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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Uma contenção "de olhos abertos"

Resultado de imagem para o outro lado da esperança

Kahled levanta-se por entre o carvão de um cargueiro, despejado em Helsínquia. O movimento parece teatro, as cenas iniciais de O outro lado da esperança, de Aki Kaurismaki, apresentam uma austeridade, um mutismo, uma rigidez corporal das personagens que será marca de água do filme (e autor). Vemos a separação de um casal sem que este, entre si, troque uma única palavra - embora vejamos o suficiente para entender.
Kahled, mecânico, vivia na Síria, até que, certo dia, estando ausente, a sua casa foi bombardeada, "não sei se pelo Governo, pelos rebeldes, pelo Hezbollah, pelos russos, pelos americanos, pelo ISIS...", e da família sobreviveu apenas ele e a irmã. Mas até os irmãos serão separados, estando em território estrangeiro, eles que passarão por inúmeros países - sem terem contacto entre si, em permanente angústia e ansiedade - até se reencontrarem - via transporte clandestino desde a Lituânia, por parte da irmã - na capital finlandesa.
O modo como o Estado trata os refugiados - a cena da leitura do despacho de deportação de Kahled dizendo que não se passa nada de grave em Allepo que justifique o asilo, ao mesmo tempo que a televisão passa o ataque a um hospital infantil naquela cidade, causando dezenas de mortos aponta ao cinismo e à hipocrisia com manifesto escárnio; a noite em que os refugiados devem esperar para serem levados ao aeroporto na manhã seguinte, com destino à Turquia, para dali serem reencaminhados para Allepo, em que ficam em celas como criminosos, e chegam a ter as mãos acorrentadas -, tal como a sociedade civil - que oscila entre os grupos de extrema direita que agridem, e um grupo de estropiados, de canadianas, que vêem em sua defesa, o hacker que arranja um cartão de identificação falso (com que o sírio contorna a deportação), em dez segundos, ao patrão capitalista (que ganha uma fortuna no poker, numa das cenas burlescas do filme; momentos antes, o empresário tentara vender o stock de camisas que possuía a uma outra empresária do ramo que, no entanto, lhe diz que vai para o México, porque está farta da "paz e silêncio" da Finlândia, como que a contrastar, este "excesso de bem estar", com a realidade ultra-precária, demasiado marcada por aventuras e adrenalina involuntária, dos requerentes de asilo) que se identifica com a marginalidade de Kahled, passando pela assistente social que o ajuda a iludir a polícia e a fugir do centro de detenção de onde seria levado para o avião de regresso -, com uma banda sonora povoada de artistas de rua, bandas que existem mesmo naquele país nórdico (e que são aqui guardadas para a posteridade). 
Não se sai  da película com fúria nem ira - o filme tem um travo agridoce, tem uma comicidade fria, ou uma denúncia que é contrabalançada pelos momentos cómicos para respirar (a máquina de escrever da polícia ao lado dos mais modernos meios de identificação digital; o restaurante onde Kahled estará a trabalhar às escondidas, também ele completamente retro e com personagens improváveis), a solidariedade do iraquiano que acaba por se transformar em irmão de armas ("vamos beber umas cervejas como estes infiéis"), o reencontro entre irmãos que, não deixando de conter as facadas de outros "verdadeiros finlandeses" (a frieza do Estado, o sítio onde dormir, a suspeita da polícia, o viver em permanente sobressalto e medo) dão ao filme um certo distanciamento que, não iludindo toda a «demasiada realidade» que o acompanha, não desagua numa torrente emocional - sendo que, para mim, há espaço para «ambos os filmes», para ambos os modos de lidar com uma realidade que se entende como necessitando de intervenção e mudança.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Neoliberalismo (III)


Podemos assim verificar a este propósito como é perniciosa outra palavra de ordem na moda, que sugere que se deve «gerir o Estado como uma empresa». Significa que devemos tratar os seus diferentes serviços apenas na perspectiva da rentabilidade material. Já vimos que esta é apenas uma das vertentes da empresa, sendo a outra os benefícios simbólicos que daí retiram os que nela trabalham. Mas o Estado não é apenas um guiché de serviços, tem um poder simbólico próprio (...) [:] assegura a continuidade no seio de uma sociedade; os homens passam, o Estado fica; é este que pode preocupar-se com o futuro mais distante e com os valores imateriais. Para além das suas funções de regulamentação e de redistribuição, o Estado providencia um quadro à vida comum, que permite situar as nossas acções quotidianas numa relação mútua. Com a melhor vontade do mundo, as agências privadas, às quais o Estado por vezes delega as suas funções de serviço social ou de ajuda no emprego, não podem assumir esse papel simbólico ou dar esse acrescento de sentido. O objectivo do Estado não é a rentabilidade, mas o bem-estar da população. Esta diferença nos fins visados diz tanto respeito às administrações como às instituições, como à escola ou o hospital.

