ou faça sol. (...) Não estão lá [nos coletes amarelos] os mais pobres, os negros não estão lá, não se trata de um movimento multicultural. São homens, sobretudo brancos, integram poucas mulheres, que pertencem à classe média baixa; são um pouco racistas e não muito democratas, muito franceses (...) Os "coletes amarelos" são um problema clássico da política: não percebemos porquê, mas a dada altura tudo explode. As redes sociais tiveram um papel, mas, a meu ver, a importância dos "coletes amarelos" não são as redes sociais, é a redescoberta da solidariedade. (...) Nos últimos 50 anos convencemo-nos de que mais técnica significaria mais mensagem, mais verdade, mais informação, mais democracia. O que, pelo contrário, temos é mais fake news. Descobrimos que a abundância da informação não nos trouxe melhores democracias. (...) A China é a primeira potência económica mundial e, simultaneamente, a maior potência policial da internet, o maior totalitarismo político do mundo. (...) Não precisamos de mais técnica, precisamos de mais inteligência crítica. (...) A IA é a demissão do Homem, a inteligência, por natureza, é humana. (...) O génio do ser humano é não se saber, um centésimo de segundo antes, que associação de ideias vai fazer - ou de emoções, ou de cores. A imprevisibilidade do funcionamento humano é extraordinária. (...) Eu já lhe disse [ao Papa Francisco] 'os católicos de direita não gostam de si'. E ele respondeu: 'Eu sei'. 'Os católicos de esquerda também não gostam'. E ele: 'Eu sei'. Quem o ama são os ateus e os agnósticos

Dominique Wolton, um dos mais reputados cientistas sociais da actualidade, entrevistado por Sara Belo Luís, para a Visão nº1354, 14-02 a 20-02-2019, pp.62-67.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Onde estava Deus em Auschwitz?


[Onde estava Deus em Auschwitz?]


Deus estava nos cristos que foram mortos e feridos. Deus manifesta-se sempre na carne.

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.276


Em Auschwitz, vi como era o homem sem Deus. Quando falei em Jerusalém, no monumento de comemoração da Shoah, parti da palavra do Génesis, quando, após o pecado, Deus procura Adão. Na verdade, a pergunta «Adão, onde estás?» é mais «Onde está o homem?». O homem capaz de fazer como Adão, como Caim. «Não és o homem que criei, estás demasiado afastado e és um monstro». Um homem sem Deus é capaz de o fazer.
Inverto a pergunta. Para compreender melhor o que penso, talvez pudesse ler o que disse em Jerusalém no monumento da Shoah. E em Auschwitz, simplesmente. Quem fez aquilo? Um homem que se esqueceu de que foi feito à imagem de Deus.

