De entre as análises, ou críticas, mais falaciosas, muitas das quais vindas da direita, a esta campanha presidencial e, em particular, a Marcelo Rebelo de Sousa esteve, sem dúvida, a inusitada afirmação de que com personalidades como Durão Barroso, ou Rui Rio a campanha teria outra mobilização, outro fulgor. Bom: com Durão Barroso, com quem nem uma parte do PSD está reconciliada, a mobilização poderia existir, mas pela negativa - algumas acções de rua, imagino, poderiam ser tudo menos simpáticas (lá voltaria a discussão sobre a saída de PM a meio do mandato, regressaria ademais a posição então tomada acerca da guerra do Iraque). E que dizer de Rui Rio? Se algumas sondagens permitem, hoje, ainda, sustentar alguma - embora não demasiada - zona de dúvida quanto à existência de uma segunda volta, com um candidato que entra em todos os sectores ideológicos, que pensar dos resultados de um candidato muito mais de facção, como Rio? Marcelo Rebelo de Sousa é, a léguas, o melhor candidato - de entre todos os que se pudessem cogitar - provindo da área do centro-direita.
Que a campanha teve muito de vazio? Com certeza. Em todo o caso, que não foi pouco, durante a última semana,
Marcelo posicionou-se, em matéria de questões económicas, favorável a uma aposta que tivesse em conta a importância do consumo interno (uma dimensão insuperável, mesmo se não faz parte das folhas de excel). Depois do que se discutiu nas últimas legislativas, depois do que havia sido dito pelo
Conselho de Finanças Públicas - com o Orçamento ontem, em esboço, apresentado a dimensão Investimento, por exemplo, ganhou um outro peso - tais afirmações não foram inócuas.
Depois do acto eleitoral precedente, de resto, qualquer candidatura, mau grado a diferença de eleições em presença, recebeu um grande incentivo a não mostrar ao que vem. Após a apresentação do programa económico que António Costa procurou levar a todo o lado, só se discutiu, só se criticou, só se apontaram armas a propostas nele contidas. Sem qualquer programa, a PAF não teve que discutir o que defendia, porque, a cada momento, podia ajustar o que pretendia ao que fosse mais conveniente eleitoralmente. Recorde-se que o comentariado que elogiou o detalhe da proposta do PS foi o mesmo que esteve omisso quanto à inexistência de proposta competitiva.
Talvez por isto Sampaio da Nóvoa não se libertou nunca, durante a pré-campanha e a campanha para as presidenciais, das amarras de um discurso redondo, quando parecia possível, até face à enorme desvantagem com que partia, reinventar uma linguagem política feita de rodriguinhos tácticos, de muito salão, e de, assim, ousar dizer um Portugal prospectivo. Pense-se na abordagem e leitura do país que Adriano Moreira tem projectado ao longo dos anos, por exemplo. Que ideia de Portugal, de sua história, dos caminhos de liberdade para o país continuar um organismo vivo. Sem, necessariamente, oferecer um programa executivo de medidas concretas, mas disponibilizando um referencial estratégico, mapa com o qual contar. Mesmo perdendo, o contributo teria sempre um valor inestimável que as frases feitas sobre a sociedade do conhecimento e a necessidade da qualificação não justificam. Sampaio da Nóvoa não pôde, ou não soube, fazê-lo. Ainda assim, em todo o caso, Nóvoa foi muito melhor candidato independente do que, por exemplo, Fernando Nobre há 4 anos. É falso que tenha estigmatizado os partidos. Não entrou em populismos. Não teve afirmações que recordaremos pelo monumental ridículo. Participou bem e de modo incisivo no único debate digno desse nome nesta campanha. Como alguém dizia, muitos apoiantes de Marcelo não ficariam horrorizados se Nóvoa vencesse as Presidenciais (e, já agora, vice-versa).
