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sábado, 25 de agosto de 2018

Últimas notas



Talvez com a excepção da parte do livro em que cita o vice-presidente da Comissão Europeia, em entrevista a um canal holandês, a dizer que mais de metade dos migrantes que vieram para a Europa em 2015 eram imigrantes económicos e não refugiados - um dado que eu desconhecia e que me parece relevante -, Douglas Murray, durante parte do seu ensaio, trata o problema, de refugiados e migrantes económicos, indiferenciadamente, ao qual se refere, simplesmente, como "imigração em massa". O que, se lhe permite sublinhar o “choque cultural” presente na actual Europa – na medida em que, independentemente das populações serem constituídas por migrantes económicos ou refugiados, em grande medida, poderem posicionar-se, face a valores estruturantes da sociedade de destino, com reservas ou certo incumprimento/boicote, divergência concretizada dos mesmos -, parece ignorar que a distinção tem que estar em permanência sobre a mesa, atendendo ao carácter humanitário e urgente da situação dos refugiados, face a uma avaliação mais demorada acerca de pedidos diversos destes. E não se isentará, porventura, de críticas quanto a quase transformar em invasores, aqueles que mais não fazem do que fugir de situações terríveis que vivenciaram, e num estado de emergência e de pura sobrevivência (no caso de refugiados).

Aliás, este aspecto, da manifesta necessidade de distinção entre refugiados e migrantes económicos, é especialmente notório quando, nas soluções políticas que apresenta, o próprio Douglas Murray considera que devia ser claro que os refugiados estão temporariamente num país, em princípio até que se desbloqueie, no país de origem, o(s) problema(s) subjacente(s) à necessidade de exílio. Precisamente, o estatuto do refugiado não creio que seja um ponto especialmente controvertido, mesmo entre quem, habitualmente, tem posicionamentos diversos em termos político-ideológicos.
Quando Murray cita um romance polémico francês de meados do séc.XX, para, no fundo, aparentemente concluir, para hoje, com um dos personagens da obra, que ou se deixa os migrantes entrar e destruir uma cultura, ou então morrem no mar, parece equacionar uma alternativa que não existe à luz da cultura e tradição que várias vezes evoca: não é possível, pura e simplesmente, à luz dessa tradição/cultura deixar, deliberadamente, que alguém pereça no mar (ainda esta sexta-feira, a decisão da Hungria de não alimentar refugiados, pessoas que entende que não devem estar no país, apesar da retórica identitária cristã, é o mais anti-cristã que se possa imaginar).

Apesar do advérbio de modo utilizado para falar do contributo que imigrantes podem dar a uma sociedade - "indubitavelmente" - o livro é bastante parco acerca da matéria (de exemplos de contributos de imigrantes na sociedade de destino, raramente enquadrados para além da diversidade gastronómica, e mesmo esta a surgir com uma dimensão de imigração que descartava o incremento dos anos recentes, para o autor) e muito centrado nos perigos dessa mesma imigração.

Alguns, dirão, adicionalmente, que, na construção de Murray, corre-se o risco de uma generalização acerca do Islão, dos seus seguidores na Europa, vários dos quais, porventura, suficientemente integrados. Sim; em qualquer caso, parece claro que múltiplos estudos – abundantemente citados neste livro - acerca de posições prevalecentes entre comunidades muçulmanas na Europa em temas como a liberdade de expressão ou homossexualidade, por exemplo, são ilustrativos de uma cultura (ou conjunto de culturas, sempre sob a injunção islâmica) que não transformando cada membro da mesma - nem sendo esta completamente homogénea, como vimos diversas vezes - num "extremista", tende a albergar, repetidas vezes, subjectividades com posicionamentos em matérias que consideramos centrais do modo de vida na Europa, susceptíveis de colocar essas matérias e princípios em cheque. 