p.217

Papa Francisco: um auto-retrato


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O ódio causa-me sofrimento. Incluindo o ódio que eu, enquanto pecador, tantas vezes senti em relação aos outros. (...) A injustiça [o que mais o enfurece]. As pessoas egoístas. Eu próprio, quando me vejo nessa situação. E a injustiça, sempre. Quando me acontece ser injusto para com alguém, é preciso muito tempo até que me convença de que o Senhor me perdoou, e depois para pedir perdão a essa pessoa e fazer alguma coisa para reparar a injustiça. (...) [O pior defeito que tem] Não sei como dizê-lo, mas...é um pouco o oposto da imagem que dou de mim. Tenho uma certa tendência para a facilidade e a preguiça. Dir-se-ia que é o contrário. (...) [A maior qualidade que tem] Diria apenas que gosto de ouvir os outros. Porque descubro que cada vida é diferente e que cada um tem o seu caminho. Ouvir. Não por bisbilhotice nem para julgar, mas para me abrir a estilos de vida e soluções diferentes. E depois há a paciência (...) É uma paciência que me vem naturalmente. (...) [Sobre a preguiça] Desde a infância, desde muito cedo, sem dúvida: se pudesse passar um exame ou um teste no colégio estudando o menos possível...(...) [Sobre o talento para encontrar fórmulas que as pessoas fixam, palavras que toda a gente entende] É a minha forma de ser...É de família. Somos uma família grande e, aos sábados, com os avós, éramos trinta e seis à mesa e falávamos muito! Talvez venha daí, não sei. (...) Aos 20, 21 anos, estive à beira da morte. Abriram-me daqui aqui e retiraram-me uma parte dos pulmões. (...) Por duas ou três vezes, errei na forma de dizer as coisas [desde que é Papa] (...) Mas aquilo que posso dizer, digo. E alguns ficam escandalizados, é verdade. (...) Penso que é o estilo pastoral. Não pretendo falar como um professor, mas sim como um pastor. (...) Sim, sou feliz. Sou feliz. Não por ser papa, mas foi o Senhor que mo deu, por isso rezo para não fazer disparates...Porque faço! (...) [O que o faz mais feliz?] Encontrar-me com as pessoas. (...) Nunca senti angústia, mas, quando subo para o avião com os jornalistas, parece que estou a descer para o fosso dos leões. Nessas alturas, começo por rezar e depois procuro ser muito rigoroso. A pressão é muita. Mas houve alguns deslizes. (...) No tempo em que eu era estudante, um velho jesuíta deu-me um conselho: «ouve, se queres ir em frente, pensa com clareza e fala de forma obscura». No entanto, eu esforço-me por falar com clareza. (...) Eu detesto a hipocrisia. (...) [Sobre o dia da eleição papal] Ao meio dia, nem considerava essa hipótese e, de um momento para o outro...puf! Tudo veio naturalmente, com muita paz, essa paz nunca mais me abandonou. Não pensei no que iria dizer. Vi aquelas pessoas à minha frente...tive um certo receio. «Boa noite»: é o que se diz quando se quer cumprimentar educadamente. (...) Senti o meu chamamento, a minha vocação, num dia 21 de Setembro, dia de São Mateus. Foi uma experiência forte. (...) As minhas avós eram muito diferentes, mas ambas eram grandes mulheres. Eram mães, trabalhavam, passavam tempo com os seus netos...(...) O meu pai tinha um emprego bom, era contabilista, mas o seu salário dava para chegarmos ao fim do mês, não mais. Eu vi aquela mãe e a forma como afrontava os problemas uns a seguir aos outros...E tenho uma imagem bonita: todos os sábados, a família da minha mãe, que gostava muito de ópera, ouvia a rádio nacional argentina, que transmitia uma ópera às duas da tarde. A minha mãe era uma conhecedora, porque o seu pai, que era carpinteiro, sempre cantou árias de ópera enquanto trabalhava. Ela transmitiu-nos isso, aos quatro mais velhos...(...) E depois as minhas irmãs...É importante um homem ter irmãs (...) Depois houve as amigas da adolescência, as «noivas»...O contacto permanente com mulheres foi algo que me enriqueceu (...) Um cardeal de idade disse-me: «não desanimes, que o caminho da reforma é difícil. E a Cúria não deve ser reformada, deve ser suprimida!? [Risos] Na brincadeira, é claro! (...) [Sobre a eleição papal] Para mim, não havia a mínima hipótese, nem pensava nisso. Havia três ou quatro «grandes» nomes...Para os correctores de apostas em Londres, eu era o 42º ou 46º. Diziam que era apenas um kingmaker, um «fazedor de reis»

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.266-288. 

P.S.: e, falando sobre Charles Peguy, chega a dizer que "era mais cristão do que eu" (p.87)

