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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Dia de todos os santos


Fernando Pessoa escreveu que "morrer é só não ser visto" e que "a morte é a curva da estrada". São imagens que nos adentram no mistério da morte e que o poeta descreve não como uma crise inominável, mas como um elemento morfológico da estrada - "a curva" - ou uma condição do seu percurso - a maior ou menor visibilidade. Sobre a morte pode-se falar portanto, nem que seja por metáforas, mas colocando-a justamente num discurso acerca do grande caminho, do único caminho que é a vida. A tradição bíblica exorta ao pensamento sobre a morte como lugar referencial de construção da nossa humanidade: "Ensina-nos a contar os nossos dias, para podermos chegar ao coração da sabedoria" (Salmo 90, 12). E tem razão. Porque precisamos de uma sabedoria capaz de integrar a experiência da morte no horizonte da vida. Precisamos de uma educação interior que nos permita evocá-la como, por exemplo, o fazia Francisco de Assis, chamando-a "irmã morte", significando com isso uma reconciliação profunda do vivente com todas as etapas do seu destino. Enchemos a existência de oposições inúteis e inventamos fronteiras que afinal não existem, quando a vida, a nossa vida, desde a concepção até à morte natural, é um fluxo indivisível e único
A cultura contemporânea evidencia neste campo uma dramática fragilidade. Por um lado, banaliza a morte, fazendo dela um quotidiano espectáculo. Por outro, declara-a um interdito irremovível. Na verdade, a morte que nos é mostrada é sempre a dos outros, e sempre num plano distante, como se, de alguma maneira, estivéssemos protegidos disso que vemos. Esquecemo-nos do que ensina o poema de John Donne, quem vem do século XVI: "Nenhum homem é uma ilha;/ cada homem é um fragmento de um continente, uma parte da terra; / se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída,/como se fosse um promontório,/como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria;/a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano./E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;/eles dobram também por ti". A morte tornou-se um assunto que ninguém nos ajuda a pensar, como se não fizesse parte da vida. E habituamo-nos a viver, social e culturalmente, como se a morte e a nossa morte individual não existissem
Não admira que, talvez mais do que em outras épocas, nos encontremos sozinhos e desamparados perante o pensamento da nossa morte.
Gosto de recordar que uma das heroínas do século XX foi a inglesa Cicely Saunders (1918-2005), que lançou as bases dos chamados cuidados paliativos. Era estudante de Filosofia e Ciências Políticas em Oxford, mas quando rebenta a II Guerra Mundial decide que estudará enfermagem. A sua vida pessoal é recheada de incidentes: uma escoliose vertebral incapacitante, as crises histéricas da mãe, a separação dos pais...Mas ela teima e, no meio do sofrimento que prova, apercebe-se que "tinha tudo na cabeça, mas que nada lhe tocara ainda o coração". A experiência do amor será o seu ponto de partida. Apaixona-se por David Tasma, um judeu polaco e agnóstico que chega do gueto de Varsóvia. É ela que lhe anuncia que sofre de um tumor e o acompanha até ao fim. Um dos presentes desse amor é a pergunta que David lhe deixa, e que se tornará uma fonte de inspiração para o seu percurso:"consegues dizer-me alguma coisa que me console?". Cicely Saunders percebe que para vencer a batalha da dor é preciso combater a dor física (e ela aos 39 anos termina o curso de Medicina e torna-se uma investigadora pioneira no campo da farmacologia ligada à dor), mas compreende também que isso não basta: é preciso, de forma integrada, atender também à dor interna e espiritual. E, por isso, a sua tese era esta: "no sofrimento e na dor há uma coisa mais forte do que todas as respostas e explicações: a presença".

José Tolentino de Mendonça, A curva da estrada, Expresso, Revista do Expresso, 01-11-2019, p.92.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Eça antecipa Pessoa


(...)
É de salientar que Fradique Mendes não existe nas páginas de um romance: existe proto-heteronimicamente

Ou seja, Eça antecede Pessoa na heteronímia? 
Os pessoanos não gostam de o ouvir, mas sim. Fradique é uma figura que escreve cartas a várias pessoas e até ao próprio Eça. 


Porque não é ele já um heterónimo?
Não foi desenvolvido no plano do estilo. Nesse aspecto, o Fradique ficou o Bernardo Soares, isto é, ficou-se pela prosa, que é igual à do Eça. Às vezes, o Fernando Pessoa é tratado em Portugal como uma espécie de prodígio de circo. Não, ele é um escritor genial, mas que ampliou até às suas últimas consequências tendências que vinham do século XIX...

