O retrato do peregrino actual é o retrato da Igreja e da sociedade. Julgo que é tempo de abandonarmos os estereótipos criados. (...) Tem sido transmitida uma ideia estereotipada do peregrino de Fátima, profundamente errada e profundamente injusta. Temos peregrinos mais jovens e mais idosos, pessoas com nível académico superior e pessoas sem formação académica. Temos aqui o retrato da diversidade que caracteriza Portugal e a Igreja portuguesa, bem como as dos países estrangeiros de origem (...) A peregrinação é um fenómeno vivo e claramente tem havido uma transformação que tem a ver com a peregrinação em si mesma, o que se verifica em Fátima, mas também em Santiago de Compostela. Peregrinar voltou a ser uma actividade digna e entendida como tal, o que levou, nestes últimos anos, a uma transformação do tipo de pessoas que vem a pé a Fátima, a pé, sem que houvesse uma organização dos grupos, quer nas pessoas que os integram. (...) Tínhamos uma população rural que vinha a pé por promessa. Agora, cada vez mais gente vem do ambiente urbano, com formação académica superior, não porque se tenha feito uma promessa, mas porque se pretende fazer a experiência do peregrinar a pé. Mas, na sua esmagadora maioria, os peregrinos de Fátima não vêm a pé. A peregrinação a pé é relevante, mantém-se; o que é interessante porque houve uns anos com um certo decréscimo e voltou a crescer e a ganhar interesse. Registou-se uma transformação evidente no paradigma do peregrino, que passou a ter uma representatividade muito mais vasta.
[A dimensão do sacrifício, no sentido de cumprir uma promessa, é hoje menor?]
Não me parece que seja menor. Talvez seja menor o número de pessoas que promete vir a pé a Fátima. A promessa mantém-se embora se vá também transformando. A peregrinação a pé deixa de ser vista exclusivamente pelo prisma do sacrifício e começa a ser vista como uma experiência mística que se pode fazer através de um exercício físico. Isso traduz a percepção de algo que sempre esteve presente em toda a vida cristã embora em alguns momentos tenha caído um pouco no esquecimento: a vivência cristã é profundamente arreigada no corpo e só é possível fazer uma experiência espiritual passando pela mediação corporal, isto é, também pela experiência física. A experiência do peregrinar ajuda a perceber o que é a fé como uma caminhada. E é essa a percepção que me parece que hoje é mais viva. (...) Mais essa experiência espiritual do que a dimensão da promessa, que se situa muito ao nível do comércio com o sagrado; dou para que dês; recebi uma graça, então vou pagar; ou para que receba, faço esta parte do sacrifício. Parece-me que também ao nível da motivação há alguma transformação.
Carlos Manuel Cabecinhas, Uma mensagem com passado, presente e futuro, entrevistado para a obra A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima, de António Marujo e Rui Paulo da Cruz, pp.239-240.
O mundo da peregrinação está em transformação desde sempre. A peregrinação a pé está a potenciar toda a dimensão de performatividade, de inscrição no espaço e na natureza, bem como a ideia de uma identidade em movimento, muito cara à nossa experiência contemporânea. Hoje, as pessoas não são «uma única coisa», constroem-se na mudança. Ninguém se pensa já a partir de uma lógica de imutabilidade ou de uma identidade cristalizada. A peregrinação é um gesto simbólico que descreve, de maneira lúdica e numa dimensão ritual, de forma muito eficaz, esta experiência contemporânea. Há muitos sinais que nos mostram que a peregrinação a Fátima pode estar cada vez menos dependente da tradicional religiosidade votiva, baseada especialmente na troca simbólica de dons, e mais próxima de uma religiosidade mais performativa, mais individualizada, agora com outro sentido: a realização de si mesmo, encontrando experiências fortes que são um acréscimo de motivação para os indivíduos, levando alguns a desvincularem-se de outras formas, mais sedentárias, de inscrição religiosa. Para muitos, porventura, a sua identidade religiosa pode passar a ter, como marcador essencial, a peregrinação que todos os anos se faz a Fátima. Aquilo que era o ir á missa todos os Domingos, para algumas dessas identidades passará a ser este ir a Fátima todos os anos. Há aqui mudanças de escala, que vão afectar certamente o perfil dos peregrinos e os modelos de peregrinação.
Alfredo Teixeira, Na rota de uma recomposição do religioso orientado para o indivíduo, entrevistado para a obra A Senhora de Maio. Todas as perguntas sobre Fátima, de António Marujo e Rui Paulo da Cruz, pp.266-267.