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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Escolhas totais (em "A peste", de Camus)


Uma das mais interessantes questões/dilemas colocados pelo extraordinário A peste, de Albert Camus (reeditado, recentemente, pela Livros do Brasil, com tradução de Ersílio Cardoso), é-nos apresentada através de Rambert, o jornalista que aportara a Orão e que se vira, depois, apanhado na prisão que a cidade passou a constituir a partir do momento em que a epidemia tomou conta da urbe e esta foi encerrada (para que não viessem a ocorrer contaminações extra-muros). Tendo deixado mulher, o amor da vida, fora daquelas muralhas; não sendo um natural de Orão e não estando por ali há demasiado tempo, a vontade, manifestada por Rambert, de fugir, a convicção de se evadir dali, mais do que presente, fosse necessário envidar os meios que fosse (uma saída clandestina e ilegal). Conquanto os preparativos se demorassem por semanas e as tentativas de encontrar cúmplices - desde logo, uma declaração que o médico dr.Rieux não passou por escrúpulo profissional - prolongasse a estadia, o certo é que, amadurecida e finalizada, a decisão não foi pela "felicidade", pelo "egoísmo do amor" (espantoso paradoxo formulado por Camus, na medida em que o amor é saída de si para o outro, mas neste caso, a recusa dos demais para se concentrar no amor de uma vida poderia ser interpretado à guisa de egoísmo), mas pela solidariedade com uma comunidade. Ou, se se preferir, não se é feliz, segundo Rambert, vendo todos os outros infelizes: "Rambert disse que tinha reflectido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas, se partisse, teria vergonha. Isso perturbaria o seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e declarou, com uma voz firme, que aquilo era estúpido e que não era vergonha preferir a felicidade.
- Sim - disse Rambert -, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.
Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que se Rambert queria compartilhar a desgraça dos homens, nunca mais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.
- Não é isso - disse Rambert. - Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver convosco. Mas agora, que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira quer não. A história diz respeito a todos nós. - Ninguém respondeu e Rambert pareceu impacientar-se. - Os senhores sabem-no bem, aliás. Quando não, que fariam neste hospital? Acaso fizeram a vossa escolha e renunciaram à felicidade?" (p.179)
Na sabedoria do dr.Rieux, o dilema - que o binómio felicidade vs solidariedade talvez coloque, no caso, de modo demasiado simplista - começa por ser tratado a uma luz deontológica: não aceita passar um atestado médico para que Rambert pudesse sair de modo lícito de Orão. Mas toda a sua atitude está isenta de soberba, de moralismo, de lições: ele é informado por Rambert dos preparativos deste para a fuga, compreende-os, aceita-os, convive com o jornalista e parece-lhe perfeitamente natural, ou muito compreensível do ponto de vista humano, a "opção pela felicidade" (chegando, nesse esforço de empatia pela posição do outro, por repreendê-lo por não seguir esse caminho: "aquilo era estúpido e não era vergonha preferir a felicidade"). Confrontados com uma situação de uma epidemia (uma guerra, um avanço totalitário), e, ademais, com a família, e o amor maior de uma vida, longe, seria, ou não, legítimo evadir-nos? Ir em busca do amor (que também sofre por nós) seria, propriamente, e apenas, "egoísmo"? Aqui, a fórmula é notável na sua ambiguidade e complexidade: "o egoísmo do amor". Em todo o caso, poderíamos pensar que a irmandade na desgraça seria uma opção mais elevada, uma resposta maior. Mas sem atirarmos pedras, ou julgarmos (severamente) quem assim não decidisse. O ponto, talvez, ainda possa ser outro: quem é, quem compõe o "demos"? E a resposta seria: aqueles que compartilham "a desgraça dos homens" da cidade (mesmo que aparentemente estrangeiros). Peguy perguntava o que Deus nos dirá se chegarmos ao Paraíso sem os outros (?) - ninguém se salva sem os outros serem salvos. E este apelo de partilhar a história, e o discernimento de que um prazer que não pode ser partilhado não é um prazer, pareceram sobrelevar em Rambert.