TRADIÇÃO


Antes de mais, gostava de definir o que é a tradição. A tradição não é uma conta estanque no banco. É a doutrina que avança, que está a caminho
E foram vocês, os franceses, que disseram, no século V, uma frase de grande beleza. Essa frase é de Vincent de Lérins, um monge e teólogo francês que disse que «a tradição está em movimento». Como? Di-lo em latim: «Ut annis scilicet consolidetur, dilateteur tempore, sublimetur aetate»: a tradição avança, mas de acordo com que modalidades? De forma a consolidar-se com os anos, para que cresça com o tempo e seja sublimada com a idade. Os critérios da tradição não se alteram, o essencial não se altera, mas cresce, evolui.
Um exemplo a propósito da pena de morte. Os nossos bispos decretaram a pena de morte na Idade Média. Hoje, a Igreja diz, grosso modo - e há neste momento um esforço para mudar o catecismo neste aspecto -, que a pena de morte é imoral. Então a tradição mudou? Não, mas a consciência evolui, a consciência moral evolui. Pode dizer-se o mesmo em relação à escravatura. A sua existência é um facto, apesar de ser imoral. Em contrapartida, na Colômbia, quando São Pedro Claver trabalhou com os escravos, foi repreendido, porque alguns duvidavam que os escravos tivessem alma. Na tradição dinâmica, o essencial permanece: não se altera, antes cresce. Cresce na explicitação e na compreensão. Estas três fases de Vincent de Lérins são importantes. Como cresce a tradição? Cresce do mesmo modo que uma pessoa: através do diálogo, que é como o aleitamento para um bebé. O diálogo com o mundo que nos rodeia. O diálogo faz crescer. Se não dialogarmos, não podemos crescer, ficamos fechados, pequenos, uns anões. Não podemos restringir a visão, é preciso olharmos e dialogarmos. O diálogo faz crescer, e faz crescer a tradição. É dialogando e ouvindo outras opiniões que podemos mudar o nosso ponto de vista, como no caso da pena de morte, da tortura e da escravatura. Sem alterar a doutrina. A doutrina cresceu com a compreensão. É essa a base da tradição. (...) O papa Bento foi muito claro: as mudanças na Igreja devem ser feitas com a hermenêutica da continuidade. É uma bela frase. A hermenêutica cresce: algumas coisas mudam, mas sempre na continuidade. Não trai as suas raízes: explicita-as, o que promove a sua compreensão.

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.236-238.

O Papa Francisco sobre a teologia da libertação


A teologia da libertação tem carácter de parcialidade, no bom sentido, mas também no mau sentido. É parcial o princípio da luz de Jesus Cristo que nos liberta, tendo como modelo a libertação do Egipto do povo de Israel. Mas, nessa altura, depois do movimento francês de Maio de 68, houve várias interpretações da «teologia da libertação». Uma dessas interpretações adoptava a análise marxista da realidade. Aquilo a que chamamos «teologia do povo» tem no cerne a salvação de Jesus Cristo, mas no seu povo. O povo da Igreja, enquanto povo santo de Deus
Penso que os dois trabalhos que o papa Ratzinger fez quando foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé levaram claramente, primeiro, à condenação da análise marxista e, depois, à demonstração do contributo positivo desse movimento. Existe sempre uma relação com a política. Porque a pastoral não pode não ser política, mas pode ter uma relação com a «grande» política: a Igreja deve, efectivamente, fazer política, mas ater-se à grande política, como disse. No seio da teologia da libertação, alguns elementos acabaram por se desencaminhar, digamos assim, por vias partidárias, com partidos de extrema-esquerda ou com a análise marxista. O sacerdote Pedro Arrupe escreveu uma carta, nos anos 80 do século passado, contra a análise marxista da realidade, afirmando que não era possível fazê-lo em nome de Jesus. Uma carta lindíssima. É por isso que há uma diferença, e aquilo a que se chama teologia do povo - embora este termo também não me agrade - foi a alternativa proposta por certos teólogos para fazer do povo de Deus um protagonista. Foi o que fez o Vaticano II

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.199-200.