...e estudou tudo.
Por isso é que o Pessoa quis silenciar o Eça. Porque sabia muito bem que certas coisas vinham de trás e que outros já as tinham feito ou começado. Tenho a absoluta certeza de que ele, a quem não escapava nada, sabia muito bem que o Eça tinha criado uma figura chamada Fradique Mendes. O Pessoa escreveu a Mensagem. Tinha o projecto de ser o supra-Camões. Sabe um nome que nunca aparece na Mensagem? Camões. Os escritores têm esta tendência para silenciarem as suas referências ou para tentarem desconstruí-las ou menorizá-las, porque querem ter eles a prerrogativa do original.

Têm de matar o pai, é lógico.
Sim, sim. Mas acontece que, às vezes, há coincidências terríveis. O Eça escreve várias cartas ao Oliveira Martins em que explica que vai retomar o Fradique (que, não esqueçamos, vinha de 1869) e o Oliveira Martins não o percebe, porque ele explica aquilo como se estivesse de facto a acontecer: «Olha, o Fradique, não sei se te lembras dele, morreu. Tinha umas cartas, agora vou publicá-las». Até que o Eça escreve uma terceira de três cartas, em que explica ao Oliveira Martins que o Fradique Mendes não existiu e que ele, Eça, está apenas a inventar uma figura e a escrever cartas em nome dela; portanto, trata-se de cartas que nunca foram escritas por um sujeito que nunca existiu. Aí fica tudo claro. Qual é a data desta carta? É de 12 de Junho de 1888. Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888. Ou seja, o Eça inventou o Fradique num dia e o Pessoa nasceu no dia seguinte.

Carlos Reis, entrevistado por Filipa Melo, Ler, nº151, Outono de 2018, p.60. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Continuar a pensar Fátima


Resultado de imagem para Fátima e a cultura portuguesa+Miguel Real

Continuar a pensar Fátima

1.Se a desatenção, no nosso país, fora do mundo religioso, a um fenómeno tão marcante do século XX português como o das "Aparições de Fátima" foi sendo arguido, pelos seus estudiosos, como inaceitável - precisamente dada a sua relevância social e política - e crivada de preconceito (acriticamente mantido), um conjunto de obras, nos tempos mais recentes, de autores de diferentes àreas do conhecimento, longe do religioso, pode vir a constituir-se como momento de viragem susceptível de impugnar aquela críticaFátima e a Cultura Portuguesa (D.Quixote, 2018), de Miguel Real, adiciona um contributo e posicionamento críticos, vindo de um professor de Filosofia, investigador e prolixo autor no âmbito dos estudos sobre a cultura portuguesa, escritor, romancista, ensaísta, crítico literário.

2.Há um ponto, para mim central e decisivo, de entre os diferentes fios deste novelo a que o autor se dedica (essa aparente dispersão torna-se característica, se tomarmos, por exemplo, por comparação Nova Teoria do Mal), que queria destacar, nesta abordagem. Compulsando os mais recentes escritos acerca da temática de Fátima; procedendo, pois, a esse estado da arte, Miguel Real toma por conclusão um dado que é determinante para o modo como cada um se posiciona, depois, relativamente a esta questão: os pastorinhos, as crianças que relataram a experiência superabundante que viveram não mentiram, não inventaram acerca desse relâmpago que estremeceu as suas vidas (e que mexeu com muitas mais).

3.Importa, neste contexto, situar, com maior precisão, o tópico vindo de mencionar: o facto de as crianças não mentirem, não terem inventado uma experiência - na conclusão de Miguel Real - significando, é certo, o descartar de teorias de conspiração e de mãos negras na origem de um fenómeno que viria a adquirir contornos e dimensões de inusitado alcance, não significa, outrossim, que as concretas descrições/imagens e narrativas acerca de específicos conteúdos dessa experiência passem sem um escrutínio vigoroso, uma crítica acérrima. Os testemunhos primeiros, a que alguns convencionaram chamar Fátima I passam no crivo do ensaísta (que os entende espontâneos, genuínos), o mesmo não podendo referir-se dos acrescentos e formulações de Fátima II (mais construídos, ideológicos; no que, aliás, quem conhece alguma literatura sobre o tema, sabe, pois, ser formulação que está longe de ser original).