Quem pensar que o Executivo socialista, com seus frágeis acordos, poderá não resistir toda a legislatura e que uma queda abrupta poderá fazer regressar um conjunto de políticas que levadas ao extremo a que chegaram seriam, de novo, muito nefastas socialmente, poderá pensar que esse seria ou será o melhor motivo para votar Sampaio da Nóvoa. Isto é, com um governo de direita de novo no poder que presidente estaria mais vocacionado para tentar um jogo de travões a uma política de austeridade pura e dura? A pergunta, ou raciocínio, nunca foram elaborados, à esquerda, durante a campanha - porque tal significaria enviar um sinal de pouca crença nos acordos vigentes em tal área política - e à direita não se quis equacionar o cenário para não dar ideias.
A questão aqui é saber se alguém que é apresentado (e, no fundo, se apresenta) como o representante de tais acordos tem poder/legitimidade política/força para, em caindo as forças representadas, mexer, ainda, com o xadrez político criado ex novo. Num ponto, diga-se, Maria de Belém tem razão: só o futuro dirá se "houve tempo novo". Em durando pouco o novo executivo, e regressando a política anterior, a breve prazo, tal tempo teria sido um intervalo - e certamente não propriamente louvado.
Acredito que Marcelo vá ser um Presidente que não criará ondas a qualquer governo. Não perturbará António Costa, nem um seu eventual sucessor. Pretenderá a unanimidade nacional. Nenhum outro político português está hoje em condições de unir, de agregar, de ter uma expectativa positiva sobre si. Duvido é que com essa legitimidade e poder, com a força de não ter tido partidos atrás, Marcelo esteja num posto que lhe possibilite melhorar muito as coisas - no que para alguns poderá constituir futuro motivo de decepção.
O seu principal desiderato (político), como confessou a meio da década de 90 do século passado um seu descendente e como Maria João Avillez pontua no retrato no Observador, apontava ao Executivo (mas as coisas são o que são). E, claro, a construção do personagem passou muito - não tanto por outros inúmeros méritos que possui mas - pelo encher do olho ao pagode com coisas como o número de horas pretensamente dormidas (ou por dormir), livros lidos em catadupa, saltos ao mar diariamente (Avillez desconstrói bem isso no ponto 10, do dito retrato), insinuando-se, "com o contributo do próprio", a presença do "homem mais inteligente de Portugal" (como se isso, como se esse título existisse e pudesse ser atribuído). Em nada concordo, no retrato da jornalista, é que Marcelo tenha, todos os Domingos, triturado Passos. A meu ver, tal não corresponde à realidade. E, indo ainda à campanha, Marcelo fez bem, no debate a 9, fazer marcha-atrás quanto aos gastos de campanha dos outros candidatos, elogiando a moderação, depois de dizer que os gastos eram escandalosos, momento em que se deixou tentar pela demagogia (assim corrigida, embora, é verdade, com contradição num espaço de três semanas).
Não sei se foi a pior campanha de sempre para as presidenciais - e, se assim sucedeu, acredito mais no contributo das circunstâncias (o tal cansaço da política depois das legislativas e do processo de formação do governo, o facto de hoje apenas haver "restos da política", etc.) do que na falta de qualidade dos protagonistas. Sei que, com elevado grau de probabilidade, vamos ter um Presidente da República que estará longe de ser o pior que nos calhou nestes 40 anos. Estou, mesmo, bastante tranquilo, a um dia de Domingo.
Conheço quem siga o conselho de Henrique Raposo, há uma semana, no Expresso, e embora tendencialmente votasse Marcelo, tentará, com o seu voto, obrigar a disputa de uma segunda volta, para que haja discussão mais séria e apareça mais política durante os próximos 15 dias. Mas conheço, igualmente, quem tendencialmente votasse Sampaio da Nóvoa, mas convencendo-se de que na segunda volta Marcelo venceria de novo, tenha decidido não contribuir para mais gastos eleitorais e optado pragmaticamente pelo Professor de Direito.