Liturgia


Outra coisa muito marcante: a primeira Porta da Misericórdia do Jubileu a ser aberta não foi a de São Pedro, mas a de Bangui, na República Centro-Africana, cinco dias antes. Na periferia...Na altura em que eu preparava a viagem a África, ao Quénia, ao Uganda e à República Centro-Africana, o monsenhor Gallagher perguntou-me: «Alguma vez foi a África?». Eu respondi: «Nunca», e ele disse: «Vai ficar apaixonado!»...(...)
Mas eu pedi, especificamente: «por favor, não me prevejam missas de seis horas na liturgia». Ao que me responderam: «não se preocupe, não serão mais de quatro horas!». Para eles, a missa é uma festa que dura o Domingo inteiro. Dançam, mas religiosamente: a dança está presente para trazer a palavra de Deus. Estávamos todos boquiabertos: era um verdadeiro facto religioso, e de uma enorme beleza. No Jubileu, uma grande ajuda veio da parte dos missionários da misericórdia. São sacerdotes propostos pelos bispos, pelos superiores-gerais das congregações religiosas, que foram a todas as dioceses para absolver todos os pecados, mesmo os reservados à Santa Sé. 

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.67.

Diálogo com ateus


O que dizer a um ateu? Eu respondi-lhe assim: «a última coisa que deves fazer é dirigir-te (pregar) a um ateu. Deves viver a tua vida, ouvir, mas não deves fazer apologia. Isso fica de fora. Se ele te fizer uma pergunta, respondes-lhe de acordo com a tua experiência humana. Eu sou crente, mas a fé é uma dádiva, uma dádiva de Deus. Ninguém pode ter fé por si mesmo, ninguém. Nem que se estude uma biblioteca inteira. É uma dádiva. Se uma pessoa não tem essa dádiva, Deus salvá-la-á de outra forma. Podemos falar de muitos assuntos que temos em comum: os problemas éticos, as dimensões míticas, humanas...São muitas as coisas. Daquilo que pensamos, dos problemas humanos, de como nos comportamos...Podemos discutir a evolução da humanidade...Podemos falar de coisas comuns. Essa pessoa terá um ponto de vista diferente, e eu também. Mas podemos falar e, se chegarmos ao problema de Deus, cada um dirá de sua justiça. Mas ouvindo o outro com respeito
Um dia tive uma experiência: uma senhora disse-me que tinha ouvido um sermão - ou uma conferência, já não sei. Disse-me que era ateia, mas que, naquele momento, tinha começado a duvidar da não existência de Deus. Foi algo que a tocou. Os agnósticos também. São diferentes. 

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.161-162.

A Igreja face à pedofilia


Os padres católicos representam sensivelmente 2 por cento dos pedófilos. Parece pouco, mas é de mais. Um só padre católico que seja já é horrível, a tolerância é zero! Porque o padre deve conduzir as crianças a Deus, e não destruir-lhes a vida. Até porque depois há as consequências: duas em cada quatro crianças violadas tornam-se violadores. (...)
Antes, transferia-se o padre, mas o problema ia com ele. A política actual é aquela que Bento XVI e eu implementámos através da Comissão para a Tutela dos Menores, fundada há dois anos aqui no Vaticano. Tutela de todos os menores. O objectivo é sensibilizar para o problema que representa. A Igreja-mãe ensina a prevenir, a fazer uma criança falar, a fazer que ela diga a verdade aos pais e conte o que se passa, e por diante. É um caminho construtivo. A Igreja não pode adoptar uma posição defensiva. Se um padre é abusador, então é uma pessoa doente. Em cada quatro abusadores, dois sofreram abusos em criança. São as estatísticas dos psiquiatras.
Mas é esta a forma de a Igreja tentar proteger as crianças.

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.168-169.

Perda do sentido do pecado


Dominique Wolton: O que pensa da afirmação de Pio XII: «O drama da nossa época é ter perdido o sentido de pecado»? Diria o mesmo? 