4.Como diria Jean-Luc Marion, é preciso pensar o impensável (o insusceptível de ser pensado, o que está para além/excede o pensamento) e, em assim sendo, intraduzível (e inacessível) a(s) concreta(s) experiência(s) de LúciaJacinta e Francisco, ela(s) remete(m) Miguel Real para pensar, com Rudolf Otto, o sentimento, aparentemente universal pelo que se depreende das palavras escritas pelo crítico (em realidade, um sentimento como uma emoção natural, presente já no Australopitecus, correspondente a uma “disposição fisiologicamente inata de resposta a estímulos extraordinários”, p.42), de uma Presença, na pessoa, ao mesmo tempo assombrosa e aterradora, mysterium fascinans et tremendum, inexplicável por conceitos, palavras, impossível de conformar pela gramática: "logo, não existe teoria (racional) da Presença que não seja a de evidenciar, de enfatizar, a sua natureza de suspeição que aponta para a existência de uma realidade soberanamente diferente (...) A Presença é irredutível a uma abstracção (...) ausente de analiticidade (...) Existe apenas um sentido para a Presença - a suspeição de que ela é sinal de uma realidade diferente, deixando-nos espantados e aterrorizados (o numinoso) (...) Uma realidade que surpreende, espanta, pasma e assombra, que atrai mas se receia pela estranheza própria e pela diferença" (p.52). Para Miguel Real, agnóstico, esta Presença não se identifica com Deus (que o autor grafa sempre, ao longo do livro, com minúscula); ela é "uma emoção natural, histórica e individualmente anterior à cultura", da qual nascerá a fé. Esta, por sua vez, terá concretizações históricas e sociológicas nas religiões que irão, ainda, racionalizar a Presença, ou o numinoso. A interpretação de Fátima dá-se à luz do desencadear especialmente marcante de uma Presença superabundante, tematizada à luz de uma tradição católica.

5.Os termos com que Miguel Real recusa a invenção da(s) experiência(s) de Lúcia, Jacinta e Francisco são enfáticos, e reiterados ao longo de todo o livro: "Lúcia, Jacinta e Francisco, crianças de 10, 9 e 7 anos, foram objecto de uma colossal e desmedida experiência psíquica, que as forçou, contra tudo e contra todos, a afirmar as Aparições como uma revelação do sagrado - a Senhora que vinha do céu. Note-se que os três pastorinhos tinham contra si, de um modo activo, ameaçador e insinuante, a mãe e as irmãs de Lúcia, o pároco de Aljustrel, Manuel Marques Ferreira, as mulheres da aldeia e o administrador republicano do concelho. Destaque-se, portanto, a pressão psicológica e social feita sobre as crianças, isto é, tinham contra si a totalidade institucional da sociedade: a Família, a Comunidade, a Igreja e o Estado. E não existe nos inquéritos de 1917 e nas primeiras notícias dos jornais a mais pequena hesitação dos pastorinhos sobre a realidade das Aparições
Assim, afasta-se totalmente deste pequeno ensaio que as Aparições tenham sido uma mera fabricação de sacerdotes de Ourém ou uma maquinação da diocese de Lisboa contra a República, ainda que, do ponto de vista histórico, Fátima constitua a grande seta da Igreja (...) ao coração da República [p.10] (...) Faltam-nos palavras para descrever aquela experiência no interior do cérebro e da consciência dos três pastorinhos e não duvidamos de que a tiveram de um modo gigantesco, tão forte e sólida foi que Lúcia, com 10 anos, analfabeta, rural (o que de rural possuem os códigos comunitários impositivos de consentimento, aceitação e obediência a hierarquias sociais verticais), ousou enfrentar de um modo decidido a família e os políticos republicanos do concelho, superando mesmo as falsas ameaças de que as três crianças seriam «fritas» em azeite, bem como a ameaça, insinuada pelo pároco de Aljustrel, de que, por mentirem, iriam para o inferno (supremo castigo para a sua consciência infantil). Mais do que coragem física ou ousadia psíquica, tratou-se de uma verdadeira transgressão cultural, uma violação de todas as regras, que só a demência social ou a loucura paulistana e franciscana podem justificar. Com efeito, os três pastorinhos, sobretudo Lúcia, exigiram de si uma indómita defesa da verdade, ou do que tinham experimentado como «verdade», tão «verdadeira» que Jacinto e Francisco não só não recusaram como desejaram um doloroso martírio, semelhante ao dos primeiros catecúmenos cristãos. Basta esta atitude para serem levados a sério, para nos indiciar que não se tratou de uma veleidade, foi um acto que pôs em risco o que de mais valioso possuíam - a sua alma [pp.13-14] (...) A Igreja não criou Fátima [p.21] (...) Fátima não se constituiu como o fruto da imaginação dos três pastorinhos. Nela residiu (...) uma experiência misteriosa do sagrado (...) A vivência do sagrado consiste na experiência de uma Presença transcendente às categorias históricas da humanidade" [p.64].