O livro não deixa, ainda, de colocar – mesmo para quem considere que face ao global da população europeia, a percentagem de refugiados nesta não tem um peso tão marcante, e que, sobretudo, as percepções da maioria da população, em diferentes países europeus, como os estudos têm demonstrado, vão no sentido de pressuporem uma percentagem de imigrantes na sua terra natal que não tem correspondência com a realidade, ou que são, inclusive, as (pessoas de) zonas com menos imigrantes no interior de países que acolhem um conjunto significativo destes que mais os sentem como ameaça, apesar de com estes não lidarem – com acuidade o problema da falta de controlo – da impossibilidade, por imensa falta de meios em Itália ou Grécia, por exemplo -, de desconhecimento das autoridades, de quem é quem que vem para a Europa (com as populações a sentirem-se especialmente preocupadas). O mesmo ensaio que não deixa de sublinhar, talvez contra a corrente mas que não pode deixar de tomar-se em atenção, que diferentes perspectivas das seguidas por Angela Merkel, ou outros parceiros, por muito que entendamos que estas foram no sentido correcto (o autor não acha que foram as posições certas, mas não é importante para este ponto), não são, necessariamente, perspectivas de pessoas de “extrema-direita” ou “fascistas”, que movimentos houve que contestaram estas políticas com, simultaneamente, cartazes anti-nazis, e que a banalização dos termos “extrema-direita” e “fascistas” tende não apenas a descurar quem segue, na realidade, tais linhas políticas como impossibilita uma discussão plena, e integradora, de composições que na marginalidade inorgânica poderão ser menos escrutinadas e mais perigosas.

A estranha morte da Europa discute abertamente, e com base nos documentos que são disponibilizados para garantir que há um contributo económico positivo, líquido, dos imigrantes, nos países afluentes, impugnando as conclusões, e identificando falhas, em especial nos que versam a situação do Reino Unido – no que exigiria um conhecimento técnico dos mesmos que o leitor não possui (fica apenas o registo dessa impugnação).

Fazendo-nos revisitar casos como o de Alemanha no Ano Novo (de há dois anos, salvo erro), o livro garante a primeira versão dos acontecimentos (agressões sexuais, face a alemãs, e alemães jovens, por parte de imigrantes que nas notícias foram vinculados ao mundo cultural muçulmano) que mais tarde vimos contraditadas (os abusos não teriam ocorrido, ou não nas dimensões antes aludidas, e não teriam sido praticados por imigrantes vinculados ao mundo cultural islâmico, na sua grande maioria; as coisas, surgiram, então, nesta segunda versão, noticiadas, entre nós, como se se tratasse de um novo caso arrastão, que os portugueses conhecem da última década): haverá uma conclusão clara sobre tais acontecimentos? Em tempo de verdades alternativas, e de notícias sobre notícias que não duram um dia nos telejornais, encontramo-nos, não raro, sem um cabal conhecimento dos factos - como este caso demonstra. Também neste domínio, as descrições de recepções eufóricas, por parte de europeus, com grandes cartazes, sinalizações de vária ordem, de imigrantes remetem-nos para imagens com que quase nunca fomos confrontados sempre que estes temas se discutiram.

Douglas Murray não se coíbe de, em permanência, apontar os media e as autoridades (policiais, judiciais, governativas) de esconderem, em vários países, uma realidade permeada por permanentes abusos sexuais, ligados a comunidades como as que vimos referindo (sendo que apenas, é certo, mostra a evolução, efectivamente, impressiva e dramática, do aumento de casos desta natureza, na Suécia, no espaço de 2 anos: 2014-2016), mas ainda da falta de autópsias de mortes ocorridas nestas comunidades (registadas como naturais, quando resultado, afirma, de violência, nomeadamente sobre mulheres; sugerindo, uma espécie de outro racismo: como se essas vítimas não merecessem a consideração da investigação necessária, como se fossem aceitáveis à luz de (uma) outra(s) cultura(s) sobre a qual, ou sobre determinadas práticas nela presentes, não se poderiam emitir juízos de censura, num relativismo cultural e ético sem adversativas).