Papa Francisco: Sim, é verdade. Penso que é verdade que a época perdeu o sentido do pecado. Quando vemos um kamikaze fazer-se explodir e matar cinquenta pessoas. Quando vemos os traficantes responsáveis pelo afogamento de tanta gente no canal da Sicília...Se uma pessoa honesta se questionar por que o fazem, a resposta é que, no mínimo, esses homens não têm bússola moral. E a bússola moral é aceite por todos. Daí a falar de pecado: há um encadeamento, porque falar de pecado é também falar da relação com Deus, já que o pecado pressupõe a existência da fé. Ser destituído de bússola moral é uma ideia que toca toda a gente, mesmo os ateus. E mesmo um ateu convicto e honesto dirá que sim, que falta ao mundo uma bússola moral. Se um economista ultraliberal ler certas passagens da Laudato Si, acabará por concluir que falta à economia uma bússola moral. A moral é uma exigência do nosso comportamento social. Mas não é o rigorismo nem a rigidez dos mandamentos. A moral é pagar honestamente aos seus trabalhadores, pagar honestamente à empregada doméstica...E, por vezes, há contradições terríveis.
Uma senhora ligada à beneficência, muito católica, que pertencia a um grupo de caridade muito activo e tinha três filhos, três rapazes adolescentes de 16, 17 e 20 anos, disse-me: «Eu escolho escrupulosamente a minha empregada», porque, veja bem, «não quero que os meus filhos vão procurar noutro lado, quero que tenham o serviço completo em casa». É a imoralidade.

[in Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.163-164]

sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Papa e o liberalismo económico


A economia liberal do mercado é uma loucura. É preciso que o Estado exerça alguma regulação. É isso que falta: o papel regulador do Estado. É por isso que, no meu discurso para o Prémio Carlos Magno (2016), apelei à Europa para que abandone a liquidez da economia para regressar a algo mais concreto, à economia «social» do mercado. Mantive a noção de «mercado», mas acrescentei-lhe a natureza «social». 

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.83.

Formas de comunicação


Da minha experiência, posso dizer-lhe que não consigo comunicar sem silêncio. Nas experiências mais autênticas de amizade, mas também de amor, de amor paternal, maternal, e fraterno, os momentos mais bonitos são aqueles que misturam a palavra, os gestos e o silêncio. Na semana passada, recebi a visita de um amigo. «Como vai isso?». «Bem». Estávamos aqui os dois...Falámos de algumas coisas, ele falou-me da mulher, dos filhos e netos. Foi bom. E depois, a certa, altura, ficámos em silêncio. Em paz. Foi bonito. Depois ele fez-me uma pergunta e eu fiz-lhe outra a ele. Estivemos uma hora juntos, e penso que, durante esse tempo, não falámos mais de metade do tempo. Havia uma comunicação de paz, de amizade. Foi bonito. Eu fiquei contente e ele também. Este silêncio não é como o amido com que se trata as camisas para as enrijecer: o silêncio formal já não é silêncio, mas rigidez. (...) O silêncio é terno e afectuoso, é quente e amistoso. Também é penoso nos momentos difíceis. Não é possível uma comunicação de qualidade sem a capacidade de silêncio. É no silêncio que nasce a capacidade de ouvir, de compreender, de procurar compreender e de sentir que custa quando não se consegue compreender. Não compreendo e isso custa-me. Mas a verdadeira compreensão é humana. 
Falemos agora de Deus. A comunicação é uma trindade, um mistério na forma como é transmitido. Porém, a Bíblia diz que Deus fez o homem e a mulher à sua imagem. Dir-se-ia o mesmo em relação à forma como eles comunicam entre si, através da palavra, do carinho, da sexualidade, do silêncio...Tudo isso é sagrado. A comunicação não se compra, não se vende. Dá-se. (...) 
Pessoalmente, quase não bebo. Quase nunca. No entanto, humanamente, não podemos conceber uma comunicação de qualidade sem beber ou comer ou fazer alguma coisa em conjunto. Tocar, comer, beber. O vinho simboliza isso mesmo. O vinho, como diz a Bíblia, alegra o coração do homem. Neemias, no Livro de Esdras, vendo as pessoas a chorar no templo depois de ouvirem as palavras da lei, diz-lhes: «Não chorem, vão para casa, comam, bebam, preparem uma refeição a quem não o fez». É assim que termina a festa de Deus...(...) Na Argentina, há uma expressão muito bonita: quando se quer falar com alguém, diz-se «Vamos tomar um café». É evidente que, com o convite, se pretende falar de assuntos, comunicar...mas não deixa de ser um «café». Neste contexto, penso que o arquétipo é o vinho. (...)
O povo comunica através da dança. O que significa que comunica com o corpo, com todo o seu corpo. Outra forma de comunicar é o choro, chorar em conjunto. Quando uma mulher e o seu marido cuidam de um filho doente, choram em conjunto, na esperança de que ele se cure. Dançar, dar as mãos, beijar, comer e beber em conjunto, chorar...Não fazendo estas coisas, não há comunicação possível. Já me aconteceu algumas vezes, e digo-o sinceramente, estar a pregar e ter de parar por ter vontade chorar. Quando mergulhava totalmente num sermão, comunicava com o povo. Termino este assunto das formas de comunicação com outro aspecto essencial, sem o qual não há qualquer comunicação: o jogo. As crianças comunicam através do jogo. O jogo tem a particularidade de desenvolver a capacidade inventiva. E as crianças são criativas! 


Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.134-139

O Papa, a esquerda e a direita


Dominique Wolton: A Igreja é mais severa com os católicos de esquerda, os padres operários e a teologia da libertação do que com os católicos de direita, a congregação de São Pio XI e, muitas vezes, com as ditaduras. Porquê? 

Papa Francisco: Não sei ao certo aonde quer chegar. Por que é a Igreja mais severa com os católicos de esquerda do que com os da direita?

Dominique Wolton: Sim, historicamente, ao longo do século XX...

Papa Francisco: Poderá ser no sentido em que a esquerda procura sempre novas vias. No entanto, quando se mantém o statu quo e há uma tendência para a rigidez, não existe uma ameaça, pode-se viver tranquilamente...Mas, assim, a Igreja não cresce. Para mim, isso não constitui uma ameaça. Mas a esquerda - chamemos-lhe assim, embora não seja a esquerda, mas sim a esquerda de Jesus Cristo - era uma grande ameaça para eles. Muitas vezes a esquerda...Mas é uma palavra de que não gosto.

Dominique Wolton: Talvez, mas é o vocabulário político em democracia, em que, geralmente, existem dois campos.

Papa Francisco: O Evangelho...A Igreja identificou-se muitas vezes com os farisaicos. E não com  os pecadores. A Igreja dos pobres, dos pecadores...

(...)

Dominique Wolton: A mensagem mais radical da Igreja desde sempre, desde o Evangelho, é a condenação da loucura do dinheiro. Por que será que esta mensagem não é ouvida?

Papa Francisco: Nunca passa? Porque alguns preferem falar da moral, nas homilias ou nas cadeiras de teologia. Os pregadores correm um grande risco, que é o de caírem na mediocridade. De apenas condenarem a moral - desculpe a expressão - «da cintura para baixo». No entanto, os outros pecados, que são os mais graves - o ódio, a inveja, o orgulho, a vaidade, matar o outro, tirar a vida -, desses já não se fala tanto. Fazer parte da máfia, fazer acordos clandestinos...«És um bom católico? Então passa-me um cheque».

[in Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.116-118]

O caso "Amoris Laetitia"


Prego muitas sobre esse tema nas missas matinais, aqui em Santa Marta. Não há nada de novo debaixo do Sol. Estamos diante do mesmo problema que no tempo de Jesus, quando Jesus Cristo começou a falar. O povo compreendeu-o perfeitamente e entusiasmou-se, pois Ele falava com autoridade. Em contrapartida, os doutores da Igreja desse tempo eram muito fechados. Eram fundamentalistas. «Podemos ir até este ponto, mas não vamos mais além». É a luta que travo hoje com a Exortação Amoris Laetitia. Porque ainda há quem diga: «Isso não podemos, isso já não». Mas existe outra lógica. Jesus Cristo não respeitava os hábitos que se haviam tornado mandamentos, pois tocava nos leprosos, coisa que não se fazia; não lapidava adúlteras, coisa que os outros faziam; falava com a Samaritana, embora não pudesse fazê-lo, pois tornava-o impuro. Deixou-se tocar por uma mulher que perdia sangue, e isso era impuro. Era Jesus Cristo que não respeitava a lei, ou era a lei dos outros que não estava de acordo com a verdade? Sim, tinha degenerado, à conta do fundamentalismo. E Jesus Cristo respondeu seguindo o rumo oposto.