6.Se, em um primeiro instante, poderíamos dizer que estas reflexões, vindas de citar, corroboram muito do que foi sendo alegado numa parte significativa do mundo católico, porventura reforçando-o, dada a vara de medir do professor de Filosofia não partir, não se inscrever em tal tradição - Miguel Real é muito crítico do catolicismo, em vários momentos do ensaio; por todos, leia-se o ponto 5.14, da pág.148 e perceba-se o grau de distanciamento -, o que na verdade o autor opera é um deslocamento da necessidade da conclusão de veraciade e verosimilhança da experiência dos pastorinhos conduzir, impreterivelmente, ao manto interpretativo com que foi recoberto. Dito de outro modo, para Miguel Real a verdade da experiência dos pastorinhos - que a análise da documentação e literatura acerca de Fátima torna procedente - não implica que se aceitem os termos (católicos) mais habituais de apropriação da mesma
O autor considera que do ponto de vista da racionalidade de tipo científico as explicações de Fina d'Armada e Joaquim Fernandes para o sucedido em Fátima - a saber, a análise fenomenológica das circunstâncias naturais de fenómenos surgidos com as Aparições e a comparação com idênticas manifestações aquando do aparecimento de OVNI, reforça a conclusão de ter sido uma entidade extraterrestre a manifestar-se em Fátima; naquela localidade não ter havido uma «alucinação colectiva», quando «o Sol bailou», porque o que nesta hipótese explicativa ocorreu foi a existência de um «disco numinoso» que se destacou -  seriam as mais consolidadas...com apenas o senão de ter que se crer na existência de extra-terrestres ("paradoxalmente, um leitor que se presuma neutro e atendendo à ambiguidade constitutiva do tema, não pode deixar de constatar ser esta a tese até hoje mais fortemente solidificada em termos de explicações o mais rigorosas possíveis, segundo o paradigma científico, mantendo, no entanto, a vazia indeterminação de raíz, isto é, é preciso crer que existem extraterrestres", p.30).

7.Se a verdade das experiências avassaladoras por que passaram Lúcia, Francisco e Jacinta não implica, necessariamente, a aceitação de uma apropriação crente católica das mesmas, em realidade, também não as exclui. No interior de uma cultura fortemente marcada pelo positivismo, e não raro por uma oposição - e uma fácil aceitação de uma distinção - entre fé e razão, não curando, porventura, de indagar suficientemente do que falamos quando falamos de "razão"(ou de várias razões, racionalidades, entre as quais uma «razão crente»), parece realmente necessário enfatizar este ponto: é Miguel Real que sublinha que a exegese católica de um D.Carlos Azevedo, ou do Pe.Anselmo Borges, na medida em que falam de "visões" (que se dão no interior dos pastorinhos; como e, sobretudo, porquê, o que as origina, qual a realidade última destas, qual o significado derradeiro da Presença, é algo que fica eternamente em dúvida, como já se disse, para o céptico e agnóstico) e recusam um "paradigma realista" do concreto e real "aparecimento da Senhora" sobre uma carrasqueira, representa uma "visão racional, espiritual mas explicativa das Visões de Fátima" (p.23). Conquanto se possa questionar aqui a adversativa - "mas explicativa", acoplada a "visão racional e espiritual", na medida em que, precisamente, o racional e o espiritual não recusam, nem prescindem de razões - fica claro como, perante um fenómeno como o de Fátima, crer nele, segundo uma lente católica - uma dada/determinada exegese católica, se se preferir - nada tem de irracional (o leitor, intelectualmente honesto, lendo, se se quiser, exclusivamente, as declarações iniciais/primeiras de Lúcia sobre os acontecimentos, ficando-se pelos documentos da chamada Fátima I, e confrontado com "a tese até hoje mais fortemente solidificada (...) [no âmbito] do paradigma científico", e contrastando com a mais actualizada exegese católica sobre o fenómeno para qual se inclinará, na verdade? Qual lhe parecerá mais razoável?).

8.Igualmente razoável me parece, e até mesmo sem surpresa, o entendimento do autor quanto aos melhores livros acerca de Fátima ("de acordo com o novo paradigma"): Fátima. Lugar Sagrado Global (2017), de José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis - "uma referência que marcará doravante todas as investigações sobre Fátima" (pp.35-36) - e Fátima. Das visões dos Pastorinhos à Visão Cristã (2017), do bispo Carlos Moreira de Azevedo - "que propõe, sensata e racionalmente, a substituição do termo «Aparições» por «visões»" (p.36).
No interior da mundividência cristã católica, em Portugal, Miguel Real opõe, pois, uma visão que considera crédula, com "aceitação acrítica das Aparições" cujo "expoente máximo" seria um autor como João César das Neves a uma outra, mais sofisticada, racional e razoável na qual pontificaria D.Carlos Azevedo. Entende, mesmo, que a interpretação a que se alçou o Bispo (que trabalha no Pontifício Conselho da Cultura) se tornou um acquis incontornável e definitivo. E, de passagem, acredita que a "mudança de paradigma" se deu por 2007, a quando da publicação da Enciclopédia de Fátima, coordenada por Carlos Moreira Azevedo. Em realidade, como o próprio D.Carlos explica em Fátima. Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã decisivo, para esta viragem, foi o Comentário do então Cardeal Joseph Ratzinger, no ano 2000, ao chamado «terceiro segredo», no que ficou como uma peça antológica inultrapassada acerca do fenómeno de Fátima. Embora já o título da obra de Miguel Real, Fátima e a Cultura Portuguesa, nos situe no âmbito nacional  de contextualização (e, percebe-se lendo o livro, autoria/ensaística/crítica) acerca de Fátima, em realidade, Ratzinger, e este seu Comentário, são, ainda isso considerado, os grandes ausentes do livro (porque não é possível perceber a «mudança de paradigma» sem aquele "Comentário" do Cardeal; e porque a mesma referência a um imaginário que precisaria de ser criticado, interpretado, escrutinado estava já aí presente – quando, por exemplo, Miguel Real escreve que “a vivência cultural e religiosa destas foi determinante para a materialização das imagens das Aparições, como se torna explícito, por exemplo, pelo conteúdo das imagens que compõem a visão do Inferno” quase parece citar, ipsis verbis, Ratzinger; não há, porque não foi esse o caminho seguido, muito legitimamente, pelo autor do livro publicado pela D.Quixote um aprofundamento teológico católico do fenómeno e de seus representantes internacionais mais relevantes, em especial Edouard Dhanis, citado por Ratzinger).
Se, para Miguel Real, João César das Neves representa uma ala ultrapassada no entendimento de Fátima, o mesmo se diga, dada a recusa da existência de uma criação, efabulação, construção de Fátima, postulado formalizado pelo ensaísta desde as primeiras páginas deste seu novo livro, dos textos corrosivos mancomunados com as mais variadas teorias da conspiração - por exemplo, "a Senhora" seria uma esposa de um graduado do exército que se teria colocado em cima da carrasqueira e assustado as crianças - cujo autor aqui referido é o pe. Mário de Oliveira

