Durante duas décadas pairou um espectro na política portuguesa: a constituição do (partido) PSL. Que, sendo e significando, no essencial, Pedro Santana Lopes, tinha a pretensão de se constituir como Partido Social Liberal. Que social e liberal, em simultâneo, ca(sa)sem (ideologicamente bem) seria um caso a considerar - se fosse relevante para o caso. Como não é. Pode, mesmo, dizer-se, que o PSL existiu mesmo, Santana Lopes andou por aí (como um partido dentro do partido) e foi sempre necessário considerar as suas especificidades e idiossincrasia. Nos tempos mais próximos, por exemplo, Passos Coelho, não querendo problemas adicionais aos que chegavam de vários lados, incluindo no interior do seu partido, confiou-lhe a Santa Casa (evitando mais um putativo crítico). Santana respondeu-lhe com lealdade e silêncio face a pecados e omissões do Governo. Descobriu-se, este Verão, como Santana bem sentira as dificuldades dos mais frágeis durante a Governação de Passos, a Saúde a deteriorar-se, o Estado a não intervir como devia e a não ter o peso que era necessário. Soubemos isto numa entrevista de Santana Lopes ao Expresso. Na mesma semana em que concedeu tais esclarecimentos - calara-se, durante o período da presença da troika no país e, acrescentamos nós, mais uns três anos a seguir, "por patriotismo" - estivera a negociar uma possível entrada no movimento Iniciativa Liberal (quem?, perguntarão muitos ingratos). Mal encarados, os líderes de tal movimento, vieram a considerar que as declarações de Lopes ao Expresso mostravam que estávamos perante o enésimo socialista que olha para o Estado como solução. Parêntesis: sabe-se como há uma parcela da opinião publicada portuguesa que durante décadas, e até aos nossos dias, considerou que não havia direita em Portugal, pelo que, está mesmo a ver-se, Rui Rio é socialista, Santana Lopes idem aspas (depois desta entrevista, nem se fala!...), todo o mundo é socialista ("sou social-democrata como toda a gente", era uma das citações preferidas por Fernando Savater, com efeito). Seguiu-se a pequena intriga acerca de saber quem convidou quem - faltasse a pequena intriga, não seria um affair Santana Lopes - para as ditas negociações, salvas pela Democracia21, outro movimento que tem entusiasmado milhares de portugueses como se conhece, igualmente liberal - ena, outro! espera: se já existia a Iniciativa Liberal, se no CDS, há já vários anos, houve uma "tendência liberal" que chegou a reunir 300 militantes, se houve Passos ainda recentemente no PSD, para quê outro movimento a representar, aparentemente, o mesmo? Adiante - que não se comoveu com as declarações de Lopes ao semanário da Impresa, não lhe aplicou o mesmo exame rigorista e o recebeu, ou propôs recebê-lo, de braços abertos. Santana, apesar do que disse ao Expresso, também não terá visto nenhuma incompatibilidade entre ideários - o seu e o da Democracia21 (que parece que é o mesmo, ou não, da Iniciativa Liberal, da tendência no interior do CDS, ou de Passos no PSD).
Quando assumiu a actual cisão com o PSD, Santana Lopes pediu que se lesse atentamente a entrevista em que explicaria os motivos antes de se emitir opinião. Li as explicações à Visão do ex-PM. Mais de metade da entrevista, em tom menino guerreiro, com a tela da lágrima no canto do olho ao fundo, pontapeado pela família na incubadora (e aquela ideia de que tinha superado tudo isso, da maturidade, de que não guardava nenhum desses desaforos e tal?). E uma coisa substantiva? Nada. "Trataram-no mal", resumia, esta semana, aí uns dois meses depois da primeira entrevista de Santana, Conceição Monteiro, ao DN. Na SicNotícias, Carlos César disse a Santana que teria que explicar melhor o porquê da sua saída do PSD, e ele que sim, mas que estava em reflexão. Concluída esta, saiu um discurso económico, honra lhe seja, de uma social-democracia em estado puro e o conservadorismo em matéria de valores que tem sempre má imprensa - poder-se-ia dizer, um discurso democrata-cristão como interpretado em algumas latitudes; e do qual o último Portas, ou um João Jardim, com graus de convicção manifestamente diversos, ensaiaram -, a que se juntou um euro-cepticismo da vigésima quinta hora. Tudo soou pouco verosímil em Santana Lopes.
Agora, os amigos vão descortinar-lhe densidade de horizonte nesta saída (pela qual nem o próprio respondeu) e outros, pelo menos, encontrarão a habitual "intuição" (genial) política: Lopes anteciparia para Portugal o que decorria já, há vários anos, noutros países, a implosão do centro (político) e a reformatação do sistema político-partidário (português). Digamos que é mais uma profecia que se cumpre a si mesma, no dividir (para reinar) à direita (na medida em que, à falta de lastro doutrinário entre tantos concidadãos, a personalidade chega; vejam-se os resultados de Marinho e Pinto nas últimas europeias).
Miguel Pinheiro, no Observador, assinalou Santana Lopes como, talvez, o político, ou um dos políticos, mais superficial do país. Num Verão normal, o affair Santana seria o ideal para a estação tola. No resto do ano, dir-se-ia "não há paciência...".
José Miguel Júdice, porque já não há estações, viu, com mais este caso, o "fim do PSD como o conhecíamos". É muito possível que tenha razão.
Adenda: o Expresso noticia, este Sábado, que Santana Lopes, ao contrário do que estava agendado, não chegou a encontrar-se esta semana com a líder do M21 (ainda que o tivesse já feito três semanas antes, de acordo com o Sol). E que, aceitando negociações entre as partes, não as vê numa lógica de fusão, isto é, terá uma partido autónomo. O Sol garante Miguel Pinto Luz na corrida para 2019 - ainda que, diga-se, a sua intervenção no último Congresso tenha sido muito frouxa. A Visão é a primeira a colocar a possibilidade, mesmo que académica, de Rui Moreira ser candidato à Presidência da República no pós-Marcelo.

