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terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Uma outra direita


Jean-Claude Michéa é um filósofo francês com uma imagem de marca: um gorro de lã e uma t-shirt vermelha, ora com a foice e o martelo estampados ora com a sigla CCCP, o que em russo quer dizer URSS. Mas desaconselham-se as conclusões apressadas. Um texto seu, na revista Limite, aplaude os coletes amarelos com vários jogos de palavras. "O povo finalmente está em marcha" - ironia com o slogan eleitoral de Emmanuel Macron, EnMarche! - "contra um governo thatcherista de esquerda". A revista é de direita, mas gosta da imagem, e das palavras, do filósofo libertário de 68 anos (que parece bem mais jovem na ilustração do que a revista publica). Aliás, a Limite é uma publicação com um manifesto que explica ao que vem: "encorajar todas as alternativas à sociedade de mercado. Recusando a 'alternância sem alternativa' da divisão direita/esquerda, Limite dá a mão a todos aqueles que lutam contra o duplo império da tecnologia sem alma e do mercado sem lei".
Os textos que publica têm verve e argumentos. O que parece estranho é aquilo a que Mark Lilla, professor de Humanidades na Universidade de Columbia, nos EUA, chama de "ecumenismo". A revista, como boa parte de uma nova direita francesa - que não se revê nos Republicanos, da direita tradicional, nem na extrema-direita de Le Pen -, parece juntar partes inconciliáveis do puzzle político que nos habituámos a conhecer. É conservadora em termos sociais (antifeminista, antieutanásia, assumidamente católica). Mas mostra orgulhosamente um discurso económico que parece tirado do movimento Occupy Wall Street. É anti-União Europeia e anti-Bolsonaro. Defende o conservadorismo indo buscar o Camus ideal.
Mark Lilla tem passado os últimos tempos a entrevistar alguns destes jovens intelectuais da nova direita francesa. Escreveu, na última edição da New York Review of Books, um texto onde os descreve: "as visões destes jovens conservadores sobre a família e a sexualidade são católicas tradicionalistas. Mas a forma como as defendem é estritamente secular: "querem regressar a um ideal de "família forte" para combater o "individualismo radical".
A novidade, aponta Lilla, é que "pensemos o que pensemos sobre estas ideias conservadoras sobre a economia e a sociedade, elas formam uma leitura coerente". E isso contrasta com a crise actual das ideias dominantes: social-democracia, liberalismo, democracia-cristã. E é por isso que - afastando-se do populismo nacionalista e xenófobo, mas rejeitando quase nos mesmos termos o "cosmopolitismo" - esta nova direita pode vir a ter espaço político. (...)
O que ela [a nova direita francesa] mostra, ainda assim, é uma mudança profunda nas fronteiras políticas tradicionais.

Paulo Pena, Há uma nova direita a nascer em França pós-coletes amarelos, DN, 16-12-2018, p.30.

P.S.: uma direita mais radical junta-se em torno de revistas como Valeurs Actuelles e L'Incorrect.

P.S.2: Alguns artigos da revista ecológico-católica Limite.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Messianismo político

Resultado de imagem para emmanuel macron

As suas reuniões públicas são completamente diferentes das de todos os outros concorrentes ao Eliseu porque tocam a transcendência e o seu estilo é único. (...) O candidato Emmanuel Macron tem um carisma inegável e assume de forma desassombrada a dimensão messiânica, por vezes até crística (no mínimo, marcadamente mística), que a sua postura transmite. "A política é mística, não procuro ser um pregador crístico, mas não renego a dimensão crística, embora não a reivindique", diz numa surpreendente entrevista ao "Journal du Dimanche". "Como se constrói o poder carismático? Com uma mistura de coisas sensíveis e de coisas intelectuais. Assumi sempre a dimensão da verticalidade, da transcendência (...) Não creio na transcendência etérea. É preciso misturar as duas, a inteligência e a espiritualidade porque, senão, a inteligência é sempre infeliz, as pessoas sentem sensações mas apenas no sentido de paixões tristes, tais como o ressentimento, o ciúme, etc. É preciso dar uma intensidade às paixões felizes", acrescenta (...) É mesmo preciso assistir ao vivo a um dos seus shows, que são um misto dos dos políticos americanos e dos pregadores religiosos brasileiros, para perceber o que aqui se descreve. Termina quase todos os seus discursos com os braços cruzados sobre o peito (...) Macron é verdadeiramente uma figura ímpar no mundo político francês e europeu. Reparem: "Deus fala-lhe?", pergunta-lhe a jornalista do "Journal du Dimanche". Ele responde: "Não (...). Não tenho a certeza que Deus tenha algum dia falado. No fim, são vozes que nós próprios criamos (...) Eu sei dizer o que se pode dizer sem nada revelar (...) Não separo Deus do resto. Faço a ligação entre a transcendência e a imanência" (...) Na realidade, Macron dá a entender que vive com temor a Deus e até, segundo parece, receia ter vivido em pecado, no passado. (...) "É um erro pensar que o programa é o coração de uma campanha. A comunicação social passa de um comentário sobre um pequeno pormenor do programa às piores polémicas, e daí em diante" (...) Ecologia: "Somos ecologistas, não queremos bloquear o progresso, mas somos ecologistas porque somos fraternos com os nossos semelhantes". Política: "não digo que a direita e a esquerda já não existem, mas as clivagens não serão ultrapassáveis?". Economia: "Temos de limitar os excessos do capitalismo" (...) Um barítono ensinou-o a projetar a voz e alguém lhe terá dito que nunca deve baixar o olhar. Quando discursa, olha sempre para cima, quando fala com as pessoas fixa-as olhos nos olhos, com os seus, azuis, bem abertos. Apresenta-se sempre como um sonhador, um naif um pouco angélico que, no entanto, galvaniza as plateias (...) Macron é inteligente e tem uma formação cultural sólida. Estudou num liceu privado de jesuítas (chamado La Providence) em Amiens (norte de França), onde nasceu no seio de uma família burguesa e rica. (...) O candidato presidencial - que tem um Diploma de Estudos Aprofundados em Filosofia, cursos no Instituto de Ciências Políticas e na Escola Nacional da Administração, duas instituições que são verdadeiras fábricas de políticos e altos funcionários franceses - começou cedo a gostar de literatura e de filosofia. No [seu] livro "Révolution", que é decepcionante em termos de ideias e pobre do ponto de vista político (...) revela que aos cinco anos de idade passava todos os dias horas com uma avó, cujo nome não revela, a estudar gramática, história e filosofia, bem como a ler e a recitar em voz alta textos de Moliére, Racine, Mauriac, Colette e Giono (...) o filósofo Paul Ricoeur, com quem estudou e trabalhou como assistente em Ciências Políticas (...) Sabe tocar piano muito bem - obteve o terceiro prémio como pianista no conservatório de Amiens. Os pais eram médicos e professores e ele aderiu ao PS aos 24 anos. Deixou de pagar as cotas poucos anos depois e hoje não é do partido.

Daniel Ribeiro, num curioso e surpreendente retrato do candidato presidencial francês Emmanuel Macron, na Revista do Expresso, edição 2312, 18 de Fevereiro de 2017, pp.26-33