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, em Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.107.

O Papa Francisco e o aborto


Papa Francisco: [No Jubileu] houve ainda o facto de se estender o poder de absolvição do pecado do aborto a todos os padres. Atenção, não significa isso a banalização do aborto. O aborto é grave, é um pecado grave. É tirar a vida a um inocente. Todavia, se houve pecado, é preciso facilitar o perdão. No final, estabeleci que esta medida seria permanente e que, de agora em diante, qualquer padre pode absolver deste pecado.

Dominique Wolton: A sua posição aberta e humanista suscita oposição no seio da Igreja Católica.

Papa Francisco: Uma mulher que tinha a memória física de um filho - porque muitas vezes é esse o caso -, que ainda chorava ao fim de muitos anos sem ter a coragem de ir ter com o padre...quando ouviu o que eu disse...Faz ideia da quantidade de pessoas que conseguem finalmente respirar? (...) Que encontrem, pelo menos, o perdão do Senhor, e que não voltem a fazê-lo.

[in Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.67-68]

O Papa, a política, a economia


Dominique Wolton: A Igreja é muitas vezes acusada de condenar com maior firmeza a violência do que as desigualdades, de ter dois pesos e duas medidas. 

Papa Francisco: Pode acontecer dessa forma, mas, no que me diz respeito, falo clara e veementemente de uma e de outra


Dominique Wolton: Mas, na sua história, a Igreja foi mais sensível aos governos conservadores e inquietou-se mais com os governos de esquerda. Ou progressistas...

Papa Francisco: Ambos fizeram boas coisas, e ambos erraram. Mas, no Evangelho, é muito claro: somos filhos de Deus, e aquele que se acreditava ser o menos justo torna-se o mais justo. Jesus eleva o maior dos pecadores. Restabelece a igualdade desde o início.
E a violência...Pensemos nos grandes ditadores do século passado. Na Alemanha, houve cristãos que não viram Hitler com maus olhos, mas houve outros que perceberam o que ele era. Foi como aqui em Itália. São incontáveis as violências das ditaduras...Mas eu tenho mais receio da violência de luvas brancas do que da violência directa. A violência de todos os dias, como a que é inflingida aos trabalhadores domésticos, por exemplo!


Dominique Wolton: Como evitar que a mundialização seja sinónimo de desigualdades, de aumento de riqueza para alguns?

Papa Francisco: No mundo de hoje, 62 privilegiados são detentores da mesma riqueza que 3,5 mil milhões de pobres. No mundo de hoje 871 milhões de pessoas passam fome. Há 250 milhões de migrantes que não têm nada, nem para onde ir. 
O tráfico de droga ascende hoje a, sensivelmente, 300 mil milhões de dólares. Nos paraísos fiscais, estima-se que 2400 mil milhões de dólares circulem por aí, de um lado para o outro


Dominique Wolton: Há muito que a Igreja condena o capitalismo selvagem - os textos e declarações são prova disso..Por que será que esta mensagem não se faz ouvir no mundo com mais intensidade? Será que as pessoas não o sabem, ou não querem ouvir e compreender? O que poderia ser feito para condenar esta expansão do capitalismo selvagem, exacerbado pela mundialização?

Papa Francisco: Pense nos movimentos de trabalhadores que hoje existem. Por todo o mundo há movimentos populares. Por vezes, essas pessoas são excluídas pelos próprios sindicalistas, porque os sindicatos podem vir das classes dominantes, as classes médias-altas, no mínimo. É um movimento forte que reclama os seus direitos. Mas existe também uma repressão brutal em certos países, em que essa expressão tem um limite, sob pena de pôr a vida em risco. Na América Central, uma das dirigentes de um movimento popular, que participou no primeiro movimento popular expresso no Vaticano, foi assassinada...
É difícil, e é por isso que, quando os pobres se unem, têm em conjunto uma grande força. E também uma força religiosa

[a partir de Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.62-64]

"Fundamentalistas cristãos"


É curioso, esses fundamentalistas europeus que ostentam o estandarte do cristianismo, da Igreja. É um fundamentalismo que tem a necessidade de utilizar a Igreja, mas vai contra ela, desnatura-a. (...) Sem referir países, podemos falar desse princípio geral: a Igreja é por vezes utilizada para justificar uma postura fundamentalista

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, pp.106-107.