9.Um outro elemento bastante interessante exposto, na obra em apreço, de Miguel Real, é a indicação da República como causa eficiente, mas não necessária de Fátima. A Presença superabundante seria, como já vimos, a causa de Fátima; sendo certo, porém, que, para Miguel Real, não se percebe o fenómeno com as tonalidades, a amplitude e difusão que teve se a República não tivesse existido - com as características de que se revestiu, maxime, a ruptura com 700 anos de tradição católica em Portugal concretizada emblematicamente na abolição da Faculdade de Teologia de Coimbra, mas ainda na proibição das vestes talares dos sacerdotes em locais públicos, a proibição de manifestação pública de ritos religiosos, extinção de colégios de Jesuítas e outras Ordens, nacionalização dos registos de nascimento, casamento e óbito dos cidadãos, nacionalização de propriedades da Igreja, extinção de Ordens e Congregações religiosas...Ou seja, na opinião, sem a possibilidade do contrafactual, do autor, sem a República com a sua bravata anti-religiosa, sem uma Igreja fortemente acossada e arremetida contra as cordas, a «visão privada» dos Pastorinhos teria uma difusão bem mais escassa. Acontecer-lhe-ia, afirma Miguel Real, o que sucedeu a várias outras situações/ “visões” (que considera) similares. A Igreja não inventou, criou, construiu Fátima - para arremeter contra a República que contra esta tinha investido. Mas perante a «visão» dos Pastorinhos foi capaz de reerguer os alicerces, de convocar o povo católico – que, por sua vez, viu no fenómeno a confirmação de um sentido (existencial, histórico) em que se ambientara/situara (e que a nova ordem, tanto de ordem filosófica quanto política, pretendia (ex)purgar). 
Ainda que lateralmente, diga-se, o que daqui decorre, também, é o inverso das teorizações que divisaram, face a várias outras «visões» que não merecer(ia)m especial crédito ou visibilidade, não uma confirmação de que o mesmo se aplicaria a Fátima (como os que negaram a autenticidade das experiências de Fátima pretenderiam), mas o eventual reconhecimento (potencial) de que em outras ocasiões a experiência forte do inefável se deu (não atendendo o autor de Fátima e a Cultura Portuguesa a singularidades desta «visão» que a diferenciariam de outras - se se excluir a necessidade de reacção, mais forte, ao momento histórico; sendo as práticas republicanas já aludidas e, muito concretamente, o ano de 1917, e a participação portuguesa na I Guerra Mundial, especialmente propícios a uma apropriação do fenómeno como aquela que veio dar-se, segundo a interpretação do professor de Filosofia). Os pastorinhos inseriam-se nessa linhagem de 700 anos de tradição católica – “cruzamento entre a tradição católica mariana com a tradição mítica portuguesa” (p.55) - e as suas «visões» não podem separar-se dessa história, desse ambiente, dessa mundividência – a dimensão histórico-social, comunitária, das «visões». Em todo o caso, não apenas vemos tematizada a Presença como o «locus» suscitador da experiência dos Pastorinhos, como, ademais, é nela, nessa emoção, que Miguel Real observa já a raíz da própria religião (numa interessante recusa de a perspectivar pela lente de um constructo sociológico, à la Durkheim, ou a resposta do utilitarismo, o mesmo é dizer, para Miguel Real a religião tem origem na Presença, ou na suspeição da Presença, e não na religião já constituída, culturalmente reproduzida pelas instituições sociais, integrante da educação das novas gerações; a coesão social é propiciada pela suspeita da existência da Presença, por aquela emoção, e não pela organização religiosa institucionalizada e seus canais de propaganda - vide p.43 in fine e p.44; com o mesmo raciocínio se poderia, aliás, negar a origem da fé, e das religiões, no medo, ou resposta, da/à morte, resposta, a partir de Feuerbach, tantas vezes replicada).

