Tirando os americanos, os russos, os chineses, os japoneses e os indianos, todo o resto do mundo acabou com os laboratórios do Estado, onde se mostrava a cada um dos governos os dados [científicos]. Porque as pessoas que estão na política tomam decisões com os argumentos que têm na frente. Se ninguém lhes dá mais do que aquilo...(...)
Assumiu-se que passámos a ser um país de serviços. Foi assim na Europa, de uma maneira geral. E quando se deixa de fazer, deixa-se de saber. Desapareceram os laboratórios de Estado e das empresas. Eu fundei em 1983 uma coisa que resistiu até hoje que é a Empresa de Investigação e Desenvolvimento de Electrónica, que funciona no Lazarim, na Charneca da Caparica. Aquilo foi feito com dinheiro de um contrato para uma investigação da NATO que tinha que ver com produção de circuitos integrados e a outra parte do financiamento veio da Tabaqueira. Veja bem, hoje se perguntasse a um empresário: o senhor é capaz de investir 10, 20 milhões de euros em produção industrial? Ele chamava o 112 e mandava vir um colete-de-forças. (...)
Se for a um banco com um programa de ciência onde é que está o departamento, as pessoas, que vão ver se aquilo faz sentido? Não existem. No meu tempo existiam. (...)
Gostava que me mostrassem 10 [start-up] cuja produção esteja a facturar 100 milhões de euros. Não há nenhuma. O que conheço muito bem no sector das start-ups é isto. No princípio, é só facilidades. A pessoa cria uma start-up e passados três meses está lá uma carta do IVA. Ao fim de meio ano está a família a financiar aquilo. Ao fim de dois anos já não sabem o que hão-de fazer. Não basta só uma ideia e dinheiro. Se alguém se meter, como eu, a construir uma empresa, mesmo que seja unipessoal, aquilo em termos de impostos, burocracia, é o fim do mundo. (...)
Tenho documentos que mostram que a Rússia, ainda antes do lançamento do Po Sat1, fez uma proposta de consórcio a Portugal para fazer o lançamento de satélites nas OGMA, da pista que lá está. Eram satélites adaptados a lançadores. Os satélites vinham até aqui, eram amarrados e eram lançados. Também houve uma proposta dos franceses para construir uma base de lançamento de satélites na ilha das Flores, nos Açores. Agora andam a dizer que vão fazer o mesmo passados 25 anos. Deus queira que façam. (...)
A tragédia de hoje é como é que a vossa geração vai voltar a aprender a produzir. De 1988 até agora são 30 anos de desindustrialização.
Fernando Carvalho Rodrigues, Físico, Professor Catedrático do IST, entrevistado por Filipa Lino, Jornal de Negócios, Weekend, 14-09-2018, p.8