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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

E outros escritores


A partir do momento em que se comprometeu a casar com ela [Dora Diamant], muito provavelmente para se emancipar do pai e escapar à sua influência, Kafka viu-se perante um dilema: converter-se num animal doméstico ou entregar-se exclusivamente à escrita, reduzindo a sua actividade sexual, como nos tempos de estudante, a aventuras efémeras com prostitutas, empregadas de cabarés e com mulheres aleatórias, como as inúmeras que conheceu nos locais de vilegiatura, em pensões ou sanatórios (Silésia, Morávia, Itália, Alemanha, etc.)? A possibilidade de o casamento o impedir de escrever causava-lhe ataques de pânico e fê-lo deixar para segundo plano os grandes assuntos da política e da sociedade do seu tempo, como aliás fica patente nas duas únicas frases que apontou no seu diário, a 2 de Agosto de 1914, poucos dias depois do início da Primeira Guerra Mundial: "A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, aulas de natação". (...) Kafka revela abertamente o medo de não conseguir conciliar o matrimónio, uma respeitável vida de casal com crianças saltando e gritando de volta dele, e o regime monástico de escrita que ambicionava para o seu futuro. (...)
António Lobo Antunes declarou (...) que estar casado "é uma coisa muito boa para trabalhar, caso contrário perde-se muito tempo a perseguir mulheres" e que "nunca trabalhei tanto como quando estou casado". A opinião (...) situa-se nos antípodas da concepção que Kafka fazia do escritor (...) Para Kafka, a independência do escritor nascia justamente da recusa de se ater às normas da vida comum e maioritária: da recusa de se inscrever na tradição dos que contraem matrimónio, fazem a barba e vivem regalados e gordos como carneiros: da recusa de obedecer às satisfações mundanas e à necessidade de estar onde e quando se deve estar, para promoverem a carreira e serem largamente premiados, condecorados e homenageados.
Dentro da intrincada personalidade de Kafka, a solidão era o tónico ou o excitante da sua energia criadora, em contrapartida, o casamento representava a estéril normalidade e a castradora ordem social convencional (...) 'sinto avidez pela solidão, a ideia de uma viagem de lua-de-mel horroriza-me, qualquer casal em viagem de recém-casados, relacione-a comigo ou não, parece-me um espectáculo repugnante (....)'. 

João Pedro George, Sábado, 27-12-2018, p.93.