No âmbito propositivo, a ideia de estabelecer protocolos, com países vizinhos daqueles de onde partem os imigrantes, até pela proximidade cultural e integração destes, e aí se proceder a uma clara identificação das pessoas e ajudá-las até em empregos a criar (preferível empregados na Jordânia do que desempregados na Dinamarca, diz o autor), impedindo que venham a ser vítimas de máfias – o livro não deixa de abordar o problema do racismo no interior das embarcações, com os imigrantes da África subsariana, os mais pobres, a serem remetidos para o porão, e mais expostos, em caso de naufrágio, à morte, para lá das ainda mais drásticas condições do que as já de si muito precárias com que todos enfrentam o Mediterrâneo, no que, uma vez mais, parece ratificar o conceito de aporofobia, mesmo em âmbitos como o que aqui se faz notar – em viagens inter-continentais. O regresso a casa, torna-se, igualmente, mais rápido (potencialmente). O alojamento seria mais fácil e muito menos dispendioso, num país do Médio Oriente, do que na fria Suécia (os cálculos apontam 50 a 100 vezes a diferença, nestas circunstâncias).

Murray diz, sobretudo e vezes sem conta, que os cidadãos não querem o tipo de políticas adoptadas por chefes de estado que nas últimas décadas chamaram aos seus países - tudo principia no pós II Guerra, com a necessidade de reconstrução da Europa e de trabalhadores para a promoverem - uma "imigração em massa". O argumento pode ser rebatido, afirmando-se que os eleitorados ratificaram essas mesmas lideranças e até a principal visada, em boa medida, no livro, Angela Merkel, saiu finalmente chanceler (e o seu partido, inquestionavelmente o mais votado, nas últimas legislativas), ainda que numa posição mais precária do que nunca. Poderia retorquir-se que as pessoas votaram num programa amplo e não exclusivamente no tipo de política migratória, aliás sobre a qual Merkel teve que dar sinais de determinada mitigação. Sendo que o partido mais crítico com essa política, na Alemanha, aparece em crescendo claro nos inquéritos de opinião. Se a maioria da população boicotasse a entrada de refugiados, não deveria, ainda assim, quem governa decidir acolher os mesmos, indo contra a tirania da maioria com o respeito por direitos básicos das pessoas em fuga (da morte)? Eu responderia, sim; um líder, numa democracia representativa, e a afirmação de um estado de direito, não podem ficar cativos de quem ameaçasse o núcleo duro de valores, de respeito pela dignidade da pessoa que são a marca de água desta cultura e tradição.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Arte contemporânea


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Another Place, escultura de Antony Gormley, Crosby Beach (perto de Liverpool), retirado daqui.


Uma das poucas obras contemporâneas que tem um efeito comparável [de anagnórise, emoção do reconhecimento] é a escultura de Antony Gormley chamada Another Place, que consiste em 100 figuras de ferro forjado e em tamanho natural que olham o mar em Crosby Beach, perto de Liverpool. Toda a instalação - que foi tornada permanente a pedido dos residentes locais - é melhor apreciada ao nascer e ao pôr do sol, quando a maré está cheia ou a vazar, ou quando as figuras estão viradas para o sol a pôr-se. A razão é em parte a mesma. Aqui está uma imagem da experiência quotidiana que reacende a memória de uma história (neste caso a ressurreição) do cerne da nossa cultura. Pode não lhe dar uma resposta, mas recorda-a.

Douglas Murray, A estranha morte da Europa. Imigração, Identidade, religião, Desassossego, 2018, p.267

domingo, 19 de agosto de 2018

Pequenas notas


A ideia de que as prestações sociais deviam baixar para que as pessoas não recusassem determinado (ou mesmo qualquer) emprego - que, na Europa, muitas vezes, depois, virá a ser ocupado por um imigrante - é uma das perspectivas que Douglas Murray esgrime no livro A estranha morte da Europa, com a qual não estou de acordo (ideia relativa a demonstrar que a economia não necessitaria da chamada em massa da imigração). Há uma dimensão de seguro, em prestações contributivas - como o subsídio de desemprego -, e há prestações não contributivas cujo valor, em termos monetários, é manifestamente baixo. As leis sobre estas matérias que, no caso europeu, e, se quisermos, na Grã-Bretanha de Murray, nos precedem, em termos históricos, com vista a obrigar a pessoa a aceitar um emprego é suficientemente sinalizadora de um caminho que não me parece minimamente pertinente percorrer.

sábado, 18 de agosto de 2018

Lutar por um modo de vida?