10.Miguel Real vê na Fátima extraordinariamente emotiva (da procissão das velas), da pompa e grandiloquência arquitectónica, na liturgia envolvente todo um momento barroco, o único que, depois de Auschwitz, tornaria audível o silêncio de Deus (só pelo barroco seria possível religar, de novo, ao nível das “massas”, depois de Auschwitz).
Em A estranha morte da Europa, Douglas Murray escrevia que, após Darwin e os resultados da exegese bíblica, apenas em comunidades (evangélicas) ignorantes ressoava o fervor de outrora; na Europa católica, a fé, onde ainda permanecia, seria frágil. E, no entanto, bem aqui se poderia aplicar o refrão paulino – “quando eu sou fraco, então é que sou forte” – porque, para dar dois exemplos que se me afiguram importantes, se da evidência do Génesis como poema – a salvo da transliteração em ciência -, ou de um apurado e renovado registo acerca das experiências pós-pascais (das quais seria apenas seguro não duvidar de que aqueles que as experienciaram – cujo modo se deixa em aberto - nelas creram e viveram de tal modo que por elas deram, literalmente, a vida e nós, os que nela cremos, seríamos pois os que acreditamos no seu testemunho) resulta a necessidade da superação, em diversos casos, do literalismo e da visão mais infantil, bem como de dar o passo abissal – a aposta, a fé que tem razões, mas que é esse salto final sem as seguranças que, em realidade, a dispensariam – essa vivência, consciente, da fragilidade – e como, em vários momentos do pensamento de Miguel Real como o que assinalava a superação do esquema objectivo vs subjectivo na tematização da Presença me recordei, além de Marion, de Tomás Halík, exige uma força (profundidade) maior do que as respostas pronto-a-vestir reclamavam.
Habitar essa fragilidade, em templos onde o despojamento, o escultórico, o ir até ao mais fundo e íntimo, deixando os constructos que inflacionavam desnecessariamente (a recusa retórica), tem-se afigurado, como as novas Igrejas de Braga assinalam, repito, um caminho de resposta à altura dos tempos (sem prejuízo de no espanto que o barroco pode provocar haver um «excesso» que corresponde a uma demanda não negligenciável).

Para lá da contextualização histórica (social-política, de ideias), o livro detém-se, pormenorizadamente, nas várias corrente filosóficas e seus autores que concretizaram, a partir do séc.XVIII, diferentes concepções acerca de Deus, da ligação pátria ao providencialismo, ao messianismo, ao Transcendente, ao mítico (de que Fátima, como maioritariamente entendida, seria o apogeu, de uma genealogia que principiaria no milagre de Ourique, e continuaria, em diferentes formulações, com D.Sebastião, o Bandarra, Pe.António Vieira, Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Natália Correia, Paulo Borges, ou, até, no séc.XXI, com Pedro Martins).                         

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Ainda o exame de Português do 12ºano - o profeta


Já agora, na questão 3, da parte A, do Grupo I, no exame de Português do 12º ano 2017/2018, na qual se solicitava que se dessem razões para que o sujeito poético (em excerto da Mensagem, de Fernando Pessoa) pudesse ser considerado um profeta (vide prova aqui) deixo esta precisão acerca da figura do "profeta" que deve ser bem compreendida (e muitas vezes, não o é): "A profecia não é a previsão do futuro. Quando o profeta fala do futuro é para se referir ao presente e anunciar o que poderá acontecer se este não se alterar - ou a possibilidade de outro desfecho, se se alterar [não é como que se "por magia tivesse sido revelado algo que viria a acontecer no futuro"]. Trata-se antes de uma leitura corajosa e mesmo arriscada da história (...) O martírio como testemunho é o núcleo do profetismo (...) Cada tempo é o que é, possuindo a sua grandeza e os seus problemas. E a cada tempo é necessário o seu profetismo" (João Manuel Duque, Fátima - uma aproximação, Paulinas, 2017, pp.135-136). Já vi os critérios de correcção (aqui), que, em uma potencial interpretação mais ambígua, tanto permitem a leitura mais comum acerca do profeta (o que anuncia uma realidade que vai suceder, como que conhecendo, este, antecipadamente o futuro), como esta última, mais rigorosa, sobre do que se trata quando se trata de uma profecia (se o futuro já estiver escrito, volto a insistir - porque tudo tem a ver com tudo -, então somos "marionetas nas mãos de deuses", não temos liberdade, logo não podemos ser responsabilizados, o que significa que não temos dignidade; a história já escrita, alguém que já sabe o que se vai passar 400 anos depois, implica a negação do livre-arbítrio, ou a possibilidade de transformarmos, de algum modo, o mundo). 