Tzvetan Todorov, Os efeitos do neoliberalismo, in Os inimigos íntimos da democracia, Edições 70, Lisboa, 2017, pp.133-134

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Como quem chama por mim



Segundo o Expresso, foram 12,6 mil milhões de euros injectados, pelo Estado, no sistema bancário (nacional), entre 2010 e 2015. Nas contas do PCP, que remontam a 2008, tal soma ultrapassa já os 15 mil milhões.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Liberal, não liberal


Na entrevista de Assunção Cristas, no passado Domingo, ao Público, a futura líder do CDS-PP incluiu as privatizações, realizadas pelo governo no qual participou, no rol de reformas levadas a cabo pelo Executivo liderado por Pedro Passos Coelho. Uma reforma, de resto, segundo as palavras da ex-ministra da Agricultura, com um propósito bem claro: retirar o Estado de mais sectores da sociedade (do que aqueles em que marcava presença até então). "Apesar de criticados pela esquerda", observa, seguiram em frente com tal política. O que resulta desta versão dos acontecimentos é que as privatizações, no governo 2011-2015, foram realizadas em liberdade, por escolha própria (ainda que muitas das privatizações presentes e previstas no memorando de entendimento com a troika). Não foram, pois, feitas em "estado de necessidade", sem outra opção (neste entendimento). Têm o estatuto de "reforma", visando diminuir-se o peso do Estado na economia. Isto é, por conseguinte, muito diferente do "privatizamos, porque não havia alternativa"; teve tudo que ser feito a trouxe-mouxe e de aí os vícios detectados pelo Tribunal de Contas; as privatizações nada tiveram de ideológico. Uma das versões estará incorrecta; Assunção Cristas deixou-nos, no Domingo, para memória futura, a sua interpretação dos factos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A qualidade do Estado


Se as discussões sobre o Estado se concentram na sua quantidade - mais, ou menos, Estado -, elas podiam, antes, ou simultaneamente, focar-se na qualidade: sobre a capacidade, organização, complexidade e eficácia de este instrumento político servir a comunidade. Assim, diz-nos Francis Fukuyama, poderemos ser tão bem servidos por um excelente welfare state nórdico, como por um mais minimalista Estado de Singapura, ou mesmo EUA, desde que o funcionamento da máquina estatal - funcionamento que tem, precisamente, permitido a italianos e belgas, por vezes, prescindir de governos - seja mesmo bom. Para o politólogo, "temos uma tendência inata" a beneficiar amigos e familiares e é isso que torna tão difícil manter um Estado moderno (a corrupção, ou tráfico de influências são ameaças constantes). Os próprios EUA estão completamente capturados - ao nível dos seus decisores políticos - estão completamente capturados pelo poder económico-financeiro, garante, afirmando, ainda, que a disfuncionalidade do Estado pode levar à decadência.


terça-feira, 26 de maio de 2015

Bons debates


Numa altura em que temos vindo a colocar, aqui, no blog, alguns apontamentos a partir dos dois últimos volumes publicados por Francis Fukuyama, foi muito interessante assistir ao debate de ideias entre este cientista político, Jaime Gama e Jaime Nogueira Pinto, com moderação de José Manuel Fernandes: a situação de África, o Estado (de Direito) e a democracia por construir; a influência, directa e indirecta, dos livros de Fukuyama na conformação da ordem internacional; a mistura de confucionismo com selecção académica para a função pública no modelo chinês; o exemplo de Singapura; as classes médias nas sociedades actuais - com Jaime Gama em grande forma, e a considerar os livros de Fukuyama "estimulantes" e que quer quem tem responsabilidades públicas, quer o cidadão comum devia ler. Um encontro na livraria Bucholz, com vídeo no 'Observador'. 

sábado, 16 de maio de 2015

Factores de surgimento do Estado


Segundo Francis Fukuyama é necessária a confluência de vários factores para que o Estado possa emergir: i) abundância de recursos, que superem os necessários à mera subsistência; ii) a sociedade tem de ter uma escala suficientemente grande para que haja divisão do trabalho e elite dirigente; iii) constrição física de súbditos para aumentar densidade populacional e garantir a não fuga daqueles quando sob coacção; iv) grupos tribais motivados a abdicar da sua liberdade em favor da autoridade do Estado (p.147/148).

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Instituições políticas


É seguro afirmar a China como berço da moderna burocracia, corpo de funcionários, quadro administrativo seleccionado pelas suas capacidades e não pelas relações de parentesco (p.184). A construção/emergência do Estado, na China, precede a sua erupção, na Europa, em cerca de 1000 anos. No séc.IV e III a.C., os eruditos e letrados eram, na China, o tipo humano mais elevado (considerado), existindo uma ligação única entre o papel do intelectual e do burocrata, sem paralelo em qualquer outra civilização (p.187). Seguir-se-à a luta entre confucianos - primado da família e das obrigações, em especial, para com o pai, mais do que com a mãe e filhos - e legalistas.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Para lá da família



Só na Europa o tribalismo desaparece completamente. O cristianismo exerce, aqui, um papel preponderante, na medida em que permite a superação do parentesco como base de coesão social.