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Na edição de Abril (2018), da revista de História, do JN, José Pedro Teixeira Fernandes inventariava um extenso catálogo de literatura "decadentista" acerca do Ocidente publicada nos últimos 15 anos (mesmo que vária dela sem presença entre editoras portuguesas), aliás na senda de uma tradição bem mais remota (mas com a aspiração a específicos motivos, situados na nossa história mais recente, para ter lugar e se desenvolver de modo prolixo também nesta década e meia). Ora, o penúltimo dos títulos sublinhados pelo Professor, A estranha morte da Europa. Imigração, Identidade e Religião, de Douglas Murray, publicado pela Desassossego (tradução de Jorge Colaço), foi uma das leituras que fiz nestas férias.

Se quiséssemos, em termos macro, situar a tese de Murray, ela talvez pudesse ser sintetizada do seguinte modo: a imigração em massa para a Europa desenvolve-se num tempo em que a Europa se encontra despida de crenças e convicções. Para lá do foco na "diversidade, tolerância e respeito", a Europa nada teria para oferecer, de substantivo, a quem aqui nasce. O que é que somos? Como nos definimos, nós europeus? 
Passamos, desde há bastante tempo, por um período de cansaço, exaustão, esgotamento. E isso não pode apenas associar-se a um tipo de trabalho, à tecnologia, a um dado sistema económico. Esta fadiga repousaria, última ratio, em uma perda de sentido vital.
A crença em Deus foi-se, segundo o autor, em grande medida, com a exegese bíblica e o darwinismo (mais viçosa nas seitas evangélicas, mas feita de grande ignorância, mais fraca entre o público católico); a arte, putativo sucedâneo da religião, não conseguiu alcançar esse desiderato; a filosofia sofreu imenso, e passou 50 anos a desconstruir: não acreditamos na verdade, no conhecimento, na linguagem, em afirmar algo (pela positiva); a crença no homem perdeu-se em Auschwitz.
Acontece que as catedrais estão aí, ergueu-se um constructo (maxime, direitos humanos) que é um secularismo de raíz cristã (mas mesmo a defesa destes direitos humanos, sem as crenças que lhe deram origem, poderá estar em causa). Um sistema cultural formou-se. Um modo de vida. Não é previsível que encontremos outro (de iguais dimensões). E, se o encontrássemos, dificilmente seria melhor. Parece cada vez mais claro que Ernst Wolfgang Bockenforde teria razão quando suspeitou que o liberalismo político (o Estado Liberal) nutria-se (nutre-se) de pressupostos normativos que não podia garantir. Dito de outro modo, há um conjunto de liberdades que temos que tudo devem a uma tradição em que assentam. Uma tradição que passa por Atenas, Roma, Jerusalém (judeo-cristianismo) e o Iluminismo. O universalismo desse liberalismo surge, hoje, claramente questionado (embora, seja certo, inclusive no interior da Europa e por europeus "nativos", como vemos quando olhamos a Leste).
O que somos? Somos cristãos, é a resposta ou, mais rigorosamente, a proposta de Murray, mesmo que apenas, no caso de não crentes, cristãos culturais; (Murray cita Bento XVI quando este pedia aos não crentes que "vivam como se Deus existisse" e sublinhava a necessidade de filosofia e teologia dialogarem em permanência) e crentes e não crentes deveriam, em vez de digladiar-se, juntar-se na defesa de uma cultura - dessa cultura que fez um modo de vida - e que, se não defendida, dado a história ter horror ao vazio, pode ser (ou inevitavelmente será) substituída por outra. Sim, aqui se encontra o cerne da questão: o modo de vida que concebe a separação entre a Igreja e o Estado, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão (em termos amplos, normalmente com a inevitabilidade de alguém, aqui ou ali, se sentir ofendido), igualdade de direitos entre homens e mulheres, respeito por estas, bem como por minoria sexuais (mesmo que se possa falar de um constante work in progress). Não se pode ser tolerante com a intolerância, múltiplas regras, de sinal contrário, no mesmo Estado, não funcionam; o caos ou confusão (actual) pode dar lugar a uma definição de vida colectiva que remeta os adquiridos, as liberdades vindas de mencionar, para o baú da história, se não nos comprometermos com eles (e os europeus perderam o "sentido trágico da vida", a noção de que sem compromisso com a fonte a partir da qual foi possível um determinado desenvolvimento histórico, este entra em crise; perderam a noção de que a história não chegou ao fim e não temos, sem lutarmos por estas realidades, nenhuma garantia de que elas permanecem eternamente), porque uma cultura e um modo de vida assim - eis o universalismo deste questionado - não parecem verificados em todas as latitudes (sim, nós acreditamos na universalidade destes valores, mas sabendo que estes valores se desenvolveram à luz de uma tradição e de uma história; que cheguem a todos, em todo o lado, é um desejo, e já foi um empenho, a partir de aqui). 