terça-feira, 3 de abril de 2018

Pensamento livre


Beatriz Batarda, com louvável coragem, diz despojadamente o que pensa do criador do teatro português. Nestes desenxovalhados termos: «Antes de mais conversa, é importante adiantar ao leitor que há já algum tempo que deixei de gostar da obra de Gil Vicente. E assim, ouso dizê-lo, argumento em meu favor mais de metade de uma vida dedicada ao teatro. A sua obra está, para a minha sensibilidade, muito para além do ingénuo ou pastoril, é boçal, limitada e primária; a sua métrica é pobre e repetitiva (quatro a oito sílabas, remetendo o pensamento para a canção e afastando o discurso elevado). O vocabulário é brejeiro, as histórias são popularuchas, as personagens são bidimensionais como um papel em branco. Isto é, sinto como insuficiências as mesmas coisas em que outros veem "universalismo"». Assim mesmo. Concorde-se ou discorde-se das «reservas» de Beatriz Batarda, não se deve diminuir a coragem desta atitude frontal (...) Quantos dos nossos eruditos encartados seriam capazes de um tal despojamento? Gil Vicente é tido como inquestionável no universo do teatro português. Do Romantismo para cá, tem sido endeusado. Quem se atreve a dizer «não gosto» e dar boas razões desse não gostar? O nosso intelectual é, em geral, tímido, receoso e dificilmente arrisca uma opinião afrontosamente desviante. (...)
Excluindo Vasco Graça Moura, que não receava demitir Fernando Pessoa, por este alegadamente não saber português, não vejo por aí muita gente capaz de desassossegar o milieu com alguma destemida opinião fora da streamline. (...) 
Convido, pois, os meus caros confrades das letras a serem capazes, de vez em quando, da desenvolta iconoclastia que Beatriz Batarda tão admiravelmente exemplificou.

Eugénio Lisboa, Ipsissima Verba, «Desprezo Shakespeare», Ler, nº148, Inverno 2017-2018, p.55. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Para quarta-feira de cinzas


Porque não há ressurreição sem morte.


Poema em linha reta
Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)
[538]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


domingo, 16 de agosto de 2015

Fernando Pessoa e o cristianismo


O que pouca gente saberá é que Fernando Pessoa possuía uma [biblioteca], invulgarmente munida, acerca de Jesus Cristo e de religião em geral, atestando assim a relevância pessoal que dava ao tema. Nas estantes da sua biblioteca podem encontrar-se volumes de Teologia do Antigo e do Novo Testamento, Comentários aos Salmos e às Cartas de Paulo, uma pluralidade de títulos em torno ao dossiê "Jesus Histórico", introduções aos Padres da Igreja, obras de Atanásio e Clemente de Alexandria, manuais de liturgia e piedade.
As referências a Jesus e ao cristianismo que surgem esparsas na obra pessoana não são, portanto, marcas ocasionais: elas são reflexo de uma verdadeira paixão, intelectual e de vida. Um registo bem curioso é aquele que surge no editorial da revista "Orpheu", de que Pessoa foi um dos codirectores. Nesse texto, que saiu da sua pena no ano de 1915, lê-se a dada altura: "O termo 'modernista', que por vezes também se aplicou aos artistas de Orpheu, não lhes pode ser aplicado, por isso não tem significação nenhuma, a não ser para designar - porque assim se designou - a nova escola pragmatista e exegética dos Evangelhos". Fernando Pessoa acompanhava de perto, como se vê, o debate teológico do seu tempo.
Como cartografar, portanto, o complexo território da crença num autor tão reconhecidamente complexo e paradoxal? A resposta deverá ser buscada nesse poema do desassossego que a sua alma verdadeiramente foi, de pergunta em pergunta, de indagação em indagação, cantando "a cantiga do Infinito numa capoeira" e ouvindo "a voz de Deus num poço tapado" (como refere num passo de uma das suas líricas mais impressionantes, "Tabacaria").
Não foram a "cantiga do Infinito" ou "a voz de Deus" que se silenciaram: elas continuam a ressoar. O que radicalmente se alterou nesta contemporaneidade, da qual Pessoa é um protagonista mas também um sintoma, foi o lugar da enunciação e da audição de Deus: uma "capoeira" e "um poço tapado", espaços irregulares, dilemáticos, improváveis, em rutura já com a geografia de um sagrado expectável ou religiosamente correcto.