[p.s.: apesar de o Papa Francisco não ter querido citar os exemplos de Hungria e Polónia, é evidente que é aquilo que aqui está em causa]

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Conselho para entrar na política


Dominique Wolton: Que conselho simples daria a alguém decidido a entrar para a política?

Papa Francisco: O de o fazer para servir. De o fazer por amor. Não o fazer por interesse pessoal, ganância ou poder, mas sim como o fazem os grandes políticos da Europa. Pense nos três fundadores, Schuman, Adenauer e De Gasperi. São três modelos, mas há muitos outros.

[in Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.119]

O Papa e o Islão


Penso que seria proveitoso fazerem um estudo crítico do Corão, como nós fizemos das nossas Escrituras. O método histórico e crítico da interpretação fá-los-à evoluir

Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.81.

O "Papa dos pobres"?


Dominique Wolton: A propósito, gosta de ser chamado o "papa dos pobres"?

Papa Francisco: Não me agrada, porque é uma ideologização. Uma designação ideológica. Não, sou o papa de todos. Dos ricos e dos pobres. Dos pobres pecadores, sendo eu o primeiro deles todos. Isso sim, é verdade. 

[in Un futuro de fé, Planeta, 2018, p.72]

Que autoridade da Igreja (?)


O risco, seja para a Igreja seja para a ONU, é cair no nominalismo: contentar-se em dizer que se deve fazer determinadas coisas e, em seguida, ficar de consciência tranquila e não fazer nada, ou apenas coisas pouco significativas
No entanto, há que distinguir entre a ONU e a Igreja. A ONU deveria ter mais autoridade global e física. A Igreja é exclusivamente uma autoridade moral. A autoridade moral da Igreja depende do testemunho dos seus membros, os cristãos. Se os cristãos não testemunharem, se os sacerdotes passarem a ser especuladores e arrivistas e se os bispos forem assim...Ou se os cristãos não se cansarem de explorar o próximo, se pagarem «por fora» e não fizerem caso da justiça social, não serão fiéis. O testemunho é um acto necessário em ambas as instituições, mas sobretudo na Igreja. (...) Neste mundo de violência, por exemplo, há muitos homens, sacerdotes, freiras e religiosas que se dedicam aos hospitais, às escolas...Há muita gente boa e isso é uma afronta para a sociedade, uma «bofetada de luva branca». Pois é uma forma de testemunho: «Eu consumo a minha vida». Quando vamos a um cemitério em África e vemos aqueles mortos, missionários, sobretudo franceses, que morreram novos, aos 40 anos, porque contraíram malária...É comovente essa riqueza da misericórdia. (...) Já lhe disse que vi na República Centro-Africana? Uma irmã, de 83-84 anos, com uma menina de 5 anos. Cumprimentei-as: «De onde és?» «Sou de além, e vim esta manhã de canoa». Aos 83-84 anos! «Venho todas as semanas para fazer as compras. Estou aqui desde os meus 23 anos [vinha de Brescia, Itália], sou enfermeira e já fiz vir ao mundo 2300 crianças. Esta pobre menina perdeu a mãe no parto e não tinha pai, então, adoptei-a legalmente. Chama-me mãe.»
É profundamente enternecedor. A devoção. E toda uma vida! As obras dos misericordiosos. Para mim, fazer uma visita aos doentes, ir às prisões, fazer o prisioneiro sentir que pode ter esperança na reinserção: é essa a prédica da Igreja. A Igreja prega mais com as mãos do que com as palavras.


Papa Francisco, entrevistado por Dominique Wolton, Um futuro de fé, Planeta, 2018, p.60 e p.66.