Quem vem para a Europa não tem as mesmas dúvidas, ou o mesmo medo que os europeus possuem; não se encontra cansado, esgotado, exaurido existencialmente como os europeus parecem encontrar-se (há uma ampla literatura do "cansaço" ou do "esgotamento" na Alemanha); uma confiança que faz com tenham uma energia (vital) - também, registe-se, as certezas literais de que se nutrem, conquistadas por falta da mesma exegese que, inversamente, vemos no Cristianismo, quanto a uma sistema de crenças que perfilham; evidentemente, fala-se, neste livro do Islão - que poderá implicar uma transformação das nossas sociedades (para pior; limitação drástica da liberdade de expressão, ausência de liberdade religiosa, não separação do poder temporal do espiritual, mulheres sem o reconhecimento da mesma dignidade e direitos que os homens, minorias sexuais sem lugar) em décadas vindouras (sendo que embora se fale do Islão como um todo, também, depois, se diferencie, nesta obra, dado que, ainda na Europa, a maioria dos muçulmanos mortos, nos últimos anos, foi-o por outros muçulmanos; nomeadamente, foram assassinados muçulmanos que se filiavam em correntes minoritárias do Islão, pelo que o embate na Europa, no Islão é também intra-religioso ou intra-cultural). 
Neste contexto, se a atitude crítica face à nossa cultura (que recobre a Europa), ao nosso passado faz parte dela (e é um núcleo feliz da mesma), e é saudável, pois sem esse registo crítico ela não teria futuro, já o permanente escarnecimento dela, a ausência de apreço manifestado por ela parece colocá-la em risco ("se a cultura que molda a Europa Ocidental não tem lugar no seu futuro, há outras culturas e tradições que seguramente avançarão para tomar o seu lugar. Voltar a injectar a nossa própria cultura com um senso de finalidade mais profundo não precisa de ser uma missão proselitista, mas simplesmente uma aspiração de que deveríamos estar conscientes. É claro que é sempre possível que a maré da fé, que começou o seu longo rugido de retirada no século XIX, volte a encher. Mas quer ela proceda ou não a uma reparação da cultura, será impossível se o religioso pensar que aqueles que se separaram da mesma árvore são o seu maior problema, enquanto os do ramo secular tentam cortá-lo para se separarem da árvore como um todo. Muitas pessoas conseguem sentir a dor dessa separação e o desejo subsequente de significado que emana das águas pouco fundas. Ocorreu uma divisão na nossa cultura que levará o trabalho de uma geração a consertar", p.299)..
Nos livros de Michel Houellebecq - que Douglas Murray considera o "escritor emblemático do nosso tempo", por ter, nos seus livros, vários personagens profundamente niilistas, e o próprio autor assim se apresentar, não raro - perpassa a noção, pelo menos como captação do "espírito do tempo" com uma "lucidez depressiva", de que afora momentâneos prazeres (sexuais), nada parece valer a pena nesta vida (e, acrescenta Murray, que uma escrita de qualidade como a de Houellebecq, e não lixo, venda tanto, sugere uma certa aproximação do leitor aos sentimentos, perspectivas que perpassam os personagens). O que o editor associado de The Spectator, e ex director do Centre for Social Cohesion reflecte, neste A estranha morte da Europa, em continuidade com a derrisão de Houellebecq é o seguinte: sim, a discoteca, momentaneamente, pode ser um lugar do qual se gosta. A nossa cultura indicou a discoteca como (o) lugar. Como único lugar - metáfora de uma sociedade para a qual afora prazeres, não há nada (que interesse ou importe); o mesmo diagnóstico de Vargas Llosa sobre o entretenimento e o espectáculo como o exclusivo na nossa cultura (não há mais vida para além do entretenimento), e de vários autores e até com maior densidade, como na altura aqui sublinhámos, antes dele. 
Ora, o humano, e o europeu em concreto, percebe que a discoteca não preenche(u) a sua ânsia de sentido. O vazio permanece após o ocasional prazer (ou, se se quiser, a soma destes prazeres não o preenche). Murray assistiu a como europeus, face ao niilismo vigente, aderiram, converteram-se ao radicalismo islâmico (que lhes dê um sentido, um propósito, uma finalidade). Nem a pessoa aceita degradar-se em exclusivo consumidor. E sabe, quer o queira reconhecer quer não, que a promessa da ciência, de que tudo explicaria, de modo nenhum dá vazão ao mistério com que cada um se confronta, rodeia, percebe, absorve, intui. E não ignora que uma sociedade sem anima (alma), sem convicções, sem crenças, sem motivações fundas para existir/fazer/edificar não constrói, não ergue nada de relevante. "Uma sociedade que diz que somos definidos exclusivamente pelo bar e pela discoteca, pela autoindulgência e pela sensação de ter direitos, não se pode dizer que tenha raízes profundas ou muita probabilidade de sobrevivência. Mas uma sociedade que sustente que a nossa cultura consiste na catedral, na casa de espectáculos e no campo de jogos, no centro comercial e em Shakespeare, tem hipóteses" (p.298).
Atacada pelo autor pela política migratória prosseguida, Angela Merkel é, contudo e paradoxalmente, aquela que deixa um balanço das questões que se colocam à Europa, e à que tem sido a sua cultura, do qual, creio, A estranha morte da Europa mais se aproximará. Questionada, no final da sessão, em 2015, em que recebeu um doutoramento honoris causa, em Berna, acerca da relação da Alemanha com o Islão, Angela Merkel respondeu da seguinte forma - e eu sublinho diálogo, porque jamais se poderia desejar qualquer transe de tipo bélico e ainda porque para dialogar é necessário conhecermos bem as razões do nosso falar, do que queremos dizer:

«Temos o debate sobre se o Islão é parte da Alemanha. Quando se tem quatro milhões de muçulmanos no nosso país, acho que não temos de discutir sobre os muçulmanos são ou não, agora, uma parte da Alemanha e o Islão não é, ou se o Islão é também uma parte da Alemanha (...) Claro que temos todos a possibilidade e a liberdade de ter o culto da nossa própria religião (...) E se estou a deixar escapar alguma coisa em tudo isto, não seja que estou de alguma forma a censurar quem quer que seja por ser fiel à fé muçulmana, mas sim que então devemos ser corajosos o suficiente para dizer que somos cristãos, sermos corajosos o suficiente para dizer que estamos a entrar num diálogo. Mas, então, por favor, na base de também ter tradições - ir ocasionalmente a um serviço religioso, ser um pouco versado na Bíblica, e talvez também saber como explicar uma pintura na Igreja. E se pedíssemos ensaios, na Alemanha, sobre o que significa o Pentecostes, diria que o conhecimento do Ocidente cristão não é tão grande. E, depois, acho um pouco estranho, em consequência, queixarmo-nos de que os muçulmanos conhecem o Corão melhor. E talvez este debate possa levar a que ocasionalmente consideremos as nossas próprios raízes e ganhemos um pouco mais de conhecimento acerca disto. A história europeia é tão rica em conflitos dramáticos e horríveis, que deveríamos ter muito cuidado quando nos queixamos de imediato se alguma coisa má acontece noutro sítio qualquer. Temos de ir contra isto, tentar lutar contra isto, mas não temos quaisquer motivos para sermos arrogantes, devo dizer. Digo isto agora como chanceler alemã» (pp.202-203).

Acrescentou Murray, "Merkel foi muito elogiada nos media alemães pela coragem e sabedoria desta resposta".

P.S.: como várias vezes me acontece, quis ler um livro para me confrontar com posições, à partida, diversas das minhas, neste caso relativamente às migrações e à imigração para a Europa - sabia que o autor apresentava posições de um maior fechamento, neste âmbito. E em outros textos situarei e pontuarei essas diferenças que relevo. De qualquer modo, também não posso deixar de sublinhar esta matriz que me parece não negligenciável; bem pelo contrário.