José Tolentino Mendonça, O Infinito numa capoeira, E, nº2233, p.84, Expresso, 15/08/2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Racionalização e poesia


Era tão intelectual que não podia ser poeta, diz Eduardo Lourenço de Paul Valery. Porque a poesia releva do inconsciente. Uma racionalização excessiva tornara a obra de Pessoa muito mais filosófica e metafísica do que poética, assinalara Casais Monteiro.

sábado, 11 de outubro de 2014

A 'metamorfose', para crianças (e adultos)




Quando Frederico inventa uma história com o homem-concha, abandonado, pela diferença que ostenta face aos demais, insuportável para os outros, deixado pelos próprios pais, junto à praia - e só resgatado, ao panelão de um prometido refogado, pela mulher-ameijoa -, Kafka é a referência que parece pairar sobre a pequena parábola. E, não por acaso, cremos, é A metamorfose o livro que Frederico, ele mesmo investido, na narrativa, de uma espécie de Gregor Samsa, requisita na biblioteca escolar. Ser educado, não ter o sonho de ser jogador de futebol, gostar de estar sozinho, em reclusão na sua concha, inventando histórias, poemas, objectos, coisas malucas, ter um amigo só, pode fazer de alguém o insecto indesejado que cumpre afastar. Na recusa da normalização, da banalidade, há muito humor e mordacidade - excelente a comparação entre o amor devotado a um carro e a um filho, a tabela de bolo de chocolate, cujo preço diminui à medida que se utilizam palavras como "se faz favor", ou "obrigado", o policês...tudo acompanhado da perfeita complementaridade da ilustração de Carlos J.Campos -, em uma história que não se poupa a uma filosofia, a uma moral: a irredutível necessidade de valorizar a diferença - e, em particular, a diferença para melhor. Que a há, por muito que tal contrarie algum politicamente correcto dos nossos dias, afogado na mesmice.
O Estranhão, de Álvaro Magalhães, passa por lugares clássicos da cultura portuguesa - o Pessoa de todas as cartas de amor são estúpidas -, não deixa de dar as bicadas contemporâneas mais prosaicas - a vontade de alguém ser escritor famoso cumprir-se-à com mais facilidade se alguém, além de escritor, for apresentador de telejornal -, até a uma pincelada por um país em crise (a mudança de casa de Frederico, porque os pais não podiam pagar a anterior). O jogador de futebol que é muito mau intelectualmente, mas é um génio com o corpo e a executar todos os movimentos certos num campo de futebol, expressando aí a sua inteligência; o sonho de tantos pais de terem o futuro CR8 e de tais sonhos não só serem curtos, como (quase) nunca se realizarem; os namoros pela internet que dão lugar a descobertas desconcertantes (a namorada, conhecida no facebook, para a qual se escrevera afincadamente, era, afinal, um cão), o movimento permanente entre sonho e realidade, com momentos de fôlego, como em uma das lições para aquele que ficando sempre fechado em casa julgava tudo ter descoberto (tv, frigorífico, fogão...), o que obriga a estar atento aos outros, ao que escrevem, ao que dizem, ao que inventam, frases lapidares, com apuro literário, assertivas, curtas, por vezes, provérbios, eis motivos de sobeja pelos quais soube tão bem regressar a um mundo imaginativo, lúdico, de certa maneira clássico, os das crianças que desde bebés podem ser filósofas e o dos adultos que querem contar e conhecer com elas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Estreias




Fui à estreia da adaptação cinematográfica de Os Maias, por João Botelho, e saí globalmente satisfeito com o que vi. Penso que é obra que pode ficar, sem problemas, como adaptação fiel e digna da obra de Eça de Queiroz. Se temos tido aproximações a épocas e personagens da nossa história recente que se transformam em objectos completamente abstrusos - o Salazar garanhão, por exemplo -, há aqui um respeito pela narrativa, sem a procura de concentração em dimensões que seriam facilmente comercializáveis por um denominador de audiências muito pouco exigente (o modo de mostrar a relação entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda é contido, por exemplo). Por outro lado, a forma de revelar O livro do Desassossego, escolhida por João Botelho, mau grado ter seduzido a crítica especializada, pessoalmente não me havia tocado e, nesse sentido, prefiro, largamente, a aproximação feita a Os Maias (claro que as diferenças das obras de Eça e Pessoa não permitiriam uma abordagem idêntica).
Nem sempre, contudo, me pareceu perpassar para o público a ironia que, além da dimensão profundamente trágica, a obra apresenta. Estando em uma sala com um público predominantemente adolescente, raramente escutei uma reacção de riso, uma gargalhada mesmo, apesar, reconheça-se, dos esforços colocados nas interpretações de um Dâmaso Salcede, ou de um Alencar. E da presença, nesta adaptação, da soirée em que se tocou a "patética" de Beethoven, para desgosto de uma plateia a quem Eça quis acentuar o provincianismo.
Sobretudo, faltou-me um Carlos diferente, mais forte, mais sofisticado até na decadência, cujo pathos, por exemplo na revelação da identidade de Maria Eduarda, não foi suficientemente verosímil, nem o falhanço diletante teve o tom de lucidez cortante e cruel que retive da obra queirosiana.